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Essa é uma das afirmações de Lula em meio
à repercussão da significativa vitória do
PT nas últimas eleições municipais. Há
muitas outras, menos bombásticas, mas não menos
importantes, na voz de um político que se projeta como
o grande nome da oposição para 2002. A entrevista
foi concedida na sede do Instituto Cidadania, do qual Lula é
conselheiro.
Sérgio de Souza - A gente gosta de
mostrar a história do entrevistado desde o começo,
não sei se te agrada, mas acho que a maioria dos leitores
não conhece a sua história desde a infância...
Lula - Bom, eu nasci em Garanhuns, em
1945, dia 27 de outubro. Em 1952 minha mãe veio para São
Paulo, meu pai já tinha vindo em 1945, ano em que eu nasci.
Minha mãe veio sete anos depois e eu tenho sete irmãos,
tinha doze, cinco morreram, e quando viemos para São Paulo
fomos morar em Santos. Ficamos em Santos até 1956, então
viemos para São Paulo e, por coincidência, vim morar
neste bairro aqui, na Vila Carioca. Comecei a minha vida de trabalhador
trabalhando de tintureiro, depois ajudante de escritório,
em 1959 surgiu uma vaga para estudar no Senai e fui para a fábrica
de parafusos Marte, para fazer o curso do Senai. Me formei torneiro-mecânico
em 1963. Em 1969 fui convidado para fazer parte da diretoria do
Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Na verdade, quem tinha
sido convidado era o meu irmão, Frei Chico, que era militante
sindical e não aceitou e pediu pro pessoal me convidar.
Sérgio de Souza - É verdade
que você veio de pau-de-arara?
Lula - É, nós viemos de
pau-de-arara. Aliás, a minha vida tem uma marca muito grande
com o 13. A minha mãe vendeu as terras dela em Pernambuco
por 13 contos de reis. Nós saímos de Pernambuco
dia 13 de dezembro, demoramos 13 dias para chegar em São
Paulo, quando fui preso a somatória do número do
meu registro era 13 e criei um partido que é 13.
José Arbex Jr. - Quando o teu irmão
te indicou para o sindicato, você já tinha preocupação
política? O golpe de 64 quis dizer o que para você?
Lula - Não queria dizer nada.
Na época, eu tinha dezoito anos e gostava mesmo era de
jogar bola, de dançar quinta, sábado e domingo,
de ir à missa das 6 no domingo pra ver se arrumava namorada
e ler a Coluna do Guzman (cronista de futebol), porque,
era corintiano fanático e lia o Diário da Noite.
A minha iniciação política se deu em 1968,
quando meu irmão me convidou para ir a uma assembléia
do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Era uma discussão
sem nenhuma importância, indicação de um delegado
do sindicato para um congresso de previdência social e saiu
um pau na assembléia! Cadeirada pra tudo quanto é
lado! Porque o sindicato era dividido em dezenas de tendências.
Tinha AP, Polop, eu não manjava nada, e o meu irmão
era do partidão. E por conta daquela briga passei a gostar
do sindicato (risos), comecei a freqüentar, lembro
até hoje o número da minha matrícula
25986, de setembro de 1968. Não era um momento fácil
para você ir pro sindicato. Eu estava com o casamento marcado
e a minha mulher não queria que eu fosse porque ela ouvia,
na fábrica em que trabalhava, que quem fosse pro sindicato
podia ser preso, era mandado embora e não arrumava mais
emprego.
José Arbex Jr. - Por que você
não foi pro PC onde teu irmão militava?
Lula - Primeiro, porque não tinha
nenhum interesse em política partidária. Esse interesse
só veio a partir de 1978...
José Arbex Jr. - Com as greves?
Lula - Não tanto por causa das
greves. Por conta de uma lei que o governo queria aprovar, uma
lei que criava as chamadas "categorias essenciais", e fui a Brasília
conversar com os deputados. E lá descobri que não
tinha ninguém dos trabalhadores. Então, voltei com
um nó na cabeça: como é que a gente quer
que sejam feitas leis em benefício dos trabalhadores, se
lá não tem trabalhador?
Verena Glass - Já tinha a central sindical?
