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Polícia de Verdade


 
É preciso muito peito para fazer tudo o que este homem, um funcionário público, fez. Ele é polícia federal, liderança, presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal e conselheiro da federação deles. Teve muito peito para dar esta entrevista também. Possui uma noção de cidadania rara de encontrar até em chefes de Estado. Que, aliás, considera funcionários públicos como ele. Daí o poder irresistível de falar tudo o que pensa, e parte de tudo o que sabe sobre todos os escalões da República. Sem medo de ser honesto, faz revelações que tornam esta entrevista, mais que explosiva, histórica.

Sérgio de Souza - Você podia contar como chegou na Polícia Federal?

Francisco Carlos Garisto - Se eu não fosse polícia, seria polícia mesmo. Coisa de aptidão. Desde menino queria ser polícia. E na repressão ao entorpecente. Porque fui criado em um bairro aqui em São Paulo, o Tucuruvi, onde, por causa da droga, o esquadrão da morte da época matou 90 por cento dos meus companheiros de rua, eram uma bandidagem danada. Tive que trabalhar desde cedo, porque era pobre e tinha que ajudar a família, e me sentia muito mais do lado da polícia, achando que os meus companheiros de rua estavam todos errados. Daí fui fazer o Exército e na época havia uma repressão política desgraçada, foi em 1971. Mortes, desaparecimento de pessoas, aí me convidaram para trabalhar na Oban, Operação Bandeirante, que era no DOI-Codi. Não sei por que cargas-d’água, falei: "Não vou mexer com esse negócio, não".

Marina Amaral - Quem ia para a Operação Bandeirante tinha algum privilégio?

Garisto - Tinha. Primeiro, que você deixava a farda, e deixava de ser raso. Depois, que, você falando para um garoto de dezoito anos que ele é o James Bond, fica uma coisa muito interessante. Que não vai mais usar farda, vai usar uma 45 na cinta e vai ser agente infiltrado, muitos desses meninos foram usados para praticar um monte de imbecilidades. Existiam os repressores profissionais, que faziam escola no Panamá, nos Estados Unidos, mas tinha os meninos do Exército, da PM, que eles pegavam na formação de oficiais, dezenove anos, vinte anos, e jogavam lá. E a esquerda, para eles, eram assaltantes de banco, criminosos que estavam ameaçando o país, queriam implantar o comunismo. Eu não quis ir, queria sair do Exército, entrar na Polícia Federal.

Marina Amaral - Por que a Polícia Federal?

Garisto - Porque eu achava que ela tinha uma estrutura constitucional melhor, de investigação, que você poderia se desenvolver mais. Então deixei o Exército e fui prestar concurso para a Polícia Federal. Eram mais de quatrocentos disputando, fiquei em primeiro lugar e só o primeiro lugar conseguia vaga em São Paulo, o resto ia para as fronteiras. Entrei em 1977. Com cinco dias de polícia, fui repreendido, um tipo de punição porque não quis ir nas bancas de jornal apreender A Hora do Povo (jornal do MR-8, uma facção de esquerda). Vinham ordens do Armando Falcão (ministro da Justiça) para apreender o jornal porque tinha falado mal do presidente, do dinheiro do FMI, essas coisas. É que havia censura oficial. Os censores ficavam aqui na sua redação: "Isto pode, isto não pode". O Estadão metia receita de bolo, aquelas coisas. Fui punido mas logo depois consegui ir trabalhar no entorpecentes. Quando fiz um ano de polícia, me convidaram para fazer uma infiltração em Cuiabá, me passar por vendedor de éter e acetona para os traficantes — para fazer a cocaína, eles precisam de éter e acetona. E, vendendo os dois produtos, eu ia acabar descobrindo o laboratório. Lá fui eu pra Cuiabá, sem estrutura nenhuma, a Polícia Federal não tinha verbas etc. Mas troquei de identidade e tudo.

Mylton Severiano - Foi sozinho?

Garisto - Você não pode ir acompanhado. Fui com um informante, que levei só para ele me apresentar o contato lá. Aí montei uma empresa em São Paulo para comprar éter e acetona da Rhodia e levava para Cuiabá. Com isso, acabei chegando até a direção do Cartel de Medellín. Fiz carreira. (risos) Aliás, é muito mais fácil fazer carreira lá, porque existe uma ética, existe compreensão, eles valorizam quem trabalha, o puxa-saco não tem vez. Costumo falar que, se a polícia tivesse a estrutura do Cartel de Medellín, o Cartel de Medellín não existiria. Lá, se você dá lucro em uma operação, fica bem-visto; aqui, os colegas já querem te derrubar porque você vai chegar a chefe primeiro que eles.

Marina Amaral - A polícia tem mesmo interesse em chegar nos cabeças do tráfico?

