Hugo Chávez é, sem dúvida, uma liderança na América Latina. Influenciado pela herança de Simón Bolívar, busca a integração dos povos latinos e a concentração de forças contra o poder, sobretudo, estadunidense. Enfrenta forte oposição política, econômica e da imprensa dentro e fora do país. Na entrevista exclusiva à Caros Amigos, em agosto de 2004, já alertava sobre a penetração dos EUA na tensa fronteira entre Colômbia e Venezuela por meio de comandos militares e de inteligência. O Plano Colômbia, segundo ele, um suposto combate ao narcotráfico é usado para justificar a presença dos pupilos de Bush na região. Em 2008, não fossem acordos diplomáticos, as armas e os soldados poderiam estar, explicitamente, em combate. Chávez, sabedor de sua representatividade, mostra firmeza nas decisões e disposição para lutar pelo que julga mais importante. A seguir, a entrevista concedida ao jornalista e editor especial, José Arbex Jr., em Caracas.
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Às vésperas do referendo que deverá preservar ou revogar seu mandato, o presidente venezuelano recebe Caros Amigos com a certeza de que derrotará os adversários – pela quinta vez em pouco mais de dois anos e com inteira obediência à Constituição. por José Arbex Jr. |
“E então, como estão as coisas no Brasil?”, pergunta Hugo Chávez, no dia 25 de julho, uma bela tarde ensolarada, data do aniversário de Caracas (fundada em 1567) e quase a do libertador Simón Bolívar (nascido em 24 de julho de 1783, “mas dizem que foi à meia-noite de 24, ou logo nos primeiros minutos de 25”, afirma o presidente, revelando uma certa vontade cabalística de enxergar mais do que uma simples coincidência nas datas). Chávez, que fará 50 anos em 28 de julho, acaba de encerrar a 199ª edição do programa dominical Alô Presidente, quando instala o seu governo em alguma praça pública de uma cidade qualquer da Venezuela, para ali ouvir críticas, queixas, elogios e promover debates sobre o seu governo, tudo transmitido ao vivo, pela rede de televisão pública (Canal 8 e agora também o novo Canal Vive) e por emissoras de rádios comunitárias. Alguns programas duram até seis horas, mas batem recordes de audiência, em grande parte porque o seu principal animador é uma figura extraordinária: entre uma análise política do imperialismo de George Bush e a defesa apaixonada da unidade latino-americana, Chávez conta anedotas, declama poesias, canta, recomenda a leitura de livros, conversa por telefone com gente que liga de todas as partes.
Ao receber Caros Amigos, logo após o encerramento do Alô Presidente, às 16h30, dessa vez realizado em Caracas, num parque ao lado do palácio presidencial de Miraflores, Chávez exibe olheiras profundas, tem a voz rouca e dá sinais evidentes de cansaço. Teve uma semana alucinante de trabalhos, que incluíram a reunião de cúpula com o presidente argentino Néstor Kirchner, em Puerto La Cruz, na ilha Margarida, em 23 e 24 de julho, com a participação de quinhentos empresários (355 venezuelanos e 145 argentinos) e a assinatura de acordos que totalizaram 80 milhões de dólares, além dos preparativos para o plebiscito revogatório convocado para o dia 15 de agosto. “Os acordos com Kirchner já foram um primeiro resultado da entrada da Venezuela no Mercosul, no dia 8 de julho”, afirma. “Eu já disse aos empresários venezuelanos: a partir do dia 1 de agosto, todos já vão sentir os benefícios. Poderão exportar vários produtos para o Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai sem pagar impostos. Isso vai estimular muito a economia nacional.”
O senhor espera continuar no governo após o dia 15 de agosto? Os representantes da oposição dizem que vencerá o “sim” (a revogação do mandato presidencial, previsto para terminar em janeiro de 2007).
Olha, já falei ao meu grande amigo Fidel Castro: no dia 15 de agosto, tome muito cuidado ao caminhar por Havana, pois correrá o risco de ser atingido em cheio por um petardo. (risos) Imagine que o referendo é um jogo de beisebol (esporte muito popular no país). Eu te garanto que nosso bastão vai atingir a bola da oposição com tal impacto, que ela vai sair daqui da Venezuela, vai passar voando a uma velocidade alucinante por Havana e vai chegar até Washington, quando atingirá em cheio a testa de George Bush. Por isso eu digo: cuidado, Fidel! Abaixa a cabeça! (risos) Estamos certos de que obteremos uma grande vitória. Mas não somos ufanistas. Estamos trabalhando arduamente para esclarecer o povo sobre o que está em jogo.