Lula - Não, A CUT (Central
Única dos Trabalhadores) nós criamos só
em 1983. De 1969 a 1982 aconteceu um processo de aprendizado importante.
E um dado também importante é que o sindicato do
ABC já nasceu muito grande, era mais avançado que
a média dos sindicatos brasileiros porque tinha uma elite
na categoria: os trabalhadores da indústria automobilística,
que naquele tempo certamente ganhavam mais do que os jornalistas
ganham hoje. (risos) Os trabalhadores tinham um padrão
de vida muito alto e a partir de 1968 começaram a perder.
Um trabalhador da Ford, da Mercedes, da Volkswagen, da Scania,
na época, era o bambambã, era o que tinha o primeiro
carro, a melhor casa, o que, todo dia de feira, a mulher dele
voltava com o carrinho cheio de fruta. Na época do Natal
ganhava presentes, 13º, algumas montadoras davam 14º,
ou seja, éramos um grupo de privilegiados no mundo do trabalhador
brasileiro. A partir de 1968 começamos a perder, foram
tirando as coisas! Tirando, tirando, foi começando o acirramento
e combinou com o movimento da sociedade brasileira por democracia,
o MDB já tinha tido aquela votação extraordinária
em 1974, que elegeu dezesseis senadores, então a sociedade
já estava num processo de movimentação muito
grande pra mudar o regime militar. Em 1974 fizemos o primeiro
congresso dos metalúrgicos. Hoje, falar para uma pessoa
que fizemos um congresso em 1974, ela fala: bela porcaria fazer
um congresso! Naquela época, se você fizesse, no
dia seguinte ia pro DOPS para dar esclarecimento, às vezes
três, quatro horas de depoimento!
José Arbex Jr. - Acho um pouco intrigante
o fato de ter surgido no Brasil uma corrente de trabalhadores
que não tenha se filiado nem ao PCB, quer dizer, havia
uma certa tradição de organização
operária junto às organizações mais
antigas. De onde surgiu essa camada de trabalhadores que recusou
se integrar às organizações tradicionais?
Lula - Primeiro, que nesse tempo todos
esses partidos eram clandestinos. Você nem sabia quem era
do PC, do PC do B. Vou dar um exemplo: o meu irmão Frei
Chico, quando foi preso, a mulher dele não sabia, ninguém
da minha família sabia, ele nunca me disse que era do PCB.
José Arbex Jr. - O PCB não era
uma opção natural dos trabalhadores?
Lula - Não, porque o PCB estava
na clandestinidade, a gente lia declarações do Prestes
em Moscou. Tem um fato engraçado: nunca gostei de coisa
clandestina. Quando participava de uma comissão metalúrgica
lá em São Bernardo do Campo, às vezes me
convidavam para uma reunião às 9 horas da noite,
então eu ia para a casa do cara, normalmente tudo escuro,
parecia que compravam uma lâmpada de 5 velas e eu não
via conteúdo nenhum na conversa que não pudesse
ser feito em um bar tomando cachaça, (risos) não
conseguia entender essa clandestinidade alucinante.Tinha uma companheira
nossa chamada Nanci, era da Volkswagen. Um belo dia, estamos redigindo
um boletim para soltar na Volkswagen e o advogado nosso, o Maurício
todo cara que, como ele, fez seminário normalmente
é bom escriba , está fazendo boletim e essa
menina, que até então a gente tinha como metalúrgica,
começa a corrigir o Maurício. (risos) Fiquei
de olho. Um dia, estou no bar do sindicato, ela entra e fala para
a mulher do bar: "Dá uma pinga com limão". (risos)
Não era normal uma operária chegar num boteco e
pedir uma pinga. Daí fomos descobrir que ela era estudante
de jornalismo no Paraná e tinha vindo naquela idéia
de liderar os operários. Naquela época, a bronca
que eu tinha do movimento estudantil era que eles partiam do pressuposto
de que nós éramos um bando de babacas, eles eram
um bando de inteligentes e tinham que ir para dentro da fábrica
para poder nos liderar. Não aceitávamos isso.
José Arbex Jr. - Eu queria chegar nisso:
como se juntaram os intelectuais como Marilena Chauí, Francisco
Weffort com vocês?
Lula - Aí é outra história.
