Hidrelétricas do Rio Madeira e as comunidades ribeirinhas
por Fernando Baggio
Longe do concreto retilíneo, do petróleo, dos caixas eletrônicos e dos demais vícios que caracterizam nossa atual sociedade de consumo, existe um Brasil paradoxal que encanta através da simplicidade: em meio a Floresta Amazônica, na porção da América onde os rios ainda governam a vida dos homens, vivem seres fantásticos como o menino Damião, que se diverte trepando em pés de cupuaçus e de biribás, ao canto dos uirapurus, enquanto botos vermelho-alaranjados exibem-se às margens do Rio Madeira.
Descendente dos antigos colonizadores da região e de índios, Damião é nativo da comunidade ribeirinha de São Carlos, localizada a 67 km da capital de Rondônia, Porto Velho. Tal trajeto, realizado de barco pelo Rio Madeira, dura aproximadamente cinco horas e encontra-se repleto de cenários paradisíacos dignos de figurar em qualquer lista das mais belas paisagens do planeta, não apenas devido à exuberância ambiental, mas, sobretudo, pela cultura humana endêmica, crua e fascinante.
Os moradores de São Carlos, assim como o restante da população amazônica, seguem o ritmo de vida ditado pelos rios, com os quais mantém intrínsecas relações vitais. Suas habitações, chamadas palafitas, são construídas a uma certa altura do chão, para evitar alagamentos nos períodos em que o rio transborda. Além disso, como o barco consiste no principal meio de locomoção na Amazônia, toda família possui a sua própria embarcação.
O Rio Madeira nasce na Cordilheira dos Andes com o nome de Mamoré, e corre em direção a Planície Amazônica, onde recebe pela margem direita o Rio Guaporé, que traz consigo a linha divisória entre Brasil e Bolívia. O Rio Madeira, que se constitui num dos principais afluentes do Rio Amazonas, possui este nome pois, no período de chuvas, seu nível sobe e inunda as margens trazendo troncos e restos de madeira das árvores da mata ciliar. Na estação seca, entre junho e novembro (período denominado de verão), as águas do rio percorrem o caminho mais ‘fácil’ em direção ao mar, formando várias praias em suas margens, além de cachoeiras em seu leito.
Damião e o cupuaçu |
No inverno amazônico, entre dezembro e maio, ao mesmo tempo em que enche com as águas das chuvas, o Madeira é invadido pelas águas do Solimões e sobe cerca de 17 metros, alagando todas as cachoeiras em seu leito até formar um espelho d´água que tanto invade florestas como cobre as praias e grande parte da planície amazônica. É nesse momento que o Rio Madeira deixa de ser apenas um tributário do Rio Amazonas e se torna um canal de navegação dependente da "maré" do Solimões. |
Além do aumento das chuvas, nesse período também ocorre degelo na Cordilheira dos Andes, contribuindo para a subida do nível do Rio Madeira, visto que lá nasce grande parte dos seus tributários. Embora o período dessa cheia não seja muito longo, já existem projetos governamentais no sentido de explorar esse efeito de maré que tanto poderá ser convertido em energia elétrica como também diretamente em forma energia cinética a fim de movimentar as moendas de cana de açúcar, evitando-se, assim, importar a usual tecnologia das turbinas de bulbo.
Um local onde Damião adora banhar-se é o Rio Jamari, um dos principais afluentes do Madeira. Em pleno inverno amazônico, Damião atira-se na água, de cima do seu barco, e mergulha para longe, evitando nadar em águas mais profundas, onde vive o temível peixe candiru (Vandellia cirrhosa), um parasita em formato de guarda-chuva que se sente atraído pelo fluxo da urina dos banhistas e penetra na uretra, alimentando-se de sangue. Cientificamente, o candiru somente é removido do corpo humano através de intervenção cirúrgica. No entanto, uma tradicional cura envolve a utilização do chá de duas plantas: a xagua (Genipa americana) e uma certa maçã, que é inserido na área afetada. Juntas, estas duas plantas matam o peixe, que, então, é expelido do organismo.
