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O
PETRÓLEO SERÁ NOSSO?
O presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás,
exibindo os dados, diz que há um plano orquestrado para o
desmonte da maior empresa do país, e compara: Seria
como os EUA desmontarem a NASA

Roberto Freire - O senhor poderia traçar um perfil dos
engenheiros da Petrobrás e dizer como vocês estão
vendo a situação atual?
Ricardo Maranhão - Nós dizemos, na Petrobrás,
que o nosso salário tem uma parcela em reais e uma parcela
muito grande, talvez majoritária, em emoção.
Minha mulher diz que eu primeiro casei com a Petrobrás, depois
casei com ela. Por isso é muito doloroso ver esse desmonte
do Estado brasileiro, que faz parte de um projeto muito bem arquitetado.
Quando o ministro Sérgio Motta disse que a Petrobrás
é um esqueleto que tem de ser desmontado osso por osso, ele
atingiu a auto-estima do povo brasileiro. Porque o petróleo
foi descoberto no Brasil por brasileiros e, quando a Petrobrás
começou, o acervo existente era muito modesto. Tínhamos
uma única refinaria, em Mataripe, os engenheiros e geólogos
de petróleo eram contados nos dedos, tínhamos meia
dúzia de navios e uma produção de 2.000 a 3.000
barris por dia. E a Petrobrás transformou-se em uma das quinze
maiores empresas de petróleo do mundo, líder em tecnologia.
Tem hoje mais de 8.000 engenheiros e geólogos, o maior centro
de pesquisa da América Latina, com 1.600 empregados, mais
da metade de nível superior, mais de duzentos mestres, mais
de cem doutores. Geólogos nossos dão aula para geólogos
estrangeiros nas universidades mais conceituadas do mundo. A Petrobrás
chegou, no auge de investimentos, a representar sozinha 25 por cento
das compras de bens de capital no Brasil. Ela é a prova de
que somos um povo capaz, trabalhador, criativo. E o ministro quis
nos colocar na posição de um povo que não tem
jeito, que o país está assim e vai continuar assim,
que não adianta lutar, que não adianta se organizar.
É a leitura que faço, quando alguém propõe
desmontar a maior empresa do país. Seria como uma autoridade
de programas aeroespaciais dos Estados Unidos propor o desmonte
da NASA.
Carlos Azevedo - Em que grau está esse processo de desmonte?
Ricardo Maranhão - O desmonte começa com a
extinção, pelo Collor, da Interbrás e da Petromisa,
duas subsidiárias da Petrobrás. A Interbrás
era a Petrobrás Comércio Internacional e a Petromisa
a Petrobrás Mineração. Esta conduzia um projeto
de exploração de potássio em Sergipe. E a Interbrás
surgiu porque a Petrobrás chegou a ser, talvez ainda hoje
seja, a maior compradora individual de petróleo do mundo.
Em 1979, na segunda crise do petróleo, ela comprou 11 bilhões
de dólares de petróleo no mercado internacional. E
quem compra 11 bilhões de dólares de um produto tem
possibilidade de fazer uma série de negócios exigindo
contrapartida dos vendedores. Assim, o Brasil chegou a exportar
coisa de 200.000 ou 300.000 automóveis da Volkswagen para
o Iraque. O comércio internacional é uma atividade
à qual as pequenas e médias empresas não têm
acesso. As tradings japonesas, as mais modestazinhas, faturam
50, 100, 130 bilhões de dólares por ano. A Interbrás
chegou a ter uma vida de doze anos, chegou a faturar 2 bilhões
de dólares, ainda era um negocinho muito modesto, mas hoje
o Brasil não tem nenhum instrumento de comércio exterior.
Roberto Freire - Qual era a motivação política
de Collor para liquidar uma coisa tão importante?
