Renato Tapajós tem 64 anos, nos anos sessenta descobriu que o cinema era sua vocação. Mas não a única. Jornalista desde garoto, lutou fortemente contra a ditadura militar. Como muitos de seus companheiros foi preso e torturado. Com sorte, sobreviveu ao período mais triste da história do Brasil. E nessa entrevista concedida à estudante Camila Martins conta sobre sua vida e obra – que são muitas – entre elas, o filme Linha de Montagem, documentário que retrata o primeiro grande movimento de massa durante o período militar, as greves dos metalúrgicos do ABC paulista no fim dos anos 70. Sobre um dos personagens do filme, o então metalúrgico Lula, revela: “No meu ponto de vista, o Lula não mudou muita coisa, as pessoas avaliaram mal quem era aquele sujeito naquele momento”. Eis a entrevista desse paraense da gema.
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por Camila Martins
arte da home Mariana Nóbrega
Como
começou
sua carreira? Primeiro foi como jornalista?
Primeiro fui jornalista em Belém do Pará, antes de vir pra São
Paulo.
Em que ano?
Por volta de 1960, mas como jornalista eu já tratava de cinema, fazia
crítica de cinema no jornal O Liberal, editado em Belém do Pará.
Mas, quando fui prestar vestibular, optei pela engenharia. Passei no ITA, mas
eu não consegui ficar mais do que quinze dias, porque no ITA os alunos
são submetidos a um regime militar e eu não gostava daquilo.
Voltei pra cursar a Escola Politécnica, e descobri um grupo de alunos
que gostava de cinema e que tinha montado o Grupo Kuatro, entre eles o João
Batista de Andrade e o Francisco Ramalho. Havia mais pessoas e eu fiz parte
do grupo, foi a maneira como entrei para o cinema, comecei a fazer cinema.
E profissionalmente foi quando?
Profissionalmente só fui fazer cinema na década de 1970. O meu
primeiro filme é de 1964, Vila da Barca, uma produção independente
feita na raça, na vontade, sobre uma favela que é construída
sobre palafitas nas margens do rio Amazonas, e que existe até hoje. Para
minha surpresa, o filme ganhou o prêmio de melhor documentário no
festival de Leipzig, na Alemanha. Meu primeiro filme feito em um esquema semi-amador
ganha um festival internacional, aí eu me convenci que poderia fazer cinema
e que não era engenharia que eu queria fazer. Fiz vestibular para ciências
sociais e entrei. Peguei a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da
USP no seu período de maior agitação política, entre
1964 e 1968. Fui ser militante do movimento estudantil, e produzi dois documentários
financiados pelo Grêmio da Faculdade de Filosofia chamados Universidade
em Crise, e o outro Um por Cento, sobre os vestibulares. Num certo sentido aprendi
a fazer cinema elaborando esses filmes. Nesse período, até 1969,
eu não era um profissional de cinema. Na verdade, o trabalho que desempenhei
foi um free-lancer de jornalismo, porque escrevi para vários dos pequenos
jornais de imprensa alternativa que estavam surgindo na época, como o
jornal da UNE, União Nacional dos Estudantes, dirigido pelo Raimundo Pereira.
Fazia free-lancer de crítica de cinema e ao mesmo tempo militava politicamente.
No final de 1968 optei pela clandestinidade e luta armada.
Na Ala Vermelha?
Na Ala Vermelha, o que resultou na minha prisão até 1974, cinco
anos.
Onde
você ficou
preso?
Fiquei preso em São Paulo nos presídios de Tiradentes, Hipódromo,
na detenção do Carandiru e finalmente na penitenciária
do Carandiru.
Sofreu algum tipo de tortura?
Sim, logo que fui preso pela Oban, Operação Bandeirantes, que
era o ensaio geral do Dói-Codi. Fui bastante torturado, eu e os companheiros
presos naquele momento passamos por torturas intensas. Em 1974 saí da
cadeia. É preciso considerar que meu trabalho estava muito relacionado
com a política, quando eu estava no movimento estudantil fiz filmes
ligados ao movimento, e quando saí da cadeia a Ala tinha feito uma autocrítica
da sua participação na luta armada e a orientação
geral era se ligar às massas e ir para as regiões onde havia
movimento operário ou camponês.
Foi
aí que surgiu a idéia
de fazer o Linha de Montagem?
