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Você
vai sair desta entrevista com a cabeça cheia de interrogações,
a par de acachapado. O físico e engenheiro José
Walter Bautista Vidal, conhecedor, como pouquíssimos, do
chão, da gente, do poder (ele esteve lá) e dos problemas
brasileiros, faz afirmações impressionantes. Com
números, mostra que o Brasil só não é
uma grande potência porque não quer. Que o Brasil
está cada vez mais à mercê dos especuladores
internacionais porque quer. Que é dependente por escolha
dos que o governam. Que a moeda que circula no mundo é
falsa, não passa de papel pintado, e os países desenvolvidos
estão à beira da falência. Que a era do petróleo
energia que move o mundo está com os dias
contados e eles não têm alternativa a não
ser se apropriar das fontes energéticas que a natureza
legou a outras nações. E a mais rica delas todas,
disparadamente, é o Brasil, "porque foi premiado com
um reator a fusão nucelar particular o sol, que
é a grande fonte de todas as formas de energia usadas pelo
homem até agora e dentro de bilhões de anos".
E o Brasil, como "grande continente tropical do planeta",
terá por isso um poder inimaginável, "desde
que conte com dirigentes à altura desse papel histórico".
Sim, porque o que determina os rumos da história é
a política. E esse físico e professor tem a cabeça
política.
Chico Vasconcellos - O senhor
foi secretário de Tecnologia Industrial do governo Geisel.
Como se deu isso?
Bautista Vidal -
Bom, fiz minha pós-graduação em física
nuclear na Universidade de Stanford. Só que resolvi voltar
para a minha Bahia, e quando cheguei disse para mim mesmo: "Que
diabos vou fazer com a física nuclear na Bahia, com esse
sol e esse mar?" Aí resolvi mudar para geofísica,
e, como diretor do Instituto de Física da Universidade
da Bahia, fundei o Centro de Geofísica. Durante três
anos treinei os primeiros 67 geofísicos brasileiros que
descobriram a bacia de Campos e criaram para a Petrobrás
a plataforma continental, até então considerada
inviável. Fundei ainda o Instituto de Física e cerca
de trinta instituições de tecnologia no país.
Aí, aos 28 anos, fui chamado pelo governador da Bahia,
Luís Viana Filho, para ser secretário de Ciência
e Tecnologia, primeira secretaria do gênero do país.
Foi uma fase muito rica, participei decisivamente da criação
do Pólo Petroquímico de Camaçari, e ali saí
da redoma da ciência, onde vivia, era um físico teórico,
e fui jogado num puteiro. (risos) Foi um choque. Eu tinha
falado ao governador, quando me chamou: "Mas a ciência,
governador, é incompatível com a política".
E ele: "Você quer dizer politicalha. Pois, se eu não
tivesse condições de fazer a secretaria, não
a faria e nem o teria chamado". Cumpriu, jamais permitiu
qualquer ingerência. Mas veja minha ingenuidade de achar
que ciência se faz fora do poder! Fui constatar isso depois.
Aí criamos o complexo petroquímico, o centro tecnológico,
para ser um dos maiores do mundo, mas a participação
japonesa, francesa e alemã, mesmo minoritária, jamais
permitiu que o centro existisse, porque, se ele vingasse, passaria
para mãos brasileiras o controle do processo petroquímico,
que hoje terminou na mão desses... bom, deixa pra lá.
Quer dizer, teria sido montada a indústria petroquímica
autônoma.
Chico Vasconcellos - Na mão
desses... quem?
Bautista Vidal -
Foi privatizado, fala-se da Odebrecht, não sei se ela é
testa-de-ferro, petroquímica é questão de
poder mundial, área estratégica.
Georges Bourdoukan - Está
na mão de quem, hoje?
Bautista Vidal - Basicamente,
dos americanos, japoneses e alemães, cada um jogando para
o seu próprio time. Os japoneses começaram dependendo
dos outros dois e ganharam autonomia, o que podíamos ter
feito até com melhores condições, mas faltou
fibra ao governo brasileiro e à própria Petrobrás.
Georges Bourdoukan - Por que
fugiu das mãos dela?
Bautista Vidal -
Essa conjuntura política retirou das empresas estatais
o poder de autonomia que elas tinham, a partir da chamada abertura.
Repare que os militares preservaram essa autonomia. Um ministro
de Minas e Energia, na minha época, não conseguia
reunir os presidentes das suas empresas estatais porque eles tinham
total autonomia, funcionavam realmente como empresas independentes,
dentro dos interesses do país.
Georges Bourdoukan - Foi no
governo Fernando Henrique que se deu isso?
Bautista Vidal - Não,
o processo neoliberal começou em 1979. Antes, no governo
Geisel, o Brasil havia conseguido criar a sua própria indústria
de bens de capital, que era o sonho de Getúlio Vargas.