No município de Candeias do Jamari, onde existia uma bela cachoeira chamada Samuel, foi construída a barragem da Hidrelétrica de Samuel, com potência de 216 mil megawatts. Por não possuir bacia acentuada, o Rio Jamari recebeu em seu leito um dique de 45 km de extensão de cada margem para formar o lago da hidrelétrica. O início da construção da barragem ocorreu no ano de 1982. Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a obra foi responsável pela criação dos grandes bolsões de miséria na periferia de Porto Velho, ao ter ignorado direitos e negado assistência a cerca de 650 famílias atingidas pela obra.
Atualmente, está em construção o Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, composto por duas usinas de grande porte: UHE Santo Antônio (3.150 MW) e UHE Jirau (3.300 MW). A primeira está orçada em um valor estimado de R$ 9,5 bilhões, e o total, juntamente com Jirau, gira em torno de R$ 18,4 bi. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social reservou uma linha de financiamento específica para custear cerca de 70 por cento do projeto, embora a população local indague-se sobre o que realmente há de desenvolvimento econômico e social nessa obra. Ora, Rondônia é auto-suficiente em energia; tal energia será destinada ao eixo Rio-São Paulo. Além do mais, uma usina hidrelétrica emprega menos de trinta trabalhadores efetivos e dificulta enormemente a piracema, que é a desova dos peixes nas nascentes dos rios. Independentemente do nível do impacto ambiental gerado pela construção de gigantescas barragens, apenas os investidores serão beneficiados com as hidrelétricas nos Rios Madeira, os quais não possuem qualquer relação com as comunidades locais e tratam o território brasileiro como se fosse um terreno baldio, onde vagabundo dorme. Apesar de absurda, esta ação segue a linha de raciocínio há tempos utilizada pelo BNDES, que recentemente financiou a privatização de inúmeros setores estratégicos do governo brasileiro.
Somados aos impactos ambientais e culturais gerados pela construção das gigantescas hidrelétricas na Bacia Amazônica, outros dois fatores contribuem para o desaparecimento da vida endêmica existente nas comunidades ribeirinhas e em seus entornos: a introdução da pecuária e o cultivo de soja. Empresários rurais estão comprando terra de grileiros para criar gado solto em extensas fazendas, impelindo, assim, a população rural a superlotar as regiões periféricas de Porto Velho e demais centros urbanos da região. As áreas adquiridas pelos empresários são primeiramente queimadas, exterminando a biodiversidade local, e depois reutilizadas com fins que desconsideram o ambiente envolvido. Neste ritmo, em pouco tempo o bioma Amazôniavai se reduzir a algumas poucas reservas biológicas, perdendo a espontaneidade cultural que floresce em seres como o menino Damião.
Mesmo que os economistas comemorem os lucros gerados pela agroexportação, não faltam questionamentos quanto aos reais benefícios de tal política agrária: a medida em que um empresário contribui para o superávit na balança comercial brasileira ao plantar uma extensa área de soja com o fim de exportar sua produção, ele acaba induzindo as populações nativas de tais localidades a migrarem para as favelas dos grandes centros urbanos, contribuindo, também, com o aumento da miséria e da violência. Além do mais, o lucro referente à produção desse empresário rural, que anteriormente era dividido entre os nativos sob a forma de frutas, raízes, grãos, aves, mamíferos e tantas outras formas de vida, poderia muito bem ser multiplicado caso industrializássemos os produtos aqui mesmo no Brasil, em vez de sumariamente exportarmos matéria-prima bruta. Hoje, recompramos o mesmo alimento que anteriormente exportamos, arcando com o valor agregado ao processar tais produtos no exterior e com os custos de transporte, publicidade, burocracias...
Infelizmente, nossa gestão territorial desconsidera o caráter humano nos planejamentos agrários. Damião e seus semelhantes são irrelevantes às políticas públicas que visam desenvolver sócio-economicamente a Amazônia. Qual será o desenvolvimento que estamos buscando: o crescimento econômico de investidores externos ou o bem estar das comunidades tradicionais brasileiras? Superávit-primário ou alimento para o povo? Resta aos amazônicos incluir lâmpadas em sua culinária, pois luz, ao menos, não faltará.
Fernando Baggio é fotográfo e estudante de geografia.
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