Ricardo Maranhão - A ministra Zélia tinha assessores
ligados à Cotia Trading, uma trading company pequena,
e a idéia seria a Cotia e outras empresas privadas na área
de comércio exterior herdarem, digamos assim, o acervo da
Interbrás, o que aconteceu em parte, talvez 20 ou 30 por
cento, porque havia operações que só podiam
ser feitas de governo para governo. Quando o Iraque comprava 200.000
automóveis Volksvagen, ou 100.000 toneladas de aço,
ou levava a Mendes Júnior para construir uma ferrovia lá,
ele sabia que estava negociando com o governo brasileiro, porque
a Petrobrás era uma empresa estatal, e esse tipo de negócio
ele não faria diretamente com a Mendes Júnior, muito
menos com a Cotia.
Roberto Freire - O governo Collor não sabia fazer essa
avaliação?
Ricardo Maranhão - Houve má-fé, interesses
subalternos, especialmente da Cotia Trading, o que ficou amplamente
compro-vado posteriormente. Nem o falso discurso privativo justificava
a extinção da Interbrás, porque ela era uma
alavancadora da iniciativa privada brasileira. Assim como levava
a Mendes Júnior para o exterior, levava a Andrade Gutierrez
para fazer ferrovia na Argélia, rodovia no Peru; os calçadistas
de Franca, de Novo Hamburgo. A Interbrás fazia trabalho de
coordenação, às vezes criava uma marca única
para o calçado brasileiro, e exportava em nome de dezenas
de fabricantes de calçados.
Carlos Azevedo - E o caso da Petromisa?
Ricardo Maranhão - Há uma ligação
muito grande entre uma empresa de petróleo e uma empresa
de mineração. A Petrobrás até hoje deve
ter furado de 5 a 6 milhões de metros subsolo abaixo, em
busca de petróleo. Ao fazer essas perfurações,
ela encontra outras riquezas, aliás não só
nas perfurações, mas também na geologia de
superfície. Ela tem um conhecimento extraordinário
da superfície e do subsolo brasileiros. Sabe onde há
uma série de minérios e jazidas aproveitáveis
economicamente, jazidas de sal-gema, de carnalita, de silvenita,
que são sais de potássio. Então, a Petromisa
nasceu daí. Mas o desmonte prossegue, de forma absolutamente
escandalosa e sem nenhuma justificativa a não ser a vontade
de desmontar mesmo, como no processo de privatização
da Petroquisa, a Petrobrás Química, hoje muito esvaziada.
Em primeiro lugar, ela é uma subsidiária da Petrobrás.
Em segundo lugar, é o braço petroquímico da
Petrobrás. Em terceiro lugar, é uma holding
financeira, que participava de quatro grandes empresas, como controladora.
Era controladora da Copesul, que é o pólo petroquímico
do sul, da Petroquímica União, em Capuava, que era
o pólo petroquímico da região de São
Paulo, da Petroflex, que era uma fábrica de borracha sintética
em Duque de Caxias, e da Companhia Nacional de Álcalis
esta, o governo empurrou-lhe goela abaixo, estava falida, então
ele a entregou à Petroquisa. E a Petroquisa participava de
mais de 34 empresas petroquímicas em que era minoritária,
havia um sócio nacional e um sócio estrangeiro. Então,
dos 38 empreendimentos de que participava, ela só controlava
os quatro que citei já era uma empresa essencialmente
privada, uma vez que, dos outros 34 empreendimentos, só detinha
um terço do capital. E acabaram privatizando tudo. Hoje,
ela tem 15 por cento da Copesul, 15 por cento da Petroquímica
União, e as participações minoritárias
foram totalmente vendidas. Então, a Petrobrás está
vivendo uma situação singular, estranhíssima,
sem paralelo no mundo inteiro é a única grande
empresa de petróleo que não tem um braço petroquímico.
