Manu Chao esteve aqui
TORCEDOR DO FLAMENGO, FÃ DE BEZERRA DA SILVA, ANDARILHO DE TERRAS DISTANTES, O CANTOR E COMPOSITOR FRANCO-ESPANHOL CONVERSOU COM A CAROS AMIGOS NO VELHO ARMAZÉM DO BAIRRO ITAIM BIBI, EM SÃO PAULO. O PRETEXTO? DIFUNDIR O NOVO DISCO: RADIOLINDA. COM UMA CARREIRA DE MAIS DE 20 ANOS E O COMPROMISSO COM AQUELES QUE LUTAM E SOFREM, ELE FALA AQUI DA REALIDADE DOS JOVENS FRANCESES DA PERIFERIA DE PARIS. UM LUGAR ONDE NASCEU E PASSOU SUA ADOLESCÊNCIA. |
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rodrigo aranha foto amancio chiodi
Recentemente houve lá outro confronto com a polícia, como
você vê essa situação?
A única evidência que isso traz é que todo mundo está muito tenso,
na primeira coisa que acontece explode. Desde que eu era adolescente,
nesse tipo de lugares existiam poucas maneiras de se salvar. A partir
das oito e meia, nove da noite, nas ruas dos bairros fi cam a polícia e os
moleques, mais ninguém. Lugares ou espaços de encontro não tem, o único que existe são os postos de gasolina, você compra as cervejas ali
e vai beber e fumar baseado lá atrás. Mas, expectativa, nenhuma. Os jovens
não sabem o que fazer, onde desabafar. Não existe esse fenômeno,
por exemplo, na Espanha, onde, apesar de nos bairros a situação ser
igualmente fudida, tem mais bares, mais desabafo, não digo que seja a
solução, mas tem a discoteca, à noite tem festas, outras formas de pôr
pra fora a raiva de maneira mais lúdica. Em Paris o único jogo da noite
para sentir-se vivo é provocar a polícia. E esse jogo tem mais de 20,
30 anos, desde que eu vivia lá. Agora está algo pior, na minha época de
juventude ainda tínhamos esperança de futuro, esperança de sair dali.
Hoje o no future, dos punks, é mais atual que nunca. Não tem trabalho
nem pra Deus. Antes tinha pouco; agora, nada.
Esses jovens têm uma grande capacidade
de confrontação com a polícia, apesar de
terem 13, 14 anos?
Chegaram a um ponto em que não têm
medo, porque não têm nada a perder. Há dois
anos, quando confrontaram a polícia se deram
conta de que meteram medo em todo
mundo, até no governo, eles sabem que são
fortes. No meu tempo trabalhamos com circo
durante 10 anos, em todos esses bairros.
E, quando você cresce em um deles, o sentimento
e a tua situação dão uma raiva gigante.
Então a proposta desse circo era tentar
canalizar a raiva em algo positivo, mas não
é fácil, você precisa encontrar o canal, o jeito.
As gerações que agora estão queimando
carros estavam com a gente quando tinham
5 ou 6 anos. Gremlins, como se chamam entre
eles, são mutantes, são pequenos mutantes.
Estão em outra coisa. Você pode ter uma
relação muito boa com eles, passar uma tarde
inteira fazendo coisas positivas com eles, chega
a noite a raiva volta a explodir. (Aqui a noite
chega com uma chuva refrescante enquanto
Manu Chao dá o último gole de seu copo de
cachaça. As vozes dos outros clientes do bar
enchem o ambiente de certa alegria depois de
um dia de trabalho).
Rodrigo Aranha é jornalista
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