A oposição respeitará os limites constitucionais? Existem sinais de que se preparam atos de violência, como o recente assalto às instalações de um quartel e o roubo de uma carga de dinamite, fora a prisão dos oitenta mercenários colombianos, no início de maio.
Já lançamos um desafio à oposição: estamos dispostos a assinar um documento público que nos compromete a respeitar o resultado do referendo, qualquer que seja, desde que a oposição faça o mesmo. Mas eles estão desesperados. Eles já se parecem ao lutador de boxe que se sente nocauteado, após receber vários golpes em pontos vitais do corpo. Hoje mesmo, o jornal El Nacional (o mais virulento veículo impresso da oposição) traz uma entrevista com o (ex-presidente) Carlos Andrés Pérez, em que ele propõe claramente a violência para derrubar o governo. Só posso dizer uma coisa aos setores mais racionais e sensatos da oposição (e eles existem): não se deixem levar pela tentação da violência. Todos os que tentarem essa via serão novamente derrotados, como foram no golpe de abril de 2002, depois na sabotagem que paralisou a indústria petroleira, entre o final de 2002 e janeiro de 2003, e novamente quando tentaram ações terroristas, em abril e maio de 2004. Serão derrotados pelo povo da Venezuela.
(É muito sintomático que Carlos Andrés Pérez funcione como uma espécie de embaixador informal da oposição nos Estados Unidos. Reflete a absoluta falta de alternativa e qualquer espécie de projeto nacional por parte dos setores oposicionistas. Andrés Pérez foi responsável por um dos governos mais desmoralizados da história venezuelana. Vive no exílio, em Miami e Nova York, desde que sofreu impeachment, por prática de corrupção, em maio de 1993. Em 27 e 28 de fevereiro de 1989, sob o seu governo, aconteceu o Caracazo, um levante de trabalhadores e estudantes de Caracas contra as políticas neoliberais então implantadas por ele. Confrontos com a polícia, o Exército e a Guarda Nacional deixaram, oficialmente, trezentos mortos, cifra que pode chegar a 3.000, segundo organizações de defesa dos direitos humanos. Também contra o seu governo, em 4 de fevereiro de 1992, Chávez liderou uma rebelião militar. O levante fracassou e os rebeldes foram presos. Chávez assumiu publicamente a responsabilidade.)
A Casa Branca multiplica fortes sinais de que gostaria de ver o senhor fora de Miraflores. Foi óbvia a participação da CIA na organização do golpe de abril de 2002. O senhor acredita que Bush ficará de braços cruzados, à espera dos resultados do referendo?
Há uns dez dias, a imprensa venezuelana publicou, com grande destaque, uma declaração de Bush exigindo transparência no processo de referendo. Quem é Bush para exigir qualquer coisa? E o que aconteceu na Flórida? Os chefes do Comando Sul do Exército dos Estados Unidos vivem dizendo que “Hugo Chávez é uma ameaça à paz”. O antigo chefe do governo espanhol, José María Aznar, chegou a oferecer à Colômbia quarenta tanques pesados de guerra. Aznar é pupilo de Bush, tanto quanto Andrés Peréz e (o ex-presidente argentino) Carlos Menem. Os senadores colombianos que pedem a expulsão da Venezuela da Organização dos Estados Americanos (OEA) fazem parte de uma conspiração política tramada por Washington. O Plano Colômbia, que é a máscara usada pelos Estados Unidos no suposto combate ao narcotráfico, abre a via de penetração do império na região. Os Estados Unidos criaram comandos militares e de inteligência ao longo da nossa fronteira com a Colômbia. Em abril houve uma batalha entre um batalhão da Venezuela e paramilitares colombianos financiados pelo Pentágono. Mas muita coisa está mudando. Aznar, por exemplo, foi derrotado e o seu sucessor, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero, retirou as tropas espanholas do Iraque e já deu muitos sinais de que quer se aproximar da Venezuela. Marcamos até uma reunião para setembro, no quadro da Assembléia Geral das Nações Unidas. Também estive recentemente com o (presidente colombiano) Álvaro Uribe, que quer manter novos encontros de cúpula ao longo do segundo semestre, com isso admitindo implicitamente que vamos nos manter no poder após a consulta de 15 de agosto.
E Bush está mais desmoralizado do que nunca...
