do Site
Correio
SEno Site
Palanque
Coluna do Leitor
Agenda
Novas
Links Amigos
Quem Somos
Fale Conosco
Loja Virtual

 

Roberto Romano

"O MINISTRO PAULO RENATO MENTE"


Este filósofo, professor da Unicamp, sabe e sente na pele o que está acontecendo com a universidade brasileira. O quadro é mais que comprometedor, ultrapassa o limite da falta de responsabilidade. E só não vê quem não quer.


Sérgio de Souza - Como começa sua vida, professor?

Roberto Romano - Uma parte da minha família é do Rio Grande do Sul, que subiu e que sumiu talvez no ar, não sei onde. E outra parte é de caipiras de Tatuí e Itapetininga, que desceu e se encontrou no norte do Paraná, onde nasci e vivi boa parte da infância e adolescência. E depois São Paulo, onde fiz parte de movimentos estudantis, de movimentos católicos, de JEC inicialmente. E por isso fui parar nos dominicanos. Fui dominicano doze anos, saí e essa é a minha vida.

Marina Amaral - O senhor foi atraído pela filosofia nessa época dos dominicanos ou depois?

Roberto Romano -
Não, bem antes. Tínhamos em Marília um professor chamado Ubaldo Puppi, que lecionava filosofia e era também um líder católico de esquerda, foi preso em 1964. Quando surgiu a AP, a Ação Popular, nós todos que gravitávamos ao redor do professor Puppi ficamos apaixonados pela filosofia.

Marina Amaral - E qual a relação entre o convento e o seu interesse pela filosofia?

Roberto Romano - No convento dominicano iria fazer estudos teológicos apenas para ordenação e não para a vida confessional, porque eu disse que queria fazer filosofia mesmo. Então me autorizavam, como a vários outros, a fazer filosofia na USP. E fizemos. Depois iria fazer o doutorado em filosofia pela ordem, na Suíça, com o frei Carlos Josaphat.

Marina Amaral - Isso foi quando?

Roberto Romano -
Isso foi em 1967, 68 e 69, fiz o vestibular da USP, passei, mas aí veio um ano de noviciado, quando a pessoa é proibida de sair do convento etc., depois fui preso em dezembro de 1969, passei um ano na cadeia, e aí então voltei para a universidade. E acabei fazendo doutorado na École des Hantes Études de Paris.

José Arbex Jr. - Como foi a sua passagem do cristianismo do convento para a militância da AP?

Roberto Romano - Fui da AP antes do convento.

Marina Amaral - O senhor tem sido um dos maiores críticos do ensino superior no Brasil e até usou a expressão "genocídio programado"...

Roberto Romano - É muito interessante que comecemos a falar de universidade, porque o que aconteceu nestes últimos seis anos no Brasil foi um desmonte programado, intencional, racional, de todo um sistema de produção de saberes. O ministro Paulo Renato chegou a dizer na revista Exame que seria ótimo imitar a Coréia, não incentivar cursos de pós-graduação no país e mandar gente, por exemplo, para Harvard, porque era mais barato. Isso esconde o quê? Esconde o desmonte dos laboratórios, esconde a produção de remédios, esconde a pesquisa sobre AIDS, sobre o câncer, sobre uma série de coisas que estavam sendo feitas aqui. Há certos cientistas, nada radicais, como o senhor Ésper Cavalheiro, pró-reitor da Universidade Federal Paulista, que diz: "O dinheiro do Pronex (Programa Nacional de Excelência) não vem e eu tenho tecido cerebral apodrecendo no laboratório". Isso eu chamo de genocídio programado. Porque é impossível que essas pessoas que estão no governo, a começar pelo presidente da República, não saibam o que estão fazendo. Você pode até ser condescendente com pessoas como Collor, que é um menino rico do Nordeste, um sinhozinho, e que tem aquela cultura para enganar trouxa, fala muitas línguas... Agora, a formação do Fernando Henrique não lhe permite dizer que não sabia. Portanto, ele e o seu ministério, a começar pelo ministro Paulo Renato, têm uma responsabilidade muito grande sobre o que está acontecendo. Ao abraçar o Antônio Carlos Magalhães, e ao abraçar essa via do possível, o que fez ele? Escolheu o caminho da tradicional dominação brasileira, violentíssima, paternalista e mentirosa. Fui este ano a Salvador para dar uma palestra, no dia do aniversário do Antônio Carlos Magalhães. Me senti mal. A mais de 5 quilômetros da casa desse senhor, havia faixas e mais faixas de municípios não sei das quantas com os dizeres "o município tal está prostrado aos pés do Antônio Carlos Magalhães", uma coisa assim terrível. E, quando outro, o ministro Francisco Weffort, que tem duas teses sobre populismo e portanto sabe o que está falando, diz que Antônio Carlos Magalhães tem condições de conquistar a simpatia popular, isso para mim é crime. Não tem outro nome. Existe uma pesquisa do professor José Arapiraca, já falecido, da Universidade Federal da Bahia, interessantíssima, sobre o nome das escolas do Nordeste e da Bahia. Então, "Padre Vieira", trinta escolas, "Antônio Carlos Magalhães", trezentas e cinqüenta e poucas escolas. (risos) Isso é roubo do patrimônio simbólico público!

