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Carro, um conceito

por Daniel Clemente

Em “tempos modernos” o atraso do pensamento individual é o progresso da artificialidade da modernidade. Numa sociedade globalizada onde o valor-mercadoria é o que define as relações sociais não é difícil se deparar com pensamentos que nem deveriam ser classificados como uma atividade do “pensar”. A ignorância toma forma de individuo e este toma forma de coisa, coisa é a mercadoria que ocupa o lugar do individuo e ganha vida no seu valor de mercado.

Há pinturas cercadas por molduras que valem mais do que a própria arte. Nós, a arte, ganhamos valor sendo emoldurados por um belo automóvel, tornando o cotidiano cinzento e escuro com suas cores padrões, mas a juventude continua com sua insistente “rebeldia” passeando com seus motorizados vermelhos. Tão mais insistente é o mercado que derrama seus produtos a serem consumidos por consumidores que por sua vez são consumidos por juros. Possivelmente a função atual do porta-luvas nos automóveis é de carregar as intermináveis folhas destacáveis de um carnê representando o “progresso pessoal” sendo obtido em suaves setenta e duas prestações.

Devagar, quase parando, é nesse ritmo que os especialistas no “trânsito intransitável” de São Paulo agem para que a cidade não se transforme em um “estacionamento compulsório”. A capital que insiste no título de “Locomotiva do Brasil” encontra na punição automotiva a solução para tentar voltar “aos trilhos”. Com os impostos mais caros da Federação a gana pela arrecadação transforma o caos em lucro, a ausência de política para o transporte público alimenta a iniciativa individual estimulando a compra de um automóvel a ser utilizado diariamente, o aumento da frota particular é acompanhado pela penalidade, o “rodízio” estipulado em “horários de pico” apenas criou a concepção do 2º carro na garagem. Com os financiamentos “a perder de vista” sem a necessidade de ter que vender o que tem para comprar outro mais novo, rapidamente essa medida se tornou obsoleta, e o rodízio apenas existe na garagem dos proprietários de dois ou mais automóveis.

Agora os especialistas no trânsito (especialistas estes que desde que foram concebidos o trânsito de São Paulo só piorou) já falam em voz alta e como  “gênios da garrafa ou do engarrafamento” que a solução está no pedágio urbano, mais uma medida punitiva que vem graças a ineficácia de órgãos públicos, um custo que será dividido entre os cidadãos urbanos portadores de meios de condução, nada mais democrático, não é? O caos e o lucro se unem na cabine com cancela.

Um país que buscou sua industrialização no desenvolvimento da indústria automotiva já pode se orgulhar de ter um “trânsito de primeiro mundo”, para quem enfrenta diariamente os congestionamentos a situação é de atraso na organização urbana, mas pode ser um sinal de “progresso acelerado” para quem tem vantagens econômicas com a situação e assistem tudo de helicóptero. Na década de setenta, Ivan Illich sustentou que “quantomaior a velocidade dos automóveis, menos sairiam do lugar”, se estivesse vivo poderíamos nomeá-lo como o “verdadeiro especialista do trânsito”.

Daniel Clemente é historiador.

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