Recomendo a todos que assistam ao documentário Fahrenheit 9/11 (de Michael Moore, vencedor do Festival de Cannes de 2004 e grande sucesso de público nos Estados Unidos). É muito bom. Bush é um assassino. Olhe o que eles estão fazendo no Iraque. Atacam os povos do mundo. Não estamos dormindo no ponto. Estamos alertas. Sabemos do que eles são capazes e estamos preparados. Mas nossa maior força é o povo venezuelano. É a consciência política. Veja o que aconteceu em abril de 2002. Foi o povo que tomou a praça pública para defender o seu governo. O golpe foi derrotado em 24 horas, pois o povo se colocou de pé quase de imediato. Não para defender Hugo Chávez. Eu não sou nada. Sou, quando muito, um instrumento dessa grande revolução bolivariana. É fundamental a organização popular. Simón Rodríguez (mestre e tutor de Simón Bolívar) dizia: “A força material está na massa e a força moral no movimento da massa”. Eu acrescentaria a necessidade da consciência e organização, em movimento acelerado e permanente.
(Durante o programa Alô Presidente, Chávez diz que Bush é o demônio, e explica que em inglês demônio é devil. Como em espanhol o fonema “ve” pronuncia-se como “be”, a expressão devil soa como “débil”. Chávez, o tempo todo, refere-se a Bush como el débil. Também faz repetidas menções a uma pequena história popular, intitulada “Florentino y el Diabo”, escrita como poesia, em 1957, por Alberto Arvelo de Torrealba (1905-1971), e agora transformada em filme. Conta a história do jovem e ingênuo Florentino, desafiado a participar devil. O encontro entre os dois ocorre na localidade de Santa Inés, onde, em 10 de dezembro de 1859, as tropas republicanas federalistas do general Ezequiel Zamora – 1817-1860 – derrotaram as forças de uma oligarquia que rejeitava qualquer perspectiva democrática para o país. Chávez adota o poema e o local histórico – geográfico de Santa Inés como metáfora da luta da nação venezuelana, representada por Florentino, contra o “débil” Bush. E aproveita para provocar a oposição, ao recitarum de seus versos diante das câmaras de televisão: “Los escuálidos espinos/ desnudan su amarillez,/ las chicharras atolondran/ el cenizo anochecer” – “Os esquálidos espinhos/ desnudam sua amarelidez,/ as cigarras atordoam/ o cinzento anoitecer. Os opositores são conhecidos como “esquálidos” – e se assumem comotal –, desde que assim foram qualificados por Chávez, por organizarem manifestações pequenas, quando comparadas às realizadas pelos “chavistas”.)
Acontece na Venezuela um fenômeno muito raro na história da América Latina: uma forte união entre os militares e o povo mais pobre. Como se explica isso?
Nem sempre foi assim. Em 1989, em Caracas, vi quando os soldados foram enviados por Carlos Andrés Pérez para massacrar o povo que se levantou no Caracazo. Descarregaram a fuzilaria sobre os bairros pobres. Foram milhares de mortos lançados em fossas comuns, que nunca apareceram. No décimo aniversário daquela tragédia, quando completávamos 25 dias no poder, começamos o Plano Bolívar 2000. Os militares foram convocados para fazer trabalho humanitário. O significado era simbólico: as Forças Armadas saem dos quartéis para ajudar seu povo a enfrentar a miséria e a fome. Isso, aliás, é o mais natural, já que 99 por cento dos militares da Venezuela vêm dos bairros pobres, do campo. Eu mesmo nasci em casa de palha. O processo revolucionário bolivariano resgatou as raízes militares de nossas Forças Armadas. Agora estamos organizando os reservistas do Exército. Já temos 80.000 inscritos e aprovamos recursos extraordinários para uniformizá-los, para armá-los e para treiná-los. E não é só. Acabo de receber a informação de que o nosso Hospital Militar Carlos Rabelo fez 2.600 intervenções cirúrgicas em pacientes pobres apenas na terceira semana de julho. É uma demonstração de como, neste país, as Forças Armadas estão ao serviço do povo. Bolívar afirmava: “Maldito seja o soldado que ergue as armas contra o seu próprio povo”. Este é um princípio sagrado para a revolução bolivariana.
O programa de saúde pública é um dos principais investimentos de seu governo, e conta com a ajuda de Cuba. Como é feito isso?