Começamos a nos juntar na greve de 1980. A diferença
básica é que, quando resolvemos criar um partido
político, começamos a perceber que era uma tarefa
maior do que a de dirigir um sindicato. O meu discurso era para
uma categoria, e uma coisa direta contra o patrão que estava
ali; num partido político, você tinha que se abrir
para outros setores da sociedade. Mas eu achava que os trabalhadores
não precisavam de ninguém para dizer o que eles
tinham que fazer, porque eles sabiam o que fazer. Era essa a nossa
briga e graças a essa briga conseguimos fazer um dos movimentos
mais importantes deste país. Então, o discurso político
não pode ser o mesmo, até para falar com um bancário
não posso fazer o mesmo discurso que fazia para um metalúrgico
na porta de fábrica. Mais grave ainda, quando eu saía
da porta da Volkswagen e ia para a porta de uma fábrica
no interior, o discurso não podia ser o mesmo, o nosso
era muito radical, a gente já estava reivindicando mais
meio frango na alimentação, o pessoal ainda estava
reivindicando o primeiro restaurante para esquentar marmita, o
desnível era tão grande que você tinha que
medir o discurso. Essa é a razão pela qual não
fui para o PCB. Uma coisa muito forte na minha cabeça é
que a diferença fundamental nossa para o PCB era a seguinte:
o PCB tinha como coisa importante pegar quadros politicamente
preparados na universidade e colocar dentro da fábrica.
A nossa idéia era tirar o trabalhador da fábrica
e fazer com que ele fosse o agente político. Essa era uma
diferença crucial e foi muito difícil porque eu
não sabia quem era do partidão, quem era do MR-8,
quem era do PC do B, então íamos para uma reunião
de sindicalistas eu era a figura mais importante do movimento
sindical naquela época e, quando descobri que era preciso
fundar um partido, que a gente não podia continuar votando
no menos ruim, nas reuniões eu dizia: "Vamos criar um partido?"
Aí levantava um: "Não, não vamos criar porque
isso e isso". O outro: "Não, não...". E eu achava
que eles não queriam criar mesmo. Um ano e meio depois
fui descobrir que eles não queriam criar porque achavam
que o deles já era o partido dos trabalhadores. Aí,
graças ao Olívio Dutra, ao Jacó Bittar, ao
Henos Amorina, ao Wagner Benevides, a uma meia dúzia de
abnegados, a gente resolveu deslanchar o processo.
Verena Glass - O MST se baseia em grandes
pensadores, Marx, Engels, Mao, o que seja, e depois tira o melhor
e tenta adaptar ao Movimento. Vocês se baseavam em algumas
teorias de grandes pensadores ou só era aquilo mesmo das
necessidades básicas?
Lula - Era uma coisa mais instintiva,
queríamos criar um partido político porque estávamos
cansados de reivindicar. O meu grande problema com os companheiros
que são hoje todos do PT, quando a gente ia convidar...
Companheiros como o Geraldinho, o Genoíno, o Aitan, perguntavam
o seguinte: "O PT é tático ou estratégico?"
Eu dizia: "Pô, não quero discutir isso, só
quero criar um partido, não me ponham minhoca na cabeça".
Demorou cinco anos para a gente resolver. A base nossa era juntar
todos os trabalhadores, criar uma organização política
e disputar o poder. Nós e meia dúzia de pessoas
andamos este país inteiro, cansei de ir daqui para o Acre
fazer reunião com dez pessoas, cansei de ir para o Mato
Grosso fazer comício com cinco pessoas, e fazia com o maior
orgulho, gritava como tivesse 1 milhão de pessoas na rua.
José Arbex Jr. - Eu estava na Vila
Euclides, em 1980, 81, não me lembro, quando o 2º
Exército proibiu uma marcha que haveria da Vila Euclides
para a Matriz.
Lula - Primeiro de maio de 1980.
José Arbex Jr. - Lembro que na noite
anterior tinha acabado o estoque de arma branca em São
Bernardo, os trabalhadores compraram o estoque de armas brancas.
O 2º Exército chegou a apontar os fuzis contra a manifestação,
e eu vi mães espontaneamente ir conversar com os soldados
e os soldados começarem a baixar os fuzis, e eu soube que
a própria Polícia do Exército foi mobilizada
e se recusou a cumprir a ordem de disparar contra a multidão.
