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ELE NOS HONROU COM A ENTREVISTA DE CAPA DESTA EDIÇÃO. MAS NÃO FALOU. QUASE TOPOU FAZER A RODA COM A REDAÇÃO, COMO COSTUMA SER, MAS ACABOU DIZENDO QUE PREFERE RESPONDER POR ESCRITO. AO ARGUMENTO APELATIVO DE QUE TINHA DADO ENTREVISTA “ATÉ NA TELEVISÃO” (NO JÔ SOARES), RESPONDEU: “ME ARREPENDI PROFUNDAMENTE”. ENTÃO A TURMA REDIGIU AS PERGUNTAS, NUMEROSAS, E ELE NÃO DEIXOU UMA SEM RESPOSTA. JUNTOU À GRAÇA A ELEGÂNCIA. AS PERGUNTAS ESTÃO AQUI NA ORDEM EM QUE FORAM ENVIADAS.
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entrevistadores ana luiza moulatlet, mariana santos, michaella pivetti, carlos azevedo, glauco mattoso, hamilton octavio de souza, palmério dória, marcos zibordi, vinícius souto, joão de barros, léo arcoverde, renato pompeu, mylton severiano, thiago domenici, sérgio de souza fotos walter firmo e amancio chiodi
trecho 1
GLAUCO MATTOSO Caramigo Lufe: minha mãe,
que é de Taubaté e morreu faz pouco,
não acreditava em padre nem em político
nenhum. E você?
Acho que esse é um sentimento comum,
esse enfaro com políticos, depois de tantos escândalos
e tanta hipocrisia. E é perigoso porque
acaba sendo um desencanto com a política
e no fim com a própria democracia. Se
fosse possível haver política sem políticos...
Mas não dá, e o jeito é confi ar nos políticos sérios
e capazes que ainda existem, em algum
lugar, e esperar que a nossa democracia melhore
com a prática. O importante é não desesperar
e sair atrás de alternativas mais eficientes, ou puras, que acabam em desilusões
ainda maiores. Quanto aos padres, deixei de
acreditar há muito tempo. Fui criado como
católico, fiz primeira comunhão e tudo, mas o
lado do meu pai, que era agnóstico, foi mais
forte.
trecho 2
VINÍCIUS SOUTO O senhor trata várias
questões da vida com humor inteligente.
A produção atual de outros cronistas
e escritores está conseguindo manter
essa linha ou tudo caminha para a
mediocridade, para baixos apelos?
O Brasil teve grandes escritores que nunca
fi zeram outra coisa além de crônicas. O Rubem
Braga, por exemplo. O Paulo Mendes Campos,
que também era poeta, mas fazia principalmente
crônica. O Antônio Maria. Hoje não há mais
isso, mas temos outra peculiaridade. Não há,
que eu saiba, outro país no mundo em que os
romancistas tenham um contato contínuo com
o público, pela imprensa, como aqui. Temos o
Cony, o João Ubaldo, o Ignácio de Loyola, o
Moacyr Scliar, o Bernardo Carvalho, o Torero
etc., todos escrevendo regularmente nos jornais.
O que significa que podemos não ter mais
excelentes só-cronistas, mas temos excelentes
escritores escrevendo crônicas. Não acho que
caminhamos para a mediocridade, não.
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trecho 3
MARCOS ZIBORDI Você compartilha da opinião
quase unânime de que o presidente Lula é analfabeto e precisa ler?
Olha, com algumas exceções, como o Costa
e Silva, que confundia latrocínio com laticínio,
fomos sempre governados por homens
letrados, muitos deles intelectuais de nome,
que conseguiram construir o país mais desigual
e injusto do mundo sem cometer um erro
de concordância.
RENATO POMPEU Você é muitas vezes
apontado como esquerdista. O que acha
de Cuba, Venezuela, Bolívia e Equador?
Como você qualificaria o estado atual da
esquerda no Brasil em geral e o governo
Lula em particular?
No Brasil temos o mau hábito de exigir
opiniões absolutas sobre tudo. Talvez porque
as opiniões relativas pareçam vir de cima do
muro. Mas você pode achar certas coisas em
Cuba admiráveis, como a independência que
conseguem manter ali embaixo do focinho dos
Estados Unidos e o que, apesar de tudo, conquistaram
em matéria de saúde pública e educação,
e achar outras lamentáveis, como a falta
de pluralidade política e a presidência vitalícia
do Fidel. Entende-se que a direita brasileira
seja obcecada por Cuba e, agora, pelo Chávez,
mas não é preciso imitar sua radicalidade, a favor
ou contra. A mesma coisa vale para os Estados
Unidos, que são admiráveis e execráveis,
dependendo do que você está falando. O governo
Lula, a mesma coisa, só que nesse caso
a gente tende a ser mais a favor do que contra
para não engrossar o coro dos reacionários,
que já é suficientemente grosso. Esse tal de
novo populismo na América do Sul é importante
menos pelo que é do que pela sua origem, o
fracasso de políticas neoliberais recentes em
cima de todos os anos de descaso social das elites
do continente, que agora têm que enfrentar
os Chaves e os Morales e outros monstros
que criou. O novo populismo, ou como quer
que se chame isso, também tem seu lado animador
e seu lado discutível, além do seu lado
precário. Já a esquerda brasileira continua
como sempre foi, dividida.
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