Além de licitações, Gautama fraudou esperanças no sertão do Piauí
texto Rômulo Maia / Fotos Leonardo Maia
Alto Bonito, zona rural de Pio IX, sertão do Piauí, finalzinho da tarde. A sala da casa do agricultor Eugênio Alencar, 66 anos, já está quase cheia. Em frente a uma pequena televisão de 20 polegadas, pelo menos 15 pessoas aguardam o início da novela das seis da Rede Globo de Televisão.
A maioria dos que ali estão não são da mesma família. Na verdade, durante o dia eles pouco convivem uns com os outros. A lida na roça e os afazeres domésticos ocupam a maior parte do tempo. O costume de assistir televisão em grupo só existe mesmo porque a energia elétrica, uma invenção tão antiga, tem caráter de privilégio na região.
No início de 2007, correu um burburinho que o programa Luz para Todos, do governo federal, acabaria com essa diferença e levaria a tão sonhada eletricidade para todas as 80 famílias que habitam a região do Alto Bonito e Mercador. De fato, logo os fiscais da empresa Gautama, contratada para executar a obra, estavam na região escolhendo os melhores caminhos para a rede elétrica passar.
Os moradores das comunidades foram tomados de uma enorme euforia. A empresa contratou os próprios habitantes da região para "cavar" os buracos dos postes. E eles fizeram isso com gosto. Maria Tomaz da Conceição, a Dona Mariquinha, 79 anos, lembra que foram cavados dois buracos em seu terreiro. “Todos na minha conta. Paguei R$ 24,00 pelos dois”, diz.
Algumas famílias se entusiasmaram além da conta. Houve quem deixasse a cautela de lado para investir na compra de eletrodomésticos antes mesmo de mandar instalar tomadas em casa. Em várias prestações, o agricultor Vicente Roseno, sua mulher e filhos compraram caixas de som, geladeira, televisores, rádio, liquidificador, máquina elétrica de costura e antena parabólica. Antônia Ricardino, filha de seu Vicente, diz que começou a comprar “as coisas” no mês de maio. “Na hora que disseram ‘Vamos tirar os trilhos da energia!’ nós já comecemos a comprar”, conta.
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O que ninguém esperava é que a Gautama, responsável pelas obras, estivesse envolvida em um esquema de desvio de recursos públicos federais, por meio de fraudes em licitações; nem que a Operação Navalha, deflagrada pela Polícia Federal no dia 17 de maio de 2007, desbarataria o mesmo esquema, formado por mais de 30 pessoas espalhadas em nove Estados e no Distrito Federal. De acordo com a Controladoria Geral da União, só no Piauí, a quadrilha daria um prejuízo de R$ 7,3 milhões. |
![]() Vicente Roseno: "É certo derrubar mil e quinhentos contos de um pobre?" |
O ceticismo dos moradores é grande. E toma proporções ainda maiores porque não é de hoje que prometem eletrificar a região. Dona Mariquinha usa a matemática sertaneja e faz seus cálculos: “Deve fazer de 12 a 13 anos que falam nisso. Rita, minha filha, ainda era moça quando começaram a falar. Hoje ela já é mãe de três filhos.” Vicente Roseno diz que se “a energia viesse ficava mais tranqüilo”, mas conclui desanimado: “parece que a gente vai morrer e ela não vem. E agora, pra piorar, tem os aparelhos dentro de casa, sem funcionar, a poeira tomando conta.”
Prejuízos
A empresa Gautama contratou a mão-de-obra local para cavar os buracos dos postes e abrir os trilhos no mato. Até agora os trabalhadores não receberam nenhum centavo do valor acertado. E como se não bastasse, a empresa também motivou prejuízos.
É com raiva brotando na voz, que Vicente Roseno conta a grande perda financeira que seus filhos e ele amargaram ao dedicarem suas forças de trabalho para ajudar os operários da Gautama. Quando os funcionários da empresa chegaram à região, Roseno se preparava para colher o legume que plantara durante o inverno. Na época, a saca de feijão estava cotada a R$ 60,00 no mercado local. “Pois nós deixemos de panhar pra trabalhar pra eles”, fala.
Porém, o serviço da Gautama durou três semanas, bem mais que o planejado. “E quando nós fomos colher o feijão, que debulhamos, o preço caiu pra R$ 45,00. Perdemos R$ 1.500,00 em 100 sacos de feijão. É certo derrubar mil e quinhentos contos de um pobre?”, pergunta o agricultor indignado. E afirma: “Se tivesse arrochado chovendo nós tinha perdido total.”
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As armadilhas |
Esperanças
Mesmo com uma “ressaca” de quem festejou antes do tempo, a população da zona rural de Pio IX não deixa de sonhar com o dia em que o lampião a gás e a lamparina serão lembranças de um passado de limitações e, literalmente, escuro.
E enquanto a luz ainda não é para todos, Seu Eugênio Alencar dá sua palavra que não “acha ruim de jeito nenhum” acolher os colegas na sala de casa para assistir o próximo capítulo da novela das seis.
Rômulo Maia é estudante de jornalismo.
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