A impressão que eu tive é que, se houvesse um tiro
ali, ia estourar uma guerra civil no país. Você compartilha
dessa avaliação, chegou a acreditar que o processo
que levou à formação do PT poderia desembocar
em uma luta de grandes proporções desse tipo?
Lula - Eu estava preso nesse 1º
de maio, fui preso dia 17 de abril, soube pelos companheiros da
diretoria que estavam lá, pelos jornais e pelo rádio.
O que eu sei é que durante muitos momentos, entre 78 e
80, não aconteceram coisas maiores no ABC porque a gente
da diretoria não deixava acontecer, por exemplo, numa greve
que a gente perdia, trabalhadores queriam pegar a linha de produção
de robôs da Volkswagen e fazer alguma coisa para ela não
funcionar mais. Uma vez tive que segurar um trabalhador entrando
com umas bombas dentro da calça, a gente tinha que pegar
o cara, convencer que aquela não era a luta correta naquele
momento. Outra vez, o pessoal queria tocar fogo na Brastemp, e
a gente tinha que convencer as pessoas politicamente que não
era necessário fazer aquilo. Eu digo para você que,
se alguém dá um tiro naquele 1º de maio, teria
uma carnificina em São Bernardo, não sei se estouraria
uma guerra civil, mas tinha muito trabalhador preparado, muitos
trabalhadores que a gente passava semanas tentando mostrar para
eles que esse caminho é o fim do que a gente está
pensando em fazer, nós não temos como resistir se
começar uma coisa dessas. Mas por que o Exército
desistiu de atacar? Eles chegaram primeiro, tinha um grupo de
pessoas, eles cercaram aquelas pessoas, só que depois foi
chegando muita gente, muita gente e, de repente, você tinha
100.000 pessoas, e em 100.000 pessoas tem gente com disposição
para tudo, é só começar. Acho que mais por
medo do que por prudência eles resolveram bater em retirada.
Um dado importante da greve de 80 é o seguinte: foi a greve
em que não ganhamos absolutamente nada, perdemos economicamente
o que não tínhamos, entretanto foi a greve em que
mais ganhamos politicamente.
Carlos Azevedo - Por que?
Lula - Porque saímos com o bolso
vazio, mas com a cabeça cheia. Ali, a gente estava convencido
de que a organização política era necessária.
Foi a greve mais importante da minha vida, o salto de qualidade,
até porque dimensionou a força do trabalhador.
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A grande coisa que o Movimento Sem Terra
faz hoje, no Brasil, não é a luta pela reforma agrária,
porque ela existe antes, durante e vai existir
depois. O grande feito do Movimento Sem Terra
é recuperar o sentido da cidadania de pessoas que estavam
a 1 milímetro de virar párias da sociedade.
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José Arbex Jr. - Para fazer uma analogia com o MST:
quando ele ocupa prédios públicos ou ameaça
ocupar a fazenda do nosso amado presidente, tenho a sensação
de que muitas vezes ocorrem situações potencialmente
explosivas como aquelas da greve de 80 com relação
ao PT. Você acha que o MST pode ser um fator de precipitação
de enfrentamento com a conjuntura política?