Foi. Me aproximei do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo,
primeiro dei um curso de cinema para os membros do sindicato e parte da diretoria
participou. Discutimos a possibilidade de fazer cinema e surgiu a proposta
de realização de filmes no sindicato. O primeiro foi um filme
chamado Acidente de Trabalho, a primeira vez que o acidente de trabalho era
encarado pelo ponto de vista do operário. Quando estourou a greve de
1979, a diretoria me chamou: “Olha, a greve tá muito maior do
que a gente imagina, a adesão é muito maior, então tem
que registrar isso”. Disse: “Não tem dinheiro, não
tem produção”. E eles: “Não tem problema,
começa a chamar que produção a gente arranja depois”.
Montei uma equipe mínima, com quatro pessoas: o Zetas Malzoni fazendo
a fotografia, a Maria Inês Vilares como assistente, e o Francisco Coca
como técnico de som. E essa pequena equipe foi acompanhar a greve.
A diretoria estava cassada?
É, e o Lula retomou na prática o comando da greve. Essa diretoria cassada
pediu um filme com aquele material já rodado que servisse para manter
os operários mobilizados durante o período de 45 dias de negociação
acordado nas negociações com os patrões. Em dez dias conseguimos
fazer um filme que originalmente recebeu o singelo nome de Para que Ninguém
nunca mais Duvide da Capacidade de Luta da Classe Trabalhadora, e que por motivos óbvios
ficou conhecido como Greve de Março, nome mais curtinho. Esse filme
foi intensamente visto pelos trabalhadores nesse período, e realmente
exerceu um papel significativo na mobilização dos operários
até a assembléia seguinte que deu fim à greve. A diretoria
retomou o sindicato e conseguimos dinheiro para rodar o filme.
Já se
articulava a formação do PT?
Exatamente. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, além da greve
tinha terminado o governo Geisel, estava entrando o Figueiredo, a luta pela anistia
estava no auge, então foi um período muito intenso de mobilizações
e transformações políticas no país. Tínhamos
que encontrar um rumo e resolvemos fazer um filme voltado ao processo de organização
dos trabalhadores no desenvolvimento dessa greve. Na minha cabeça, o propósito
fundamental do filme era voltar pra classe operária que tinha feito aquela
greve, pra que eles vissem o movimento de um ponto de vista crítico e
fossem capazes de fazer uma análise da luta que eles tinham travado e
identificar os erros e acertos. Não filmamos nada das negociações
com os empresários, deixamos de lado toda a questão do governo,
e até mesmo da repressão. O filme ficou completamente focado na
questão da organização.
Em uma das assembléias, o filme mostra uma faixa que tem Jesus
de um lado e o Lula de outro, isso mostra o quanto o Lula já tinha conquistado
o movimento operário e sua capacidade de coordenação.
E como ele já era visto pela classe operária como uma liderança
efetivamente carismática.
E hoje o que resta dessa imagem?
No meu ponto de vista, o Lula não mudou muita coisa, existe toda uma
discussão sobre o que aconteceu com ele e etc., mas não acho
que ele tenha mudado muito. Acho que, talvez, as pessoas tenham avaliado mal
quem era aquele sujeito naquele momento, porque, revendo Linha de Montagem,
revendo os discursos dele em praça pública, ele já manifestava
claramente que a visão política dele estava muito relacionada
com negociação e conciliação em vez de conflito.
Nunca
teve um projeto revolucionário.
Exatamente. É lógico que a retórica naquele momento era
uma, e hoje é outra, houve um abrandamento da frase, do discurso, que
tem a ver não apenas com o cargo, mas com as circunstâncias políticas
que o país passa. O Lula tem uma capacidade de adaptação
fenomenal, ele não dá murro em ponta de faca, isso é um
aspecto. E o outro aspecto que ele mantém é uma capacidade de
diálogo com a população mais pobre, com as pessoas simples,
uma capacidade de diálogo inigualável. Ele não tem a retórica
dos grandes populistas, não tem a retórica do sonho de transformação
e nem mesmo uma retórica messiânica do gênero das transformações
radicais, do “amanhã chegará”. O Lula fala muito
pro indivíduo, sempre repete aquele negócio do “pensa na
sua casa, na sua mulher, nos seus filhos”. É uma retórica
de pai dando conselho e a população gosta disso.
E
para você como está sendo
o governo dele?
