Em 20 de novembro de 1695, morreu Zumbi dos Palmares. 311 anos depois, mais de 12 mil pessoas se reuniram no vão livre do MASP, em São Paulo, para uma manifestação pedindo o fim da discriminação racial. A Terceira Marcha da Consciência Negra uniu pessoas que vieram de vários locais do Estado, e contou com apresentações de capoeira, hip-hop e dança africana na mais rica avenida do país. Como disse empolgada uma das organizadoras do evento, “a periferia invadiu a Paulista”.
A concentração estava marcada para o meio-dia. Aos poucos, foram chegando pessoas com camisetas de Zumbi, de Che Guevara e com roupas típicas africanas. Aproximo-me de um senhor sorridente, seu Felício, que usa camiseta com a imagem de Zumbi. Conversamos sobre a importância do dia 20 de novembro para os negros, “é um momento de reflexão, hora de a mídia começar a falar no povo preto”. Uma mulher chamada Rose entra na conversa. Pergunto sobre preconceito e eles dizem que é comum. Rose me conta que ali mesmo, na Av. Paulista, foi vitima de humilhação. “Estava comendo um lanche com o meu marido e tinham umas pessoas fumando maconha. Estava cheio de gente e os policiais vieram direto na gente”. Éramos os únicos negros no local, complementa.
Por volta de 12h 30, um trio elétrico torna-se o centro das atenções. É cantado, a plenos pulmões, o Hino da Negritude, de autoria de Eduardo de Oliveira. Quem não sabia ganhou a letra impressa para acompanhar. Também duas bandas de hip-hop se apresentam para um público cada vez maior e os organizadores lembram que os rappers que se apresentaram são dos poucos que se importam com a resistência e a militância. Explicam que os famosos “rap de vitrine, da Globo”, recusaram o convite, só se apresentariam com cachê. O sambista Felício diz que agora é normal os “garotos brancos” ouvirem hip-hop, mas considera isso muito bom, pois é um meio de levar a cultura da periferia para realidades diferentes.
Despeço-me e engato outra conversa, dessa vez com Sônia, que estava com o marido e o filho João, de 6 anos. Ela explica que aproveita o dia para ensinar ao filho sobre Zumbi e a cultura negra. “João estuda em escola particular e não convive com a exclusão e o preconceito comuns para quem é negro”. Um garoto circula com uma camiseta onde se lê “Você pode não gostar, mas tem que respeitar MESMO!”.
É incrível como as histórias se repetem. Todas as pessoas que falavam sobre preconceito contavam as mesmas histórias: perseguição em lojas, supermercados, restaurantes. Mesmo a tanto tempo da Abolição da escravidão, ainda há uma forte segregação na sociedade. Após as apresentações musicais, um ato inter-religioso lembrou como até as religiões de matriz africana sofrem preconceito. Com representantes do catolicismo, candomblé, umbanda e evangélicos, o ato lembrou a exclusão do povo negro e a dívida que a sociedade tem em relação a essa população.
Enquanto se iniciava o ato religioso, uma passeata organizada pelo cursinho popular Educafro, voltado para afrodescententes e carentes, se uniu à concentração na Avenida Paulista. Ela havia partido da Praça da República, com mais de 5 mil pessoas pedindo por cotas nas universidades e melhorias na escola pública. Com a chegada dos alunos da Educafro, o quarteirão onde está localizado o MASP foi tomado por manifestantes e o trânsito na Avenida Paulista foi fechado.
Após o ato religioso e discursos de alguns políticos, a marcha se preparava para sair. Aproveitei para conversar com Elaine e seu filho de 8 anos, Christopher. Ela disse que estava gostando muito da manifestação e que isso era importante para a população negra. Christopher estava com um chapéu africano, que me contou timidamente ter sido presente da sua mãe. Estava muito envergonhado, mas quando perguntei se ele tinha orgulho de ser negro, ele abriu um largo sorriso e me respondeu em voz alta: “Sim, tenho muito”. Assim como ele, várias crianças estavam descobrindo o orgulho negro. Muitas vinham com bonecas negras, meninas com lenços coloridos nas cabeças – assim como os que suas antepassadas usavam, camisetas de Zumbi muito maiores que elas, precisando que as mangas fossem dobradas várias vezes para não esconder as mãozinhas.
A Passeata da Consciência Negra saiu às 3 horas da tarde, descendo a Avenida Paulista, rumo à Avenida Brigadeiro Luís Antônio. Escolas de samba, danças africanas e tambores davam um toque de festa à manifestação. Dois trios elétricos acompanhavam a caminhada, aos gritos de “Cotas, já!”, “Ações afirmativas, já!” e “Racismo, não!”. Enquanto a marcha descia a Brigadeiro, pessoas olhavam das janelas dos apartamentos, possivelmente sem entender o que estava acontecendo. Mas a alegria era tanta, que muitas varandas foram tomadas por pessoas que dançavam ao som dos tambores.
Durante a passeata, eram distribuídos vários panfletos de organizações sociais, com o intuito de denunciar a marginalização do povo negro. Um deles, do Movimento Brasil Afirmativo, mostrava vários dados, entre os quais: negros têm, em média, 2,2 anos a menos de estudo que os brancos, 70% dos indigentes são negros, apenas 2% dos negros chegam à universidade e a expectativa de vida para os negros é 6 anos menor que para brancos.
A marcha chegou à Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, e as pessoas foram se acomodando no estacionamento do local. As dançarinas africanas que acompanharam todo o trajeto continuaram a linda dança, assim como os tambores continuaram tocando, enquanto um dos trios elétricos entrava no estacionamento. Para finalizar o Dia da Consciência Negra, um pouco de discurso sobre a importância do negro, a mortalidade de jovens na periferia e a exclusão social. Ocorreram, também, mais apresentações de rap e um ato religioso, que lembrava os ancestrais e pedia a bênção aos Orixás.
Durante o último ato religioso, o pai de santo convidou a todos que dessem as mãos e, no final se abraçassem. Essa foi a cena mais bonita do dia: negros e brancos, mulheres e homens, independente da religião, se abraçando, sorrindo e desejando que o preconceito acabe de uma vez. Após o final do ato, pequenos grupos foram se dividindo e indo embora, cada um para o seu lado, mas todos com uma alegria contagiante e a esperança de que o racismo seja extinto de uma vez.
Camila Gonçalves é estudante de jornalismo