E aí a gente faz um escla-recimento muito importante
indústria petroquímica quer dizer química usando
matérias-primas provenientes do petróleo, é
a forma que têm as grandes companhias de petróleo mundiais
de agregar valor. Porque vender gasolina, a gente vende na base
de 250, 220 dólares a tonelada, mas, quando a gente faz um
polietileno de alta ou baixa densidade, ou um PVC, chega a produtos
na faixa de 2.000 a 4.000 dólares por tonelada. Quando eu
marcho para a petroquímica, em vez de queimar o petróleo
como combustível, estou lhe dando uma utilização
mais nobre, em que posso obter mais de 2.000 produtos, em uma faixa
de preços acima de 1.000, 2.000 dólares, enquanto
o óleo combustível, o asfalto, a gasolina não
passam de 100, 200 dólares a tonelada. Então, não
há justificativa, a não ser privatizar ideologicamente,
selvagemente o patrimônio público. Ainda por cima,
os ativos da Petroquisa, no valor de 4 a 5 bilhões de dólares,
empresas com caldeiras, tubos, tanques de armazenamento foram trocados
por moedas podres. Na época, o processo de privatização
se fazia quase 95 por cento com moeda podre, um crime contra o patrimônio
público, contra a Petrobrás, contra seus acionistas,
contra o país. Isso tem conseqüências do ponto
de vista tecnológico. Temos na Petrobrás a consciência,
como dizia Hélio Beltrão, de que a verdadeira independência
é a independência tecnológica, muito mais do
que matérias-primas, muito mais do que mão-de-obra
barata. Marchamos para uma civilização do saber, do
conhecimento. E a tecnologia é instrumento de dominação
e é instrumento de libertação. Quem tem domina,
quem não tem é dominado.
Bautista Vidal - O subsídio da nafta foi retirado, com
a privatização da Petroquisa?
Ricardo Maranhão - Continua, é uma vergonha.
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Quando a Petrobrás começou,
precisava comprar tecnologia, éramos incapazes de fazer
uma
análise química quantitativa simples.
Importávamos até parafusos.
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Carlos Azevedo - Em favor de quem?
Ricardo Maranhão - De grupos privados, sobretudo o
Odebrecht, que hoje é o dono da petroquímica
brasileira. Estimo entre 300 e 400 milhões de dólares
por ano de subsídio da Petrobrás para os grupos petroquímicos,
sobretudo o Odebrecht, que é o majoritário. Não
sou contra o subsídio, mas ele tem de obedecer a certos princípios.
Em última análise, quase sempre quem paga o subsídio
é a sociedade. Então, a sociedade tem de discuti-lo,
tem de haver transparência, a quem vamos dá-lo, e ele
tem de ter um caráter temporário, dado para estimular
uma indústria que está começando, e cortado
a partir de um certo momento, para que ela tenha efetiva preocupação
com a produtividade, com a competitividade, com a maioridade. No
caso da petroquímica, somos contra o subsídio, primeiro
porque é dado para grupos poderosíssimos. A Odebrecht,
a Ipiranga, a Suzano são grupos poderosíssimos. A
indústria petroquímica tem quinze ou vinte anos no
Brasil, tem dimensão internacional, então não
precisa de subsídios.
Georges Bourdoukan - O senhor disse que a Odebrecht hoje domina
a petroquímica. Devia haver outras empresas interessadas,
e a Odebrecht ganhou a concorrência. Alguém no governo
se beneficiou com isso?
Ricardo Maranhão - A história da Odebrecht
é a história de uma grande empresa da construção
civil, de uma grande emprei-teira sempre com muita influência
política. E especializada cresceu muito
no tempo da ditadura militar , é especializada em fazer
obras sem concorrência. Por exemplo, fez a parte estrutural
da usina I de Angra sem concorrência, a usina II também,
assim como o aeroporto internacional do Rio de Janeiro. Onde tem
escândalo, a Odebrecht está metida, o assassinato do
governador do Acre, os anões do orçamento,
é uma empresa que tem uma influência política
enorme, é uma empresa baiana ligada ao grupo de Antônio
Carlos Magalhães, foi ligada ao Shigeaki Ueki no tempo em
que ele tinha força, e hoje controla a indústria petroquímica.
Eu queria dizer o seguinte: há uma participação
majoritária da Odebrecht, mas entraram também bancos
no processo de privatização petroquímico, como
entraram no processo de privatização geral. O Bamerindus
na Siderúrgica Nacional, o Econômico no setor petroquímico;
e banqueiro tem uma visão de caixa, tem uma visão
de curto prazo, não tem visão de investimento em tecnologia,
que é uma coisa a longo prazo. Quando a Petrobrás
começou, precisava comprar tecnologia, éramos incapazes
de fazer uma análise química quantitativa simples.