Acho complicada essa avaliação porque faço parte de uma
geração que acreditava na possibilidade da revolução,
na possibilidade de uma transformação radical do país
que levasse para o socialismo, outros falavam que era simplesmente para uma
sociedade mais justa, ainda que sem definir muito bem que regime político
seria. Isso era, vamos dizer, o grande sonho possível até os
anos 1980. A partir dos anos 1990, a hegemonia americana, a queda do socialismo,
a mudança do paradigma mundial, acabou deixando todo mundo em uma situação
meio complicada, porque, por exemplo, eu não consigo hoje acreditar
mais em transformações revolucionárias radicais porque
todas as experiências feitas não deram certo e ainda não
se propôs um novo modelo convincente. É possível encontrar
uma forma de conduzir a política e economia do país da melhor
maneira possível para o seu povo dentro das condições
que estão sendo dadas. Não sou chavista e nem condeno de cara
a experiência que ele faz na Venezuela, mas espero pra ver se vai dar
certo. Os parâmetros para considerar um governo de esquerda mudaram muito,
você pode até achar que determinado governo de esquerda se dobra
demais à vontade do capital, a gente pode até fazer críticas
desse tipo ao Lula. Mas, do ponto de vista prático, determinadas condições
têm melhorado: as condições de vida da população
mais pobre, emprego, a situação do Brasil na conjuntura internacional.
Quando o Lula estava no sindicato percebi, por exemplo, nas duas greves, tanto
em 1979 quanto em 1980, que as reivindicações imediatas dos trabalhadores
não foram atendidas, eles não ganharam aumento de salário,
não tiveram os dias parados pagos e não mudaram as condições
de trabalho dentro da fábrica. O que se construiu naquele período
foi uma força política de determinadas lideranças. Então,
até se poderia levantar a crítica às greves, já que
as reivindicações não foram atendidas, só que,
em 1985, 1986, os metalúrgicos de São Bernardo e Diadema eram
considerados os operários melhor remunerados e com melhor condição
de trabalho do país. E isso não aconteceu por acaso. Foi conquistado
por essa força política que se construiu nesse processo. A CUT
e o PT surgiram desse processo de greve e tiveram papel importante. Essa lógica
do ganho imediato é um pouco questionável, o que se ganha em
um determinado governo talvez não se ganhe a curto prazo, mas esteja
construindo algo que ganhe um impacto posterior. É muito cedo pra dizer
o que o governo Lula é ou foi. Tem muita coisa que aconteceu nesse governo
que não gosto, que poderia ter sido feita de outro jeito, mas o processo
está no meio. E, de qualquer modo, o governo Lula é cem vezes
melhor do que o governo FHC, e sem comparação ao que existiu
anteriormente.
Voltando
ao filme, ele foi feito durante a ditadura. Como foi a relação
com a censura?
Quando ficou pronto, mandamos para a censura e ela resolveu nos “cozinhar”,
nem liberava nem deixava de liberar. Estreamos o filme assim mesmo, numa sessão
no Sindicato dos Metalúrgicos em 1982. Compareceram à estréia,
além da diretoria da época, o Lula já na condição
de presidente do PT. Estava também o Tito Costa, que era prefeito de
São Bernardo pelo PTB; e o Chico Buarque e a Marieta Severo, que foram
porque o Chico fez a trilha sonora do filme. Sem contar os mais de 2.000 metalúrgicos,
sobrou gente pro lado de fora. Não tinha rolado nem um terço
da sessão quando baixaram duas viaturas da Polícia Militar, instruídas
pela censura, para impedir a sessão e levar o filme embora porque não
tinha o certificado de censura. Os metalúrgicos naquela quantidade não
deixaram os militares entrarem no auditório, bloquearam as escadas,
e os militares ameaçaram chamar reforços e entrar na marra. Aí o
Lula, o Tito Costa e o Chico foram negociar com o comandante da ação
e chegaram a um acordo: deixaram o filme passar e cada rolo que fosse saindo
do projetor entregaríamos pra eles. O filme continuou a passar, só que
cada rolo que saía do projetor, em vez de ser entregue para a censura,
os metalúrgicos criaram um esquema que o filme ia desaparecendo no meio
da multidão. Só um parêntese, nunca soube o que aconteceu
com o filme, apesar de me devolverem. Vendo anos depois o documentário
do Eduardo Coutinho, Os Peões, descobri como o filme tinha sido resgatado
por uma funcionária que colocou os rolos numa sacola de feira e saiu
de lá na cara dura. Levei vinte anos para descobrir e fiquei profundamente
emocionado. Voltando ao dia da estréia, os metalúrgicos no final
da sessão cercaram os carros da policia e começaram a balançar
os carros, ameaçando virar, foi preciso a intervenção
direta do Lula pra falar: “Não precisa disso, deixa os caras irem
embora”. Mais ou menos vinte dias depois desse episódio a censura
liberou o filme.