O Getúlio dizia que o país que consegue construir
as suas próprias máquinas é um país
vitorioso. Pois, no governo Geisel, montou-se um programa que
não só ia transformar o Brasil em um país
completamente autônomo em combustível, como na maior
potência energética do planeta, o Programa do Álcool,
que é a pontinha de um imenso icerberg inexplorado,
de energia.
Georges Bourdoukan - Em 1979,
os militares detinham o poder em todos os sentidos, então
eles foram entreguistas?
Bautista Vidal -
Não, calma. Primeiro, que os militares não detinham,
eles garantiam o poder. A rigor, o poder verdadeiro sempre esteve
e hoje mais do que antes nas mãos dos tecnocratas
internacionais. Quer dizer, na hora em que Roberto Campos assumiu
o Ministério do Planejamento e o Castello Branco entregou
o poder a eles, nunca mais largaram. O Andrada Serpa, então
membro do alto comando militar, general quatro estrelas, não
tinha um décimo do poder que o setor financeiro tinha.
Isto é, a ditadura financeira, sim, realmente surgiu no
período militar.
Roberto Freire - Com o Castello?
Bautista Vidal -
Com ele. Mais precisamente, com o Roberto Campos, e dali nunca
mais foi interrompida, foi num crescendo. Por exemplo, no governo
Geisel, com o Severo Gomes, enfrentávamos o Simonsen, o
poder financeiro. Enfrentávamos o Banco Central. Chegávamos
ao Geisel, contestávamos e dobrávamos o Geisel na
nossa direção. Hoje, o presidente da República
não consegue. O Itamar não conseguiu nomear um diretor
do Banco Central. Chegou a publicar a nomeação no
Diário Oficial e ela foi "despublicada"
na semana seguinte.
Georges Bourdoukan - Mas por
ordem de quem?
Bautista Vidal -
Do poder real, o FMI, que nomeia os diretores do nosso Banco Central,
que nomeia os ministros da Fazenda há muito tempo, desde
Castello Branco. Os militares são pessoalmente nacionalistas,
e você tem figuras fantásticas como Andrada Serpa,
como Hélio Lemos e tantos outros que não tiveram
força de levar avante o projeto nacional. Agora, certos
militares deram um golpe dentro do golpe, que acabou sendo entreguista.
Georges Bourdoukan - Se os militares
não conseguem preservar isso, para que servem?
Bautista Vidal -
A função dos militares não é governar
o país, eles não são preparados para isso.
Eles assumiram a coisa que não tinham condição
de realizar, aliás todos eles reconhecem. O Serpa disse
sempre que o golpe foi uma conseqüência daquele descalabro
hierárquico indisciplinar, que levou de roldão os
que não tinham intenção de dar golpe, como
ele. Que foi para evitar a desmoralização completa
das Forças Armadas. Que eles não tinham um projeto,
não tinham preparo para assumir o comando do país,
e a primeira coisa que o Castello Branco fez foi chamar esse escroque
internacional que é o Roberto Campos.
Roberto Freire - Ele seria um
dos homens do poder econômico internacional, como o Delfim,
o Simonsen?
Bautista Vidal -
Ele não é um dos homens ele serve esse poder.
O Delfim é outra coisa. É bem diferente do Roberto
Campos.
Leo Gilson Ribeiro - O Delfim
é mais cínico?
Bautista Vidal -
Mais cínico. Ele é o capo-regime, comandante.
Competente, inteligente; agora, mafioso, não é?
Leo Gilson Ribeiro - Erudito.
Lê muito.
Bautista Vidal -
Lê muito, é articulado. Ele não conhece coisas
substantivas, não sabe o que é energia, por exemplo.
Porque não está na tradição cultural
dele, ele trabalha com números. Está fazendo agora
um papel importante de defender a empresa de capital nacional.
Porque é um dos sócios, está certo. Uma coisa
até positiva dentro da relatividade do positivo.
Georges Bourdoukan - Ele é
sócio de que empresa?
Bautista Vidal -
Dezenas... (risos)
Leo Gilson Ribeiro - Mas, professor,
quem está do lado da gente e quem está combatendo
a gente?
Bautista Vidal -
Eu acho bom a gente ir às causas, em vez de eventuais atores,
porque essa gente, no fundo, não vale nada.
Leo Gilson Ribeiro - Vamos às
causas.
Bautista Vidal -
Vamos às causas. Então, eu estava falando do processo;
1979 foi um ano de ruptura. Mal ou bem...
Leo Gilson Ribeiro - Por que
em 1979?
Bautista Vidal -
Porque países como o Brasil, especialmente o Brasil, com
uma imensa potencialidade, principalmente em termos energéticos,
estavam tomando decisões e medidas que irremediavelmente
provocariam uma mudança no poder mundial. Isso assustou
o poder real, e houve dois ou três pronunciamentos decisivos
em 1979, ano de muitas reuniões do grande capital financeiro
internacional, de onde saiu a famosa frase de Henry Kissinger:
"Não admitiremos um outro Japão ao sul do equador".