Aqui denominamos Missão Bairro Adentro: equipes médicas visitam os bairros mais miseráveis de Caracas e do país, casa a casa, com o objetivo de prestar assistência médica e dar orientações sobre alimentação, higiene e hábitos saudáveis. Milhares de médicos cubanos nos auxiliam nisso. Em um ano, foram atendidos 65 milhões de casos. Dando prova de burrice ou de má-fé, alguns jornalistas dizem que Chávez está mentindo, pois a Venezuela tem apenas 27 milhões de habitantes. Ora, esses imbecis não sabem, ou fingem não saber, que uma mesma pessoa pode ser portadora de várias doenças, e cada uma dessas doenças é tratada como um caso, assim como uma empresa privada cobra por cada consulta. Então, em apenas um ano foram 65 milhões de casos, 43 milhões de consultas, realizados 22 milhões de atividades educativas (ou de medicina preventiva), 13 milhões de prescrições terapêuticas homeopáticas e naturalistas. Além disso, enviamos mil venezuelanos para fazer operações de catarata em Cuba. Note que estamos falando de gente que nunca teve a oportunidade de ver um médico na vida. É extraordinário. Essa experiência já está atraindo médicos venezuelanos. Em Ciudad Bolívar acaba de nascer uma rede de assistência popular formada por 25 médicos venezuelanos.
(Na sociedade polarizada venezuelana, essa adesão de médicos é muito importante, do ponto de vista cultural e político. A divisão de classes é muito evidente na Venzuela, tanto pelo aspecto físico “europeizado” da minoria rica, em contraste com a mistura de negros e índios dos mais pobres, quanto por suas roupas, carros e locais que freqüentam em Caracas – particularmente, o bairro de Altamira. Pior ainda: envenenados por uma propaganda incessante da mídia, grandes setores de classe média experimentam uma combinação de medo e ódio ao governo Chávez, mais ou menos como os extratos mais “remediados” que, no Brasil, participaram, em 1964, das marchas contra a “ameaça comunista” convocadas por senhoras católicas. A pressão ideológica e cultural é tão grande, que se formou uma camada de “chavistas de armário”, isto é, intelectuais, estudantes universitários, empresários e profissionais liberais que apóiam o governo, mas temem assumi-lo publicamente, para não serem “malvistos”. A adesão pública dos médicos de Ciudad Bolívar adquire, por isso, um significado especial. Por isso, também, o esforço feito pelo governo para integrar os empresários venezuelanos ao Mercosul ganha uma conotação forte, em termos de construção de uma cultura política nacional, pois ajuda a isolar os setores mais extremistas da oposição.)
O senhor atribui uma grande importância ao contexto latino-americano em oposição ao imperialismo estadunidense. Nesse sentido, a incorporação da Venezuela ao Mercosul teve uma grande significação política, não?
A nossa união latino-americana é a única arma efetiva que temos contra o poder do império. É preciso, mais do que nunca, fortalecer a nossa consciência unitária. Na reunião que mantive com o presidente Néstor Kirchner, criamos um foro de integração econômica entre os dois países, além de uma série de acordos em matéria de cooperação naval, financeira e comercial, incluindo um Fundo Latino-Americano de Garantias Recíprocas, com o objetivo de financiar a formação de pequenas e médias empresas nos dois países. Se hoje o comércio entre nós atinge algo em torno de 100 milhões de dólares, em 2005 essa cifra poderá atingir 1 bilhão de dólares. Também foi muito importante o tratado de cooperação energética entre a Petróleo da Venezuela (Pdvsa) e a Enarsa (da Argentina), como um dos passos para criar a Petrosur, combinando as reservas de Venezuela, Brasil, Peru e demais países da região. Já estamos operando segundo o conceito da Petrocaribe, que visa fornecer petróleo a preços mais baixos para os países do Caribe. Juntos, podemos ser uma potência mundial em petróleo. No quadro do Mercosul, estudamos a proposta de criar o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social do Sul (Bandesur). Por isso, digo aos empresários venezuelanos: vocês são convidados a fazer negócios. Não percam as oportunidades que se abrem, e que serão ampliadas com as viagens que vamos fazer, em outubro, para a China, a Índia e países árabes.
Em que medida esses acordos e tratados favorecem a estratégia de criação da Alternativa Bolivariana para a América Latina e o Caribe (Alba)?
Propomos a Alba como alternativa ao projeto neocolonial da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), dentro do conceito bolivariano de articular a América Latina como força política consciente de seu destino. Quando houve a paralisação da indústria petroleira venezuelana, no final de 2002, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e depois o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos deram uma grande ajuda. Depois, quando Kirchner me disse que estava com dificuldades no setor energético, enviei-lhe imediatamente petróleo. São demonstrações do que podemos fazer juntos. Cuba e Venezuela desenvolvem esse modelo de integração, que pode ser estendido a todo o hemisfério. Mas ainda falta decisão política para criar alternativas reais ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao império.
Mas, se a economia doméstica não ajudar, todos os esforços podem ser inúteis...
