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AOS 80 ANOS, DE BERMUDA E CAMISETA, HARRY SHIBATA NÃO PARECE O MÉDICO LEGISTA ACUSADO DE ASSINAR FALSOS ATESTADOS DE ÓBITO DE VÍTIMAS DA POLÍCIA POLÍTICA DO REGIME MILITAR. AQUI ELE DEFENDE SUAS IDÉIAS, E PESSOAS COMO O DELEGADO SÉRGIO FLEURY E OS GENERAIS EDNARDO D'ÁVILA E SYLVIO FROTA, TODOS DE LINHA DURA.

por João de Barros

A casa no Alto de Pinheiros parece uma fortaleza. Dela não se vê nem a fachada. Encimado por uma laje com platibanda, há um grande portão de madeira – de uns 10 metros de comprimento por 2 de altura. Do lado direito, cercada por um muro, uma porta de madeira é protegida por uma grade que se eleva até o teto.

Como hoje é sábado, quase não há movimento nessa tranqüila rua de classe média alta paulistana, que conserva até um exemplar de pau-brasil tombado pelo Patrimônio Histórico da cidade. Toco a campainha, temendo o insucesso. Um longo minuto depois, uma moça me atende.

Identifico-me e digo que gostaria de falar com o doutor Harry Shibata. Outro minuto que parece uma eternidade. De repente, surge o médico legista mais odiado dos tempos da ditadura militar.

Óculos escuros, camiseta branca com a inscrição “Canada” no peito, bermuda azul, meias brancas, tênis; aparentando aspecto saudável, ele me conduz pela lateral da garagem e me introduz na varanda da casa, convidando-me a sentar num banco de vime enquanto se acomoda no sofá em frente.

Digo-lhe que estou fazendo uma reportagem sobre os imigrantes japoneses que se destacaram de alguma forma na política, razão pela qual gostaria de entrevistá-lo.

     
 

trecho 1

Como foi seu início na carreira?
Depois do curso médico na USP, fiquei um ano no Hospital das Clinicas como interno. Fui trabalhar num consultório particular, quando um dia o Estado abriu concurso para médico legista.
Fui fazer o concurso, o diretor perguntou que especialidade era a minha. Falei que era cirurgião. Perguntou se eu tinha prática, falei que sim, porque fazia verificação de óbitos no Hospital das Clínicas. Ele me designou para a parte de necropsia no antigo necrotério de São Paulo, que ficava onde é hoje o velório do cemitério do Araçá. A sede do Instituto Médico Legal era no Pátio do Colégio, onde ficava a Central de Polícia.
O plantão policial ficava embaixo e no segundo andar ficava o IML. A gente de vez em quando ia pra lá assinar os laudos que fazia no necrotério do Araçá.
Voucontar uma particularidade muito interessante: o necrotério foi fundado em 1927, isso aqui estamos falando em 1955, 56, por aí, o necrotério estava velho, tinha uma geladeira com quatro gavetas, duas mesas de necropsia de granito em péssimas condições.

Estava tudo num estado muito precário e a policia não tomava providências, até que um dia morreu assassinado o pai do Jânio Quadros, que era governador de São Paulo.


trecho 2

E o Golbery?
O Golbery é outro esquema, é o maior geopolítico que nós tivemos. Aí eu chamo uma coisa interessante: acho que o Golbery era comandado ou dirigido pela CIA americana, tanto que,depois que saiu do governo, o que ele foi ser? Presidente da Dow Chemical.

Onde Geisel também...
O Geisel também teve uma relação, é aquela coisa americana. Aí você vai entendendo muitos pontos da tendência que havia daquela montagem. Você pergunta: como? De que maneira? Dinheiro. Um presidente da Dow Chemical ganha em dólar. E o dinheiro, infelizmente, corrompe mesmo.

João de Barros é jornalista

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