por Camila Gonçalves
Espancamento sem provocação, prisão sem acusação, bombas de efeito moral usadas como munição – em suma,. violações aos direitos humanos praticadas por policiais sem identificação. Estas foram as denúncias feitas por manifestantes da Frente de Luta Contra o Aumento (das tarifas de ônibus, metrô e trens suburbanos), em uma coletiva de imprensa realizada na última quarta-feira - 6 de dezembro - no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
As manifestações contra o aumento da tarifa dos transportes públicos, que já completam a terceira semana, vinham tendo como característica o caráter lúdico e pacifico. Vários movimentos sociais unem-se a usuários de transporte público para protestar contra o aumento, para eles, injustificável da tarifa. As passeatas contam com palhaços, cartazes bem-humorados e músicas de protesto, e chegam a reunir 2000 manifestantes.
Mesmo com os trajetos avisados previamente para não causar transtornos e com orientação para não reagir a possíveis agressões da polícia, os manifestantes da Frente têm sofrido com a violência policial e prisões arbitrárias. A explicação dos organizadores para a repressão é que os empresários estão com medo de que o movimento cresça e querem reprimi-lo a todo custo.
O uso excessivo de balas de borracha e spray de pimenta contra os manifestantes tem sido constante. O spray de pimenta, proibido em alguns países até mesmo como arma de guerra, pode trazer sérias conseqüências, como aborto e malformação fetal, quando utilizado contra mulheres grávidas. Há também as denúncias em relação às chamadas bombas de efeito moral, que teoricamente só fazem barulho, mas têm sido usadas com o intuito de ferir os manifestantes.
Durante a reunião, foi apresentado em áudio o depoimento da estudante Mayara, de 17 anos, ferida por uma dessas bombas. Ela estava tocando na bateria no ato realizado sexta-feira , 1.o de dezembro. De repente, Mayara ouviu um som de explosão e começou a aparecer muita fumaça. A polícia estava lançando bombas de efeito moral diretamente contra os manifestantes. A estudante começou a correr, ouviu um barulho forte e ficou inconsciente por alguns segundos. Quando voltou a si, percebeu que a bomba havia atingido seu pé e queimado a perna. Mayara foi internada, continua em observação no hospital, e corre o risco de ter que amputar um dos dedos do pé, além da grande queimadura na perna esquerda. “A primeira coisa que vou fazer quando sair daqui é processar a PM”, diz a voz emocionada no áudio. No dia da agressão, Mayara usava um coturno, bota grossa utilizada por militares. Caso usasse um chinelo ou sandália, poderia ter perdido o pé.
Há, ainda, relatos de espancamento, como no caso do estudante de sociologia Cristian Santander. No ato do dia 24 de novembro, Cristian, já ferido por três balas de borracha, foi derrubado por um policial, que deslocou seu braço direito. Quando o estudante tentou se soltar, mais quatro policiais o derrubaram novamente e bateram em sua cabeça com cassetete. Cristian foi levado, algemado, para o Hospital do Servidor Público, onde os abusos continuaram. Um policial pegou a carteira de Cristian sem autorização e começou a revirá-la. Quando questionou a atitude do policial, o estudante levou dois socos no rosto. O R.G. de Cristian, que estava na carteira, sumiu. Os policias humilharam, também, o pai do estudante, que foi ofendido várias vezes no hospital, respondeu chamando os policias de covardes e foi detido por desacato à autoridade e resistência à prisão.
Inconformado com o grande número de policiais sem identificação que acompanhava um dos atos, o estudante Bruno Parga começou a fotografar a manifestação. Perguntou a um dos PMs onde estava o seu crachá e o policial reagiu com violência. Assustado, Bruno foi esconder sua câmera fotográfica, já que a polícia tem como costume quebrar filmadoras e câmeras de manifestantes. O estudante foi arrastado para trás de uma banca de jornal, onde apanhou de cassetete na cabeça, enquanto outro policial imobilizava seu braço, usando mais força que o necessário, apenas para causar dor.
Bruno foi levado para uma viatura e, no caminho para a delegacia, levou uma borrifada de spray de pimenta direto nos olhos. Ao chegar na delegacia, mais uma vez espirraram o spray em Bruno, que se curvou de dor e apoiou o pé na cadeira. Um policial deu um golpe de cassetete no joelho do estudante, mandando “sentar direito”. Não havia nenhuma acusação contra o manifestante. Queriam incriminá-lo por uma pedra atirada em uma viatura, que ele acredita ter sido jogada depois de sua prisão, como desculpa para continuar detido. Liberado, o estudante fez exame de corpo de delito, porém a única agressão que constou foi o hematoma no joelho.
A coletiva de imprensa realizada pela Frente de Luta Contra o Aumento contou com apenas três veículos da imprensa, Carta Maior, Brasil de Fato e Caros Amigos, o que foi alvo de queixas pelos organizadores. O objetivo da entrevista, denunciar para a sociedade as violações de direitos humanos cometidas por policiais contra os manifestantes, acabou ficando restrito. A forma como a imprensa divulga a luta contra o aumento das passagens foi muito criticada pelos organizadores da Frente.
Uma das principais reclamações foi que mídia tem caracterizado os espancamentos dos policiais como “combate”. A documentarista do Centro de Mídia Independente Grazi, que filmou todas as passeatas, diz que só seria possível um “combate” se os estudantes estivessem em condições de igualdade de luta com a polícia, e se os manifestantes fossem orientados a reagir às agressões.
Foi relatado que a Folha de S. Paulo divulgou uma matéria dizendo que os estudantes estavam “enfrentando” a polícia. Indignados, organizadores da Frente mandaram uma reclamação ao Ombudsman, que respondeu com a definição do dicionário Aurélio, de que enfrentar é ficar de frente, e os estudantes estavam de frente para a PM, logo o jornal estava certo. “O único enfrentamento foi o do nosso exército de palhaços, que carrega metralhadoras de plástico.”, ironiza Grazi.
A Frente Contra o Aumento e o Sindicato dos Advogados do Brasil estão preparando um relatório com todas as agressões sofridas pelos manifestantes, e será movida uma ação na Justiça contra o Estado.
Mesmo com a repressão da polícia, continuam acontecendo atos pacíficos contra o aumento das passagens em São Paulo, e a orientação ainda é a de não reagir à agressão policial. No que depender dos manifestantes, o “enfrentamento” com a polícia será apenas no significado do dicionário.
Camila Gonçalves é estudante de jornalismo.