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por Fabíola Perez
“Ao consumidor, cabe um papel essencialmente passivo. Sua racionalidade consiste em responder corretamente a cada estímulo a que é submetido.” Inspirado em idéias e conceitos do economista brasileiro Celso Furtado, o professor da Pontifícia Universidade Católica, Ladislau Dowbor, explica as teorias do consumo e suas aplicações no cotidiano moderno. Em sua obra recente, Democracia Econômica, Dowbor ratifica a idéia de que o homem deixa de ser o sujeito do processo e passa a ser analisado como objeto suscetível de análise e programação.
Há quase um ano após a divulgação do relatório do IPCC, sigla em inglês referente à Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, São Paulo foi a metrópole responsável por sediar a campanha nacional “Mude o consumo para não mudar o clima”, inaugurada em março de 2008. Com o objetivo de conscientizar o consumidor em relação aos impactos de seus hábitos sobre o clima do planeta, a parceria entre o Instituto de Defesa do Consumidor (IDEC) e a ONG Vitae Civillis – Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz busca uma ação para exigir de empresas e autoridades políticas públicas que estimulem a produção e a prática do consumo sustentável.
Os principais pilares da campanha são a instalação de computadores portáteis em pontos da capital paulista para o consumidor calcular sua contribuição de emissão de gás carbônico e outras atividades que visam a obtenção de um consumo consciente. Segundo o coordenador executivo da ONG, Rubens Born, serão distribuídos cartões postais para supermercados não utilizarem carnes provenientes de fazendas que pratiquem o desmatamento. “As principais fontes de emissão de gases do efeito estufa do Brasil são o desmatamento e as queimadas – respondem por volta de 70% das emissões nacionais.”, explica Born.
A preocupação com o consumo se deu, principalmente, após a divulgação do relatório do IPCC. No entanto, a partir do dia 15 de março – Dia do Consumidor – as discussões sobre o tema se tornaram ainda mais recorrentes. Nesse aspecto, destacam-se as campanhas midiáticas dos setores publicitários das grandes corporações, abordadas em Democracia Econômica. “O consumidor não tem informação, ou é demasiado bombardeado por mensagens publicitárias para ter uma opção de consumo racional. A capacidade reguladora do Estado se torna irrelevante frente ao processo de globalização e dá lugar ao poder detido pelas corporações”, escreve Dowbor.
“O mercado apropriado pelos grandes grupos é cada vez menos democrático, e na realidade, cada vez menos mercado. Na era das corporações, quando a economia deixa de ser regida por leis de concorrência de mercado, e tampouco é regida pelas leis da política, gera-se um espaço desgovernado.” Além de expressar com cuidado sua opinião e seus conceitos acerca da democracia econômica, ele discorre sobre o funcionamento social. “A sociedade deve se organizar em prol de seus interesses, de maneira participativa e descentralizada. A administração tradicional é modificada pela sociedade organizada para obtermos, como resultado, a participação coletiva na construção de políticas públicas.”
A ressalva em relação as atitudes e ações ecologicamente corretas vem da comparação feita entre a verba gasta no chamado marketing verde e ações efetivas. Dowbor alerta que é ínfima a quantidade de recursos utilizados em ações ambientais, enquanto que, a quantia reservada às estratégias e campanhas publicitárias só tende a aumentar. É explícita a preocupação do marketing verde em alguns segmentos, entre eles o imobiliário. Segundo dados do Conselho Federal de Corretores de Imóveis, os estímulos lançados ao consumidor hoje, são referentes ao consumo racional e ecologicamente correto. Foi previsto, após a adoção dessa estratégia, um aumento de 30% em vendas durante 2008.
Outro economista citado na obra de Dowbor, com a mesma linha de pensamento, é John Kenneth Galbraith. Afirma que o gigantesco sistema de manipulação do consumidor por meio da publicidade leva o próprio sistema corporativo a definir o perfil da demanda. Segundo Galbraith o mecanismo de mercado foi substituído pelo mecanismo de poder. “Em vez de proprietários de capital, temos o personagem admiravelmente impessoal chamado de ‘forças do mercado’. Seria difícil pensar numa mudança de terminologia mais coincidente com os interesses daqueles a quem o dinheiro dá poder. Eles agora passam a dispor de um anonimato funcional”. E de acordo com os dados citados e a propícia situação ambiental, parte desse poder está sendo conquistada pela potencialização do marketing verde dentre as estratégias recorrentes no mercado.
Fabíola Perez é estudante de jornalismo e escreveu essa matéria para o projeto Repórter do Futuro, realizado pela Oboré.
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