Sérgio de Souza - Em que nível se daria o genocídio programado?

Roberto Romano - Se alguém conhece a estrutura de dominação de classe do Brasil, se conhece a irresponsabilidade das elites dirigentes em relação à população, e intencionalmente desmonta laboratórios, como aconteceu infelizmente aqui em São Paulo, qualquer visita ao Butantã, por exemplo, já dá idéia do que está por trás. Quer dizer, essa pessoa, vou lhe dar outro nome, que não é muito de esquerda mas infelizmente é um dos elementos essenciais do governo Covas, o senhor Ioshiaki Nakano, teve o cinismo de dizer a um grupo de cientistas: "Hoje, na era da Internet, a gente não precisa mais de institutos de pesquisa aqui no Brasil. Apareceu uma moléstia, você acessa a Internet, vem o remédio e está tudo resolvido". (risos) Isso não é genocídio programado?

José Arbex Jr. - Professor, uma postura que acho admirável no professor Milton Santos é quando ele fala que o intelectual é um traidor. É aquele que trai as expectativas que depositam nele em obediência unicamente a suas próprias convicções. Analisando, por exemplo, o que os intelectuais estão fazendo na USP ou na Unicamp, fico abismado com a paralisia geral, há uma desarticulação total na universidade. Por que isso?

Roberto Romano - Concordo em gênero, número e caso com o professor Milton, em todas as atitudes, e digo mais: sempre repito, para irritação dos meus colegas, que não existe instrumento mais flexível no universo do que a espinha dos intelectuais. (risos) Por exemplo, a questão dos direitos humanos. Vou dizer coisas que aconteceram. Anos atrás, fui procurado pela Anistia Internacional para servir como intermediário junto às universidades de São Paulo em relação a um programa de educação para os direitos humanos. Diziam eles: "Não somos pedagogos, psicólogos, filósofos ou sociólogos, somos liberais. Mas temos algum dinheiro e queremos fazer livros e programas etc. Então precisaríamos da assessoria dessas pessoas".. Procurei na Unesp as pessoas que poderiam dar andamento ao projeto, e ela convocou uma reunião para discutir com o pessoal da Anistia Internacional. Dessa reunião resultaram alguns grupos de estudo. Boa parte deles, como tenho uma língua horrorosa, mesmo assim ficou um pouco atraída porque iria existir dinheiro para a publicação, mas em todo caso estavam lá.

Sérgio Pinto de Almeida - Quem sabe, umas passagens aéreas também. (risos)

Roberto Romano - Há um autor que diz isso, que as universidades de hoje estão se transformando no seguinte: a pessoa mais importante é o gerente de recursos, e os professores todos são globetrotters que vão vender o logotipo pelo mundo afora. Bom, no caso da USP eu não procurei, porque lá existem grupos de estudos contra a violência, pela consciência negra etc., enfim, falei: "Não é necessário, o pessoal da Anistia que entre novamente em contato com eles". E fui à Unicamp, a minha universidade. Falei com o pró-reitor de pós-graduação, José Dias, que me indicou todos os diretores que poderiam estar interessados, sobretudo da área de humanas. Além do que, conheço bastante a universidade. Pois bem, a Faculdade de Educação da Unicamp recebeu o pessoal da Anistia, numa reunião de congregação, durante cinco minutos, o presidente, que era o diretor, disse: "Agora acabou, que vamos tratar agora de assuntos sérios".. E o pessoal da Anistia saiu sem nada, nada foi discutido, nada foi feito. Mas no meu instituto foi pior. Ele é coalhado de gente de esquerda, gente que escreve livros de direitos humanos. E a congregação do instituto se recusou a receber a Anistia Internacional porque não era um "assunto acadêmico", e numa congregação só se conversam assuntos acadêmicos. Diante da recusa, procurei a diretora do instituto, a professora Mariza Correia, antropóloga, pensando: "Pelo menos uma conversa com a diretora do instituto, já que a congregação não quer conversar".. Chegamos na porta do gabinete da diretora, e demos com o aviso: "Audiências todas canceladas, porque estamos discutindo as bolsas da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior)". Meti o pé na porta, entrei berrando feito um italiano e disse: "Pelo menos em cinco minutos a senhora vai ceder". Aí cedeu. Agora, sabe quando foi isso? Isso foi uma semana depois do Carandiru.