Garisto - Tem, mas é difícil chegar. Ninguém quer falar isso, mas a diferença do Brasil para a Colômbia hoje é só a violência entre traficantes. Porque, de comando e controle do narcotráfico, é a mesma coisa. Taí a CPI provando o que estou falando, existe um crime organizado, um narcotráfico estruturado, que envolve deputados, senadores e outras coisas, só que não se pode falar sobre isso, a Polícia Federal é proibida de dar entrevista. Tenho facilidade porque estou na Federação Nacional dos Policiais Federais licenciado até 2002. Depois de 2002, se voltar para a ativa da polícia estou ferrado, porque eles não querem que fale isso, comparar o Brasil com a Colômbia "é antidemocrático". Mas, se você não falar, não se encara o problema. Você ouve meu pai: "Puxa, mas deputado envolvido?" Tem um monte, o Jabes Rabello, de Rondônia, aquele que foi cassado, por exemplo, era só uma ponta; o senador Hernandes Amorim foi suspeito de envolvimento, aí fica na suspeita, mas continua senador. Essas investigações da CPI em Campinas, Piauí, Maranhão, se fizer um levantamento, em qualquer Estado dá igual.

Wagner Nabuco - Quantos homens tem hoje a Polícia Federal?

Garisto - Temos 7.000 homens. Desses, 3.000 são operacionais. Quatro mil estão na burocracia. Às vezes, burocracias necessárias, como o Serviço de Inteligência, que alimenta a operação. Temos região de fronteira com dois agentes, os traficantes passam de AR-15 dando risada e dando tchau. Verdade. Quem já esteve lá sabe que estou falando a verdade. Quando estive em Ponta Porã fazendo um serviço, vi uns caras passar e disse pros meus colegas: "Aqueles ali são suspeitos". E eles: "Não olha, não, que aqueles caras são muambeiros". "Como, não olha?" "Não olha porque eles vão marcar a gente aqui, depois você vai embora e a gente fica." É assim, porque a mãe do camarada e a irmã trabalhavam no banco em que o gerente era irmão do traficante. O cara da Receita é primo do contrabandista.

Sérgio de Souza - Mas como foi a infiltração, a história de Cuiabá?

Garisto - Era uma investigação em cima de um traficante chamado Totó Garcia, o maior do Brasil na época. Só para registrar: esse trabalho é que deu origem à lei que proíbe o comércio de éter e acetona. Bom, em Cuiabá, me apresentaram um subalterno dele, chamado Pina.

Verena Glass - Quem te apresentou?

Garisto - O informante que levei e que depois eu não quis mais comigo, fiquei com medo que ele pudesse virar pro lado dos caras de novo. Então fui apresentado para esse Pina. Primeiro, eles querem testá-lo, têm gente na própria Polícia Federal, naquela época tinham, hoje não sei, mas na época eu até conhecia os agentes que trabalhavam para eles. Também por isso eu tinha identidade falsa, CPF falso, o meu era um caminhão apreendido mas com documento quente, que a gente preencheu no Detran, com autorização judicial. Não podia ter um furo. O repuxo do serviço de infiltração é o pior que existe. Você fica nervoso, dorme com o olho aberto.

Wagner Nabuco - Eles têm um serviço de inteligência próprio?

Garisto - O do Cartel de Medellín era perfeito. São profissionais, tinham até pessoal da DEA (Drug Enforcement Administration) trabalhando para eles. Fui apresentado para um agente da DEA na fazenda do traficante. Pensei: "Tô ferrado". E tinha mais dois colegas da Polícia Federal de Cuiabá, que levavam informações para eles e foram lá me checar. E se um fosse da minha turma da academia?

Marina Amaral - Eles também estavam infiltrados?

Garisto - Não, eram servidores da Polícia Federal de Cuiabá e levavam grana para dar informações para os traficantes.

Cláudio Júlio Tognolli - Como começou sua "carreira" no Cartel de Medellín?

Garisto - Com uma entrega de éter e acetona na Bolívia. Normalmente é o primeiro teste, queriam ver se eu tinha coragem de ir à Bolívia.

João de Barros - Você tinha uma empresa em São Paulo?

Garisto - Tinha, com filial em Campo Grande e Cuiabá, legalizada, quente. Naquela época não era proibida a venda de éter e acetona. Eles não tinham esse esquema, eu que montei. Aí passei a ser o rei do éter e acetona. Porque eles compravam de mim com toda a garantia. Antes, eles mandavam intermediários aqui buscar. A gente ficava de olho e descobria.

Wagner Nabuco - Como você operava?

Garisto - Comprava o éter e a acetona na Rhodia ou na Del Nero, que é uma distribuidora, e mandava de trem para Campo Grande. Lá, um caminhão meu pegava os tambores e levava para Cuiabá. Daí tínhamos que entregar onde eles mandavam: Alto Paraguai, Diamantina, Acorizal, aquelas cidades pequenininhas onde eles têm os garimpos com os campos de pouso para os Cessna. Eles tiram o banco traseiro do Cessna e colocam um tambor de éter e um de acetona, que eles chamam de "casal", amarram aquilo e levam pro traficante, só aí que a mercadoria se torna ilegal. Então, o cara me convidou pra ir junto...

