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Sergio Denicoli é jornalista, radialista, Mestre em Informação e Jornalismo e doutorando em Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, Portugal. Investiga a implementação da TV Digital em Portugal. Participa do Projecto Mediascópio, que investiga os media portugueses. |
Nessa entrevista fala sobre a recente implantação da TV Digital no Brasil, explica tecnicamente as mudanças e alerta: “as legislações brasileiras na área das telecomunicações sempre sofreram forte influência dos grandes grupos midiáticos. O que pode mudar nas leis, na minha opinião, vai depender da vontade desses grupos, que não querem perder o poder que têm hoje”.
por Paulo Rodrigo Ranieri, de Portugal
Fala-se muito na TV Digital no Brasil, embora a maioria não saiba ao certo o que significa a inserção desta tecnologia no mercado das comunicações, o que é a TV Digital?
Televisão nada mais é do que um sistema de transmissão de dados, cujos sinais partem de um emissor e chegam em um receptor, para depois serem convertidos em sons e imagens. A transmissão desses dados pode ser feita por satélite, fibra óptica, cabos de cobre e pelo ar. Na TV analógica os sinais transmitidos são radioelétricos e na TV digital são bits, ou seja, têm o mesmo formato das informações processadas nos computadores. A TV digital já existe no Brasil há alguns anos, mas por transmissão via satélite e cabo. O serviço que foi lançado em dezembro, e que tanto se fala na imprensa, é a televisão digital transmitida pelo ar, chamada TV digital terrestre.
Tecnicamente, o que isso significa?
Significa que esse tipo de transmissão é feito através de uma espécie de “caminho invisível”, chamado tecnicamente de espectro radioelétrico, que são as faixas de freqüência. Ela ganhou muito destaque porque atinge a TV aberta e não somente as TVs por assinatura. Portanto, canais como Globo, SBT, Record, Band, etc, passarão a ser 100% digitais dentro de alguns anos.
E o que tais mudanças podem representar, na prática, na vida do cidadão?
A grande influência na vida do cidadão será no bolso, pois ele terá que comprar um decodificador, o chamado set top box, necessário para que os televisores que temos em casa, e que foram feitos para receber o sinal analógico, possam identificar também imagens e sons digitais. Logo chegarão também ao mercado os televisores aptos a receber o sinal digital, sem a necessidade do decodificador, mas os preços certamente serão muito altos neste início. No geral, as mudanças que a TV digital terrestre traz são uma grande evolução, mas muito técnicas. Para o telespectador não vai fazer muita diferença. O que acontece é que o sinal digital pode ser comprimido e isso permite que numa mesma freqüência onde hoje se transmite um canal, possam ser transmitidos mais canais. Inclusive, o mito de que a TV digital tem uma imagem melhor, dependendo da situação, pode não ser verdade. Quando a compressão é muito grande, a imagem pode ter menos qualidade. Ela só terá uma grande qualidade, muito além do que temos hoje, se a transmissão for de alta definição (HDTV), o que, na prática, significa uma imagem formada por mais pontos. Na TV analógica, a HDTV não seria possível porque mais pontos representam mais dados e o espectro não suportaria. Mas, como o sinal digital ocupa menos espaço, possibilita que um maior número de informações seja transmitido nas respectivas freqüências.
Pode-se dizer então que o cidadão está condenado a consumir TV Digital?
Por enquanto, teremos simultaneamente as transmissões digitais e analógicas. Quando ocorrer o apagão analógico no Brasil, previsto para 2016, quem não tiver o decodificador, ou um televisor que capte diretamente o sinal digital, não poderá assistir TV. Até lá, espera-se que os decodificadores tenham um preço bem acessível.
Penso que, quanto mais se avança a tecnologia, mais os extremos se alargam e a “brecha digital” fica maior entre os que consomem informação e os que quase não têm acesso a ela, mas posso estar enganado…
Acredito que a brecha digital esteja diminuindo. É uma questão de tempo para que ela esteja bem difundida. Assim que os televisores com tecnologia de captação digital comecem a ser vendidos, iniciará também o caminho para a democratização digital. Quando a televisão surgiu no Brasil, em 1950, ela foi vista em 200 receptores espalhados pela cidade de São Paulo. Em 1960 o Brasil tinha apenas 200 mil aparelhos de televisão e eles custavam o mesmo que um automóvel. Em 1970 esse número já era de quatro milhões, pois os preços eram mais acessíveis. Hoje é rara uma casa onde não haja um televisor, mesmo nas regiões mais pobres do país.
Neste contexto, onde entram os grandes grupos midiáticos que dominam a TV analógica atualmente?
Eles possivelmente continuarão a dominar o mercado televisivo. Mas pode haver uma mudança significativa, caso os decodificadores possibilitem ao telespectador gravar a programação para assistir na hora que quiser. Tecnicamente isso seria perfeitamente possível. Resta saber se o lobby dos grandes grupos vai permitir que essa tecnologia seja utilizada. Há ainda que se considerar o comportamento do telespectador. Quando lançaram os videocassetes, com possibilidade de gravação, muita gente falou que ninguém mais seguiria as grades televisivas e que as pessoas assistiriam os programas na hora que quisessem. Sabemos que não foi isso que aconteceu. É preciso lembrar ainda que a TV digital vai permitir que o governo, se quiser, dê mais concessões de canais, inclusive de canais regionais. Se isso vai ocorrer é uma questão política.