Lula - Não sei se a partir do
MST você pode ter uma coisa maior. O enfrentamento que o
MST tem hoje com o latifundiário é até mais
grave do que o que a gente tinha com os empresários, porque
ele é menos civilizado que o empresário da cidade,
que muitas vezes o dono nem está aqui no Brasil, está
no exterior. Por pior que fosse, você pegava um diretor
de produção da Volkswagen, ele já tinha sido
sindicalizado na Alemanha, era outro nível. O latifundiário,
não! Ele contrata um capataz, um bandoleiro qualquer, e
para o cara puxar um gatilho não precisa muito. Tenho a
compreensão de que o Movimento Sem Terra é hoje
o movimento mais sério que nós temos, acho que nem
sempre acerta na política, e acho que a luta é mais
do que nobre. Porque a reforma agrária é uma coisa
tão antiga, que o que é descabido não é
ver o sem-terra brigar por reforma agrária, é ver
o governo, no final do século, agir como se estivesse no
começo do século, como senhores de engenho, com
a mesma postura. Os sem-terra nunca invadiram a fazenda do presidente,
eles apenas acamparam na porta da fazenda como se estivessem fazendo
um piquete. Quem ocupou a fazenda do presidente foi o Exército,
a mando dele. O Fernando Henrique Cardoso poderia contratar um
capataz, não precisava o Exército para tomar conta
da fazenda dele. Os sem-terra queriam chamar a atenção
para um problema sério, que era a falta de financiamento,
a falta de recursos que o governo tinha prometido, e qual é
o mal nisso? O Fernando Henrique Cardoso agiu como se fosse o
maior troglodita, sem compreensão do problema social. Porque,
veja, a lei garante a reforma agrária, a terra existe,
a única coisa é o poder de uma oligarquia atrasada,
que não entende que é para o bem desse país,
que é uma questão de justiça social, e virou
uma questão de honra derrotar os sem-terra politicamente,
quando o problema não são só os sem-terra!
São outros milhões que não estão organizados
no Movimento e que precisam da reforma agrária! Uma coisa
bem organizada, com terra, com assistência técnica,
financiamento, seguro agrícola, organização
dos trabalhadores em cooperativas, em agroindústrias familiares,
os sem-terra mesmo têm tantos exemplos extraordinários
de assentamentos que estão produzindo, que deram certo!
Existem outros assentamentos, que são da Contag, que têm
dado certo! É só o governo quantificar isso em nível
nacional e falar: "Ó, vamos fazer reforma agrária!"
Em Santa Catarina, por exemplo, você percebe que as regiões
mais desenvolvidas são aquelas onde predomina a pequena
propriedade. Não se justifica num país, por maior
que seja, ter alguém com 30.000 alqueires de terra! Dois
milhões de hectares de terra!!! Isso não tem justificativa
em lugar nenhum do mundo! Só no Brasil. Porque temos um
presidente covarde, que fica na dependência de contemplar
uma bancada ruralista a troco de alguns votos.
Márcio Carvalho - Você acha que
é só a falta de vontade política?
Lula - Eu acho! Veja, não se pode
alegar que é problema de dinheiro. Porque um governo que
tem a insensatez de gastar 5 bilhões e 800 milhões
de reais para sanear o Banestado, no Paraná, para vendê-lo
por 1 bilhão e 650 milhões, sabendo que os 300 por
cento que eles pagaram de ágio vão ser descontados
no imposto de renda, e que o banco tem para receber de títulos
1 bilhão e 750 milhões de crédito, então
isso significa que o Itaú ganhou de graça esse banco!
Um governo que libera só pra uma Volkswagen, do dinheiro
do BNDES, do dinheiro do FAT, 800 milhões pra ela fazer
uma reestruturação produtiva, não pode alegar
que não tem dinheiro! Só pode ser duas coisas. Primeiro:
o Fernando Henrique Cardoso não acredita na agricultura
como um dos pilares do desenvolvimento do Brasil. A cabeça
da equipe econômica não acredita numa coisa chamada
pequena propriedade. A cabeça do Malan funciona assim:
o Brasil tem que ter um modelo agrícola de grandes extensões
de terra, produção em escala e totalmente mecanizada.
Essa é a cabeça dele! Esse negócio de pequena
propriedade é pra comunista! É exatamente isso que
eles pensam! Essa é uma possibilidade. A outra é
a falta de determinação política: "Eu vou
fazer!" Eles preferem viver de mentiras. O Fernando Henrique Cardoso
confunde a regularização de título de terra
com assentamento. Ele pega a pessoa que está há
cinqüenta anos na terra, dá o título e fala:
"Estou assentando". Não está assentando, não!
Está apenas reconhecendo. Assentar é pegar quem
está fora e colocar dentro para trabalhar! E por uma razão
simples, gente. Tenho dito isso em todos os debates: a grande
coisa que o Movimento Sem Terra faz hoje, no Brasil, não
é a luta pela reforma agrária, porque ela existe
antes, durante e vai existir depois. O grande feito do Movimento
Sem Terra é recuperar o sentido da cidadania de pessoas
que estavam a 1 milímetro de virar párias da sociedade.