A economia venezuelana está indo muito bem, apesar de todos os percalços e sabotagens. Mesmo os oposicionistas reconhecem isso. No primeiro semestre de 2004, o produto interno bruto cresceu algo entre 10 e 12 por cento quando comparado ao do ano passado. Além disso, estamos promovendo uma vasta reestruturação da economia, graças aos ingressos obtidos com a venda do petróleo. Apesar das críticas da oposição, criamos um fundo petroleiro para, entre outras coisas, financiar obras de infra-estrutura e construção civil. Só em Caracas existe um déficit de 1 milhão e meio de residências, e os chineses já mostraram interesse em nos ajudar no programa habitacional. Você já viu como são construídas as casas no morro do Petare (o bairro mais populoso e pobre de Caracas, com população estimada em 2 milhões de habitantes)? É um desafio à engenharia. Não entendo como não desabam. Vamos fechar um pacote com os chineses, mas já deixamos claro que os trabalhadores e as matérias-primas serão venezuelanos. Só esse programa vai gerar milhares de empregos e ativar setores inteiros da economia. Além disso, cresce rapidamente a rede de supermercados populares, Mercal (Mercado de Alimentos), também criada com dinheiro do petróleo. Pela primeira vez, as camadas mais pobres têm acesso a carne, frango, aliás, importado do Brasil, queijos, verduras e frutas frescas. Isso estimula os pequenos produtores e empresários, tanto em escala local quanto nacional. Também vamos ampliar e melhorar o sistema penitenciário nacional. Hoje, as prisões estão superlotadas e infectas. Isso não pode continuar assim. Todos os venezuelanos, ricos e pobres, livres ou presos, têm direito a tratamento digno. É claro que melhor seria se não fossem necessárias as prisões, mas, se a necessidade existe, então é obrigação do Estado zelar pelo bem-estar do preso. A economia tem tudo para deslanchar, em consonância com as necessidades do nosso povo.
É incrível: esse quadro nada tem a ver com aquilo que se lê todos os dias na imprensa. Temos a impressão, a partir da leitura dos jornais e dos telenoticiários, de que há uma crise imensa, que o país está fora de controle.
Infelizmente, a imprensa na Venezuela é muito partidária e partidarizada. Não se preocupa com a objetividade dos fatos, mas sim com a campanha permanente contra o meu governo. Os donos dos meios de comunicação foram os principais articuladores do golpe de abril de 2002. É por isso que incentivamos a multiplicação de veículos comunitários, em todo o país. Criamos a TV Vive para funcionar como uma espécie de vitrine nacional de tudo o que se produz em termos de cultura na Venezuela. Sua meta é dar visibilidade à produção das comunidades étnicas, dos movimentos sociais, dos trabalhadores e jovens que jamais apareceriam nos canais privados. A TV Vive também tem a ambição de promover a integração dos povos latino-americanos, no contexto da criação da Alba. Queremos formar uma Rede Sul de televisão, para oferecer uma alternativa ao noticiário deturpado da rede CNN e dos veículos controlados pelo grande capital. Já estamos em fase adiantada de negociações com a Argentina sobre isso. E muita gente no Brasil está interessada em participar nesse projeto.
Mas os jornalistas acusam o governo de agredir repórteres, utilizar meios violentos para intimidar as redações, recusar informações. Afirmam ser obrigados a trabalhar com coletes à prova de bala.
Nosso governo nunca agrediu nenhum jornalista, nunca fechou um jornal nem impediu a circulação de nenhuma edição. Ao contrário. A única emissora fechada na Venezuela foi o Canal 8 (estatal), tirada do ar por eles durante o golpe de abril de 2002. Pecamos, aqui, por excesso de liberalidade. Em qualquer outro país, os donos dos meios de comunicação teriam sido presos após o fracasso de um golpe de Estado que eles ajudaram a articular. Aqui não aconteceu nada disso. Ao contrário, na semana passada mantive uma reunião com Augusto Cisneros, o maior empresário da comunicação neste país, e um dos maiores do mundo. O que eles dizem é um absurdo.
(A jornalista Soraya Castellano, responsável pelo telenoticiário da RCTV, um canal que ataca o governo com especial virulência, diz a Caros Amigos nunca ter recebido qualquer orientação de seus chefes no sentido de dar “tratamento editorial” às reportagens, e afirma não haver qualquer censura à produção dos jornalistas. Norma García, jornalista de El Mundo, o mesmo que entrevistou Carlos Andrés Pérez, faz afirmações semelhantes. Ela é diretora do Sindicato dos Jornalistas da Venezuela, entidade não exatamente reconhecida pela combatividade – seu presidente, Gregório Salazar, apoiou o golpe de 2002. Já o jornalista Aram Rubén Aharonián e as professoras universitárias Maryclen Stelling, socióloga, e Olga Dragnic, jornalista, fundadores de um recém-criado Observatório da Imprensa, afirmam, categoricamente, que existe uma poderosa censura dentro das redações. Segundo Olga, o tema é motivo de grande preocupação entre os alunos de jornalismo. Mas nem é necessário teorizar muito sobre o assunto. Basta assistir por alguns minutos à programação dos canais privados, ou ler durante dois dias os jornais, para concluir que há uma guerra permanente dos meios de comunicação privados contra o governo.)
