Fidel Castro deixou o poder no último dia 19. A história registrou. A oposição e a grande mídia comemoraram. Profetizam o fim da Revolução e a abertura de mercado aos moldes chineses. Há muito tempo as câmeras permanecem atentas aos acontecimentos cubanos: buscam falhas no regime que vigora há 49 anos e generalizam ações individuais a fim de fragilizar, perante a opinião pública, o socialismo que sobrevive. Fidel Castro, personagem da história, está retratado em um perfil feito pelo jornalista Sérgio Kalili, depois da viagem de 2007 à ilha, acompanhado do fotografo Daniel Kfouri. A visita originou a edição especial Cuba, sempre com matérias que apresentam a sociedade, a cultura e as instituições cubanas. Todo esse rico material está de volta às bancas do país, já que o momento pede uma outra visão dos fatos e acontecimentos de um “povo solar”. A seguir, Fidel Quixote, para relembrar.
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FIDEL QUIXOTE
De família rica, educado no catolicismo, despertou para a política na faculdade de direito. Derrubou uma ditadura pelas armas e tornou-se um mito de nossa época ao implantar um regime socialista às portas do inimigo dono da máquina de Guerra mais poderosa de todos os tempos.
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por Sérgio Kalili
fotos Daniel Kfouri
Olhares hipnotizados, desmaios, gritos, respeito, temor, admiração, ódio... Capeta, herói... Autoritário... Pai dos pobres... Idealista. Fidel sempre provocou alvoroço, mesmo antes do 8 de janeiro de 1959, quando marchou sobre Havana, com apenas 32 anos, sacramentando a vitória da Revolução Cubana sobre o regime sanguinolento de Fulgencio Batista. Durante todos esses anos colecionou inimigos e fez muitos amigos pobres, desconhecidos e/ou famosos, como Ernest Hemingway, Oliver Stone, José Saramago, entre tantos. Gabriel García Márquez define o amigo carinhosamente: “É um dos maiores idealistas de nossa época e aí reside sua maior virtude como também tem sido sempre seu maior perigo”. Fez de Cuba sua cara. Em 48 anos de Revolução, não há uma grande decisão, uma lei importante, uma reforma que não tenha passado por seu olhar, ou por suas mãos, ou brotado de sua mente.
Perto dos restaurantes Floridita e Bodeguita del Medio , favoritos de Hemingway para daiquiris e mojitos, em Havana Vieja, coração da capital cubana, avançamos a noite sentados à mesa sobre a calçada de outro restaurante mais em conta. Juntos, Daniel Kfouri, companheiro de viagem e fotógrafo deste especial, uma brasileira que ele acabara de conhecer, e eu. O assunto, claro, Fidel. Quem nos serve é José, garçom que fala português, como muitos cubanos que cruzamos nas ruas, alguns veteranos da guerra de Angola. A brasileira lembra da complexidade de Cuba, de Fidel e seus seguidores. “Uma vez peguei um desses táxis-bicicleta (é praticamente uma charrete soldada a uma bicicleta) e comecei a conversar, puxar papo. Perguntei: ‘O senhor é comunista?’ O homem respondeu bravo: ‘Não!’ Continuei: ‘O senhor é socialista?’ Ele, ainda mais bravo: ‘Não!!’ Então, já sem graça, tentei duas últimas: ‘É marxista? É leninista?’ E ainda mais sem paciência retrucou: ‘Não, pô! Sou fidelista e testemunha de Jeová!’”