O governo deveria falar: "Puxa vida, se eles têm capacidade
de fazer isso, vou incentivar pra gente poder resolver um dos
graves problemas deste país, que é nego dormindo
embaixo de ponte, nego repartindo o metro quadrado com rato, nego
morrendo de fome".
José Arbex Jr. - De certa forma, o
MST está conseguindo dar visibilidade e voz a um setor
da sociedade que o PT nunca atingiu. O PT atingiu os trabalhadores
assalariados, que têm carteira de trabalho, têm endereço,
em geral almoçam e jantam todo dia etc. O MST, não.
Ele está atingindo uma parcela da sociedade que muitas
vezes não tem moradia, não tem nem o que comer.
Você não acha que isso é que está assustando
as elites, o fato de que, pela primeira vez na história
do Brasil, pessoas que nunca tiveram voz nem visibilidade estão
tendo agora através do MST?
Lula - Veja, eu acho que muita coisa
assusta a elite brasileira. Não é só o Movimento
Sem Terra, você tem o Movimento Sem Teto aqui em São
Paulo...
José Arbex Jr. - Que é inspirado
no Sem Terra.
Lula - As ocupações de
casas foram muito mais fortes na década de 70. Conjuntos
inteiros do BNH foram invadidos pelo país afora, e as pessoas
conseguiram, com muita resistência, ter casa própria!
Você vai em Santo André, São Bernardo, você
vai na Bahia, vai encontrar conjuntos de milhares de casas que
foram invadidas e ocupadas por trabalhadores. Já tivemos
na década de 70 o movimento de saúde nas grandes
cidades, era uma coisa muito séria...
Wagner Nabuco - A luta contra a carestia...
Lula - Também. A história
do Brasil é cheia de movimentos dessa grandeza. E esse
é um desafio do PT. Tenho dito nos debates do PT que a
base originária do partido está diminuta, hoje.
Por quê? Porque o PT nasceu da chamada sociedade organizada,
das diferentes categorias de funcionalismo público, trabalhadores
metalúrgicos, gráficos, químicos, dessa gente
que, na medida em que tem uma crise econômica, está
hoje menor o mercado de trabalho está menor do que
já foi, muita gente que era metalúrgico hoje é
lúmpen, já teve carteira profissional assinada e
está dormindo embaixo de ponte ou trabalhando de camelô.
Isso significa que o PT tem dois desafios importantes para o próximo
período: um é manter uma política de convencimento
dos setores médios da sociedade de que eles têm que
ser aliados dessa gente que ainda não conquistou a cidadania
neste país. E o outro é tentar mostrar pra essa
gente que está a 1 milímetro de cair na mendicância
que nós poderemos ser um instrumento político para
mudar. É importante lembrar que é essa parte da
sociedade a mais vulnerável ao populismo, à política
do "é dando que se recebe", da compra de votos em época
de eleição, porque muitas vezes não é
só o discurso. Muitas vezes, você faz o discurso
ideológico e vira as costas, o outro chega com uma cesta
básica e a necessidade é de tal ordem que a pessoa,
mesmo tendo orgulho, tendo consciência, sabe que precisa
comer, dar comida pro filho. O nosso discurso, o discurso dos
sem-terra, o discurso da CUT atingem uma parte minoritária.
A grande massa de deserdados não está organizada
nos sem-terra, no PT nem na CUT. Ela estava muito mais ligada
com setores da Igreja quando tinha a Igreja progressista mais
atuante. Na medida em que o papa tratou de fazer um trabalho de
reduzir a potência da chamada Igreja progressista no Brasil,
esse setor ficou mais vulnerável. Esse é o desafio,
e não é de hoje a minha preocupação.
Antes de Paulo Freire morrer, eu tinha feito uma reunião
com ele pra gente juntar um grupo de educadores e começar
a pensar uma nova metodologia de discurso, para ver se conseguíamos
trazer essa gente. O Aziz, que viajou comigo nas caravanas, viu
em tantos lugares deste país gente faminta com a mesma
vontade de brigar que um metalúrgico com vinte greves nas
costas, ou como um sem-terra na beira do acampamento. Tem uma
grandeza de organização que ainda não foi
juntada. Porque também não é fácil
você dar o salto da luta específica para a política.