Importávamos até parafusos. O Bautista treinou muito
geólogo na Petrobrás. Naquela época, as aulas
eram dadas em inglês, os professores do Centro de Estudos
da Indústria do Petróleo eram todos estrangeiros.
Hoje estamos tirando petróleo a quase 2.000 metros da lâmina
de água. Houve um avanço tecnológico extraordinário.
Existe uma inteligência do petróleo, uma engenharia
do petróleo brasileiro. No offshore estamos na liderança,
na frente dos noruegueses. Vem gente do mar do Norte pegar experiência
na Petrobrás.
Carlos Azevedo - Offshore é atuação
dentro do mar, e a Petrobrás é a empresa mais avançada
nisso?
Ricardo Maranhão - É. Estamos tirando petróleo
em 1.800 metros de lâmina de água, que é a distância
da superfície do mar ao solo marinho, e mais 5.000 metros
depois na crosta terrestre. Não há país no
mundo que esteja fazendo isso. A Petrobrás foi a primeira,
e temos mais de cinco recordes mundiais. São a Petrobrás
e a engenharia brasileira, os fornecedores de bens de capital, as
universidades. Uma vitória do homem brasileiro, não
só da Petrobrás.
Georges Bourdoukan - Eu queria saber duas coisas: primeira, por
que quem descobre o petróleo no Brasil é penalizado,
quer dizer, perde a sua terra? E a segunda: com toda essa tecnologia,
esse avanço, por que a gasolina no Brasil é tão
cara?
Ricardo Maranhão - Respondendo à primeira pergunta:
há várias situações. Por exemplo, tenho
petróleo na bacia de Campos e tenho uma refinaria em Duque
de Caxias, então preciso construir oleodutos e gasodutos
das plataformas mar adentro, até uma localidade chamada Barra
do Furado, ao norte de Macaé, onde faço um oleoduto
que vai até Duque de Caxias. Eu fui chefe dessa obra, que
chegou a ter no pico 10.000 operários, obra de 400 milhões
de dólares. Ela atravessa seis municípios e cerca
de setecentas propriedades. Então, preciso de uma faixa de
20 metros, para abrir uma vala onde vou jogar o tubo. Quando abro
a vala, tenho de jogar a terra para o lado de cá e tenho
de ter também uma faixa para os tratores que vão carregar
os tubos, e distribuir os caminhões, tenho de ter uma área
de serviço. Nessa configuração, normalmente,
faço uma desapropriação por interesse público,
porque, embora o direito de propriedade no regime capitalista que
vivemos seja sagrado, sabemos que o direito de propriedade não
é ilimitado. Faço uma desapropriação
e instituo uma servidão de passagem, que é um limite,
um ônus real sobre a coisa alheia. O sujeito continua dono
da terra, mas não tem a propriedade plena porque imponho
restrições. Por exemplo, ele pode passar de um lado
para o outro nessa faixa desapropriada com veículos de até
6 toneladas por eixo. Pode plantar grama, pode botar boi para pastar.
Agora, se ele quiser usar explosivo nessa faixa, não pode,
porque tenho um duto e pode ser arrebentado e causar vazamento.
Plantar árvores de raízes profundas também
não, porque podem afetar a estabilidade do duto. Assim como
não pode construir uma casa em cima do duto, porque preciso
ter acesso para fazer manutenção, em caso de vazamento.
Bem, mas ele continua com a propriedade, com algumas restrições.
No caso de uma fazenda grande, perfuro um poço de petróleo
aqui, outro ali, dois outros acolá, tudo isso que se faz
é indenizado. Se preciso lançar um duto daquele poço
para este aqui, vou ter de cortar 15 quilômetros quadrados
de milharal, vou indenizar o milho. Isso é feito de comum
acordo com o proprietário.
Georges Bourdoukan - Como se vê no cinema americano, quando
o sujeito encontra petróleo na terra dele, está realizado
até a quinta geração. Por que no Brasil a pessoa
tem de dar a terra para a Petrobrás?
Ricardo Maranhão - Isso não vale, entre nós,
só para o petróleo. Vale para todos os minérios.