Estátua de Quixote, no bairro de |
Estar ao lado do último dos revolucionários do século 20, de um homem que mudou uma nação, tem algo de sagrado para o povo. A tradutora e jornalista cubana Reina Hernández me contou que anos atrás uma sua colega não resistiu. “Tinha acabado de me formar e Fidel apareceu em uma ocasião na qual eu estava trabalhando como tradutora. Lembro de quando ele passou próximo de mim e de minha colega. Quando virei, ela já não estava mais ali. Olhei para baixo... Lá estava, no chão, desmaiada”. |
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Dos treze irmãos e irmãs, de três mães diferentes, somente Raúl e Fidel se tornaram revolucionários. Fidel busca em suas origens uma explicação para a alma inquieta. “Me tornei um revolucionário. Às vezes penso sobre os fatores que me influenciaram partindo da situação do lugar de onde nasci, em pleno campo, em um latifúndio.” Nasceu na grande propriedade açucareira de seu pai, Finca Las Manacas (Fazenda das Palmeiras), perto de Birán, hoje na província de Holguín, a 750 quilômetros de Havana. “Não era uma vila, nem sequer uma pequena aldeia; apenas algumas casas isoladas. A casa de minha família estava ali, à beira do antigo Caminho Real, como chamavam a estradinha de terra e barro que ia da capital do município (Mayarí) para o sul. Andava-se em carro de boi. Não havia nem sequer luz elétrica”, contou ele em seu livro-entrevista com o jornalista Ignacio Ramonet, Fidel Castro – Biografia a duas vozes, Editora Boitempo. |
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A casa de seus pais era um sobrado de madeira, com grandes janelas pintadas de branco, telhado de zinco vermelho, edificada sobre pilotis de madeira para que pudessem guardar os animais debaixo da construção; havia ainda um curral com porcos e aves. No primeiro andar do sobrado, a sala, decorada com móveis de vime e mogno; três quartos; uma despensa para mantimentos e outra para guardar remédios; uma copa e a cozinha. No segundo andar, junto ao quarto do casal, um mirante.
Tirando o correio e a escola pública, tudo ali, como a leiteria, a oficina para equipamentos agrícolas, a padaria, o açougue, era propriedade da família.
Para a mãe, ele é o ás de espadas
Em 1954, um incêndio destruiu a casa da família Castro. Em 1976, sob orientação de Celia Sánchez Manduley, amiga íntima de Fidel, morta de câncer em 1980, a casa foi toda reconstruída e transformada em museu. Celia foi secretária da presidência do Conselho de Ministros e sua morte mexeu com o coração do Comandante. Pairam rumores de que foi um dos grandes amores de sua vida e de que viveram juntos, a começar dos anos 50, por quase trinta anos. Vinda das classes altas, Celia transformou-se em uma das líderes do movimento revolucionário. Fidel, em uma carta para Célia, em 5 de junho de 1958, um ano antes de vencer o exército de Batista, equipado e assistido pelo governo norte-americano, escreveu: “Jurei que os americanos vão pagar bem caro pelo que estão fazendo. Quando esta guerra acabar, começará para mim uma guerra muito maior, a que vou lutar contra eles. Me dei conta de que esse será meu verdadeiro destino”.
Vou à casa-museu dos Castros. Entro no quarto de Lina e vejo o quanto a mãe de Fidel era religiosa. Católica. Está tudo como ela deixou antes de morrer. Uma penteadeira, uma cama de madeira, armário e inúmeras imagens de santos. Um verdadeiro santuário. O famoso poeta e escritor, líder e herói do movimento de independência de Cuba contra a Espanha, fonte de inspiração de Fidel, José Julián Martí y Pérez, o José Martí, está no santuário. Entre as fotos de família, outras imagens nas paredes: Ogum Guerreiro (montado em seu cavalo branco); o Sagrado Coração de Jesus; São Lázaro; Santa Clara; Santa Teresinha; Santa Bárbara; a Virgem da Caridad; e Cristo.
Na sala de jantar, próximo à mesa, em uma das paredes, Lina montara, em homenagem ao triunfo da Revolução, em 1o de janeiro de 1959, uma colagem com os quatro ases de um baralho, eram os quatro líderes da Revolução: Manuel Urrutia Lleó, (o primeiro presidente nomeado após o triunfo da Revolução) ás de copas; Fidel, ás de espadas; o comandante Camilo Cienfuegos, ouros; e Che, às de paus. A colagem mostra que ela acompanhava a evolução do filho de perto. Quando ele rompe com Urrutia, ela imediatamente muda a colagem, substituindo o ex-presidente por Raúl Castro, que passa a ser o ás de copas da Revolução.