Muita gente pensa que é automático, eu invado uma
terra hoje, já estou politizado pra votar. Não.
É um processo entre a luta específica e o passo
político. A pessoa que faz uma greve ou ocupa uma terra
não está necessariamente, com clareza política,
às vezes vota no prefeito do PFL. E a gente não
deve incriminar, deve saber que o politizou para aquela ação
específica, mas não para outras coisas. Tenho uma
tese comigo que, se estiver errada, alguém vai escrever
que está errada. Muita gente do PT fala: precisamos ganhar
setores médios. Eu acho que nos setores médios até
estamos de razoáveis pra bons, porque os setores médios
já estão mais ou menos definidos ideologicamente,
são do nosso lado, ou do PC do B, do PSB, do PV, do PSTU,
ou do PSDB. Agora, essa outra parte não está. Por
isso a direita ganha nos grotões, exatamente onde predomina
a maioria. Tenho uma vontade maluca de um dia ir numa cidade chamada
Teotônio Vilela, em Alagoas o Collor teve 90 por
cento dos votos lá! Quero saber o que justifica um povo
daqueles votar no Collor! Então, o desafio nosso é
esse. Daqui pra frente vamos ter que trabalhar com muito carinho,
tentar fazer com que essa gente deixe de ser marionete na mão
de um Maluf. Não é possível o Maluf fazer
campanha dizendo que é o candidato dos pobres da Zona Leste!
Wagner Nabuco - Em 1978, para eleição
de senador, havia três candidatos: Montoro e Fernando Henrique
pelo PMDB e o Lembo pela Arena. Você fez a campanha do Fernando
Henrique. Eu votei nele e fiz campanha também. Ele enganava
já naquele período, ou mudou, gostou do poder?
Lula - Esse é o tipo de coisa
de que não tenho arrependimento. Porque a gente tem que
analisar a história política pelo momento em que
a história se deu. Votar num Quércia, em 1974, era
votar num cara que se opunha ao Carvalho Pinto, que era o representante
do regime militar. Nestes dias fui a Belém do Pará
e disse para os companheiros de Belém: "Votar no Jáder
Barbalho em 1980 era a única opção que a
esquerda tinha contra o Jarbas Passarinho". Então, não
tenho nenhum arrependimento de ter votado em Fernando Henrique
Cardoso em 1978. Continuo com o mesmo pensamento, ele é
que mudou. E quando é que ele mudou? Quando percebeu que
era possível chegar ao Senado. Ele esteve para vir para
o PT, mas depois percebeu que poderia ir para o Senado porque
o Montoro ia ser eleito governador (FHC era suplente de Montoro)
e pensou: "Bom, entre fazer essa opção e ficar,
vou ficar". Ficou do lado de lá e só vem piorando.
Na minha opinião, tem o dedo do Fernando Henrique Cardoso
na votação das Diretas, ele era contra aprovar as
eleições diretas naquele momento porque o candidato
para presidente da República era o Ulysses Guimarães
e não o Tancredo Neves. Eles começaram a inventar
que o Ulysses não seria digerido pelo regime militar. Que
era preciso alguém que tivesse maior condescendência,
que tivesse maior capacidade de articulação, de
perdão! E articularam o fim das Diretas, mudaram o Diretas
Já! para Mudanças Já!
Fernando do Valle - "Eles" quem?
Lula - Fernando Henrique Cardoso, Fernando
Lyra, uma turma que mudou. Para pior, lamento profundamente. Eu
achava o Montoro muito populista, e quis apostar num cara novo
Fernando Henrique Cardoso chegou com uma imagem de intelectual
progressista, eu falava: "Vamos apostar em alguém novo".
E não deu certo, paciência.
Fernando do Valle - E hoje você conversa com ele?
Lula - Não. Não tem conversa
com ele. O Fernando Henrique Cardoso, dia 6 de dezembro de 1998,
telefonou cinco vezes pra minha casa, querendo conversar comigo.