José Arbex Jr. - Nossa!

Roberto Romano -
Então, quando você fala de ética, tenho algum problema de ordem conceitual. Ética, no sentido aristotélico, no sentido hegeliano, é o conjunto de hábitos físicos e mentais que foram produzidos historicamente e que se tornaram automáticos, de tal modo que as pessoas fazem e não têm consciência. Por exemplo, a ética do trânsito brasileiro é das mais hediondas do mundo, mas é ética. Distingo isso daquilo que chamamos de consciência moral. Então, nesse sentido, a ética intelligentsia brasileira é a ética de servir ao sinhozinho. Essa é a ética, a de produzir uma imagem de si como bastante radical para ter condições de negociar depois uma adesão retumbante.

Milton Santos - Não será também a ética da subserviência à intelligentsia forânea hegemônica?

Roberto Romano - Ah, sim, o senhor pôs o dedo na ferida: temos uma intelligentsia que coloca para si mesma o padrão internacional, e que vive aqui num eterno banzo de uma França não existente. Enquanto isso, convive muito bem com a casa-grande.

Leo Gilson Ribeiro - O senhor não acha que os exemplos semeados por Simone de Beauvoir, Sartre, opostos à covardia Merleau-Ponty, durante o período de ocupação da França, também não serviram de parâmetro para muitos intelectuais, entre aspas, brasileiros agirem de maneira aética?

Milton Santos - Eu queria fazer uma interrupção. Serão intelectuais mesmo ou só letrados? Acho que houve uma multiplicação do número de letrados, e uma redução do número de intelectuais.

Roberto Romano - É verdade, essa distinção sartriana acho fundamental. Existem os filósofos, os parafilósofos – que trabalham todo dia –, os pensadores e os ideólogos. Os filósofos são aqueles que criticam, que abrem caminho, que se arriscam, que arriscam o erro, isso é um elemento fundamental. Não existe pensamento filosófico ou científico sem direito de errar. E esse direito está sendo negado pelo tipo atual de avaliação da universidade. Você tem de acertar sempre, é a fábrica de pãozinho, a receita foi dada, um mestrado é feito em dois anos e meio, três anos, e um doutorado em quatro. E dane-se quem não fez isso aí. E na avaliação também da produção teórica.

Milton Santos - Eventualmente, talvez a gente pudesse cruzar com a questão do totalitarismo, acho que foi levantado que na vida acadêmica isso hoje tem um papel muito forte. Totalitarismo mesmo.

Roberto Romano - O senhor acha?

Milton Santos - Acho, sim.

Sérgio Pinto de Almeida - Deixa eu colocar uma provocação no ar, que é o seguinte: há uma fé nas pessoas de que existem sinais claros de descontentamento na sociedade. No caso do meio universitário – não vamos nos restringir ao intelectual da colocação do professor Milton, mas no meio acadêmico –, quando o senhor conta um episódio tão patético como esse da Anistia indo à Unicamp, quando a gente vê uma série de manisfestações isoladas de professores, pergunto: não é possível esses professores, um da Unicamp, um da Unesp, um da UFRJ etc., criarem uma instância mas não burocrática, um fórum de discussão com uma programação que possa ser levada de forma mais sistemática, ordenada, por meio de encontros, de seminários, uma programação que possa ter alguma representatividade, algum percurso pelo país? Será que essa também burocracia da universidade não restringe a ação dos descontentes?

Roberto Romano - Acho que sim. Talvez por isso o professor Milton esteja falando de totalitarismo hoje na universidade. Porque as coisas são dadas, o pacote é dado, e o modo de executar e de avaliar são dados. São a priori, e você tem de levar em conta a priori. E, se não leva em conta, você tem sempre o bate-estaca de plantão, que está ali do lado. Quer dizer, fiz parte da avaliação da CAPES deste ano da Filosofia.

Milton Santos - Filosofia da USP ou do Brasil inteiro?