Teve de ajoelhar no milho
Aos 4 anos, Fidel passou a freqüentar a escolinha pública, uma única sala de aula, com 25 alunos, na propriedade de seu pai. Sentava na primeira carteira da fileira do meio, acompanhado de seus dois irmãos mais velhos, Angelita e Ramón. Os outros alunos eram de famílias muito pobres de trabalhadores da fazenda. Hoje, a escola é parte do museu, com fotos da vida estudantil de Fidel. Próximo dali ainda vive uma das camponesas que freqüentavam a escola com ele. Vive na vila Birán, construída após a Revolução. Dalia y Caridad Tomás, 82 anos, puxa a cadeira de balanço com as mãos calejadas e se acomoda no pequeno alpendre. O rosto marcado de sol, ela sorri quando lembra como Fidel era traquinas, “um capeta”. O marido, sentado na outra cadeira, escuta com atenção, enquanto ela se balança. Estão casados há 55 anos. “Ele estava sempre fazendo maldades. Tinham uma negrinha na casa deles, criada da falecida Lina, minha madrinha, que se chamava Manola, que ia à escola conosco. Uma vez estávamos na escola, umas 10 da manhã, e começou a chover. Manola se sentou na varanda e Fidel então fez assim: segurou os pés dela e a virou. Ela foi direto para a água. Os pezinhos ficaram pro ar, como se fossem dois enfeites. Como rimos nesse dia!” Por essas e outras, Fidel teve que ajoelhar no milho. Também levava bronca dos pais. Fazia tiro ao alvo com os patos da fazenda, corria atrás das galinhas, “operava” lagartixas... “Depois tiraram Fidel da escola, tinha posição (de classealta), e o mandaram para Santiago. Faz tempo que não falo com Fidel. Mongo (apelido de Ramón, irmãomaisvelho de Fidel) e Fidel quiseram me ajudar depois do triunfo da Revolução, dando-me uma casa em Havana, mas eu não quis. Não queria deixar a minha mãe sozinha aqui, que já estava bem velhinha.”
| Passou num exame graças a uma traquinagem de que os professores gostaram. |
Quem também ainda vive em Birán, perto do museu da família Castro, é o meio- irmão de Fidel, Martín Castro Batista, 77 anos, feição e altura que lembram as do irmão, e cabelos grisalhos. Ele revela: “O pai de Fidel teve filhos com três mulheres. Com uma teve dois, com outra, sete, e com a minha mãe somente a mim”. Ou seja, Martín é mais novo do que Fidel. “Minha mãe, que se chamava Generosa Batista, não quis me mandar para Santiago com meus irmãos. Eu fazia de tudo, arava, cuidava dos porcos; gostava mais do que estudar. Fidel vinha e ficava com os haitianos que trabalhavam para seu pai. Passava uns quinze dias e depois partia. Jogava bola com os peões, passava horas montando a cavalo, se dava bem com todo mundo. Eu tinha uma escopeta e Fidel gostava de caçar pássaros com ela, tinha boa pontaria.”
Ficava com a chave da biblioteca
Em 1933, a professora da escola pública de Birán, Eufrasia Feliú, levou, com o consentimento dos pais, Fidel, 6 anos, e sua irmã Angelita, 10, para estudarem em Santiago, a segunda maior cidade de Cuba. Fidel conheceu a penúria da maneira mais caseira. Passou pouco menos de três anos vivendo com a família pobre da professora. Não aprendeu muito mais que a tabuada nessa casa. A situação melhorou quando passou nos exames de admissão do colégio de padres La Salle. Entrou no meio do período letivo, não tinha nem 8 anos completos. Era adiantado para a turma, mas, segundo o regulamento escolar, ficava obrigado a ingressar no primeiro nível. Além da facilidade para aprender, começava a se desenvolver nos esportes. Nas horas vagas praticava beisebol, natação, atletismo e montanhismo – o que vai ajudá-lo e muito em sua luta na Sierra Maestra.
Passa praticamente toda a adolescência recebendo educação religiosa conservadora. Fez primeira comunhão. Após quatro anos no La Salle, de 1934 a 1938, ingressa em 1939 no colégio Dolores, escola católica privada, em Santiago de Cuba, conhecida pela disciplina e pelo padrão acadêmico elevado. Chamava a atenção pela inteligência e memória brilhante. Ingressa no Dolores com ajuda de uma de suas traquinagens. No exame oral de ciências, o professor Douglas Lea perguntou: “Diga o nome de um réptil...” Ele respondeu: “Um majá!” (uma cobra amarela não venenosa). E o professor: “Mencione um outro réptil”. Titubeando por um instante, Fidel respondeu: “Outro majá!” A banca examinadora considerou boa a resposta e ele foi aprovado com pontuação excelente. A escola estava dividida entre filhos de ricos negociantes sem pompa e filhos de representantes da oligarquia. Não havia negros nem mestiços. Em 1942, Fidel matricula-se na prestigiosa escola secundaria Belén, em Havana, onde cursa o colegial. Ali também estudavam somente ricos e brancos. Colégio de jesuítas.
