![]()
por Gabriel de Barcelos Sotomaior
Sujeira, pequenos furtos, pessoas que ameaçam vizinhos para conseguir água. Esta situação caótica e repugnante é o cenário descrito pelo jornal Correio Popular para a ocupação Frei Tito, do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), em Campinas. Mais de mil famílias estiveram acampadas desde o dia 28 de março, em um terreno vazio, cujo proprietário deve 2 milhões de reais em imposto para a prefeitura.
O jornal campineiro, desde o início do movimento, esqueceu de fazer jornalismo e vem inflamando uma campanha declarada contra os sem-teto.
Obviamente, não poderíamos esperar uma posição de um jornal da grande mídia a favor de um movimento social. Contudo, o Correio Popular, na ânsia de deslegitimar a manifestação, vem esbarrando em textos totalmente preconceituosos, elitistas e desumanos.
Durante toda a história, um dos recursos mais utilizados politicamente foi a desqualificação do inimigo. Em guerras, empresas ou campanhas eleitorais, a comunicação foi utilizada com este fim específico. Contra a população pobre, minorias e outros grupos, uma atitude comum é a desumanização total, ou seja, colocar pessoas no mesmo nível de vermes. Qual é a razão desta estratégia? Legitimar uma possível ação violenta de repressão, pois a vida, nestes casos, teria pouco ou nenhum valor. Isto poderia ser melhor explicado se recorrermos aos textos publicados pelo periódico.
No dia 2 de abril, o jornal, ao falar do assunto, apresentou um argumento central (não, não era uma coluna opinativa e sim uma matéria): as pessoas que ocupavam o terreno não precisavam estar lá, pois tinham onde morar. Eu fico imaginando o que passa na cabeça de um trabalhador sem-teto ao tomar a decisão de entrar na propriedade: “Nossa! Eu tenho uma casa maravilhosa e confortável, mas acho que seria bem melhor dormir no frio, na chuva e no barro, em um terreno vazio.” Uma simples volta na ocupação e uma conversa com os ocupantes revela a mentira: pessoas que vivem de favor, em péssimas condições, outras que não têm condição de pagar o aluguel e muitas que não têm para onde ir. Mas saber os motivos das pessoas, o porquê de estarem lá (os famosos “personagens” que o jornalismo tanto gosta) não era interessante.
No dia 4 de abril, a reportagem mais seriamente ofensiva. Um local de insegurança, crimes e ameaças é descrito pela matéria. As ameaças relatadas giram em torno da recusa de alguns vizinhos (segundo o jornal) em ajudar os sem-teto com ítens de necessidade básica como água, comida e roupas. Os “pequenos furtos”, que estão na capa do jornal e no título da reportagem, possuem apenas um caso citado no corpo do texto: uma moradora relata que uma pessoa pulou o muro para pegar água e madeira.
No dia 8, ao falar da manifestação do MTST em frente à prefeitura, o Correio Popular tropeça em suas próprias incoerências. Em edições anteriores, (e nesta, especialmente) o jornal insistiu na idéia de que o movimento não tinha nenhum objetivo e estava só “fazendo política”. Mas, quando sem-tetos se dirigiram ao poder público para fazer suas reivindicações, o Correio opina (não informa), em letras garrafais, que os sem- teto querem “adiar a desocupação” e “ganhar tempo”. Dentro do próprio jornal, está clara a incoerência. Em seu editorial, ele destaca um comentário profundamente preconceituoso: “Em meio a toda desordem, há manifestações agressivas, falta de disciplina, sujeira e furtos e nenhuma intenção em negociar.” Se você virar algumas páginas, vai ver na matéria: “O MTST queria a emissão de uma carta da CEF garantindo que forneceria financiamento para um eventual plano de habitação que venha ser criado para abrigar as famílias (...)” O que o MTST fazia em frente à prefeitura, então, senão exigir uma negociação para acordar estes termos?
No dia 9, o golpe final: depois de toda a campanha, depois de toda a desqualificação, vem, em destaque, a notícia do prazo da polícia para desocupar até a manhã do dia 11 de abril. Era como se eles dissessem: “PM, prefeitura, fiz minha parte, agora é com vocês”.
O mais interessante é que, nesta mesma matéria, em um pequeníssimo parágrafo, está a situação do proprietário. Ele negocia há dez anos a dívida de dois milhões de reais do IPTU do terreno com a prefeitura. Mas isto não merece destaque do jornal nesta série, assim como não foi considerada importante pelo veículo uma discussão sobre a política habitacional de Campinas.
De um lado, dez anos sem pagar impostos, de outro, alguns dias para desocupar. De um lado, dois milhões a menos para o uso público, de outro, pessoas na miséria. De um lado, a especulação imobiliária que favorece um, de outro, mais de mil famílias e centenas de pessoas que trabalharam a vida toda mais não têm lugar para morar. De que lado a prefeitura e o Correio “Popular” estão?
No dia 10, esgotadas todas as formas de difamação, o Correio teve que recorrer às táticas mais baixas e mesquinhas. Vamos tentar imaginar o que passou na cabeça do jornalista ao escrever esta edição: “Eu já fiz de tudo para detonar estes caras, o que mais posso fazer? Peraí! Tive uma idéia! Que tal pesquisar o nome de militantes no Orkut, olhar seu perfil e publicar no jornal, expondo-os ao ridículo e revelando as suas intimidades?" Pois é. Por incrível e surreal que possa parecer, é isto que saiu no jornal (na capa).
É importante lembrar que o tempo todo o periódico martelou prazos policiais e a possibilidade de repressão, como se quisesse que algo fosse feito para resolver aquela situação.
Os sem-teto desocuparam o local pacificamente no sábado, dia 12, e ficaram acampados em frente à prefeitura de Campinas. Cinco deles estavam acorrentados nas escadarias. Após acordo com o poder público, eles decidiram deixar o local.
Não houve violência, apesar de toda a campanha discriminatória. Já os sem-terra da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia não tiveram a mesma sorte. Após uma terrível campanha da mídia, que chegou a nível nacional através da revista Istoé, o clima para a existência de uma tragédia anunciada gerou a morte de mais de quinze trabalhadores.
Qual será o próximo massacre? Qual será o próximo grupo a ser humilhado? Até quando a imprensa vai agir com preconceito e preparar (ou tentar preparar) o campo para tragédias? Até quando o ser humano terá que ser retratado desta forma?
Gabriel de Barcelos Sotomaior é jornalista.
dê a sua opinião