Roberto Romano - Do Brasil todo. Até agora, o comitê de avaliação era soberano. A partir deste ano, não, você tem acima dos avaliadores um conselho superior. E esse conselho superior estabeleceu determinados parâmetros do que é ciência, do que é pesquisa, do que não é etc. Antes, os avaliadores tinham sempre a possibilidade de se comunicar com os programas e dizer: "Olha, está faltando tal coisa, tal dado etc.".. Agora chegamos e estava tudo no computador, o que existia eram dados do computador. E antigamente as notas eram A, B, C, A+, também era uma bobagem, mas enfim... Aí recebemos a seguinte ordem: "A nota será numérica, de 0 a 7; 7 apenas aqueles programas que tenham condições de ‘concorrer internacionalmente’ (ri) em termos de produção científica".. E o que tínhamos eram os dados do computador. Não existiam pessoas, não existiam instituições, não existia nada, existiam números. Publicou cinqüenta artigos, foi a não sei quantos não sei o que etc. etc. e o peso específico. E um dos elementos que contam é o tempo de titulação dos alunos. Então, se um programa, por exemplo, levou em média quatro anos e meio, ele perde pontos. Note, não sou fanático da qualidade, acho que quantidade também tem um elemento muito importante. Mas você absolutamente recusa esse critério, a possibilidade do erro. Quer dizer, um menino vai fazer doutorado na área de biologia. Ele parte de um conhecimento, ele tem informes, ele tem um orientador que é uma pessoa responsável etc. etc. Mas ele não vai programar o sistema lógico restrito. Ele vai encontrar elementos que são imponderáveis, que podem inclusive colocar por terra todo o aparato intelectual que ele movimentou na produção do projeto. E vai ter de recomeçar, e muitas vezes é dessa maneira que se faz ciência. Você nega aquelas verdades estabelecidas ou mostra que aquelas verdades não abrangem todo o real. Ora, isso está negado, porque, se alguém ficar mais cinco meses revendo a sua tese, às vezes nem revendo hipóteses mas revendo a própria tese, o seu programa perde pontos. Havia um sistema de cooptação do número de bolsas com a nota da CAPES, que agora está desvinculado. Agora, você não tem mais relação entre a produção e a nota. E recursos. Antigamente, se um programa obtinha nota A, ganhava direito a determinado número de bolsas. Hoje, não, ele pode ter nota 7 e esse direito não está garantido, porque o conselho superior vai decidir.

Marina Amaral - E quem é esse conselho superior?

Roberto Romano - O conselho superior tem sumidades que me dispenso de dizer o nome, porque...

Marina Amaral - Mas são reitores, pessoas ligadas ao governo?

Roberto Romano - Que são ligadas ao governo, evidentemente. Mas que haja grande refinamento intelectual... Alguns até têm uma formação boa, é uma produção boa mas são de uma arrogância! Vou dar um exemplo: no caso da Filosofia, não demos nenhum 7, demos nota 6 para seis programas. Aí recebemos um papel assim, sem timbre, sem nada, onde uma das pessoas, que agora é assessora do Bresser Pereira no CNPq, redigia assim: "Senhor coordenador e membros. Não é possível que tais e tais programas - no caso, Federal do Rio Grande do Sul, Federal do Rio de Janeiro e PUC do Rio de Janeiro – sejam nota 6, porque não tem o número de publicações adequado. Providencie sobre isso". E nem assinado!

Leo Gilson Ribeiro - É como na universidade americana: publique ou pereça?

Roberto Romano -
É pior. Aqui eles têm essa exigência. Agora, como você pode chegar a publicar aqui no Brasil? Quais são as condições de publicação? As editoras universitárias são poucas, a grande maioria não tem pessoal qualificado – e aí quero destacar uma honrosa exceção, a editora da Unesp, que é muito boa – e as editoras privadas ou não têm capital ou não têm interesse em publicar. Então, isso eu não teria coragem de chamar de totalitário, mas chamaria de autoritarismo atroz.

Marco Frenette - Professor, nessa dificuldade de publicação não entra um pouco também a linguagem hermética, e às vezes extremamente confusa até para os próprios acadêmicos?

Roberto Romano - Isso também.

Marco Frenette - Costumo pegar livros que são simplesmente ilegíveis, e isso inviabiliza a publicação para um público um pouco maior que o acadêmico.

Roberto Romano -
Essa é uma condição para a formação das quadrilhas universitárias. Aliás, a quadrilha que deu certo foi a dos economistas.

José Arbex Jr. - Deu certo?

Roberto Romano - Deu certo, porque estão acabando conosco.

Marina Amaral - Para eles, deu certo; pra nós, não.

Roberto Romano -
Você produz o idioleto, que só seria dominado pelos que seriam exímios naquela área. Então, esse idioleto é o filosofês, é o sociologuês, é o antropologuês etc., e o economês. Aí, o sujeito usa esse negócio, e isso é o que possibilita muita picaretagem e receber muito dinheiro supostamente em cima de pesquisa. Agora, acontece que, quando isso é traduzido em livro, evidente que o grande público não é composto pelos elementos da quadrilha. Você tem um público muito heterogêneo, que pode, digamos assim, não concordar com essa linguagem. Bom, aí dana-se.

Marco Frenette - Ele se vê obrigado a escrever nessa linguagem para ter um mínimo...

Roberto Romano - Para ter o reconhecimento dos seus pares. E para que o assessor, quando bater o olho em três palavras-chaves... Tem até palavra-chave! Isso eu acho que é uma coisa...dizem que é para facilitar a consulta. É nada!

Milton Santos - Agora, os que são normais, desculpe a pergunta, não deveriam se recusar a comparecer nesses comitês?