E
o projeto de relançamento
do filme como surgiu?
Queria fazer um novo Linha de Montagem que utilizasse o material do primeiro
e comparasse com o que estava acontecendo no país após a posse
do Lula em 2002. Não consegui financiamento e propus a restauração
do filme, porque as cópias estavam bastante machucadas pelo tempo.
O processo de restauração foi radical porque pegamos o negativo
original, que estava na Cinemateca, desde 1984, ou seja, quinze anos guardado
e ficou bastante danificado, inclusive com fungos. Foi feita uma restauração
digital praticamente quadro a quadro que levou oito meses.
E
o relançamento foi feito no festival É Tudo
Verdade?
Sim. Foram feitas três sessões do filme, uma no Rio de Janeiro
e duas em São Paulo, então oficialmente o filme foi lançado
no festival. Agora nós estamos preparando dois lançamentos paralelos,
um em São Bernardo, no Sindicato dos Metalúrgicos, com a idéia
de reproduzir o lançamento original no dia 15 de maio; e depois em Campinas.
E o filme vai entrar no circuito comercial?
Vai. Ainda não tenho datas nem previsões, mas estamos discutindo
com um distribuidor. E pelo menos até o fim de maio vamos lançar
o DVD.
Como você vê o atual cinema nacional?
Quando comecei a fazer cinema, do ponto de vista de produção, o
cinema estava numa situação precária, passava por uma crise.
O cinema brasileiro tinha passado nos anos 1950 por experiências muito
sofisticadas, como a da companhia Vera Cruz em São Paulo, e também
os estúdios do Rio de Janeiro, que faziam as chanchadas. No final da década
de 1950, começo de 1960, esse modelo de cinema tinha se esgotado e fracassado,
surgia um novo modelo de produção que se fortaleceu dez anos depois,
com a Embrafilmes. Contraditoriamente a isso, o cinema vivia o momento criativo
mais importante, o cinema novo. Glauber Rocha, Joaquim Pedro, todo esse bando
de cineastas que, como dizia Glauber, com uma câmera na mão e uma
idéia na cabeça, revolucionaram o cinema brasileiro. E não
só o cinema brasileiro, porque as idéias do cinema novo tiveram
impactos no cinema mundial, no cinema europeu, e muito tempo depois chegou até no
cinema americano. O cinema novo foi uma revolução formal extremamente
importante. Aí vieram as crises, porque o cinema brasileiro vive de ciclos,
ele se realiza entre uma crise e outra. Até que chegou na crise do começo
dos anos 1990, com o governo Collor, que parecia uma crise definitiva para
o cinema brasileiro.
Por
quê?
O Collor acabou com a Embrafilmes e com todas as estruturas responsáveis
pela produção do cinema e não botou nada no lugar, quer
dizer, o cinema brasileiro ficou órfão de pai e mãe. Em
1990 se fazia quase oitenta filmes por ano, e em 1993, um ano depois da queda
do Collor, o cinema brasileiro estava fazendo três filmes por ano. Aí começou
a política de incentivo fiscal, que ainda hoje é a base da produção
do cinema brasileiro, que teve um efeito significativo: fazer cada vez mais
filmes, apesar das minhas restrições com relação
ao resultado técnico, cultural, de um processo que acaba entregando
a decisão final a respeito dos filmes ao marketing das grandes empresas.
O Tropa
de Elite é um desses filmes de ótima qualidade técnica?
É
um filme de excelente qualidade, extremamente discutível, mas muito bom.
Fora esse renascimento do cinema brasileiro com a lei do incentivo e etc., o
cinema brasileiro viveu no começo dos anos 2000, particularmente a partir
de 2003, um outro fenômeno importante para o futuro que foi a entrada da
Globo Filmes no pedaço, e pra valer. Em um ano ela elevou o número
de espectadores de filmes nacionais de 7 por cento para 25 por cento do total.