Como o senhor espera resolver esse conflito com a imprensa?
Estamos sempre abertos ao debate honesto e construtivo, que visa o bem do país. Aceitamos a divergência e o pluralismo das idéias, nos marcos do debate democrático e não na perspectiva violenta e golpista apontada por Carlos Andrés Pérez. Quando a oposição aceitar, finalmente, o caminho constitucional e entender que será trabalhar em termos construtivos, a relação com a imprensa tenderá a melhorar, como reflexo de um novo equilíbrio no país. É claro, também, que vamos prosseguir o nosso caminho de construção de uma imprensa independente, popular, plural e identificada com os nossos valores culturais. O caminho, portanto, é o do diálogo e da luta política democrática.
O senhor teria mais alguma coisa a dizer aos brasileiros?
Completo 50 anos no dia 28 de julho. Como dizia o grande poeta Pablo Neruda, confesso que vivi. Sim, sofri muito, como todos, mas também tive muitas alegrias, graças à minha família, às mulheres que amei, aos meus filhos e amigos. Mas, principalmente, é o vínculo com o povo pobre que me dá energia e a sensação de estar vivo, a certeza de que todo esse caminho percorrido valeu a pena, assim como enfrentar os desafios que o futuro apresentará. Estou também muito contente porque na próxima semana o Alô Presidente festejará sua duocentésima edição. Vamos fazer um megaconcerto no dia 1º de agosto, com artistas venezuelanos e internacionais, parece que o cantor cubano Silvio Rodríguez já confirmou a sua participação, será uma festa muito bonita. Então, basicamente, é isto: confesso que vivi. E envio minhas saudações a todo o povo brasileiro, especialmente aos que lutam por uma América Latina livre e soberana.
(Ao deixar Caracas, no caminho para o aeroporto, de noite, pergunto ao motorista do táxi, Rigoberto, o que acontecerá na Venezuela no dia 15 de agosto. Ele aponta para a profusão de luzes que brilham no Petare e outros morros em torno de Caracas e diz: “Cada uma daquelas luzinhas representa uma família de quatro ou cinco venezuelanos. De cada quatro ou cinco venezuelanos daqueles, dez votarão por Chávez no dia 15. É isso o que vai acontecer”. Ao chegar no aeroporto, Rigoberto se despede com o “grito de guerra” mais ouvido nas ruas de Caracas nestes dias: “Uh, ah, Chávez no se vá!” Oxalá também no Brasil os governantes despertassem esse entusiasmo na população pobre, ainda mais no final do quarto ano de seu mandato. Oxalá...)
Hugo Chávez Frías tem um aspecto “duro”, embora esteja sempre sorrindo e contando “causos”; transmite a sensação de um barril de pólvora prestes a explodir, mesmo quando fala em paz; é sempre autocentrado e personalista, ainda que advogue a necessidade de diálogo, pluralismo e trabalho em equipe; é brincalhão, gosta de abraçar e tocar as pessoas à sua volta e fala a linguagem da gente simples, mas ainda assim permanece de alguma maneira inacessível. Alto para o padrão médio venezuelano (mede em torno de 1,80 metro), quase nenhum fio de cabelo branco, apesar de seus 50 anos (completados em 28 de julho), corpo forte e troncudo, treinado em exercícios militares, várias vezes campeão de beisebol em disputas internas das Forças Armadas, seus traços sugerem a presença de índios e negros no sangue. Tem obsessão pelo trabalho, dorme poucas horas por dia (que o digam os seus auxiliares diretos, não raro acordados de madrugada por um chefe a todo vapor) e, visivelmente, julga-se portador da herança de Simón Bolívar, mesmo – talvez, principalmente – ao afirmar não ser “nada”, ou, quando muito, “apenas um instrumento” da revolução bolivariana. Chávez, em resumo, é enganadoramente óbvio.