Roberto Romano - Acho que sim, eu...

Milton Santos - Não é nada direto.

Roberto Romano - Não, é verdade, o senhor tem toda a razão.

Milton Santos - Há dez anos que não vou lá. A minha discordância com a sua observação de agora é o tempo, porque há dez anos que vi que é impossível estar lá, que esse processo já estava se delineando há dez anos. De indução, e agora de um consenso que permitiu que o senhor fosse lá, e que ao meu ver não deveria ter ido.

Roberto Romano - Confesso ao senhor que fiquei bastante preocupado pelo fato de ir, e pelo fato de ter sido convidado. O senhor tem razão, porque não poupo...

Sérgio Pinto de Almeida - Ganha para ir?

Roberto Romano - Você ganha a passagem, o hotel, o lanche no meio da tarde.

Marina Amaral - E essa CAPES é constituída como?

Roberto Romano - Ela é uma instituição do Ministério da Educação, e teve como função inicial justamente melhorar o padrão de formação dos professores, dos pesquisadores.

Milton Santos - Foi o Anísio Teixeira que idealizou isso, não foi?

Roberto Romano - Anísio Teixeira. E pouco a pouco ela começou a assumir uma atitude de financiadora.

Milton Santos - De policiamento do trabalho.

Sérgio Pinto de Almeida - De distribuição de verbas também.

Roberto Romano - Sim, sobretudo de distribuição de verbas. Bolsas de estudo, dinheiro para projetos, um projeto de curso, de trabalho etc.

José Arbex Jr. - O senhor não acabou de responder a pergunta do Sérgio Pinto sobre a articulação de professores que tenham uma percepção crítica...

Roberto Romano - O problema é que não sei o que acontece do governo Sarney pra cá... Sei um pouco, tinha instrumentos de intimidação, a Rede Globo, essas chantagens todas, isso eu sei, mas acho que é alguma coisa um pouco mais complexa. Precisaríamos conversar um pouco mais sobre isso. Mas não chega a existir a força para as pessoas se reunirem. No mês retrasado estive em Santa Catarina, num fórum de pesquisa da Federal de Santa Catarina. E é uma coisa interessante, porque as pessoas estão chegando a um ponto que nem sequer para conseguir esses recursos, ou para entrar em contato com os fornecedores de recursos, se reúnem mais. No ano passado fiz cinqüenta viagens pelo Brasil inteiro, falando da questão da autonomia universitária, criticando a política do governo etc. Não que eu esteja falando do Ibope, mas normalmente as audiências não passam de quinze a vinte pessoas, em mesas-redondas com gente de peso nacional e internacional. E nessa de Santa Catarina tinha mais gente na mesa do que no plenário! Com a seguinte mudança: na mesa, fora eu, que não tinha peso nenhum do ponto de vista político-institucional, estavam o diretor científico da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul e o diretor científico daquilo que eles chamam de fundação, lá de Santa Catarina. Sabe, então, nem os puxa-sacos estão se reunindo mais. (risos)

Marina Amaral - O senhor está dizendo que a universidade não debate mais?

Roberto Romano - Não, e existem meios e ilusões que estão alimentando esse estado de coisas. Na Unicamp, quando o Paulo Renato era o reitor, desenvolveu a idéia de fazer a universidade assim, (faz um desenho), quer dizer, a Unicamp é uma bolinha e os núcleos de pesquisa ficariam na periferia. Então, cada núcleo de pesquisa em cada área arrecadaria recursos do Estado ou da iniciativa privada para as pesquisas, de tal modo que as pessoas desse grupo de pesquisa estariam liberadas da servidão universitária, constitucionalística etc. etc. Fiz parte de um deles, não por opção minha, mas porque era chefe do departamento, e o chefe do departamento tinha de fazer parte do conselho do núcleo de estudo de políticas públicas. Mas pedi demissão, dizendo: "O departamento que mande outra pessoa" – justamente, a partir do primeiro relatório sobre o governo Montoro. Se vocês forem na Unicamp, peçam esse primeiro relatório e vejam o que é aquilo. É uma peça de propaganda pura e simples. Onde a estatística foi falseada etc. etc., no estilo pior do ideólogo, enfim, esses grupos. Então, haveria na física, na engenharia etc. etc., e a universidade seria reduzida aos professores que dariam aulas e que, portanto, não fariam pesquisas. Isso deu errado porque o Plano Cruzado deu no que deu. Depois veio o Plano Collor, e esses núcleos ficaram meio fantasmáticos na Unicamp. Com a vinda do Pronex, as pessoas que faziam parte desses núcleos adquiriram uma esperança nova. "Virá o dinheiro do Pronex, somos excelentes" etc. Então, você tem espaço para os excelentes dentro dos prédios, eles são considerado excepcionais etc. etc. Veja, o que acontece quase sempre é que, quando não há essa defesa ou essa permanência dentro dos quadros mínimos do que seria uma universidade, os grupos procuram a solução pessoal. E correm atrás dessa ilusão. Então, no caso, durante quatro anos, o Pronex serviu exatamente para abafar a possibilidade de você reunir as pessoas para discutir a universidade no sentido exato da palavra. Eles não estavam interessados na universidade.