Depois das eleições. Eu fui falar com o Fernando
Henrique Cardoso achando que ele inha alguma coisa séria
pra conversar comigo, porque não é normal, em nenhum
lugar do mundo, o presidente da República ligar cinco vezes
querendo conversar com quem tinha acabado de sair de uma eleição
disputando com ele. Fui conversar, até sem pedir licença
pra direção do partido, por quê? Porque eu
estava em Brasília, toca o telefone, é o Fernando
Henrique Cardoso: "Preciso conversar com você hoje". Falei:
"Presidente, não posso, que estou numa reunião da
bancada". Ele falou: "Se você não puder vir hoje,
amanhã de manhã, eu mando o carro buscar, você
vem tomar café comigo. Preciso conversar com você!"
Pensei: alguma coisa grave está acontecendo neste país!
Telefonei para o companheiro Cristóvam Buarque, ele foi
junto comigo, chego lá, percebo que ele não queria
conversar. A impressão foi que o Fernando Henrique Cardoso
me chamou para conversar porque pensava que eu sabia mais sobre
o dossiê das Ilhas Caymã do que eu sabia.
Sérgio de Souza - Ele chegou a tocar
nisso?
Lula - Chegou. Saí com a impressão
disso.
Sérgio de Souza - Como ele perguntou?
Lula - Primeiro, ele me agradeceu. Porque,
veja, nós não podíamos ter feito aquela denúncia,
já fui vítima de denúncia e nunca vou jogar
fora uma coisa que trago do berço, ou seja, aquilo que
não quero que façam comigo não faço
com os outros. Era um dossiê que tinha me chegado primeiro,
a história vocês já conhecem, a idéia
chegou pelo Caio Fábio, primeiro a idéia de vender.
Nós não compramos informações, não
faz parte da formação do PT. Pedimos pro Brizola
dar uma estudada com o Nilo Batista. Eles já tinham dado
a impressão de que não era bom, aí estou
fazendo um comício em Brasília e recebo um telefonema
do Gushiken: "O Lafaiete Coutinho precisa conversar com você,
a pedido do Maluf". Faltavam três dias para as eleições!
"E é muito urgente!" Eu falei: "Gushiken, você vai
estar junto?" "Vou." "Então manda me esperar no hangar
da TAM." Aí cheguei lá: "Olha, tem uma denúncia
muito séria contra o Fernando Henrique Cardoso, envolve
360 milhões de dólares no exterior, numa conta do
Mário Covas, do José Serra, do Fernando Henrique
Cardoso e do Sérgio Mota, e é muito sério".
Falei: "E os documentos?" "Os documentos só posso dar se
vocês se comprometerem a denunciar." Falei: "Mas, escuta
aqui, por que nós, do PT, e não vocês mesmos
denunciarem?" E ele: "Se a denúncia for feita pelo Paulo,
ninguém acredita, então tem que ser feita por alguém
que tenha credibilidade". Obviamente que, se você tem uma
denúncia desse porte, eu não vacilaria em denunciar,
mas também jamais denunciaria um dia antes das eleições.
E espero morrer sem ter prestado um favor ao Maluf! Veja, o Mário
Covas é uma pessoa com quem eu tenho uma boa relação.
É um homem que aprendi a respeitar na Constituinte, e antes
dela, um homem que teve uma vivência na luta democrática
muito forte. E eu não ia fazer isso. De qualquer forma,
eu disse: "Vamos estudar, vamos entregar isso na mão de
um advogado insuspeito, vamos entregar nas mãos do Márcio
Tomás Bastos". O Márcio Tomás Bastos leu
e falou: "Tem indício, mas não tem prova. Fazer
uma denúncia dessas é grave se você não
tem dados para provar". Logo em seguida recebo um telefonema da
Marta, que tinha sido procurada pelas duas filhas do Maluf,
com a mesma preocupação. Aí não
fizemos a denúncia, o Márcio Tomás Bastos
e a Marta resolveram contar pro Serra, e aí passaram as
eleições, o Fernando Henrique Cardoso me chamou,
fui lá, e achei que era um pouco isso que ele estava querendo
saber. Comecei a discutir com ele a questão da reforma
agrária, a da Previdência Social, a do acordo com
o FMI, e ele começava a dizer que eu estava enganado, que
ele estava certo, e eu falei: "Fernando, então não
vamos mais conversar sobre política, vamos conversar sobre
futebol, que é melhor". Aí acabou a conversa.
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