Fidel lia muito, principalmente livros de história. Recebeu a incumbência de cuidar da biblioteca da escola. Gostava de estudar e ler à noite. Era o último a sair, ficava com a chave. Nas paredes da escolinha pública de Birán, fotos de importantes momentos da vida escolar de Fidel, nos campos acadêmico e esportivo. Recordista nas corridas de 200 e 300 metros; a marca de 1,77 metro no salto em altura; proclamado o melhor atleta colegial na temporada 1943-44; a graduação no colégio jesuíta Belén, em 1945; no laboratório de química da escola; com 10 anos no colégio La Salle, 1936; com integrantes da equipe de voleibol do colégio Dolores, Santiago de Cuba; e uma foto na carteira escolar em que sentava, quando retornou a Birán, em 23 de setembro de 2003, para prestar homenagens à mãe, que completaria 100 anos se estivesse viva.
O túmulo da família Castro fica próximo à escolinha. Está escrito: “Vivan eternamiente en nuestros corazones.” Dom Ángel, o pai, pediu para ser enterrado em sua propriedade. Morto em 21 de outubro de 1956, aos 81 anos, ele nem viu o desembarque do Granma, muito menos o triunfo da Revolução liderada pelo filho. Ao lado, a mãe de Fidel, Lina Ruz González, morta em 6 de agosto de 1963. Ela visitou o filho na Sierra Maestra e acompanhou a queda de Batista. Os avós maternos de Fidel também foram enterrados ali.
Em 4 de setembro de 1945, Fidel ingressa no curso de direito da Universidade de Havana. Carismático, rico, bonito, inteligente, forte, atlético, 1,91 metro de altura, 82 quilos, calouro. Inicia sua vida política e vai trocar os esportes pelo palanque.
Batista instaura a ditadura
A escola de direito era um centro formador de políticos. A política universitária era dominada por grupos atrelados ao governo do presidente Grau San Martín (presidiu Cuba de 1944 a 48), que havia chegado ao poder através de uma bizarra aliança entre militares e estudantes. O movimento estudantil havia degenerado em gangsterismo. O ambiente era de força, medo e pistolas. Apesar de Grau oferecer certos avanços como a abolição da censura, melhora na saúde, educação e moradia, estava atolado em escândalos de corrupção, perdendo apoio popular.
Fidel se opõe ao candidato de Grau San Martín na FEU – Federação Estudantil Universitária.
Concorre pelo grupo independente que ajudou a compor, Los Manicatos (Mãos Duras). Para ganhar, usou sua impressionante memória. Na época ainda lhe faltava experiência para improviso, mas com apenas duas leituras decorava cada palavra de seus discursos. Memorizou uma relação de nomes e fotos de alunos de direito para chamá-los pelo nome durante a campanha de rua, de forma a demonstrar certa familiaridade com o eleitor. No panfleto de Los Manicatos havia um pensamento de José Martí. “Mais vale uma trincheira de idéias do que uma trincheira de pedras.” Fidel acabaria eleito por 181 votos a 33.
Amigo e um dos líderes do movimento que comanda a Revolução, Armando Hart Dávalos, 76 anos, hoje membro do Conselho de Estado e diretor da Oficina del Programa Martiano, uniu-se a Fidel durante a política estudantil. Ele e o irmão mais velho também estudavam direito na Universidade de Havana. Hart foi o primeiro ministro de educação da Revolução e ministro da Cultura de 1976 a 1997. “Falo de 1947 ou 48. Ele chegou com um grupo de gente variada, depois alguns se transformaram... Outros estavam influenciados pelo gangsterismo. Me recordo do que meu pai disse quando Fidel discursou: ‘esse muchacho parece muito bom, tenho medo que ele se perca em meio aos gângsteres.’” Fidel resistiu e “preferiu ser um José Martí”, diz Hart: “Se tornou um dirigente estudantil muito forte, um grande agitador. Depois veio o Moncada (o assalto ao quartel-general Moncada, em 26 de julho de 1953, iniciando a lutaarmadacontraBatista) e se fez grande entre os grandes”. Olhando em retrospectiva para o passado, Fidel considera que, em sua época universitária, foi mais um Quixote – personagem do qual tanto gosta e que está esculpido em metal em uma das praças de Vedado, Havana – do que um Martí, segundo disse a Ramonet. Para sua sobrinha charmosa de espírito livre, Mariela Castro Espín, filha de Raúl Castro, nascida, em 1963, hoje diretora do Centro Nacional Cubano para Educação Sexual e ativista dos direitos das Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros, Fidel nunca deixou de ser Quixote. “Ele é um homem impressionante, com uma ética, uma energia e inteligência profundas. É quase um cavaleiro medieval, um cavaleiro andante, por onde vai o povo o segue, o quer...”