Foi o ano de Carandiru e Cidade de Deus, dois grandes sucessos. A entrada da
Globo Filmes é um negócio extremamente contraditório, porque,
do ponto de vista do incentivo à produção, da criação
de mercado, do aumento da qualidade técnica da produção, é inegável,
você tem um padrão de produção cinematográfica
bem mais elevado. Em todos esses filmes existe a preocupação com
o mercado internacional e, portanto, com um padrão de fotografia, de som,
de estética incapaz de fazer feio junto aos filmes produzidos no exterior.
Por outro lado, a Globo trouxe para o mercado de cinema o padrão Globo.
Então, a gente tem filmes com propostas extremamente inovadoras e que
não têm boa bilheteria quanto poderiam ter, não fosse esse
gueto. É tudo muito contraditório, de repente a Globo Filmes
ajuda um filme como Tropa de Elite a estourar, mas em contrapartida
filmes excelentes, como Casa de Alice, passam despercebidos, quase ninguém vê, e é muito
bom, com propostas formais muito interessantes. Sem falar de outros filmes que
estão nesse caminho experimental.
Por último,
queria saber sobre o seu lado escritor de livros infanto-juvenis.
Se eu não tivesse sido cineasta teria sido escritor. Quando me formava
intelectualmente pensava em ser escritor e o cinema atropelou essa vocação
inicial. Já tinha escrito o Em Câmera Lenta, que é um livro
que não só fez muito sucesso, como deu muita confusão
(Tapajós foi preso novamente, em 1977, por conta da publicação
desse livro que fazia uma autocrítica da sua experiência na luta
armada, e relatava os abusos do regime militar). Logo depois da crise provocada
pelo Collor eu não tinha nada para fazer porque o cinema parou, as produções
pararam, tudo suspenso. Toda aquela movimentação pelo impeachment
do Collor e eu com filhos adolescentes naquele momento. Percebi que havia uma
movimentação da garotada que tinha muito a ver com o que eu tinha
vivido nos anos 1960, e comecei a escrever quase que como uma espécie
de diálogo com os meus filhos, escrevia muito mais pensando em conversar
com eles, mostrar que o que estava acontecendo em função da luta
pelo impeachment do Collor tinha um espírito muito parecido com aquilo
que nos animava nos anos 1960 a lutar contra a ditadura. Isso deu no livro
chamado Cara Pintada em que o personagem, que era um cara-pintada que lutava
contra o Collor, ia parar nos anos 1960 por um fenômeno não explicado,
e aí ele tinha a oportunidade de comparar na prática as duas
lutas. O livro esgotou. Com isso fiquei animado, e comecei a escrever mais.
O segundo livro foi o A Infância Acabou. Fiz o resto da série,
Queda Livre, e Por um Pedaço de Terra, que era o compromisso que eu
tinha de fazer alguma coisa relacionado com o Movimento dos Sem-Terra; e finalmente
O Rádio Muda. Aí meio que se esgotou pra mim essa experiência
do livro infanto-juvenil.
Mas
em algum momento você viu no jovem o papel de uma figura transformadora
da realidade?
Via uma geração que tinha a possibilidade de sair um pouco daquele
modelo neoliberal, do jovem individualista-consumista que só pensa na
carreira, enfim, a proposta dos meus livros era exatamente abrir os olhos da
garotada pra isso.
E a juventude de hoje?
O poder da mídia, da propaganda é uma coisa muito perigosa, que
grande parte dos jovens brasileiros foi ganha por uma perspectiva individualista.
E não é só culpa da mídia, vamos e venhamos, o
próprio sistema educacional brasileiro não colabora muito. De
um tempo pra cá, uma parcela bastante significativa da juventude entre
20 e 30 anos está extremamente interessada em propostas transformadoras.
Ao contrário da minha geração, o eixo das propostas transformadoras
não é necessariamente a política, como era antigamente,
fora da política não existia mais nada.
Como os movimentos sociais?
Os movimentos sociais, sem dúvida, e movimentos altamente representados
nos Fóruns Sociais Mundiais, como o pessoal que trabalha com a liberdade
da comunicação, as rádios livres que pretendem romper
com o monopólio da comunicação, pessoal que trabalha também
usando a Internet. Além, é claro, dos que se envolvem diretamente
com a política. O bom é que o jovem hoje tem múltiplas
escolhas.
Camila Martins é estudante de Ciências Sociais.
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