João de Barros — Para onde?

Garisto - Uma cidadezinha boliviana chamada Porto Soares, e depois uma outra, São Matias, que é mais pro lado de Cáceres.

João de Barros - E ali são bolivianos ou brasileiros?

Garisto - No refino, normalmente são bolivianos.

Marina Amaral - Você acompanhava a volta da droga para o Brasil?

Garisto - Eu não mexia com droga, foi uma condição que coloquei. Que é uma coisa também que você ganha a confiança deles, por não demonstrar interesse. O meu objetivo era entregar o éter e a acetona até descobrir o laboratório de uma tal de família Herrera. Era interesse do governo americano, esse trabalho todo que fiz. Coisa que combati muito tempo, porque o americano sempre deu dinheiro, tudo pra fazer serviço da droga que vai para eles, a droga que vem pros teus filhos aqui não lhes interessa. E a gente, funcionários da Polícia Federal, trabalhando pros americanos, fazendo o que eles bem entendem...

Sérgio de Souza - Ordens diretas?

Garisto - Ordem da Polícia Federal, mas eles praticamente comandavam a Polícia Federal na época.

Cláudio Júlio Tognolli - Havia um ponto de encontro com eles na rua Marquês de Paranaguá, não é?

Garisto - Do consulado americano. Hoje funciona dentro do consulado.

Wagner Nabuco - Havia um contato formal? Por exemplo: o diretor geral da Polícia Federal se reúne com o diretor...

Garisto - Com o diretor da DEA. Lá fora se estabelece isso.

Wagner Nabuco - Vira documento?

Garisto - Vira documento. Não falando que a gente tem que obedecer, claro. Hoje, a Polícia Federal tem uma estrutura muito melhor, mas naquela época a estrutura era miserável. Então, eles chegavam aqui com 1 milhão de dólares e controlavam a Polícia Federal. Traziam a informação de fora, quem era o grande traficante, traziam informantes da França que iam trabalhar com você e você simplesmente executava o serviço que teria que ser deles. Aí, pô, eu não sou da ONU, sou da Polícia Federal do Brasil, tenho que coibir o tráfico primeiro aqui, mas não era isso que a DEA queria. Esse serviço que fiz pra pegarem a família Herrera é porque ela tinha causado a morte de um agente da DEA no México e eles queriam o troco.

João de Barros - Como é que você repassava para a Polícia Federal as informações que obtinha?

Garisto - Eu não precisava passar muita informação, porque o objetivo era a família Herrera. Ficava três ou quatro meses sem falar com ninguém. Porque, se você faz um contato e dá um furo, acabou tudo.

Verena Glass - E o dinheiro que você fez com a venda do éter?

Garisto - Devolvi para a Polícia Federal. Hoje, me sinto o maior otário do mundo.(risos) Estou sendo sincero, se fosse hoje não sei se faria a mesma coisa. No primeiro serviço lucrei 100.000 dólares. Pra entregar trinta tambores.

Verena Glass - O capital inicial era de quem?

Garisto - Era da DEA, que dava para a Polícia Federal. Mas, voltando: aí marquei o encontro com o Totó Garcia no aeroporto de Cuiabá, e me aparece um senhor muito bem vestido que pergunta o que é que eu queria com o Totó Garcia, que era o chefe. Eu falei: "Tenho comércio com ele, trabalho com produtos químicos". E o homem disse: "Sou tio dele e vim aqui pra saber... Você tem documento aí?" Era simplesmente o senador Benedito Canelas, do Mato Grosso. Um senador da República "funcionário" do Totó.

Verena Glass - Qual o ano?

Garisto - 1978.

Marina Amaral - Ele era da Arena?

Garisto - Era, daqueles indicadões, biônico. Aí fiz o relatório informando que fiquei com medo, pois senador tem como obter informações de várias coisas. Mas acabei fazendo amizade com ele, que gostou de mim. Dali o Totó fez amizade comigo e comecei a desenvolver o trabalho.

Marina Amaral - Que tipo de pessoa ele era, tinha outras atividades?

Garisto - Era piloto e prestava serviço de táxi aéreo. Bom, fui entregando, entregando e uma hora ele disse: "Agora vamos parar com esse amadorismo, vou apresentar você pros Herrera". Aí me levaram numa fazenda, saindo da fronteira do Brasil onde nasce o rio Paraguai. Era ali que eles tinham um garimpo e, passando um pouco, já é Bolívia. A fazenda era no meio do mato, não tinha nada e eu pensei: "Onde é que essa desgraça vai pousar?" Aí aparece uma pista de pouso no meio do mato, asfaltada, com pino de luz, parecendo um aeroporto de Ribeirão Preto. (risos). Eu pensei: "Isso aqui é uma base militar". De cima achei que fosse. Vi uns caras camuflados, de AR-15. Era a fazenda dos Herrera. A família estava na piscina, igual a esses filmes de cinema, no meio do mato e com todo o conforto, Lear-Jet dentro de um hangar. Os Herrera controlavam quase todo o exército boliviano...