Ao fim de sua carreira estudantil, Fidel estava praticamente pronto para a Revolução. Faltava ainda sentir o gosto e a força do povo nas ruas. Em 1948, Fidel viaja para Bogotá, vai participar da nona conferência da União Pan-Americana de Estudantes, organizada para protestar contra a influência dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Alguns dias mais tarde, Jorge Eliécer Gaitán, candidato popular à presidência da Colômbia, é assassinado, deflagrando um levante de trabalhadores, no qual muitos deles são mortos e feridos. Os estudantes se armam e saem às ruas, juntando-se aos protestos e distribuindo material antinorte-americano. Fidel dirá que sentiu ali a energia, o poder do povo defendendo uma causa. E dirá que já era internacionalista quando foi a Bogotá em 1948, e que quando ocorreu o golpe de Estado de Batista, em 1952, elaborou uma estratégia para o futuro: lançar um programa revolucionário e organizar um levante popular.
Nesse mesmo ano de 1952 Fidel se candidata a uma cadeira no parlamento, pelo Partido Popular Cubano, no qual estava inscrito desde 1947. Mas as eleições não se realizam. Em 10 de março de 1952 o general Fulgencio Batista derruba o governo do presidente Prío Socarrás e inicia uma sangrenta ditadura. Dois dias depois do golpe o filho do ex-presidente americano Franklin Delano Roosevelt, Elliott Roosevelt, visita Batista. Mais 15 dias, o embaixador norte-americano Willard Beaulac reconhece, em nome da Casa Branca, o governo de Batista como legítimo. Em 10 de abril, Cuba rompe relações diplomáticas com a União Soviética, realinhando-se à política norte-americana.
“A História me absolverá”
Formado em direito em 1950, Fidel atendia, sem cobrar, os mais carentes em um pequeno escritório em Havana. Vivia de doações de militantes. Após o golpe abandona a advocacia e sai de circulação, temeroso de represálias. Mas publica pequenos jornais e panfletos contra o ditador e apresenta ao Tribunal de Urgência recurso de inconstitucionalidade contra o golpe por “sedição, traição, rebelião e ataque noturno”. Era o mesmo que acusar o general Batista de rasgar a Constituição. O recurso foi arquivado.
Diante da sepultura do fundador do Partido Popular Cubano, Eduardo René Chibas Rivas, junto de outros membros do partido, Fidel declara guerra: “Se Batista subiu ao poder à força, pela força se há de derrubá-lo!” Começa a percorrer o país organizando células clandestinas para a luta armada. Com amigos, treina 1.200 homens dos mais diversos grupos e matizes políticos. A idéia era atacar, dia 26 de julho, em Santiago de Cuba, o quartel-general de Moncada, o segundo maior grupamento militar de Batista, que abrigava 1.000 soldados. Fidel usaria 120 homens, vestidos de sargento do exército, para dominar o quartel, tomar a estação de rádio local e anunciar o início do movimento guerrilheiro. Utilizariam para a operação o armamento do próprio quartel. Santiago foi a escolhida para começar a luta armada por ter sido a cidade cujo regimento militar inicialmente não acatou o golpe de Batista e onde existia um forte sentimento de ódio contra o regime do ditador. Ainda hoje Santiago é conhecida entre os cubanos como cidade de comunistas revolucionários. Mas o levante fracassou. Cinco foram mortos em combate, 56 seriam assassinados no cárcere.
Fidel foge com oito homens com a intenção de continuar a luta nas montanhas, mas são apanhados por uma patrulha. O tenente que a comandava impede que seus soldados matem os prisioneiros, como costumavam fazer as tropas de Batista. Fidel vai a julgamento, no qual mostrará que também é bom advogado, ao apresentar sua autodefesa, documento que se tornará célebre: “A História me Absolverá”.