No Brasil, a Constituição e o ordenamento jurídico
diferenciam a propriedade do solo da propriedade do subsolo. Este
pertence à União. Se você descobre ouro na sua
fazenda, tem de pedir a autorização de prospeção
e lavra. No caso de alguns minérios, você tem uma participação
no produto da exploração. Vamos à segunda pergunta,
sobre a gasolina. A mídia diz que a brasileira é a
pior. O Wilson Fittipaldi diz que ela tem cheiro de lama podre,
além de ser uma das mais caras do mundo.
Bautista Vidal - Terceira ou quarta mais barata.
Ricardo Maranhão - Isso mesmo. Custava, antes da flexibilização
para mim, quebra do monopólio , 52 centavos
o litro. Bastou mudar a lei e já está custando 90
centavos. Um aumento de mais de 70 por cento. Então, essa
conversa de que vai flexibilizar ou quebrar o monopólio para
beneficiar o consumidor é mentira. O consumidor vai ser prejudicado
porque a Petrobrás, ao longo de toda a sua história,
vendeu derivados de petróleo abaixo dos preços internacionais.
E os preços vão subir mais. Registro aqui: dentro
de um ano, talvez menos, a gasolina estará custando mais
de 1 dólar por litro no Brasil. Como é na Argentina,
como é no Japão. Você não tem um país
da Europa onde a gasolina custe menos de 1,10. Mas a nossa gasolina
é muito mais cara do que a americana, é verdade. Gasolina
brasileira custa 90 centavos e a americana custa 30 centavos o litro.
Só que, quando a gente fala em gasolina, faz a imagem de
uma pizza. O que o consumidor paga é a pizza inteira. E tem
alguém com o poder de pegar a faca e cortar a pizza, em cinco
fatias. Uma fatia, a menorzinha, fica com a Petrobrás, 7
dos 90 centavos que você paga. Tem uma fatia enorme que é
do governo; tem outra que são os subsídios; a outra
são as distribuidoras; e a quinta são os revendedores.
Quem são os revendedores? São 25.000 pequenos, médios
e microempresários brasileiros que operam os postos de gasolina
e as bombas podem ser da Shell, e o camarada opera. Ele é
revendedor, uma gente que tem de ser defendida e preservada. Tem
a distribuidora Esso, Shell, Texaco, Petrobrás Distribuidora,
Ipiranga etc. , que fica com 20 centavos. Tem o governo, porque
dentro da gasolina, quando a Petrobrás importa petróleo,
ela paga 38 por cento de impostos. Tem uma outra parcela, que se
chama subsídio. O subsídio é botar alguns centavos
a mais no preço da gasolina para que o botijão de
gás seja vendido a 7 reais, porque a dona Maria precisa cozinhar
o feijão, é um bem de uso social, então vou
subsidiar esse bem. Botar alguns centavos a mais para que a nafta
da Odebrecht seja vendida. Então, são dois subsídios
absolutamente diferentes, um para a dona Maria cozinhar o feijão,
o outro para o doutor Norberto Odebrecht ficar cada vez mais rico.
Existe um outro subsídio, que é o seguinte: a legislação
toda, que eles estão demolindo, estabelecia que os derivados
de petróleo deveriam ser vendidos, no máximo, pelo
mesmo preço em todo o território nacional. Então,
você comprava 1 litro de gasolina na Rio-Petrópolis,
em frente da refinaria Duque de Caxias, por um preço, e comprava
o mesmo litro em Cruzeiro do Sul, no Acre, na fronteira da Bolívia,
pelo mesmo preço. Como você conseguia isso? O custo
do transporte da refinaria de Manaus até Cruzeiro do Sul
era reembolsado com um fundo chamado FUP, o Fundo de Uniformização
de Preços. Porque por trás dele está
e isso vale para a gasolina, para as telecomunicações,
para a energia elétrica um subsídio cruzado
da gasolina, que você cobra mais caro para fazer um fundo
que uniformiza em todo o território nacional o preço
de todas as formas de energia. Porque energia é vida, é
riqueza, é desenvolvimento, é poder militar, econômico
e político, está certo? E a óptica do mercado
é que os subsídios têm de acabar e os preços
têm de ser preços internacionais, por isso a gasolina
saiu de 52 centavos e foi para 90 e garanto que vai para
1,20.