Marco Frenette - Não seria possível pensar a universidade de uma tal maneira que quebrasse esse isolamento? Porque os produtores são os professores. E o aluno sofre muito. Universidade pública, ou privada, o que acontece é que se enche uma sala com cinqüenta alunos, e a pessoa se forma em letras e você pergunta de um Schiller, um Goethe, ele não sabe localizar esse escritor. Como o senhor vê essa condição da universidade como fornecedora de conhecimento para os alunos?

Roberto Romano - Vou dizer uma coisa que é meio complicada, mas não gosto de pedagogo. Sobretudo não gosto das faculdades de educação. Chamo a Faculdade de Educação da Unicamp de Pentágono, (risos), não por causa de o prédio ter cinco pontas, mas porque ela domina praticamente toda a atividade docente, da graduação à pós, e a avaliação também, criando situações tragicômicas. Por exemplo, um médico que trabalhe com seus estudantes numa enfermaria, ensinando etc., não é promovido na Unicamp porque não tem o número de horas-aula. A hora-aula é a terminologia do flanelógrafo, quer dizer, uma sala com aquele negócio lá, aquilo é hora-aula. Os padrões são esses. A linguagem é muito reveladora. Temos "grades curriculares" não é por acaso. O próprio Schelling, no momento em que era ainda meio fã da Revolução Francesa, teceu considerações sobre o ensino na universidade alemã e dizia: "Mas quem fez os currículos, baseado em que, para quem?" Quer dizer, o jovem entra e tem de seguir aquelas cadeiras, aquelas disciplinas – o nome também é disciplina –, e quando ele sai está com aquelas disciplinas na cabeça e no corpo. Mas isso não tem quase nada mais a ver com o que as pessoas estão fazendo. No nosso caso, da filosofia, existe história. Por exemplo, não é por acaso que um dos intelectuais mais respeitáveis do país, mas teve uma história de autoritarismo muito grande que é o Tristão de Athayde, ficou muitos anos no Conselho Federal de Educação, e lá ajudou a elaborar um currículo de filosofia que é imposto até hoje. A USP tem até hoje metafísica, só que ela dá outra coisa, mas ela tem aquilo, uma coisa muito complicada. Então existe a intenção do currículo, que corresponde a determinados interesses, no caso eram os interesses católicos, e existe a realização dos curricula. Mas o problema não está aí, o problema está em outro aspecto. Gosto de ser bastante prático nos momentos práticos: a Unesp é uma universidade criada pelo Maluf para abrigar um ex-Secretário de Educação dele. Pegou todos os institutos de ensino isolados superiores do Estado, e fez a Unesp, cuja sede legal era em Ilha Solteira, e a sede real é na praça da Sé, em São Paulo. O que fazia, por exemplo, no dia de reunião do conselho universitário, com que os diretores pegassem um avião e os seus motoristas fossem de carro esperá-los no aeroporto de Congonhas, para levar para a praça da Sé, e enchiam a praça da Sé de tal modo com seus carros, que o trânsito ficava congestionado. Mas era uma instituição criada de cima para baixo, autoritária, com laivos de fascismo. Quando começou o governo Montoro, a Unesp fez um congresso de modificação, de reinstauração. E criou três comissões grandes: ensino e pesquisa; carreira docente; e poder na universidade. Ensino e pesquisa, você entrava facilmente na sala, porque tinha umas quinze, vinte pessoas. Carreira docente, um pouquinho mais, porque isso interessava alguns professores. Você não conseguia chegar perto da sala do poder. Então, esse é um retrato perfeito da cabeça desse pessoal. Poder, para mim, é algo que se concentra naqueles três monopólios que o Estado se arrogou, e que retirou da sociedade.

Leo Gilson Ribeiro - Quais?

Roberto Romano - Monopólio da força física, só o Estado tem o direito de prender ou declarar guerra, nenhum particular tem mais esse direito. Segundo monopólio, a norma jurídica. Só o Estado pode editar leis cogentes para todo e qualquer indivíduo ou ele próprio. E o terceiro monopólio é o da gestão do excedente econômico. Só o Estado pode estabelecer impostos, taxas etc. etc. Onde a universidade tem isso? Onde um reitor tem isso? O que acontece é que temos representantes do poder dentro da universidade. Esses reitores são embaixadores do poder, são servos do poder. E, quando eles têm boas relações com os centros de poder, seja militar ou policial, como aconteceu na USP durante anos, mesmo no período anterior à ditadura militar de 1964, seja do ponto de vista econômico, seja do ponto de vista jurídico, esses sujeitos fazem as suas universidades até crescer.