Outro Japão, conversa! O Japão não tem energia,
não tem minério, é uma ilha nua. Temos a
base dos materiais estratégicos do planeta. Então,
o Kissinger viu claro e disse: "Pára, esse negócio
não pode continuar".
Georges Bourdoukan - Professor,
a coisa não começa em 1973, com a primeira crise
do petróleo?
Bautista Vidal -
No ano de 1973, quando aconteceu a crise do petróleo, uma
crise brutal, eu estava na Universidade do Texas, como professor
visitante, na cidade de Austin, ao lado de Houston, que é
a capital mundial do poder do petróleo, onde ficam as sedes
das grandes corporações Texaco, Exxon etc.,
quando a coisa estourou, fui conversar com os top men do
poder mundial do petróleo. A sociedade americana estava
histérica. Havia filas quilométricas nos postos
de gasolina, e as pessoas se matavam naquelas filas. Fui ao Institute
of Gas Technology, de Chicago, fui a Houston, conversei com líderes
desse poder mundial, e eles se referiam com impropérios
aos homens da indústria automobilística, porque
o poder americano estava centrado em Detroit. Essa coisa do embargo
do petróleo foi criada pelas grandes corporações
anglo-americanas para desmontar o poder de Detroit, e desmontaram.
Houve uma mudança de eixo; o poder norte-americano, e portanto
mundial, situado em Detroit, foi transferido para Houston. Antes
da crise, na lista das vinte empresas mais poderosas do mundo
da revista Fortune havia uma única
empresa de petróleo, a Exxon. Depois da crise, passaram
a ser nove entre as vinte.
Georges Bourdoukan - A partir
de 1973?
Bautista Vidal -
A partir de 1973. Mas o problema em si não tem nada de
estratégico, o que vale é esse jogo do dinheiro
crescendo na mão de quem nada produz, que são os
financistas. Com aquela mudança de eixo, os oil men
passaram a ter papel decisivo no poder americano, e portanto mundial.
Então, as indústrias de petróleo, que já
forneciam mais de 50 por cento do que era consumido pelos americanos,
disseram: "Estamos fornecendo a vocês uma riqueza real
que é o petróleo e vocês estão nos
pagando com papel pintado falso. Isso não pode continuar
assim!" Foi dito pelos oil men com toda a clareza
para o governo americano e para Detroit. Aí houve o colapso.
Os americanos não acreditavam, o poder americano não
acreditava, mas aconteceu o embargo, foi cortado o fornecimento
de petróleo. Aí, os homens das finanças viram
que a jogada deles havia sido descoberta, e não tiveram
dúvida, propuseram uma aliança: "Pagamos a
vocês com papel pintado falso, quer dizer, pegamos esse
dinheiro e criamos o petrodólar; pegamos esses papéis
falsos, emprestamos a juros transitoriamente negativos aos países
que têm os maiores patrimônios estratégicos
do planeta, e depois limpamos esse dinheiro falso e nos apoderamos
desses grandes patrimônios".
Sérgio de Souza - Como
funciona essa ditadura financeira?
Bautista Vidal -
Esse é o âmago de toda a questão. A rigor,
a moeda é uma coisa extremamente importante, é uma
invenção extraordinária da humanidade, posto
que é o símbolo de todas as riquezas. E, claro,
quando no processo do escambo o sujeito levava a sua vaca para
a feira, ele precisava de sal, de carvão, como ele ia fazer?
Tirar uma orelha da vaca e trocar por sal? Complicado, não
é? Aí inventaram algo que era um símbolo
da vaca, do sal, que era a moeda, e que era uma coisa divisível.
E, para simbolizar uma coisa tão importante, a base de
tudo, que são as riquezas naturais, eles davam um valor
intrínseco às moedas elas eram de ouro. Além
do valor simbólico, existia o valor intrínseco,
era de ouro, de prata... Costumo usar o exemplo do Kublai Khan,
potentado que controlava o dinheiro, tinha um grupo de ministros
da Fazenda que assinavam aqueles papéis e eles valiam como
se fossem ouro. O ouro acabou, eles passaram para o bronze...
e aí o seu grande império ruiu, porque o dinheiro
não valia nada. Passou a ser uma grande empulhação.
Isso está ocorrendo até hoje de maneira escandalosa,
e à beira de um colapso, porque se avalia que o papel-moeda
circulante seria no mínimo cinqüenta vezes a riqueza
que deveria representar, ou seja, cinqüenta vezes falso.
Então é um sistema completamente desacreditado,
falido, os bancos estão caindo aos pedaços em todos
os países, nos Estados Unidos, no Japão, prevê-se
um colapso a qualquer momento. Agora, o que sustenta isso é
uma coisa absolutamente crucial é que, devido à
ocupação militar do Oriente Médio, esse papel
compra petróleo. Pronto, ele passa a ser um papel legítimo
porque compra o bem essencial que movimenta o mundo, a energia.
É uma garantia exclusivamente militar, e exclusivamente
dos Estados Unidos. Então, hoje, a moeda se ancora no poder
militar, e daí compra petróleo. Só que é
um poder transitório, porque o petróleo está
acabando.