Marina Amaral - Mas o que é o "garimpo"?

Garisto — Garimpo mesmo. Eles usavam pra lavar dinheiro, no caso era garimpo de diamante. Perguntei depois pro Totó: "Como vocês fazem pra lavar dinheiro?" "A gente encontra uma pedra no meu garimpo, que é registrado, inclusive a pedra já vem lapidada." (risos) Então, na fazenda me apresentaram para o chefão, o Herrera, dizendo que eu era o Carlinhos que tinha revolucionado a entrega de éter e acetona, que era o calo deles, até hoje é o calo deles. Eles têm dois calos: lavagem do dinheiro e produto químico.

Marina Amaral - Se fiscalizar o garimpo, a lavagem de dinheiro e a venda de acetona se restringem muito?

Garisto - Hoje eles não lavam mais assim, hoje tem os bancos, as grandes instituições financeiras estão lavando dinheiro, que é uma coisa mais moderna, já é coisa de CPI, né? Hoje, a lavagem é quase aberta, não é? Temos o Uruguai aqui, que não tem nenhum problema. Conclusão, ganhei a confiança da família, que era o que a DEA queria. Estava chegando perto de terminar meu serviço. Na última entrega, os americanos, como sempre, de Hollywood, me passaram os tambores com bip dentro, um navegador com uma bateria daquelas da NASA que dura não sei quanto tempo, e soldaram o fundo, ficava um pequeno fundo falso. Trouxeram dez tambores desses dos Estados Unidos e aí levamos na Rhodia para encher.

"Os bancos, as grandes instituições financeiras estão lavando dinheiro, é uma coisa mais moderna. Hoje, a lavagem é quase aberta, não é? Temos o Uruguai aqui, que não tem nenhum problema."

Marina Amaral - A Rhodia sabia?

Garisto - Não, cheguei lá e falei que a gente queria reaproveitar aqueles tambores, e levei os tambores cheios.

Mylton Severiano - E você sabia de tudo?

Garisto - Sabia. Inclusive tem um pelinho assim, um fiozinho bem fininho que era a antena, e tinha que passar barro pro pessoal não ver. Aí fui entregar os tambores, havia até a comemoração de aniversário de um cara, uma festa desgraçada, tinha general do exército boliviano pra tudo que era lado. Aí um cara falou: "Gostei do teu esquema". E me levou num galpão, metade desta sala, cheio de dinheiro, vocês já assistiram à Máquina Mortífera 2, que tem um container cheio de grana, tudo dólar? Aí o cara pegou 50.000 dólares e me deu: "Isso aqui é pra você, estamos contentes, não faltou mais éter nem acetona, a produção tá a todo vapor".

Marina Amaral - Nem essa gratificação você pegou?

Garisto - Não peguei, você acredita? Hoje pegaria. (risos) Bom, aí seriam entregues os tambores e a operação do flagrante tinha que contar com uma equipe especial do exército boliviano, Os Leopardos, que existe lá, mas já mataram quase todos. A Lidia Gueiler era presidente da República na época, 1979, e criou esse grupo de elite, por interferência dos Estados Unidos, pra combater o tráfico. Eram limpos mesmo esses Leopardos, nacionalistas fanáticos, acreditavam que tinham que limpar o país da droga e tal. Eles auxiliaram a DEA a localizar os tambores de fundo falso. Com aqueles mecanismos dos americanos, satélite e tudo, eles descobriram as fazendas todas.

Marina Amaral - Foram presos os Herrera?

Garisto - Foi todo mundo preso e foram toneladas de cocaína, vários aviões, tambores de éter e acetona, vários milhões de dólares; descobriram as fazendas e os laboratórios. Porque cada tambor daqueles era levado para um canto.

Cláudio Júlio Tognolli - Logo em seguida veio a preparação do golpe contra a Lidia Gueiler.

Garisto - Por causa da prisão do Herrera é que anteciparam o golpe. Aquela vez que eu estava na fazenda eles já estavam bolando o golpe. O García Meza estava lá, eu não sabia que era ele. Um tempo depois, abro uma Veja e está lá: o comandante do exército boliviano veio ao Brasil para uma operação conjunta contra as drogas na fronteira. Olhei assim e: "Pô, esse cara estava lá na fazenda do Herrera".. Mandei um relatório pra Brasília, cancelaram a participação nossa na operação final por causa disso.

Sérgio de Souza - E o que aconteceu com a família Herrera?

Garisto - A família Herrera ficou presa três meses, aí deram o golpe na Lidia Gueiler e acabou tudo. Ela se asilou, os Herrera seriam mortos depois, na guerra com o Pablo Escobar. A CIA armou o golpe, e quem os militares botaram no lugar de Lidia Gueiler? O García Meza! (Que cairia depois de um ano, acusado de narcotráfico).

Mylton Severiano - Mas a CIA não sabia que ele era do tráfico?