Milton Santos - Uma das perguntas que preparei para lhe fazer é exatamente esta: me parece que dentro das universidades, talvez em função das novas condições de realização do trabalho acadêmico, é que essas pessoas que se renovam nos postos de comando, que distribuem as notas, que organizam o nosso trabalho impondo normas, inclusive prazos, constituem um grupo que tem uma certa autonomia de existência, e que se opõe à idéia da universidade. Isso é grave. E aí já engato com outra questão: será que estamos abdicando do dever da crítica interna, buscando só criticar o ministério, mais não sei o que, mais as agências, mas as próprias universidades recusam essa crítica interna? Acho que um dos objetos da crítica interna seria ver essa produção interna de buroprofessores. Quer dizer, são aqueles indivíduos que sai um, entra outro, mas é o mesmo grupo, que é inútil como esses pró-reitores quase todos, que são pessoas inúteis porque são intermediários dos quais não necessitamos na realidade, e que são um estorvo inclusive à produção intelectual.

Roberto Romano - A universidade não consegue autonomia por causa desses grupos.

Milton Santos - Que são internos a ela. E eles não deixam o debate se fazer.

Roberto Romano - O senhor tem razão. Veja bem, professor, há um elemento que acho até mais grave ainda. Me parece que a universidade mimetiza, de maneira perversa até, porque ela é uma espécie de parasita, mimetiza a estrutura de poder do Estado. No Estado brasileiro, você tem o Executivo, que supostamente é onipotente, e tem o Judiciário e o Legislativo, que vivem em função do Executivo. Na universidade, você criou a figura do reitor, que está acima do conselho, acima de qualquer coisa. Mas, na verdade, para que essa onipotência exista, é necessário que tenha os seus grupos de sustentação.

Milton Santos - Os nomeados depois das eleições.

Roberto Romano - Exatamente.

Milton Santos - Eles são cabos eleitorais, não são mais colegas nossos.

Roberto Romano -
Não, eles são administradores profissionais.

José Arbex Jr. - É o tacão de fora.

Milton Santos - Ou o cheque de dentro.

Roberto Romano -
No caso da Unicamp, todo candidato a reitor é obrigado a dizer, quando está em campanha, que a Unicamp é um anãozinho com uma cabeçona bem grande. A cabeçona é o número de funcionários e de grupos que ficam na reitoria em detrimento do lugar onde se deveria fazer pesquisa e ensino. Porque a cada novo reitor é necessário acomodar os velhos grupos e os novos. Então, você vai aumentando a cabeçona da universidade. E você tem uma troca fisiológica tão grave como no caso do poder federal. "Então eu te dou isso, te dou aquilo, você fica com tal setor, eu te dou tal e tal pró-reitoria, você fica com isso, você fica com aquilo." Mesmo a atual reitoria da Unicamp, que supostamente é uma oposição há doze anos de direção, teve de lotear direitinho, bonitinho, as coisas. Bom, esse é um ponto. Agora, tem outro elemento que é grave e que normalmente os universitários não gostam de conversar, que é o problema das fundações. Não vou nem falar da USP, porque sei que aquilo lá é um horror. Aquilo lá dá vários contos policiais e várias coisas mais. Na Unicamp tem a Funcamp, você tem uma série de "amps" lá dentro. Essas fundações são mantidas com dinheiro da universidade, ou com dinheiro da FAPESP, ou com dinheiro do CNPQ ou com o dinheiro da CAPES. Então são dinheiros públicos que estão ali.

Milton Santos - Das empresas também.

Roberto Romano - Das empresas também. Tem um lá, chamado de Uniemp, que é uma beleza. Mas, na última reitoria, toda vez que a oposição queria, no conselho universitário, examinar as contas das fundações, o reitor retirava de pauta. E chegou-se a dizer que eram entidades com direito privado. É uma monstruosidade jurídica. Não existe. O que aconteceu? Essas fundações distribuem os dinheiros para pesquisa, para os grupos etc., evidentemente para quem é amigo do rei. Agora, no caso do funcionalismo, muitas nomeações eram feitas por ali. No caso do Baneser, também teve esse negócio. Publiquei um artigo na Folha de S. Paulo, que dizia: "É preciso furar esse tumor na universidade".

Marina Amaral - O senhor dizia que é preciso divulgar que as pesquisas estavam sendo financiadas, quem estava nelas e quais eram os objetivos...