Leo Gilson Ribeiro - Deve acabar
por volta de quando?
Bautista Vidal -
Essa é uma pergunta de resposta complexa, porque o petróleo
é um combustível fóssil que leva centenas
de milhões de anos para se formar, e é limitado,
ele acaba agora ou acaba mais adiante, e é não-renovável.
E há milhares de tipos, não existe esse ente petróleo,
tem o de partes leves, o de partes pesadas, tem aquele do qual
só se tiram 20 por cento, outros que dão 40 por
cento, cada petróleo é uma coisa diferente. Agora,
há todo um mecanismo de vincular, de monetarizar isso,
a tal ponto que depois do embargo, quando o barril chegou a 52
dólares, os próprios Estados Unidos, o governo Carter,
estavam montando um gigantesco programa de substituição
do petróleo por alternativos. E ia substituir, nós,
brasileiros, estávamos rapidamente, com essa riqueza dos
trópicos, nos capacitando para ser a maior potência
energética para sempre...
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O trunfo do Brasil é a grande fonte
de todas
as formas de energia usadas pelo homem até
agora e dentro de bilhões de anos: o nosso
astro-rei, o reator a fusão nuclear que é o sol.
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Leo Gilson Ribeiro - Com o Proálcool.
Bautista Vidal -
O Proálcool é um exemplo, mas é a pontinha
de imenso iceberg, como eu já disse não
deixaram que fizéssemos o que era possível dentro
da área de substituição da gasolina, mas
depois vamos desenvolver mais isso. Então, há centenas
de tipos de petróleo, só que as reservas estão
extremamente concentradas em poucos pontos do planeta. A metade,
50 por cento do total descoberto no mundo, está situada
em vinte campos supergigantes, os campos da Sibéria, do
Texas, que praticamente já se esgotaram, os campos do Oriente
Médio, um no México e acabou. Vinte e cinco por
cento dos demais petróleos estão em duzentos campos
então, 220 campos englobam 75 por cento do petróleo
do planeta, nesses lugares conhecidos. E os restantes 25 por cento
estão em mais de 30.000 campos, o que não é
nada. Então, ou você descobre meia dúzia de
campos supergigantes ou o petróleo já acabou, porque
não adianta dizer que vai durar trinta anos, pois, com
todos os investimentos que você tem, o petróleo existente
não dá para sustentá-los em trinta anos.
Vamos supor que os países em desenvolvimento tivessem realmente
a chance de se desenvolver. Como se faria isso? Com um aumento
fantástico de consumo de energia, e o petróleo ia
durar dez anos. Portanto, a era do petróleo já acabou,
porque não existe mais petróleo. Você só
descobre o que existe. Ele é um combustível extensivo,
teria de durar cem anos na frente. Se não garante trinta!
Não garante os próprios investimentos já
realizados, então esses conceitos de países em desenvolvimento
não passam de balela. Vai se desenvolver com quê?
Somente com o consumo gigantesco do petróleo existente,
e aí o prazo de esgotamento se reduz. A grande safadeza,
quando se discute o petróleo, é que não se
fala no essencial, que são as reservas, só se fala
na produção. Enfim, o que há de central nessa
questão é o absoluto desespero, na área energética
líquida, das chamadas grandes potências mundiais.
A situação delas que jogaram tudo na falcatrua
do financeiro no campo energético e no mineral é
desesperadora. Os Estados Unidos têm petróleo para
mais cinco anos; o Japão, para zero ano. Na questão
mineral, os três têm carências acima de 95 por
cento em todos os minerais estratégicos. Então,
todo o processo neoliberal é conseqüência desse
fator inicial. Eu não queria estar na situação
de nenhuma dessas chamadas superpotências decadentes e inviabilizadas
nas questões essenciais.
Sérgio de Souza - Aí
aparece então a chance de o Brasil ser "reconquistado",
como coloca o seu último livro, quer dizer, o Brasil tem
agora a sua grande oportunidade histórica?
Bautista Vidal -
Claro. Bom, quando se fala nas grandes potências, fala-se
nas outras que fazem parte do grupo, França, Inglaterra,
Canadá. Eu até acrescentei à última
hora no livro o que diz o Infome 1997 da organização
ambiental mais importante do mundo, o Worldwatch Institute, americano,
que todo ano publica um relatório chamado A Saúde
da Terra. Este ano apareceu o conceito E8. A letra E é
de environment, e o 8 são as oito grandes potências
ambientais do planeta. Está lá, textual: das oito,
três são as maiores a China, de maior população
e segunda maior emissão de CO2,
poluidora terrível; os Estados Unidos, maior potência
econômica militar e também primeiro emissor de poluição;
e o Brasil, que é o único em condições
de resolver o problema não só dos outros dois, mas
dos outros sete. O documento chega a dizer que essa questão
ambiental global de desastres descomunais, como alguns que já
estão ocorrendo, está vinculada diretamente à
queima do combustível fóssil carvão
mineral e petróleo, e que o E8 é muito mais importante
para o futuro da humanidade do que o G7, que está sob o
domínio do financeiro, que chamo de papel pintado. Basta
ler esse documento feito por americanos, com equipes gigantescas
trabalhando em todo o mundo na questão ambiental, para
ver o papel do Brasil no contexto mundial. Os oito são:
Japão, Alemanha, Indonésia, Índia e Rússia,
e mais os três maiores China, Estados Unidos, Brasil.