“Sou um soldado”, gosta de dizer. Essa talvez seja a única afirmação consensual – embora esconda mais do que revela – sobre o presidente venezuelano. Sua vida, de origem muito humilde (seus pais, Hugo de los Reyes Chávez e Elena Frías de Chávez, eram professores na cidadezinha de Sabareta, estado de Barinas, e viviam numa casinha com teto de palha), foi toda marcada pela caserna – do curso superior na Academia Militar da Venezuela, de onde saiu com a graduação de subtenente, em 5 de julho de 1975, ao brilho e prêmios obtidos nos vários cursos de especialização em ciências militares, ciências políticas e estratégias de guerra, passando pela permanência na tropa de elite dos pára-quedistas, até chegar ao curso de comando e estado-maior da Escola Superior do Exército, em 1991-92, já com a patente de tenente-coronel. Como todo soldado, Chávez respeita a hierarquia, tem forte noção dos compromissos coletivos de camaradagem impostos pela vida na caserna, cultiva valores nacionais e patrióticos. Nesse sentido, sua formação é completamente distante da tradição intelectual rebelde latino-americana. Mas isso é só um lado da moeda.
Inspirado pelos ideais de Simón Bolívar, cujas obras leu, estudou e ensinou na Academia Militar, o soldado amante da ordem fundou, em 17 de dezembro de 1982, e lidera até hoje o Movimento Bolivariano Revolucionário (MBR), que, em 4 de fevereiro de 1992, arquitetou um fracassado golpe de Estado para depor o corrupto e incompetente presidente Carlos Andrés Pérez. Chávez assumiu a total responsabilidade pelo golpe, e até hoje é admirado por isso, mesmo pelos oposicionistas. Amargou dois anos de prisão, quando amadureceu a idéia, acalentada de maneira mais ou menos difusa desde os anos 70, de fundação de uma nova república (a quinta, na cronologia venezuelana), baseada nos princípios da democracia participativa e na idéia de um povo culturalmente inspirado por uma vocação pan-americana universalista. O soldado que arma estratégias de longo alcance também é autor de contos, poesias, peças de teatro e, eventualmente, aventura-se pelas artes plásticas. Não se trata de discutir, aqui, a qualidade estética de seu trabalho – e aqueles que o conhecem dizem ter um certo valor –, mas de notar que, eventualmente, há mais nesse coronel do que sugere a mera aparência.
Ao sair da prisão, Chávez funda um partido, o Movimento V República, que não é propriamente um partido, mas uma vasta frente de movimentos sociais, grupos e organizações de tipo partidário vinculados aos setores mais miseráveis da sociedade venezuelana. À frente do MVR, é eleito presidente da república, em dezembro de 1998. A partir daí, os fatos se sucedem com rapidez vertiginosa. Chávez assume o cargo em fevereiro de 1999, e convoca uma assembléia constituinte para “refundar a república”, referendada pelo voto de 88 por cento da população. O presidente eleito, fiel ao seu programa e compromissos de campanha, coloca o próprio cargo à disposição da assembléia, que, assim, se torna o poder supremo da nação, a um só tempo executivo e legislativo. Em 15 de dezembro de 1999, o povo venezuelano referenda com o voto a nova Constituição Bolivariana da Venezuela. Em 30 de julho de 2000, Chávez é reeleito à presidência do país, com 59 por cento dos votos.
O respeito aos princípios constitucionais torna-se a pedra angular do governo Chávez, e sobre esse princípio ele concentra a obsessão militar pela ordem e respeito às regras do jogo. O povo, que participou intensamente dos debates que deram origem à nova constituição, sente-se protagonista do projeto. É comum ver um cidadão venezuelano portar no bolso uma cópia da constituição. Ao contrário do que ocorre no Brasil e na imensa maioria dos países de todo o mundo, na Venezuela a lei existe para ser cumprida. Esse sentimento, provavelmente mais do que qualquer outra coisa, mobilizou o povo contra os golpistas de abril de 2002, e o mantém unido em torno da figura de Chávez. Em contrapartida, a elite, acostumada a não respeitar qualquer lei, sente sobre si o peso insuportável de ser obrigada a se comportar como os demais.
Chávez, o soldado que, em nome de defender uma ordem superior bolivariana, subverteu a ordem menor dos vassalos da Casa Branca, encontra-se no momento de auge de sua carreira fulgurante. Ninguém tem o poder de adivinhar o que vem daqui para a frente. Mas, sem dúvida, esse pai de quatro filhos – Rosa Virginia, María Gabriela, Hugo Rafael e Rosinés –, duas vezes divorciado e no momento solteiro, pode, com Pablo Neruda e como poucos indivíduos no mundo, olhar-se no espelho e declarar, como o faz, de cabeça erguida e publicamente: “Confesso que vivi”. Alguém pode querer mais?
No início de julho de 2004, uma conferência mundial da Via Campesina, que reuniu, em São Paulo, delegações de 76 países, resolveu adotar um manifesto de solidariedade à Revolução Bolivariana e ao governo Hugo Chávez. O manifesto, aqui reproduzido, já conta com a adesão de uma grande lista de intelectuais, artistas, políticos e militantes que atuam em defesa da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo.
