Caros Amigos

Compre na nossa Loja Vrtual
Só no siteOutras só no site

Travessia de risco

A história contada pelo mexicano Oscar se assemelha com a de tantas outras pessoas que vão em busca do falso “sonho americano”.

por Camila Balthazar


Oscar Alberto Torres García, 24 anos, mexicano, divide com outros jovens o drama da pouca expectativa de vida e o dilema de optar por deixar o país em busca do sonho de uma vida melhor. Gente que vive com o dinheiro contado e não arca nem com os gastos mínimos. A solução para os seus problemas? O "sucesso" na vida percorrendo o tortuoso caminho de atravessar a fronteira clandestinamente rumo aos Estados Unidos.

Oscar é o mais novo de uma família de quatro filhos. As duas irmãs mais velhas não se criaram com ele, viviam com os avós para diminuir as despesas da casa, ele morava com a irmã, a mãe e o pai, dono de um bar, na Cidade do México. Aos 12 anos arranjou o primeiro emprego, assistente de mecânico. Parte do salário era para essas despesas domésticas.

Trabalhou por dois anos no Mc Donald´s para pagar o colégio, a jornada cansativa o fez desistir faltando um ano e meio para se formar no 2º grau. No vai-e-vem de empregos ruins e sem expectativas, Oscar aceitou a sugestão da irmã mais velha – que já trabalhava nos Estados Unidos – a tentar a travessia. A história de Oscar se assemelha com a de tantas outras que vão atrás do “sonho americano”.

A estratégia da travessia
Ele (então com 19 anos) e a irmã, de 34 anos, mais uma sobrinha de 12, se programaram para cruzar o deserto pelo estado de Sonora, no México, chegando ao Novo México, já nos Estados Unidos. Quem faz a travessia precisa da ajuda dos chamados coyotes ou polleros, que são “responsáveis” por levá-los até o destino.

O preço acordado foi de cinco mil dólares. Metade antes e a outra quando estivessem “seguros” nos Estados Unidos. Quem “patrocinou” a viagem foi outra irmã, a única que concluiu os estudos e que trabalha na Telcel, a maior companhia de celulares do México, propriedade do homem mais rico do mundo, Carlos Slim. Com tudo programado, compraram a passagem aérea até o estado de Sonora, onde se encontrariam com o coyote. No total, 20 pessoas fariam a travessia pelo deserto.

A dura travessia
Durante a jornada ninguém pode levar comida, água e nem roupas. "É só o que traz no corpo", diz Oscar. Às onze horas da noite, o coyote caminhou com o grupo por quatro horas e “se perdeu, mas na verdade nos deixou”, relembra Oscar. Isso acontece com freqüência, já que nem todos os coyotes são de confiança. A ‘sorte’ é que das 20 pessoas, duas já haviam cruzado o deserto e resolveram guiar as demais. Dos 20, somente oito seguiram em frente.

Foram quatro dias de caminhada. À noite, usavam botas e protegiam os pés para evitar picadas de cobra e escorpião. Sem contar os mosquitos, dos quais não havia como se proteger. Sem comer ou beber sequer uma vez, paravam no máximo dez minutos. Dormir, nem pensar.

Oscar conta que enquanto caminhava pensava porque tinha decidido abandonar a família – coisas que nunca passara por sua cabeça anteriormente. Porém, voltar não era uma opção quando já se está no meio do deserto e sem nenhuma orientação geográfica. Quem mais sofreu foi a sobrinha, de 12 anos. Não demorou muito para chegar ao limite e, a partir daí, ser carregada nas costas. O grupo entendeu a situação e logo passou a revezar a tarefa.

Além do cansaço físico, o sol era inimigo. Sem sombra para se esconder ou roupas que tapassem todo o corpo, a pele queimava sem nenhuma proteção durante todo o dia. À noite, ainda caminhando, a sensação de ardência lutava com os calafrios, resultado da insolação, desidratação, fome e cansaço. Durante os quatro dias não passaram por ninguém. Já no fim  escutaram longe o barulho de um carro. Esconderam-se atrás de uns arbustos e puderam ver que era uma caminhonete da patrulha fronteiriça mexicana. Ficaram agachados por oito horas, até que o caminho estivesse livre outra vez.

Do deserto para o “paraíso migratório”
Ao chegar num povoado do Novo México, já em território americano, uma amiga da irmã de Oscar já os aguardava para levá-los ao Texas. Oscar não sabe quanto tempo durou a viagem.  A primeira coisa a fazer era levar a menina ao médico. “Ela não estava acostumada a caminhar e não agüentou. Esteve a ponto de morrer, de tão desidratada”. Um casal integrante do grupo que atravessou o deserto ficou amigo dos três e os acompanhou para o Texas e depois a Nova York, o destino planejado.