E aí você tem sete predadores e um que vai resolver
o problema. Imagine o poder que esta nação, o Brasil,
pode ter no futuro se contar com uma classe dirigente à
altura dessa responsabilidade e desse papel histórico.
Sérgio de Souza - E que
potencial é esse, quais são os trunfos do Brasil?
Bautista Vidal -
O trunfo do Brasil é a grande fonte de todas as formas
de energia usadas pelo homem até agora e dentro de bilhões
de anos: o nosso astro-rei, o reator a fusão nuclear que
é o sol, porque somos o grande continente tropical do planeta.
O petróleo, o xisto, a turfa, o gás natural, tudo
isso tem como origem o sol, por meio dos hidratos de carbono,
que são as substâncias químicas que, nas plantas,
armazenam a energia que vem do sol os açúcares,
os óleos vegetais e as celuloses e que se transformam
em seres vivos os vegetais e os animais, e que em processo
de milhões de anos se transformam em petróleo. Então,
até este depende do sol, só que leva 800 milhões
de anos para se formar, enquanto a biomassa é a capacidade
de captar essa energia quase que instantaneamente e pôr
permanentemente à disposição do homem. O
trunfo é usar o dividendo imediato do astro-rei, em vez
de usar um capital que leva milhões de anos para existir.
E as nações hegemônicas, por serem muito pobres
de energia, porque estão em regiões temperadas e
frias do planeta, cometeram esse viés histórico
que as levará à decadência e à inviabilidade,
a menos que tomem o potencial de energia dos trópicos.
Gilberto Felisberto Vasconcellos
- Essa é a melhor crítica ao Plano Real, a sua
crítica do ponto de vista energético, que deve ser
usada na campanha eleitoral.
Bautista Vidal - É
chave, não é? Entregar esse potencial. É
claro que essa entrega está sendo feita do ponto de vista
monetário, com esse dinheiro falso, mas não do ponto
de vista jurídico é tudo ilegal, inconstitucional,
quer dizer, isso vai encontrar uma resistência eterna do
povo que habita essas regiões.
Roberto Freire - Qual a tecnologia
necessária para transformar energia solar em energia produtiva?
Bautista Vidal -
Em primeiro lugar, somos disparados os melhores do mundo nisso.
Temos aqui em Piracicaba o maior centro de tecnologia de álcool
e açúcar do planeta. E é da iniciativa privada,
por acaso, desses malsinados usineiros. O sistema financeiro tem
pavor dos usineiros porque, mal ou bem, eles são o veículo
dessa pontinha do imenso iceberg. São Paulo é
de longe o mais eficiente produtor de energia renovável
do mundo, não só combustível, como alimento
açúcar. É disparado o primeiro. O
Nordeste é o quarto. Você tem a África do
Sul e a Austrália em segundo, terceiro. Do ponto de vista
tecnológico, o Brasil é a maior potência do
mundo na área da biomassa.
Roberto Freire - O senhor está
pensando por enquanto só na extração do álcool?
Bautista Vidal -
Não, vou terminar o raciocínio. Então, qual
a origem desse poder fantástico? Aí vem o negócio
genial, da fotossíntese na folhinha. A folhinha capta e
armazena a energia solar de uma maneira que nem em 10.000 anos
o homem chegará a processo tão perfeito. Qual é
o processo de captação e armazenamento? A formação
das plantas se dá por meio da fixação do
CO2 do ar, e da água,
numa reação química endotérmica, ou
seja, com absorção de energia. Não teve energia,
a reação não ocorre. Não teve água,
a reação não ocorre. CO2
tem em toda parte. Então são esses três ingredientes
na formação dos hidratos de carbono, que são
depósitos químicos de energia em quantidades gigantescas
nos trópicos. Celulose e hemicelulose, açúcares,
óleos vegetais, amidos. Somos a civilização
dos hidratos de carbono. E os petróleos, o xisto, o carvão
mineral, todos esses fósseis que se armazenam no fundo
dos lagos, dos rios, durante milhões de anos, perdem o
oxigênio e se transformam em hidrocarbonetos...
Leo Gilson Ribeiro - Mas não
foi a Revolução Industrial inglesa que acelerou
o uso da energia?