Garisto - O governo americano incentivou o golpe para botar o García Meza mesmo sabendo que ele era envolvido com droga, porque a Lidia Gueiler estava querendo instalar um socialismo independente, querendo encarar os americanos. Tomamos uma revolução aqui por causa disso também. Todo mundo toma. E se não cuidar toma de novo. Não acabou essa ameaça.

Mylton Severiano - E essa criticada Operação Mandacaru, em Pernambuco?

Garisto - Isso é burrice, vaidade, megalomania de um general chamado Alberto Cardoso. A maioria dos militares foi contra. Ele está expondo o Exército ao ridículo. Está querendo dar uma importância ao projeto que o Exército não deu. É como a CIA. Antigamente, a CIA mexia em quê? Rússia, bomba atômica, foguete. Caiu o Muro de Berlim, acabou a guerra fria, e você precisa dar utilidade ao aparato. Existe hoje nos Estados Unidos uma guerra entre a CIA e a DEA, pra quê? Para investigar o tráfico. É que aqui tudo acontece sempre atrasado, a Abin que foi criada agora, a Agência Brasileira de Inteligência, é um SNI com um pouquinho de chantilly em volta. Vi como é que funciona tudo. Foi criada depois de um fracasso, o do grampo do BNDES. Vocês acompanharam. Se fosse um país sério, poderia criar daqui a um ano, com outro nome, porque foram os agentes temporários da Abin que fizeram aquela desgraça toda. Eles se juntaram com ex-agentes federais e aquele grampo, na minha opinião, foi feito a mando do alto, havia medo de que algo nas privatizações desse errado, era muito dinheiro envolvido em vésperas de eleição. E o general Cardoso mais uma vez pegou os arapongas dele e disse: "Acompanha esse troço". E eles resolveram grampear. Tudo com medo da eleição. Como sabem da existência de um monte de aproveitadores e corruptos, tinham medo de uma roubalheira nas privatizações. Aí descobriram o grampo com um monte de conversas de ministro e altos funcionários interferindo no processo, ajudando uns e prejudicando outros, até o presidente FHC caiu no grampo. Aí deu bode, "não foi ninguém".. O general vem e diz que alguém deixou embaixo da ponte as fitas que conseguiu. Aí descobrem que o chefe da Abin do Rio de Janeiro é que mandou fazer o grampo, aparece o Telmo, que foi da Polícia Federal, que é um sujeito demitido da polícia por corrupção, metido com o pessoal remanescente do SNI, as viúvas do golpe, que estão perdidas por aí. E não estão mortos, não, entendeu?

Marina Amaral - E onde estão esses militares?

Garisto - A maioria foi pra reserva, se aposentou, mas soube que alguns estão sendo chamados para a Abin. Agora, aqueles que eram marcados da tortura, que estão nos livros dos padres, esses não voltam, porque senão vai dar zica. Mas o pessoalzinho que não foi identificado no livro de ninguém volta. Eles forçaram para botar o Campelo na Federal. Aí alguém lembrou que ele torturou o padre". "Então vamos ver se ele torturou o padre." E deu aquele bode todo.

João de Barros — Hoje, o diretor geral da Federal é o...

Garisto - Agílio Monteiro Filho.

João de Barros - Ele responde pra quem?

Garisto - Ele responde ao Ministério da Justiça. Em tese, porque está lá o general Cardoso, da presidência da República, fungando na orelha dele. O Chelloti caiu, tenho uma amizade com o Chelloti muito grande. Foi ele que começou essa reforma da Polícia Federal, forte, organizada. Só que o Chelloti se deixou envolver por uma AIDS que existe no serviço público, que se chama vaidade, "posso chegar aqui, posso chegar ali, posso até ser senador". Aí veio aquela história do grampo que fizeram no Júlio César, o assessor do presidente da República. Uma fita que envolvia o presidente. Ficaram três anos investigando se o Chelloti tinha mesmo a fita para poder tirá-lo e, quando descobriram que não tinha, tiraram.

Sérgio de Souza - E não tinha fita mesmo?

Garisto - Não tinha a que eles esperavam. Tinha a fita, mas eram coisas pessoais do presidente, coisas que todos temos, às vezes. Eram coisas que iam causar prejuízo para o presidente na parte moral, mas não derrubavam ninguém. E eles queriam supor que o presidente teria sido envolvido naquela grana do Sivam. E aí entra o pessoal da Abin para querer saber o que eles pensavam que o Chelloti sabia.

Cláudio Júlio Tognolli - Houve toda aquela confusão, o Alberto Cardoso se metendo com a Polícia Federal e as fronteiras continuam um queijo suíço, não é?

Garisto - Continuam, claro, nas fronteiras poderia estar o efetivo do Exército. Entra em um quartel do Exército em lugares paradisíacos e vê o que eles estão fazendo. "Ah, o Garisto tem bronca do Exército." Não tenho bronca nenhuma, a única bronca que tenho é quando eles invadiram a Polícia Federal na greve, eu era o presidente do sindicato e da federação, estava comandando aquela greve e eles invadiram. Essa história é interessante pra vocês porque era golpe de Estado aquilo. Tenho provas de que era golpe de Estado.