“Os que assinam este manifesto querem expressar sua solidariedade à luta que vêm empreendendo o presidente Hugo Chávez e o povo venezuelano pelo direito de decidir seu destino. Ao mesmo tempo, denunciam a manipulação dos fatos orquestrada por grandes monopólios de comunicação para pintar como tirano um governante que cumpre à risca a lei e a Constituição.
Hugo Chávez foi o vencedor de eleições democráticas, em dezembro de 1998. Cumprindo o que prometera em campanha, desde então vem realizando profundas transformações no sistema político, econômico e social de um país há séculos dominado por oligarquias.
Levar a cabo essas mudanças transformou o presidente Chávez em alvo de uma guerra sem tréguas, movida por minorias políticas e econômicas da Venezuela, com o apoio declarado de grandes corporações empresariais e financeiras do exterior.
Somos testemunhas de seu compromisso com a defesa dos interesses populares e a determinação de aplicar a Constituição de 1999, construída pelo mais amplo processo democrático.
A nova Carta venezuelana prevê o dispositivo constitucional do referendo revogatório, marcado para o próximo dia 15 de agosto, instrumento inédito em nosso continente, ao qual poucos governantes teriam a coragem de se submeter, como fez o presidente Hugo Chávez. A democracia foi reforçada, e agora os mesmos setores que já recorreram ao golpe, à sabotagem, ao locaute e à mentira para tentar derrotar o presidente Chávez vêem-se obrigados a aceitar os marcos da luta institucional.
Estamos certos de que, no próximo dia 15 de agosto, o povo venezuelano será vitorioso e construirá uma pátria livre e justa, a pátria com que sonhou Simón Bolívar.
Por tudo isso, estamos aqui para reafirmar: no dia 15 de agosto, se fôssemos venezuelanos, votaríamos em Hugo Chávez.”
Entre os que assinam destacam-se:
Adolfo Perez Esquivel (Argentina), Premio Nobel da Paz; Aldo Lins e Silva (Brasil), conselheiro da República; Alex Cox (Inglaterra), cineasta; Almino Afonso (Brasil), conselheiro da República; Atílio Borón (Argentina), economista; Ariovaldo Ramos (Brasil), pastor; Bernard Cassen (França), fundador de ATTAC; Carlos Heitor Cony (Brasil), escritor; Celso Furtado (Brasil), economista; Chico Buarque (Brasil), músico; Danielle Mitterrand (França), presidente da Fundación France-Libertes; Eduardo Galeano (Uruguai), escritor; Emir Sader (Brasil), sociólogo; Eric Hobsbmawn (Inglaterra), historiador; Fausto Bertinotti (Italia), político; Fernando Morais (Brasil): escritor; Francois Houtart (Bélgica), Centre Tricontinental; George Galloway (Inglaterra), político, membro do Parlamento Britânico; Georges Sarre (Francia), ex-ministro, prefeito do distrito 11 de Paris; Harold Pinter (Inglaterra), dramaturgo; Ignacio Ramonet (Francia), escritor; James Petras (EUA),: sociólogo; Jean-Pierre Chevenement (França), ex-ministro, prefeito de Belfort ; Jean-Pierre Beauvais (França), jornalista; João Pedro Stedile (Brasil), MST; John Pilger (Austrália), jornalista; José Bové (França), Via Campesina; Ken Livingstone(Inglaterra), prefeito de Londres; Ken Loach (Inglaterra), cineasta; Leo Patnich (Canadá), professor; Luciana Castellina (Itália), jornalista; Manu Chao (Espanha-França), músico; Mike Hodges (Inglaterra), cineasta; Naomi Klein (Canadá), jornalista ; Noam Chomsky (Estados Unidos), professor; Oscar Niemeyer (Brasil): arquiteto, Pedro Casaldáliga (Brasil-Catalunha), bispo; Perry Anderson (Inglaterra), historiador; Richard Gott (Inglaterra), historiador; Roberto Requião (Brasil), governador do Paraná; Robin Blackburn (Inglaterra), sociólogo; Ronaldo Lessa (Brasil), governador de Alagoas; RudyWurlizer (EUA), escritor; Sami Nair (França), sociólogo; Tariq Ali (Paquistão-Inglaterra), escritor; Tomás Balduíno (Brasil), bispo, Pastoral da Terra; Tony Benn (Inglaterra): político; Victoria Brittain (Inglaterra), jornalista; Walden Bello (Filipinas), economista.
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