Bautista Vidal -
Foi, fazendo um desperdício, pegando energia concentrada
e queimando feito loucos. Só que eles não têm
sol, pegaram energia fóssil dos outros, do Oriente Médio,
não é? Então, num entendimento simples como
esse e profundamente científico, somos a civilização
dos hidratos de carbono, que são o dividendo do reator
a fusão nuclear que a humanidade não vai conseguir
reproduzir. Trabalhei em fusão nuclear, ela é incontrolável,
exige milhões de graus de temperatura, mas nós,
brasileiros, fomos premiados com um reator a fusão nuclear
particular. E na condição de poder captar e armazenar
essa energia, por causa da água e das grandes extensões
territoriais essa é a condição que
movimenta o mundo, a energia. O poder hegemônico mundial
está em fase absolutamente decadente, quer dizer, inviável,
não quero saber se são cinco ou oitenta anos com
combustíveis fósseis.
Leo Gilson Ribeiro - É
possível armazenar e exportar essa energia solar?
Bautista Vidal -
Claro, totalmente. Se você faz álcool de vegetal,
pode exportar como exporta petróleo, é botar uns
navios-tanques aí. O álcool que funciona é
o etanol, o metanol é um veneno perigosíssimo.
Leo Gilson Ribeiro - Poluidor
também?
Bautista Vidal -
Poluidor; 1 micrograma de metanol cega uma pessoa, e 1 centigrama
mata uma pessoa. É um veneno perigosíssimo. Qual
é a diferença entre o etanol e o metanol? O etanol
é a cachacinha que nós tomamos.
Gilberto Felisberto Vasconcellos
- Ô, que beleza! Etanol é cana!
Bautista Vidal -
É o álcool etílico. A diferença entre
um e outro é que o metanol tem um átomo de carbono
e o etanol tem dois, só isso. O negócio assim é
um detalhe. (risos) Então, ao falar de álcool,
a gente tem de falar de álcool etílico, etanol,
porque há centenas de alcoóis. A segunda coisa que
é importante definir nesse contexto são os hidratos
de carbono, o que se chama biomassa. Bio, vida, biomassa,
a vida formada do sol, toda vida vem daí. Porque a vida
é energia, ela movimenta os motores, movimenta a sociedade,
é esse conceito poderosíssimo.
Gilberto Felisberto Vasconcellos
- É um tesão. Claro... Sem biomassa não
tem solução. Olha aí, Roberto.
Roberto Freire - Eu escrevi
um livro com esse título, Sem Tesão Não
Há Solução, por isso ele está
me gozando.
Bautista Vidal -
A biomassa é o próprio tesão. Aí você
tem o espectro: quais são, entre os hidratos de carbono,
aqueles que têm alta concentração energética?
Celulose, que você pega um pau de fósforo e a madeira
devolve sob a forma de fogo a energia que recebeu do sol. O fósforo
faz só a erupção, inicia o processo, mas
depois é a madeira devolvendo a energia que armazenou do
sol. O que é o etanol? O etanol é energia que passou
de uma forma de açúcar para forma líquida,
que são os alcoóis. E ele explode e movimenta os
motores e essa coisa toda. O álcool substitui a gasolina,
o ciclo Otto dos motores, ele não serve para o ciclo diesel,
que é mais eficiente que o da gasolina. Aí a natureza
nos dá os óleos vegetais. Você tem centenas
de óleos no Brasil, desde a mamona, o girassol, a colza,
a soja, o dendê, o babaçu, uma porção
de óleos. Para ter idéia da dimensão dessa
coisa, só o dendê na região amazônica
são 70 milhões de hectares, com baixíssima
produtividade de floresta, sem nenhuma tecnologia são
4 toneladas por hectare por ano, dá para produzir 6 milhões
de barris/dia de óleo diesel. Isso é praticamente
a produção de petróleo da Arábia Saudita.
Gilberto Felisberto Vasconcellos
- Só no Maranhão, de babaçu, equivale
energeticamente à Arábia Saudita?
Bautista Vidal -
Mais do que a Arábia Saudita, porque o babaçu, esse
coquinho, tem várias partes. Tem a amêndoa central,
da qual você extrai óleo e substitui o diesel;
depois tem uma parte dura de celulose pura, que é o excepcional
carvão natural, sem nenhuma poluição. Estávamos
desenvolvendo tecnologias de grandes siderúrgicas baseados
nesse coque do babaçu, com resistência mecânica
espetacular. Depois, você tem outra camada que é
amido, no mesmo coco. Com esse amido, você faz o álcool.
Da amêndoa, você faz o substituto do diesel,
do amido faz o substituto da gasolina, e ainda tem a parte externa,
que é palha, que produz calor. Então, quando você
transforma aquele mesocarpo do babaçu, que é carbono
praticamente puro, em carvão vegetal de altíssima
qualidade, altíssima resistência mecânica,
você tem uma quantidade enorme de produtos químicos,
quer dizer, do coco do babaçu você pode construir
um gigantesco complexo petroquímico e energético,
jamais visto no mundo, e para sempre, e mantendo a floresta.
Sérgio de Souza - Isso
está sendo explorado?