"A Abin é um SNI com um pouquinho de chantilly. Criada depois de um fracasso, o do grampo do BNDES. Foram os agentes temporários da Abin que fizeram aquela desgraça toda."

João de Barros - Você estava falando, se for agora num quartel?

Garisto - Você vai pegar o pessoal jogando basquete, levando a mulher do coronel para o supermercado, os coronéis e generais jogando peteca. Não estou desmerecendo as Forças Armadas, eles é que estão se ferrando. Estão ganhando mal, estão usando equipamento todo enferrujado. Tem muita coisa errada como na Polícia Federal, por exemplo, você vê no aeroporto aquele bonitinho de terno, aquelas menininhas, alguém aqui acha que são da Polícia Federal? São funcionários da Protege, empresa de segurança. São contratados. Fui contra, entrei na Justiça, entrei na Procuradoria.

Wagner Nabuco - Como é que é? No aeroporto, aquele pessoal do raio X não é da Polícia Federal?

Garisto - Não, são da Protege, quando chefiei o aeroporto eram, hoje não sei se ela ganhou o contrato de novo. Se não for da Protege, é de outra empresa de segurança privada. E outra: eles custam para a nação mais do que um agente federal.

Wagner Nabuco - Também aquele que checa o nosso passaporte?

Garisto - Não, esse do guichê é da Polícia Federal. Para impedir a viagem de alguém, tem que ser funcionário competente. Mas aquele funcionário da empresa contratada, se achar cocaína, não pode fazer nada. Não pode abrir a mala de ninguém, é funcionário incompetente, por lei. É usurpação de função. Entrei na Justiça e não julgaram até hoje.

Wagner Nabuco - A maioria das empresas de segurança é dirigida por coronéis?

Garisto - Sim. Militares em geral ou delegados de polícia.

Wagner Nabuco - O pessoal da reserva.

Garisto - Do Exército, da Aeronáutica, da PM tem muito. Até o Fleury tinha empresa de segurança, o falecido.

Verena Glass - Depois do episódio na Bolívia, o que você fez?

Garisto - Vim trabalhar no entorpecentes, em São Paulo. Montamos um serviço de informação que não havia. De drogas, esse em que batalho. Quando o Galdino foi diretor, tentou criar um serviço desses, mas era um SNI disfarçado. Aí fui pra Folha denunciar, o Tognolli deu na Folha: "Galdino tenta recriar SNI".. Porque a Polícia Federal foi usada para esquentar as mortes, as roubalheiras e as falcatruas dos DOI-Codi da vida. Tinha que ter um cartório para esquentar aquilo. Não pode ter cartório no Exército, nem na Aeronáutica, nem na PM, então vamos criar um na Polícia Federal para fazer aquelas porcarias que terminaram na Justiça Militar. Só que, quando começaram a fazer o concurso público, o primeiro foi em 1973, começou a aparecer garoto de faculdade, tipo eu. Começamos a entrar na polícia. E a gente começou a falar: "Não, eu não vou fazer isso aí. Isso aí não tá legal, isso aí tá por fora". Aí começou a mesclar. Até que fundamos o sindicato, em 1988, e viramos a mesa: "Não vamos mais fazer esse troço, não tem mais informação, vamos denunciar e acabamos com todo mundo". Hoje, a Polícia Federal tem a credibilidade que tem aí.. Por quê?

Mylton Severiano - O que você acha da unificação da Polícia Militar com a Civil?

Garisto - Polícia Militar não existe. Ou é militar ou é polícia. A academia treina o cara para ser militar, uma estratégia de combate. O policial só tem que ter estratégia de combate para se salvar ou salvar a vida de terceiros, não para atacar.

Wagner Nabuco - Você acha que isso tem a ver com a concepção das PMs depois da Revolução de 1964?

Garisto - Claro. Toda polícia no Brasil tem o resquício da ditadura, porque os comandantes e os generais são os mesmos que eram tenentes naquela época e adoravam a revolução. Eram os meninos que torciam para que desse certo até hoje o Castelo Branco. Hoje, eles são os generais, os coronéis, a mentalidade é a mesma. Eles se moldaram porque deu bronca, começou a pintar livro, vocês sentaram o pau, quem é torturador não assume nada: "Então não sou mais, sou direitos humanos". Mas eles estão aí ainda. E muito arraigados na Polícia Federal, na Civil, a maioria dos delegados gerais de polícia é dessa época.

Cláudio Júlio Tognolli - E o Tuma? Você é o maior adversário que o Tuma teve. Qual foi o papel que vocês sempre apontaram como nefasto do Tuma na Polícia Federal?