Georges Bourdoukan - Antes ou depois das eleições?
Ricardo Maranhão - Já subiu muito, subiu 70
por cento. E o Fernando Henrique já está propondo
mais 10 por cento para consertar as estradas. Quer dizer, você
paga IPVA, você paga IP não sei das quantas... E, toda
vez que há reajuste, vai diminuindo o pedacinho da pizza.
E depois o camarada com poder de pegar a faca diz que a Petrobrás
não tem recursos para explorar petróleo.
Georges Bourdoukan - E por que a Petrobrás não
se manifesta?
Ricardo Maranhão - Não se manifesta porque
a direção é nomeada pelo governo. Aliás,
a Petrobrás se manifesta. Joel Mendes Rennó, que é
um grande equilibrista, está há mais de cinco anos
na direção da Petrobrás. O Itamar era presidente
e, quando começou esse negócio de reforma constitucional,
ele disse ao Rennó: Defenda o monopólio, defenda
a Petrobrás. Nomearam relator o Jobim, homem ligado
à Fiesp, advogado de multinacional, que fez um relatório
dizendo que tinha de abrir o setor de petróleo porque a gasolina
era cara, a Petrobrás era ineficiente, o Brasil não
tinha recursos para explorar etc. Então, alguém escreveu
uma carta e o Rennó assinou, tenho essa carta, há
um trecho que diz: Assim, senhor deputado, quem está
em dificuldades no petróleo são as multinacionais,
que não têm reservas, cujas reservas estão se
exaurindo, e não o Brasil e a Petrobrás, com sua produção
de petróleo, crescente, com reservas crescentes, e que lhe
asseguro tem os recursos mais do que necessários para explorar
o petróleo. Recursos provenientes da venda de seus produtos,
como de qualquer indústria de petróleo, como de financiamentos
internacionais superoferecidos. Rennó escreveu isso,
treze páginas, assinou e rubricou todas as páginas.
O ano passado ele foi ao Senado fazer um depoimento e disse justamente
o contrário, 180 graus, diametralmente oposto. Mas, quando
ele acabou de falar, peguei a transparência com essa frase
dos financiamentos superoferecidos e projetei para os senadores,
e ele ficou lá com aquela cara. Então, ele não
se manifesta porque tem apego ao cargo, não tem vergonha
na cara, e por isso o Brasil está assim, e não só
ele, não, a
maioria dessa falsa elite.
Aziz AbSaber - Minha primeira pergunta é sobre David
Zylbersztajn (presidente da Agência Nacional do Petróleo
e genro do presidente da República), um colega da USP
que tinha o meu respeito, mas perdeu totalmente, porque eu, como
o senhor, tenho a emoção com relação
às coisas do meu país. Respondendo na televisão
a uma questão qualquer, ele disse que a ANP vai ser apenas
uma instituição técnica. Eu acho
que ela foi fundada politicamente. Ela paraleliza as coisas que
aconteceram com a Vale. A Vale confiou no BNDES, na pessoa do Mendonça
de Barros, para fazer o serviço sujo, e o David foi nomeado
para fazer o serviço maligno, já que sujo é
meio desagradável de dizer, na Petrobrás. Nesse sentido,
eu queria que o senhor me dissesse se realmente tem um grupo técnico
dentro da ANP na sua primeira fase. A minha ojeriza em relação
à ANP é que ela se aproveita de todas as pesquisas
feitas, coloca a mão de particulares, o subsídio da
Petrobrás continua vigorando, com grande prejuízo,
e além disso há o esgotamento das jazidas, no momento
em que o mundo inteiro faz guerra contra o Oriente Médio
para poder manter os preços baixos, o que daria para nós
uma situação cômoda, já que não
é preciso o Brasil fazer nada em termos bélicos, porque
quem está fazendo o serviço sujo, nesse caso, é
uma grande potência do fim do século e do milênio.
Ricardo Maranhão - Realmente, em relação
a um grupo técnico, há uma dificuldade na ANP, porque,
em função do monopólio, quem entende de petróleo
no Brasil está na Petrobrás. Então, lançaram
um edital, e estão fazendo uma análise de currículos,
vão selecionar algumas pessoas, em um processo provisório.