Bautista Vidal -
Não, quando eu tinha uma equipe, fiz o levantamento aéreo
de sete Estados da Federação existe uma riqueza
de babaçu extraordinária, e tínhamos mais
de quarenta projetos nas fundições, nas siderúrgicas,
a própria Siderbrás tinha um projeto de fazer siderurgia
de porte a partir desse coque, e tudo foi engavetado. Eu tinha
comigo, trabalhando na área tecnológica, apenas
com quatro anos de montagem, 1.600 investigadores. Tinha a melhor
equipe de motores de turbina no Centro Técnico Aeroespacial,
e tinha mais de quarenta institutos tecnológicos. A maioria
o neoliberalismo fechou.
Sérgio de Souza - Em
que fase foi isso?
Bautista Vidal -
Basicamente, no governo Geisel. Foi num crescendo, mas então
veio 1979, aquela frase do Kissinger sobre outro Japão,
e aí a desmontagem começou, o descalabro, no governo
Figueiredo. Quer dizer, o processo neoliberal começou no
último governo militar.
Sérgio de Souza - Interrompe-se
esse processo todo de pesquisa, e hoje...
Bautista Vidal -
Fecharam-se os institutos, tínhamos alguns dos mais importantes
institutos tecnológicos do mundo nessa área, foram
esfacelados, não sobrou quase nada. Mesmo contando com
estruturas poderosas, como o grupo de motores e turbinas do Ministério
da Aeronáutica de São José dos Campos.
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Dizer que Fernando
Henrique está fazendo o
oposto do que falava quando era de esquerda, não!
Quando era esquerda, ele escreveu tudo o que
está fazendo. E a dependência é um absurdo.
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Sérgio de Souza - E não
houve o menor interesse internacional por esses projetos, por
essas pesquisas?
Bautista
Vidal - A intervenção foi internacional, o interesse
de destruir, porque eles próprios queriam fazer. E vão
fazer mais adiante, quando tiverem o controle estratégico
dos recursos naturais.
Georges Bourdoukan - Um amigo
meu tem plantação gigantesca de mamona na Bahia,
para produzir óleo, que parece ser excelente para lubrificar
máquinas etc. Depois de toda a colheita feita, o governo
liberou a importação, e importamos da China a preço
menor que o do plantio, e aí fecharam todas as fazendas.
Isso faria parte do projeto internacional de que o senhor está
falando?
Bautista Vidal -
Eu não gosto de ver essa coisa como um projeto maquiavélico,
de um grande cérebro. As coisas resultam de uma dinâmica
cujas peças essenciais estão, por exemplo, na fraudulência
do dinheiro. Pronto, basta isso. Temos de ir nos pontos de origem
e causa, todo o resto é decorrência. Monta-se um
sistema financeiro em que produzir alguma coisa é inviável.
Nem cocaína dá as respostas que a usura financeira
impõe sobre nós. Somos um país condenado
à ruína pela inviabilidade do instrumento que é
o símbolo de todas as riquezas, que compra tudo, até
mesmo as consciências, empurra a mídia, é
emitido de forma absolutamente arbitrária, sem nenhuma
fundamentação e com critério de poder sem
limite, de uma ditadura mundial que é uma máfia
centralizada no Fed, o banco central americano, que emite sem
dar satisfações a ninguém. Então,
como pensar num processo de competição, se o símbolo
de todas as riquezas é algo arbitrariamente controlado
e emitido ao bel-prazer de uma máfia secreta? O processo
de competição é absolutamente inviável.
E exatamente nessas condições os dirigentes brasileiros
falam em "competição", "abrir o mercado",
quer dizer, são uns loucos, na melhor das hipóteses.
Georges Bourdoukan - Estimativas
recentes dizem que o PIB mundial é de 27 trilhões
de dólares. Quando a estimativa era de 23 trilhões,
o senhor denunciou que a circulação anual de moedas
ultrapassa os 250 trilhões. Como se dá essa disparidade?
Bautista Vidal -
É o seguinte: as operações com moedas ultrapassavam
250 trilhões de dólares, o que não significa
circulação, porque há muitas operações
repetidas com a mesma moeda. Há instituições
que analisam o quadro e dizem isso. Agora, o que realmente circula
está entre 40 e 60 trilhões, que já é
um absurdo. Para uma relação de trocas de bens e
serviços da ordem de 4 trilhões, circulam 40 trilhões...
no mínimo é dez vezes falso. Você só
pode emitir moeda baseado na riqueza que realmente circula. Esse
dinheiro circula no campo internacional, não tem a ver
com o dinheiro interno dos países. Na prática, o
que circula internacionalmente são as trocas de bens e
serviços internacionais, que são da ordem de 4 trilhões
e não podiam ser de 40, depois de expurgar as duplicações.
Sérgio de Souza - Isso
vem a significar o quê?
Bautista Vidal -
Significa que estão emitindo sem lastro. Como a emissão
é uma coisa monopólica, de um grupo que é
uma máfia secreta situada nos Estados Unidos, eles estão
emitindo além da riqueza real. E, assim, sem controle de
ninguém, eles podem se apoderar dos patrimônios do
mundo, a troco de nada.