Garisto - O Tuma, houve um tempo em que era uma figura pública intocável. Todo mundo acha que ele era o cão chupando manga e até acham que ele teve 5 milhões de votos pro Senado. Costumo falar que o Tuma é um fenômeno da mídia porque ele tinha um grupo que qualquer apreensãozinha ele já tinha os contatos. Ele tinha um projeto para a presidência da República, ou ainda tem. Era o projeto PR, Papa Romeu, eles têm escrito isso em dossiê, o Comando Delta é que interfere... se o Comando Delta sair na revista, cai a casa toda.

Sérgio de Souza - O que é o Comando Delta?

Garisto - O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que fez a reunião para escolher o Fernando Henrique, que já deve estar fazendo reunião para convidar outro.

João de Barros - Quem faz parte desse Comando?

Garisto - Ah, esse comando é florido! Não vou entrar nessa, que essa eu não posso.

Sérgio de Souza - Não precisa dizer os nomes, só os cargos, ou de que áreas.

Garisto - De todas. De médico a político, a tudo. Eles se reúnem e não existe uma coisa planejada. O camarada, por exemplo, é dono de uma escola e está faturando milhões, se entrar o Lula: "Aí ele vai me ferrar, estou ganhando 100 milhões por ano...".

Quase todos - Di Genio?

Garisto - Vocês que estão falando. Aí tem, por exemplo, um banqueiro — quero ver vocês falarem agora.

Wagner Nabuco - Tem muitos.

Garisto - Aí você tem o sistema bancário, por exemplo, e os caras faturando um bi por ano, você pega o último balanço do banco e ele passa a ser o primeiro — estou dando dica pra caramba —, aí você vê um cara desses correr risco de entrar um maluco qualquer na presidência da República; não é aquele conluio de conspiração para matar o Kennedy, mas é aquela coisa que você se organiza para manter o status quo: "Vem cá, meu irmão, o que vamos fazer?" E eles chamam de Comando Delta: "Não está na hora de reunir o Comando, não?" Então, eles chamam um, chamam o outro, se reúnem.

Wagner Nabuco - Tem um secretário?

Garisto - Não tem secretário, nem presidente, não é conspiração, é informal, cuidam dos interesses deles com as armas que têm: grana!

João de Barros - Mas é palaciano?

Garisto - É pré-palaciano. E depois levam o resultado. Então, você reúne a empreiteira que faturou não sei quantos milhões, o banqueiro que ganha não sei quantos milhões, e aí você tem que eleger uma pessoa para comandar os trabalhos, como na maçonaria tem o grão-mestre, aquelas coisas.

Verena Glass - Tem consultor externo?

Garisto - Tem de tudo. Hoje, você está conversando, amanhã os caras estão entregando. Uma vez dei uma entrevista na televisão e falei: "O Comando Delta acaba escolhendo um presidente aí". Só falei isso, e a entrevistadora, na hora: "Quem é o Comando Delta?" Eu: "As pessoas ‘de bem’ do país, pessoas que comandam a economia, o mercado". Rapaz, deu um bode desgraçado! Ela me ligou depois de dois dias e disse: "Garisto, o que tem de gente ligando querendo saber do Comando Delta". Falei: "Isso é coisa do Chuck Norris, Comando Delta 2, 3, pára com isso! Tô fora, porque eles são muito fortes". São unidos, ricos e inteligentes. Aquela operação toda feita no seqüestro do Diniz, organizado, bonitinho, vocês da mídia são os donos dela através do representante maior de vocês — daqui a pouco estou falando o nome, que já ganhou a segunda tartaruga agora. Ele ganhou a segunda tartaruga porque a outra morreu. (risos)

Sérgio de Souza - Ficou para trás aquela história do golpe de Estado.

Garisto - O golpe que não houve. Estávamos fazendo uma greve e eu estava comandando, era presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais...

Sérgio de Souza - Que ano era isso?

Garisto - 1994. Aí tem nome, e eu dou porque falei pra eles que ia escrever um livro e eles falaram que podia botar, então está liberado: é o Moroni Torgan e o deputado federal Luciano Pizzatto, que estão na ativa ainda. O Luciano Pizzatto, na época, era presidente da Comissão de Segurança Nacional da Câmara, muito ligado aos militares. E o Moroni era líder do governo do Itamar. É meu amigo particular, já o conhecia desde aquela época. Aí estávamos comandando aquela greve e dez dias, quinze dias, a Veja deu capa, a IstoÉ deu capa. A Veja deu: "Baderneiros ameaçam autoridade do governo". E o distintivo da Polícia Federal. A IstoÉ deu: "Rebelião dos tiras".. E o distintivo da Polícia Federal. E aí fui no Jô, fui em tudo quanto é canto por conta da greve. O que queríamos? Queríamos o mesmo salário que a Polícia Civil do Distrito Federal recebia. Porque tinha a lei 7.702 que dizia: "Policial federal tem que ganhar igual a policial civil". E não estavam cumprindo. Você é um policial, obriga todo mundo a cumprir a lei e não cumprem pro policial, então fomos pra greve. E aí todos os Estados entraram em greve, dez dias, vinte, trinta, quarenta, cinqüenta dias. "Como é que vamos acabar essa greve?" Aí eles queriam assumir — eles, vou dar nomes —, queriam assumir o controle da Polícia Federal. Os militares, as viúvas do SNI querem o controle da Polícia Federal porque é o instituto legal que detém hoje as coisas que têm que ser feitas no país: Collor, PC, agora esses deputados todos aí, você vê que rola tudo na Federal. E os militares tiveram o comando da Polícia Federal desde a sua criação. Ela foi criada pra ser um braço civil deles. E botaram lá o general Bandeira, o coronel Moacir Coelho, depois o coronel Araripe. O primeiro civil foi o Romeu Tuma, que era superintendente da Polícia Federal em São Paulo, colocado pelo senhor Georges Gazale, que era amigo pessoal do Figueiredo. "Ah! O primeiro civil." Civil com aspas, né? Porque o Tuma não é propriamente um civil: era chefe do DOPS. Comandou aquilo tudo, mas passou como bonzinho, os amigos que trabalharam com ele foram quase todos execrados na mídia pelas merdas que fizeram e depois foram abandonados pelo chefe.