Parece que depois a contratação de gente definitiva
vai ser feita por concurso público. Acredito que grande parte
desse pessoal vai ser gente aposentada da Petrobrás. |
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Tenho um amor enorme pela
Petrobrás, mas
o Brasil está acima dela. O dia em que ela estiver fazendo
safadeza com a sociedade brasileira,
boto a boca no trombone.
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Aziz AbSaber - O segundo fato
importante para o leitor é saber, mesmo que seja aproximadamente,
qual a produção de petróleo na bacia de Campos,
na do Recôncavo, na de Alagoas e Sergipe, na Potiguar
sobretudo Rio Grande do Norte e Ceará , na de Santos
e na bacia de Urucu. Porque esse dado vai mostrar a somatória
daquilo que é explorado, por dia, pela Petrobrás.
Ricardo Maranhão - A produção de petróleo
no Brasil bateu 1 milhão de barris. São vinte nações
no mundo que produzem mais de 1 milhão de barris por dia.
Desse milhão, mais ou menos 700.000 em Campos, o Rio Grande
do Norte hoje é o segundo Estado produtor, já passou
a Bahia. Mas vou procurar ver e mandar os números. (O
entrevistado enviou-os depois e são estes, em milhões:
Amazonas, 34,7; Rio Grande do Norte e Ceará, 115,1; Sergipe
e Alagoas, 44,3; Bahia, 59,7; Espírito Santo, 9; Campos,
724,9; Sul, 16,4; Xisto, em São Mateus e Paraná, 3,9.
Total: 1 milhão, 154.000 barris.)
Aziz AbSaber - Eu queria dizer também ao senhor
o seguinte: este governo é tremendamente vingativo, nunca
perdoou a greve dos petroleiros, a multa que ele deu para as diferentes
unidades do Sindicato dos Petroleiros não é passível
de ser paga. E, quanto ao David Zylberztajn, eu, pessoalmente, acho
que ele não sabe nada de geologia; não sabe nada de
geologia econômica, nada de geologia do território
brasileiro, por isso mesmo não sabe interpretar as duas fachadas
petrolíferas que o país tem; não sabe também
geopolítica do petróleo, que é uma coisa importantíssima
para orientar qualquer país do mundo na sua política
petrolífera.
Carlos Azevedo - Por que dizem que a gasolina brasileira não
tem qualidade?
Ricardo Maranhão - Sobre isso é preciso fazer
algumas considerações. Primeiro, houve uma época
em que você não conseguia comprar na hora um carro
a gasolina no Brasil, tinha de encomendar. Em 1985, levava seis
meses. Durante muitos anos só eram feitos carros a álcool.
O que aconteceu? Quando você entra com o petróleo em
uma refinaria, é obrigado a ter todos os derivados em percentuais,
que podem variar um pouco, dependendo da qualidade do petróleo,
e do projeto da refinaria. Se você usa um petróleo
pesado, com determinada configuração, vai obter derivados
mais pesados. Derivados pesados são asfalto, óleo
combustível. Derivado médio é o óleo
diesel. Derivado leve é gasolina e GLP, gás
liquefeito de petróleo. O fato é que o diesel
era subsidiado, crescia muito o seu consumo e, para obter uma certa
quantidade dele, você tem de aumentar a quantidade de petróleo
que está refinando. Aumentando a quantidade de petróleo,
você gerava uma quantidade adicional de gasolina. Como os
carros eram a álcool, começou a sobrar gasolina. A
solução foi exportá-la. O Brasil chegou a exportar
200.000 barris de gasolina por dia para os Estados Unidos, que são
o maior mercado para derivados de petróleo do mundo, e o
mais exigente. Isso, durante muitos anos. Então, que gasolina
ruim é essa? A segunda consideração é
que, se não temos gasolina de melhor qualidade, ainda é
porque não temos motores de boa qualidade. Não adianta
nada fazer uma gasolina fantástica e um carro carroça,
como dizia o Collor. Terceira consideração: o derivado
de petróleo mais sofisticado, do ponto de vista de especificação,
é o querojato, o querosene de avião a jato. Quem especifica
esse querojato não é a Petrobrás, nem a Agência
Nacional de Petróleo, é a Rolls-Royce, que faz a turbina.