Sérgio de Souza - E o
que acontecerá com os tais três quartos dos excluídos
de que o senhor fala no livro?
Bautista Vidal -
Aí é uma outra questão de natureza mundial,
mas que nos atinge de maneira direta, por causa da automação
tecnológica, que não cria nada de novo, mas substitui
o trabalho humano: o computador é um bicho extremamente
burro, tem dois dígitos no cérebro, uma criança
abandonada tem bilhões de dígitos. Eu acho que uma
tartaruga tem mais inteligência do que um computador. (risos)
Bom, hoje a automação permite produzir praticamente
sem o uso de pessoas, a figura do operário está
em extinção. Hoje, você pode dirigir uma fábrica
via satélite, de outro país, um operador ali para
trocar um fusível que queimou, e não precisa de
mais ninguém. Hoje, nos Estados Unidos, já tem mais
tecnólogo e cientista do que operário. Só
que isso é uma decisão política na elaboração
do pacote tecnológico. Quando elaboro um pacote, decido
as matérias-primas que vou usar, decido a forma energética
que vou usar, e decido também se vou usar a mão-de-obra
humana ou a automação. Por exemplo, se tenho disponibilidades
financeiras grandes e capital financeiro e não tenho operários
disponíveis a baixo preço, dispenso os operários
e mecanizo tudo. É uma decisão política dos
elaboradores dos pacotes tecnológicos. Por isso que, com
o modelo da Cepal, o modelo dependente de trazer os pacotes externos,
você dá a decisão ao inimigo. Todo pacote
tecnológico que entra no país é um cavalo
de Tróia, com centenas de milhares, de milhões de
itens. Um pacote de um Boeing 747 são 2 milhões
e meio de itens, todos eles manipuláveis. Você imagina
o poder descomunal lá de fora quando um pacote desses se
implanta no país, quer dizer, é um modelo suicida
por definição.
Georges Bourdoukan - E o que
fazer para bloquear isso?
Bautista Vidal -
Basta você elaborar o seu próprio pacote, estabelecer
a sua ação política. Quando eu era secretário
de Tecnologia Industrial do Brasil, o governo japonês me
convidou e o presidente da Sharp passou um dia inteiro comigo
mostrando a fábrica. Assim que entrei na Sharp japonesa,
tomei um susto. Tinha uma multidão de japoneses, por tudo
quanto é canto. Eu disse: "Como é que é?"
Então é assim: o Japão não tem energia,
não tem minério, não tem nada, o que o Japão
tem? Tem japonês, então bota lá pra dentro.
Pleno emprego! (risos) E é a maior potência
tecnológica do mundo.
Georges Bourdoukan - O senhor
se apóia em dados do anuário da ONU, de 1991, para
refutar os argumentos sobre os supostos efeitos malignos da presença
do Estado na economia. Em 1991, os dados indicavam que, entre
os países ricos, essa presença era de quase 52 por
cento na Dinamarca, quase 50 na Suécia, acima de 40 na
Holanda, Bélgica, França e Áustria, quase
40 na Alemanha e 28,14 por cento nos Estados Unidos. Entre os
pobres, o Brasil estava com 21,44 por cento, depois vinham Costa
Rica, Índia, Etiópia, Tailândia, Uruguai e
Peru, entre 10 e 19 por cento. Esses números continuam
valendo?
Bautista Vidal -
No caso do Brasil, certamente diminuiu, porque em 1991 não
havia a privatização em massa que vem ocorrendo.
Então, esse índice caiu, não sei quanto porque
a toda hora privatizam uma coisa. Está abaixo daqueles
21,44 por cento, sem dúvida, não houve nenhuma expansão
do setor estatal no campo dos chips. Por que as empresas
eletrônicas americanas não estavam conseguindo competir
com as japonesas. Aí não tiveram dúvida:
chamaram o Estado, ele veio, entrou com 51 por cento do capital
e agora os EUA estão com uma poderosa empresa estatal para
competir com as japonesas. Então, lá aumentou a
participação das estatais. Assim como no Japão
certamente aumentou a proporção da presença
do Estado na economia.
Georges Bourdoukan - Pelo que
entendo, o Fernando Henrique não consegue chegar a ser
um líder por burrice, não por corrupção.
Bautista Vidal - Eu
não acho que o Fernando Henrique tenha qualquer decisão
em todo esse processo. Ele é um sujeito que está
servindo à causa, essas coisas são muito bem pensadas
por aqueles que o elegem. Há um documento, publicado no
Le Monde Diplomatique, de um professor de economia de uma
universidade canadense, descrevendo o roteiro do Fernando Henrique
antes da sua eleição para a presidência, quem
ele visitou? Por exemplo, o homem do Fundo Monetário, os
acertos, e praticamente prevendo que ele seria inexoravelmente
presidente do Brasil. Então, o Fernando Henrique é
um instrumento, um moço de recados do real poder mundial,
financeiro, que controla o Brasil.
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