Era 16 de outubro de 1953, primeiro dia de julgamento. A sala lotada de soldados com baionetas, muitos dos quais haviam assassinado e torturado rebeldes detidos no dia 26 de julho. Fidel entra algemado, de terno escuro, camisa social branca, gravata preta com pintas vermelhas. Levanta as mãos, bate as algemas no ar e diz: “Não se pode julgar um homem assim algemado”. O presidente dos magistrados conversa com os colegas e ordena que retirem as algemas de Fidel e lhe dêem a toga para que pronuncie “A História me Absolverá”, sua autodefesa. “Essa foi a primeira vitória de Fidel”, diz Marta Rugas, repórter que cobriu o julgamento, hoje com 77 anos.
A pena de trinta anos de prisão Fidel conseguiu reduzir para quinze. Usando sua memória notável, reescreve na prisão sua autodefesa e o folheto “A História me Absolverá” começa a circular clandestinamente no país, se transformando em programa político: “Senhores magistrados, sou aquele cidadão humilde que um dia se apresentou inutilmente ante os tribunais para pedir que castigassem os ambiciosos que violaram as leis. (...). Aos 30.000 professores e mestres abnegados e necessários ao destino melhor das futuras gerações e a quem tão mal se trata e se paga; aos 20.000 pequenos comerciantes, cheios de dívidas, arruinados pela crise. Aos 10.000 profissionais jovens, médicos, engenheiros, advogados, veterinários, pedagogos, dentistas, farmacêuticos, jornalistas, pintores, escultores etc. que saem das aulas para encontrar um beco sem saída. Minha lógica é a simples lógica do povo. (...) Promovemos rebelião contra um poder único, ilegítimo, que usurpou e reuniu, em um só, os poderes legislativo e executivo da Nação. O direito de resistência que estabelece o artigo 40 dessa Constituição está plenamente vigente. (...) Meus companheiros estão sofrendo desde já, na Ilha de Pinos, uma ignominiosa prisão. Enviai-me junto a eles para compartilhar a sua sorte. É concebível que os homens honrados estejam mortos ou presos em uma república onde está como presidente um criminoso, um ladrão. (...) Não lhes guardo rancor, sei que o presidente deste tribunal, homem de limpa vida, não pode dissimular a sua repugnância pelo estado de coisas reinante que o obrigam a ditar um veredicto injusto. Condenai-me, não importa, a história me absolverá...”
Preso com Che no México
Em 15 de maio de 1955, dois anos depois, sob forte pressão popular, Batista concede anistia política – proposta pelo Congresso - e põe em liberdade Fidel, Raúl Castro e mais dezoito de seus seguidores. Em 8 de julho, Fidel parte para o exílio no México, onde irá criar o Movimento Revolucionário 26 de Julho, nomeado assim em homenagem ao assalto a Moncada. E começa a planejar seu retorno.
| Fidel casara em 12 de outubro de 1948 com Mirta Francisca de la Caridad Díaz-Balart y Gutiérrez, estudante de filosofia na Universidade de Havana, filha da rica aristocracia cubana. O pai dela era prefeito da cidade de Banes, ao sul de Cuba. Um ano após a união nasce o primeiro filho de Fidel, Fidel Castro Díaz-Balart, Fidelito. Cada vez mais embrenhado na política e na luta revolucionária, sua vida pessoal perde espaço. Seu casamento passa por crises. Militantes o ajudam a pagar as contas domésticas, já que não tem tempo para nada além de política. |
Homenagem às vítimas do “terrorismo americano”, em frente do escritório dos EUA. |
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| Acumula dívidas com o açougue e o armazém e sua casa sofre cortes de luz por falta de pagamento. Ao fim de 1950, conhece Natalia “Naty” Revuelta, com quem inicia um romance. Naty era uma bonita, rica e culta, educada nos Estados Unidos e França, casada com um cardiologista de prestígio. Ligada ao Partido Popular Cubano, empresta sua casa para Fidel e outros se reunirem e se esconderem. Há tempos nutria admiração e atração pelo carismático político. Os amantes têm uma filha, Alina Fernández-Revuelta, que no futuro se tornará modelo e relações-públicas da Companhia Cubana de Moda. Em 1993 deixa Cuba disfarçada de turista, com papéis falsos. Do exterior passa a se opor ao pai. Em 1998 escreve uma autobiografia na qual crítica Fidel, entre outras coisas por abolir o personagem Mickey Mouse da televisão cubana. Hoje Alina comanda um programa de rádio sobre cultura e política irradiado de Miami. | ||
Fidel divorciou-se de Mirta em 1955, ano em que saiu da prisão e partiu para o exílio. Em 1961, encontrará Dalia Soto del Valle, na época, secretária do Sindicato dos Trabalhadores do Açúcar. Tem cinco filhos com ela: Alexis, Alexander, Alejandro, Antonio e Ángel. Irão casar-se em 1980, em cerimônia discreta. Especula-se que Fidel tenha um oitavo filho, de mais outro relacionamento, Jorge Ángel Castro, nascido nos anos 50. O nome da mãe de Jorge varia de acordo com a fonte, Maria Laborde ou Maria Amparo.