O avião que chega no aeroporto de Cumbica ou de Congonhas
é abastecido com querosene da Petrobrás. A Williams,
da F-1, está usando nossa gasolina. Então, como vêm
dizer que ela não presta? É uma falácia.
Georges Bourdoukan - E por que ela é mais cara que a americana?
Ricardo Maranhão - Ela é três vezes mais
cara que a gasolina americana porque, da pizza que é
o preço ao consumidor, a fatia dos impostos é muito
maior que a dos Estados Unidos. E a fatia dos subsídios,
dentro da óptica do mercado, simplesmente não existe.
O pior é o seguinte: a fatia das distribuidoras, de 20 centavos
no Brasil, é três vezes maior do que a americana; lá
não chega a 2 centavos. E o refinador, que aqui é
a Petrobrás e ganha 7 centavos, lá ganha quatro ou
cinco vezes mais. Então, com imposto mais baixo, inexistência
de subsídio, a Petrobrás poderia se encher de dinheiro
e baixar o preço ao consumidor. Todo lugar onde eu chego,
digo: A nossa proposta é que cada posto de gasolina
do país são 25.000 postos tem de ter
uma tabuleta bem visível, dizendo: Você está
pagando 90 centavos por litro, desses 90 centavos a Petrobrás
tem tanto, distribuidora tanto, impostos tais, tais, tais tanto.
Isso é um direito que temos como consumidores e como cidadãos.
Há mais de cinco projetos mandando fazer isso, e nenhum passa,
porque tem gente que não quer que essa informação
chegue à opinião pública.
Wagner Nabuco - Quem regulamenta as distribuidoras?
Ricardo Maranhão - É o Departamento Nacional
de Combustíveis. Passou a ser a Agência Nacional de
Petróleo. Só que agora os preços foram liberados,
mas para a distribuidora e os revendedores. O revendedor, se quiser,
bota o litro de gasolina em 3 reais, não tem mais controle
de preços. Não bota porque o cara ao lado vende por
90 centavos e ele vai fechar, ninguém vai comprar dele. A
distribuidora também está liberada, pode vender para
o posto por quanto quiser. Agora, a refinaria da Petrobrás
está liberada? Não. O preço da Petrobrás
continua controlado. Está entendendo? Então, o David
Zylberstajn disse no Roda Viva: O monopólio sempre
foi uma coisa ineficiente, e nós temos de beneficiar o consumidor.
Aí, eu fiz quatro perguntas e o mediador do programa, Suzuki,
fez um ar de riso assim e disse: Pergunta do engenheiro Ricardo
Maranhão, presidente da Associação: A
gasolina estava em 52 centavos o litro, agora está em 90
centavos, que benefício é esse? Sabe
qual foi a resposta dele? Demagogia não. Preço
baixo sacrifica a empresa estatal, o governo arrecada menos, e causa
desperdício, porque sendo barata começa-se a desperdiçar
etc. É verdade, barato gera desperdício, sacrifica
a estatal, nós sabemos. Só que a recíproca
não é verdadeira. Preço alto, eu posso aumentar
o tamanho da pizza e diminuir aqui o meu ângulo de
tal forma que a margem da Petrobrás fica a mesma. Deu para
entender? Posso aumentar o preço sem que a Petrobrás
receba 1 centavo a mais.
Georges Bourdoukan - Mas ele está falando isso gratuitamente?
Ricardo Maranhão - Esse aumento de 52 para 90 centavos
beneficiou sobretudo as multinacionais e a Petrobrás Distribuidora,
que, diga-se, às vezes compõe dentro do cartel, e
vamos bater nela do mesmo jeito. Tenho um amor enorme pela Petrobrás,
mas, para mim, o Brasil está acima dela. O dia em que a Petrobrás
estiver fazendo safadeza com a sociedade brasileira, vou ser o primeiro
a botar a boca no trombone. E há indício de que muitas
vezes a Petrobrás Distribuidora compõe com o cartel.
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