Depois de um mês de tratamento no Texas, a sobrinha estava melhor e puderam ir para Nova York. A viagem foi de quatro, cinco dias, com paradas só para ir ao banheiro. De novo, sem nada, só a roupa do corpo. Para despistar a fiscalização policial, os cinco se espalharam no fundo do ônibus entre os americanos. Ser parado pelos policiais é um jogo de azar e de sorte. Ao cruzar cada um dos estados americanos o ônibus passa por um sinal – no mesmo estilo das alfândegas dos aeroportos – que pode ficar verde ou vermelho. O vermelho apareceu duas vezes. Revistaram o motorista, as malas, menos as pessoas.

Ao chegar em Nova York, o alivio. Foram morar no bairro do Bronx. O marido da irmã de Oscar aguardava e tinha arranjado com um amigo emprego pra eles. Alguns trabalhariam em uma fábrica e outros em um bar. A sobrinha ficaria em casa. Depois de juntar um pouco de dinheiro, decidiram se mudar para um prédio com apartamentos alugados pelo mexicano José Alberto, presidente da Associación de Imigrantes Indocumentados.

Não é prazer, é necessidade
Porém nada era fácil. A ilegalidade num país como os Estados Unidos onde a rigidez é grande a vida se compara a uma prisão domiciliar. Oscar quase não saía por medo de ser preso e deportado. "Era da casa para o trabalho e do trabalho para a casa". Para fazer as compras básicas, os 25 moradores dos apartamentos se revezavam. Duas pessoas por dia. Em caso de emergências o jeito era trocar o dia com alguém.

Foi no estacionamento do supermercado que Oscar fez sua  única amizade, uma americana. Um pneu furado, uma ajuda, uma conversa em espanhol e ficaram amigos. Em quatro anos Oscar não aprendeu o inglês. “Era muita gente de Porto Rico, Cuba, México. Eu não tinha contato com os americanos, que são muito grosseiros”, reclama das provocações e piadas que tinha que ouvir por ser mexicano. “Eu não entendo. A gente ajuda fazendo o que eles não querem fazer. E não é por prazer, é por necessidade”.

Trabalhou em fábrica de engarrafar água por três meses. Na limpeza de um bar e foi levando até o dia em que ele e o cunhado foram pegos pela patrulha. Para deixar de ir de ônibus, o cunhado havia comprado um carro. Os dois foram parados pela polícia, cuja única intenção era extorqui-los. Eles poderiam denunciá-los e mandá-los de volta para o México. Mas, em vez disso, “trancaram-nos em um lugar fechado e escuro, pediram quatro mil dólares e levaram o carro”.

Sempre o dinheiro
Oscar diz que dinheiro compensou em parte tanto sofrimento. Enquanto no México ganhava em média 200 pesos diários (equivalente a uns 18 dólares), nos Estados Unidos recebia em torno de 50 dólares. O mínimo necessário para as despesas guardava e o que sobrava mandava para a mãe no México. Voltou para o México por causa da doença da mãe, que é diabética e parecia ficar ainda pior sem os filhos. Nos quatro anos de Estados Unidos como imigrante ilegal juntou 25 mil dólares. Com isso, comprou um táxi que logo vendeu “porque na Cidade do México já tem táxis demais”.

De volta ao México
Com o dinheiro do táxi, comprou um ônibus de transporte público, pesero, que faz uma linha de grande movimento na cidade: Tacubaya – Santa Fé. Dirige algumas horas de manhã. No resto do tempo um motorista faz o trajeto e transfere uma porcentagem a ele. Em algumas tardes trabalha na serraria do antigo dono do ônibus para pagar o que a venda do táxi não cobriu. Com bastante tempo livre, a entrevista foi marcada para o meio de uma tarde de quinta-feira e, terminado o papo, me convidou para comer uns tacos. Do tipo galante, Oscar não descuida da aparência. Num bar na beira do asfalto com apenas duas mesas de plástico na calçada sua postura era impecável dentro da camisa pólo, enquanto comíamos os tacos suadero.

De volta há oito meses, ele pensa em voltar aos Estados Unidos. Atravessaria o deserto outra vez? Diz que não. “Dessa vez nada de sufocos”. Comprariam documentação falsa para cruzar a fronteira onde só precisa apresentar os papéis e atravessar uma ponte. Quem sai tem dificuldades de aceitar a realidade mexicana novamente.

Oscar é um deles. Mantendo um hábito que aprendeu nos EUA, uma vez por mês vai à igreja. Católico apenas por batismo, nunca foi ligado à religião. Mas nos EUA conheceu São Judas Tadeu, o santo do trabalho. Rezava e agradecia todos os dias por seu trabalho. Quando precisava de algum favor “São Judas nunca deixou na mão”. Oscar compra rosários para distribuir de presente. É sua forma de agradecimento, pois, já que pretende voltar, não quer perder a amizade do santo.

Camila Balthazar é jornalista.

 

dê a sua opinião

Receba o Correio Caros Amigos na sua Caixa Postal.

Seu e-mail:

 



Desenvolvido pela eComm

A revista Caros Amigos é uma publicação mensal da Editora Casa Amarela · Rua Paris, 856, Sumaré · Fone: (11) 2594 0355 - Fax.: (11) 25940351
Atendimento ao assinante: atendimento@carosamigos.com.br