No exílio no México, Fidel reúne-se com amigos e partidários. Em agosto de 1955 surge o primeiro manifesto da organização revolucionária 26 de Julho. Encontra Ernesto Che Guevara pela primeira vez. Em julho de 1956 a polícia mexicana descobre algumas armas do movimento revolucionário e prende membros do grupo, entre eles Che e Fidel, que passam dois meses na prisão, juntos. Para Fidel, Guevara é um amigo eterno. Chamando Fidel de tio, ou quase pai, a filha de Che, a médica Aleida Guevara, explica por quê: “Tem homens que para ele nunca morrem, e um deles é meu pai. Um dia pedi a meu tio que contasse algo de meu pai, alguma das famosas conversas deles. Então contou-me de quando caíram presos no México ele, meu tio, pediu para que ninguém revelasse a filiação política. E me perguntou: ‘Sabe o que fez o teu pai? Não somente disse que era comunista, como começou a discutir com o oficial sobre a personalidade de Stálin. Resultado, todos nós, exceto seu pai, fomos libertados. Ele foi o único que continuou preso. Fiquei chateado com ele e fui adverti-lo que não era para ter dito aquilo. Ele me olhou nos olhos e respondeu: ‘Eu não sei mentir ‘. E foi a primeira vez que meu tio soube que meu pai não sabia mentir”.
Começa o longo bloqueio
Em 2 de dezembro de 1956, Fidel e mais 81 homens desembarcam do iate Granma em Playa Las Coloradas, na região oriental de Cuba. São atacados por tropas de Batista e a maior parte dos homens morre ou é capturada. Fidel, Guevara e Raúl Castro escapam junto com outros. Ajudados por camponeses, eles se reagrupam na Sierra Maestra e de lá, o Movimento 26 de Julho lança a guerra de guerrilha contra Batista. Nas cidades, grupos de revolucionários começam a lutar também. Conforme os homens de Fidel colecionam vitórias, mais gente aparece disposta a lutar. Da coluna 1, sob seu comando, saem outras colunas comandadas por Che, Raúl e outros. Contra 80.000 homens do exército de Batista, os rebeldes precisaram de apenas 761 dias para derrotar o governo. Em 1o de janeiro de 1959, cinco anos, cinco meses e cinco dias depois do assalto a Moncada, Batista foge para a República Dominicana. Estima-se que, nos seus sete anos de governo tenha mandado assassinar mais de 20.000 pessoas.
Para evitar grandes divisões no início do governo, formado por uma coalizão ampla, ou esperando uma melhor definição nas relações com a Casa Branca, ou ainda simplesmente porque a Revolução vai se adequando ao cenário internacional - na época está no auge a Guerra Fria -, Fidel evita se autoproclamar comunista, dizendo-se humanista. Em 2 de abril de 1959 anuncia que vai aos Estados Unidos em busca de crédito. Um mês depois, Cuba e Estados Unidos firmam um acordo econômico. Em 4 de maio, Fidel regressa e Philip Bonsal, embaixador norte-americano em Cuba, o recebe no aeroporto. Em 8 de maio afirma em discurso: “Esta revolução não é vermelha, esta revolução é verde-oliva”. Em 30 de junho de 1959 funcionários da CIA declaram, em Washington, que Fidel é comunista. Melba Hernández, heroína da Revolução, que lutou desde o assalto a Moncada, explica: “Em nossas fileiras nunca se discutiram comunismo, socialismo ou marxismo-leninismo enquanto ideologia; no entanto, dizíamos que, no dia em que a Revolução tomasse o poder, todas as terras de propriedade da aristocracia passariam para o povo e ficariam à disposição dos filhos daqueles por quem lutávamos”.