Roberto Romano -
Até hoje, você tem uma banca de doutorado. Alguém fez uma banca de doutorado, você senta lá, por mais que você saiba que tem um jogo de cena, tem: "Eu aprovo o teu aluno, você aprova o meu".. Mas existe um limite, que é justamente o fato de ser pública essa defesa. Portanto, se houver plágio ou alguma coisa, alguém pode dizer: "Olha, isso aí está invalidado". Portanto, quem está na banca está empenhando publicamente o nome. Agora, que responsabilidade pública tem alguém que julga um projeto de pesquisa no anonimato mais absoluto?

Marina Amaral - Mesmo os projetos que são escolhidos pelas fundações para ser financiados, não é?

Roberto Romano - Exatamente. Agora, esse anonimato serve para você não prestar conta dos dinheiros, mas serve também para você cortar idéias, perseguir inimigos, "definir" um rumo definido do saber.

Sérgio Pinto de Almeida - E você aprova um tipo de pensamento.

Roberto Romano - Sim. É um mecanismo muito bem-feito. A FAPESP está agora publicando o nome de quem pediu o projeto, o montante do projeto, o tempo em que o projeto será feito. Isso já é um avanço, porque as outras não têm nada disso. Ninguém fica sabendo quem aprovou, quem vai aprovar. Aí, agora vou contar um caso que é mais grave. Eu estava um dia no Instituto de Filosofia e recebi o telefonema de um alto dirigente do CNPq. "Professor, estamos mandando para o senhor um projeto, e vamos pedir o seu parecer negativo." (risos) Vocês vão ver o negócio, é muito mais grave. "Estamos pedindo o parecer negativo pra todos." "Não, mas..." "Por favor, o senhor não fique bravo, o senhor leia o projeto que o senhor vai entender." Li o projeto e entendi. Era um projeto liderado por um ex-reitor de uma universidade do Nordeste: Por que Existe Corrupção no Brasil. Esse projeto indicava quatro filósofos e cinco sociólogos. E você faria aquilo que eles chamavam de fenomenologia. Fenomenologia significa pegar o estudante, o monitor, ele iria para a praça pública e perguntaria ao povo o que achava da corrupção. Aí os filósofos entravam com alguns textos de Platão, uns textos de Rousseau, alguma coisa assim, os sociólogos etc., juntava tudo com as entrevistas e a pesquisa estava feita. Para isso, eles pediam viagens para Londres, viagem para não sei onde, pediam computadores, pediam gravadores etc., bolsa para os estudantes...

Milton Santos - Qual era o custo disso?

Roberto Romano - O custo era de aproximadamente 1 milhão de dólares!

José Arbex Jr. - Bom, está explicada a corrupção no Brasil. (risos)

Roberto Romano -
Aí fiz um parecer dizendo que parabenizava os componentes, porque sou filósofo, tenho uma tendência de idealista e gosto quando o círculo lógico se completa perfeitamente. Então, os parabenizava porque era o primeiro projeto corrupto sobre corrupção. (risos) E por que eles estavam pedindo parecer negativo? Porque já havia dois positivos. E o projeto foi aprovado, sim, senhores. Evidente que a loucura do 1 milhão não entrou. Diminuíram as pretensões. Sete meses depois estou de novo no Instituto de Filosofia, a mesma pessoa me liga: "Professor Romano, estou mandando um projeto daquele mesmo grupo, e estamos pedindo de novo aquele seu parecer negativo". Aí o tema não era mais corrupção, porque o Collor já tinha caído, era o neoliberalismo no Brasil... Então ficaram alguns indivíduos daquele grupo de professores, saíram outros etc., e assim uns leriam Locke, outros leriam Rousseau de novo (coitado do Rousseau!), e aí fariam um levantamento, e para isso pediriam bolsa de novo etc. etc. Um dos elementos que achei gravíssimo era o projeto ser um negocinho deste tamanho, mas gordo, porque era nutrido com xerox de títulos honoris causa daquele ex-reitor. E todo mundo sabe o que significa um reitor receber um título de doutor honoris causa, quer dizer, se o professor Milton receber é uma coisa, agora, um reitor é um pouco diferente. Vamos pensar muito no caso do reitor, pode ser que seja um reitor...

Milton Santos - Ou um presidente, também... (risos)

Roberto Romano - É, ou presidente. Muito raramente é pelos belos olhos ou pelo trabalho científico ou ético da pessoa. Você faz um convênio: você me dá um honoris causa, eu te dou um honoris causa. Então era um negócio deste tamanho. Teci considerações sobre a não-possibilidade de aceitar isso como um projeto. Isso foi aprovado de novo. Então, fico na seguinte situação ética: não posso colocar isso com todos os nomes e endereços na imprensa, como me deu comichão de fazer.
da Revista
Edicao do Mes
Edicoes Anteriores
Edições Especiais
Grandes Entrevistas
Vale a pena ler de novo