E como fica o jornalismo nesse novo mundo? Haverá possibilidade de colaboracionismo ou participação cidadã, como já existe na internet com os textos, áudios e vídeos enviados por leitores?
Isso remete à sociedade em rede, definida pelo sociólogo espanhol Manuel Castells. Ou seja, se as pessoas estiverem interligadas por meio das suas TVs, será possível haver esse colaboracionismo. Há tecnologias que fazem já esse casamento. Em Portugal, por exemplo, a Universidade de Aveiro desenvolveu um programa que alia a Web à televisão por meio de uma set top box. Uma das funcionalidades desenvolvidas é uma espécie de MSN televisivo, onde o telespectador consegue saber qual dos amigos dele está assistindo determinado canal e pode se comunicar. Mas essa funcionalidade não é resultado da TV digital, pois ela pode ser usada até mesmo na TV analógica. O que faz a comunicação é justamente a tecnologia da Web. Funciona de forma muito semelhante a um computador que tem uma placa de TV, o que é comum hoje em dia.
Lembro-me certa vez, isso já faz alguns anos, de tecnólogos dizendo que, com a TV Digital, poderíamos assistir a um comercial de calça jeans e no mesmo instante, com um botão de controle remoto, localizar os endereços das lojas, o preço delas e o melhor caminho para se chegar lá. O que há de realidade nisto?
Isso não é lenda, pois é perfeitamente possível. Na TV digital a cabo e por satélite já se pode acessar a programação na tela da TV, utilizar os serviços pay-per-view, etc. Isso só acontece porque o telespectador consegue se comunicar com o emissor do sinal, ou seja, porque ele tem um canal de retorno. Já na TV digital terrestre, a interatividade é muito difícil, porque o canal de retorno não existe. O que pode ocorrer é o governo dar concessões a uma mesma emissora para que ela possa ter mais canais. Dessa forma, ao acionar o controle remoto, o telespectador poderia ver em um outro canal da mesma empresa, informações sobre os produtos mostrados em uma novela, por exemplo. Mas a compra teria que ser pelo bom e velho telefone. Nos países da Europa as TVs analógicas têm, há muitos anos, um canal suplementar de teletexto, onde as pessoas podem ver informações escritas. Esses canais são permitidos porque ocupam pouco espaço no espectro, já que não possuem muita definição. É uma forma de interatividade que, na TV digital, pode ser um pouco mais elaborada, já que poderemos ter mais definição, ou seja, poderemos ter canais secundários com imagens e sons, sem deixar o espectro sobrecarregado.
O que pode mudar em relação às leis de telecomunicações?
Isso no Brasil é complicadíssimo. Vou contar uma história que vai ilustrar melhor o que quero dizer. O Código Brasileiro de Comunicações (CTB) surgiu em 1962, ou seja, 12 anos após o aparecimento da televisão. Na época em que ele foi aprovado, o país atravessava o governo de João Goulart. O CTB previa o controle estatal das radiodifusões, mas privilegiava a atuação da iniciativa privada, impedindo o desenvolvimento de emissoras públicas comerciais. O presidente da República chegou a tentar mudar o Código, para torná-lo mais democrático. Ele vetou 52 itens da Lei, que seria votada no Congresso. Na época, tinha sido recém criada a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), ou seja, os empresários do setor estavam unidos e fizeram pressão sobre os parlamentares. Resultado: os 52 vetos de João Goulart foram derrubados. Recentemente, a Rede Globo enfrentou sérios problemas financeiros, devido a investimentos equivocados no setor de TV paga e a empréstimos tomados no exterior, que se tornaram astronômicos com a desvalorização da moeda brasileira, na década de 90. O que se comenta, nos bastidores do poder, é que houve um certo lobby da emissora e o Congresso modificou a Lei, em 2002, passando a permitir a participação de grupos estrangeiros em empresas de mídia do Brasil, o que até então era proibido. Portanto, as legislações brasileiras na área das telecomunicações sempre sofreram fortes influências dos grandes grupos midiáticos. O que pode mudar nas leis, na minha opinião, vai depender da vontade desses grupos, que não querem perder o poder que têm hoje.
Você é um estudioso deste assunto também na Europa, basicamente em Portugal. Como está este processo de transição em Portugal?
Em Portugal a situação não é das melhores. A Comissão Européia prevê o fim das transmissões analógicas para 2012, mas o país ainda não iniciou a TV digital terrestre. É o mais atrasado dos países da União Européia nessa questão. O mercado aguarda uma posição do governo para saber como deve agir e o governo aguarda o período eleitoral, que será no ano que vem, para tomar qualquer tipo de decisão mais polêmica.
Paulo Rodrigo Ranieri é jornalista e especialista em comunicação digital.
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