Uma fala sobre o sonho
Conforme a Revolução avança nas reformas populares, aumentam as fissuras. Com a promulgação da Lei de Reforma Agrária, são expropriados grandes latifúndios norte-americanos e cubanos. Ainda no primeiro ano da Revolução são ampliados os benefícios da seguridade social para todos os trabalhadores. Em 15 de outubro de 1960 é promulgada a Lei de Reforma Urbana, que confisca imóveis de proprietários que tenham mais de uma propriedade. Então as refinarias estrangeiras se negam a processar petróleo soviético e em resposta o governo cubano expropria as propriedades das norte-americanas Texaco e Esso. Um mês depois, a Shell britânica também é nacionalizada, assim como as principais empresas norte-americanas no país: 36 centrais açucareiras, a Cuban Telephone Company e a Companía Cubana de Electricidad. Em outubro, mais 105 centrais açucareiras são estatizadas; fábricas de cosméticos; cervejarias; farmácias; lojas de departamentos; as companhias ferroviárias; dezoito destilarias, entre elas a famosa Bacardí. No total, estatizam-se sem indenização 376 indústrias e comércios, mais hotéis e bancos. Muitos dos proprietários que perdem suas propriedades deixam o país e em 19 de outubro de 1960 a Casa Branca estabelece o bloqueio comercial contra Cuba. Começava o mais longo bloqueio comercial da história recente, que dura até os dias de hoje. Em 3 de janeiro de 1961, Cuba e Estados Unidos rompem relações diplomáticas. Fidel aproxima-se cada vez mais dos países socialistas. Por uma questão não só ideológica, mas de sobrevivência.
Em 1989, quando o bloco socialista desaba, Cuba vai para o fundo do poço, entra no chamado “Período Especial”. A economia sofre colapso total e os Estados Unidos aproveitam para apertar o bloqueio econômico. Faltam comida, energia elétrica, água, produtos industriais, remédios. As cidades sofrem blecautes, os transportes públicos param, várias fábricas são fechadas. Gatos desaparecem das ruas porque viram alimento. Quase uma geração tem as marcas da subnutrição no crescimento. Imediatamente o governo começa a transformar a economia, redireciona a Revolução e adota algumas medidas mais liberais, abrindo a Ilha para o turismo e permitindo joint ventures com empresas estrangeiras, porém detendo o controle acionário.
Fidel é um dos poucos idealistas que chegaram perto de realizar totalmente seus sonhos. Cuba é a materialização de um sonho, mas, como internacionalista, Fidel gostaria de haver criado muitas outras Cubas na América Latina, na África, Ásia... no mundo. Quem se prende a carro último tipo, prédios luxuosos e mansões, e toda a parafernália eletrônica atual, não entende o sonho de Fidel. O forasteiro que vai conhecer Cuba aprende que é preciso olhar não para as roupas da população, mas para a saúde do corpo, a cultura, o discurso articulado de qualquer transeunte nas ruas.
Dia 1º de janeiro de 1999, Fidel Castro pronunciou um discurso em comemoração dos quarenta anos do triunfo da Revolução, onde falou de seu sonho.
“Dos 11.142.700 habitantes que constituem a população atual do país, 7.190.400 não haviam nascido ainda; 1.359.698 teriam menos de 10 anos de idade; a imensa maioria dos que então teriam 50 anos e agora teriam no mínimo 90 – mesmo que sejam cada vez mais numerosos os que ultrapassam essa idade – já falecera. (...) Cerca de 30 por cento daqueles compatriotas não sabiam ler nem escrever... Existiam somente algumas dezenas de escolas técnicas, institutos pré-universitários - nem todos ao alcance do povo - e centros para formação de professores, três universidades públicas e uma privada. Professores, 22.000. (...) Hoje, professores com muito maior nível e professores na ativa são mais de 250.000; médicos, 64.000; graduados universitários, 600.000. Não há um único analfabeto. (...) Somos hoje, com orgulho, o país do mundo com o maior índice per capita de educadores, médicos e professores de educação física e esporte e possuímos a mais baixa taxa de mortalidade infantil e materna entre todos do Terceiro Mundo.”
Esta é a Cuba dos sonhos de Fidel.
Sérgio Kalili é jornalista.
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