Sérgio de Souza - Dizem até que ele acabou com a tortura nos porões.

Garisto - Isso é brincadeira! Você levanta os caras que sumiram na época em que ele era diretor do DOPS. Porque quem comandava a tortura era o Fleury, não era ele. Só que ele sabia, o Fleury não fazia nada sem ele. E, é lógico, ele passou incólume, sorte dele, é inteligente, estamos em outra época e ninguém quer caçar defunto. Aí o que acontece? O Tuma manteve o mesmo controle, passava as informações todas pros milicos. Os milicos: "Fulano não quer aprovar a compra dos tanques, quem é ele?" "Eu vou levantar." É assim que se processavam as coisas. Aquele maldito tráfico de influência que se operava através da Polícia Federal. Mas ela foi crescendo num processo de democratização, culminando com a indicação: "Agora não pode mais colocar um militar, porque o período não está permitindo mais, a Polícia Federal cresceu, está investigando índio, terra, tudo, vamos colocar um civil". Aí bota o Galdino, de formação igualzinha à do Tuma. O Galdino foi acusado de tortura. O livro Brasil! Nunca Mais tem o nome do Galdino. E ele foi colocado de diretor, quer dizer, a mesma coisa. E se reportava aos milicos daqui e de lá. Aí coloca um outro ligado, mais um outro ligado, aí vem passando, você chega no Chelloti. O Chelloti coloca uma mentalidade nova e não dá bola para os milicos. Aí os milicos tinham que derrubar o Chelloti, certo? E vem o coronel Wilson Brandi Romão, que foi chefe da Conab e foi acusado de um enorme prejuízo na Conab, deixou apodrecer feijão, aquele negócio todo. Como prêmio por ter dado um prejuízo de 50 milhões à Conab, ele foi assumir a Polícia Federal. Assumiu para acabar com a indisciplina do sindicato, que estava ameaçando greve: "Vamos botar um coronel de novo, que a disciplina está sendo quebrada, está sendo rompida. O Tuma não tem mais autoridade e nem o Galdino, vamos botar o coronel".

"O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que faz a reunião para escolher FHC, que já deve estar fazendo reunião pra convidar outro."

Verena Glass - O sindicato você que tinha fundado?

Garisto - O primeiro sindicato foi fundado no Rio Grande do Sul, fundei aqui em São Paulo, depois fomos fundando outros. Fui também o primeiro presidente da Federação Nacional, fundada em Brasília. E hoje temos 26 sindicatos e mais a Federação de todos os funcionários da Polícia Federal. Então, quando fomos pra greve, o coronel Romão não quis papo com a gente, disse que não conversava com sindicalista. Por quê? Porque essa era uma época em que morriam sindicalistas assassinados. Ele vê o sindicalista como aidético com problema radiativo, não quer contato. Começou a greve, ele falou: "Eles querem fazer greve, que façam, mas vou punir todo mundo". E começou a meter processo em todo mundo. E a moçada, o contingente todo não teve medo, continuou em greve. Um belo dia, um delegado que estava aqui em São Paulo, altamente ligado à cúpula militar e que hoje é o corregedor geral da Polícia Federal, o doutor Lobo, a pretexto de que os policiais teriam abandonado o plantão deixando no prédio a cocaína apreendida, as metralhadoras e os inquéritos famosos, o ouro e isso e aquilo, a pretexto de que havíamos abandonado tudo para fazer a greve, disse que o prédio estava à mercê dos bandidos. Relatou pra Brasília e pediu a intervenção do Exército na Polícia Federal de São Paulo. E era mentira, porque mantivemos na ativa 30 por cento do efetivo. Mas eles queriam tumulto. Aí o Exército invade a Polícia Federal de São Paulo, Itamar Franco liberou pra invadir. Acreditou no relato que o superintendente fez a pedido do próprio Exército, coisa deles. E o Exército desembarca então mil homens ali na rua Antônio de Godói, com helicópteros, fuzis, metralhadoras de chão.

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