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Silvio Tendler, carioca da Tijuca, é famoso documentarista. Dirigiu filmes como Glauber, Os Anos JK – Uma Trajetória Política, Mariguella, Jango, além de ser o detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro com “O mundo mágico dos Trapalhões” com um milhão e 800 mil espectadores, “Jango” com um milhão e "Anos JK" com 800 mil. Seu filme mais recente, Encontro com Milton Santos ou: O mundo Global Visto do Lado de Cá é uma aula sobre as perversidades da globalização, clarificada magistralmente pelo falecido professor Milton Santos, personagem central do filme, que já desfilou nas páginas de Caros Amigos (Edição 17, agosto de 1998). O recente filme ganhou os prêmios de "Melhor Filme do Júri Popular" na última edição do Festival de Brasília e melhor filme do Eco-Cine em Portugal. Nessa entrevista Silvio fala da infância, do que viveu na ditadura militar, da “guerrilha cultural” do cinema brasileiro, da imprensa e, claro, de Milton Santos. “É isso, lutemos juntos contra as perversidades que estão aí, contra o globalitarismo. A globalização com autoritarismo.” Imperdível.
entrevistadores:Michaella Pivetti, Marcos Zibordi, Vinícius Souto,
Thiago Domenici fotos: Amancio Chiodi
arte:Mariana Nóbrega
Thiago Domenici – Vamos começar pela sua infância, para o nosso leitor saber da sua origem?
Meu pai chegou no Brasil em 1928, com 8 anos. É de uma família de judeus ucranianos pelos dois lados. Deram uma certidão de nascimento e disseram: “Você agora é brasileiro nato”. O colocaram numa sala de crianças já alfabetizadas e disseram: “Se vira!” Ele se tornou advogado e minha mãe médica, são falecidos. Eram liberais, não diria de esquerda. Fui criado nesse caldo de cultura judaico-liberal do Rio de Janeiro dos anos 1950. O golpe de Estado em 1964 surgiu na minha vida como um divisor de águas. Percebi o golpe nas ruas, saindo do cinema. Estávamos vivendo o 1º de abril, aquela tensão, quem tinha ou não razão, o governador do Rio de Janeiro era o Carlos Lacerda, oposição ao João Goulart. O Jango estava no Rio e de lá foi para Porto Alegre. Era feriado, eu estava no cinema quando ouvi uma gritaria na rua e saí para ver o que era e toda a classe média de Copacabana estava comemorando a queda do Jango. Meus pais sempre apoiaram o Jango, JK e voltei triste para casa. Enquanto caminhava percebi o que representava aquele Brasil da época, a classe média com os lençóis na janela, aos berros, comemorando e, por outro lado, os porteiros dos edifícios todos de cabeça baixa, ouvindo o radinho de pilha com tristeza.
Michaella Pivetti – Quantos anos você tinha?
Catorze. Aquilo foi um choque, uma ruptura brutal, e me criei nisso. Meus pais compravam muitos livros, muitas revistas da Civilização Brasileira, do Enio Silveira. A maior parte dos intelectuais brasileiros foi contrária à ditadura. Eu morava em Copacabana, perto de casa tinha o teatro Opinião, então tive acesso com 15, 16 anos às peças do Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar, Millôr, então pude acompanhar essa oposição cultural à ditadura militar, lia Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, o primeiro cara a dar porrada pela imprensa, tinha o Febeapá – o Festival de Besteiras que Assola o País e que gozava de tudo o que a ditadura fazia, lia o Carlos Heitor Cony, o Ato e o Fato... Nesse momento surge também, impulsionado já durante o governo do João Goulart, um movimento cinematográfico progressista, o Cinema Novo, que tenta de alguma maneira reagir ao golpe. O primeiro filme foi O Desafio, do Paulo César Saraceni. Em 1966, um grupo de artistas foi preso no Hotel Glória, vaiando o marechal Castelo Branco, e isso fez minha cabeça e me conduziu no sentido de que o cinema é mais legal. Começo a freqüentar cineclubes, ver os filmes, entro para a Federação de Cineclubes e em 1968 me torno presidente da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro. Com 18 anos nessa época, comecei a militar no movimento estudantil. 1968 foi o cataclisma que todos vocês conhecem, é nesse momento que dei a grande guinada na minha vida...
Thiago Domenici – A maioria aqui não vivenciou esse período. Poderia contar como foi?
Estou fazendo um filme sobre isso, se chama Utopia e Barbárie, é o mundo pós-Segunda Guerra Mundial visto por alguém que tinha 18 anos em 1968. A história que vou contar é diferente, porque todo mundo coloca o ano de 1968 como um momento mágico da história, vários países do mundo vão se revoltar, tem maio de 1968 na França, tem 1968 nos Estados Unidos, nesse ano assassinam o Bob Kennedy e o Martin Luther King, é o ano em que a União Soviética invade a Tchecoslováquia, outro divisor de águas no campo da esquerda, ou seja, uma série de acontecimentos que se torna um mito para a história contemporânea onde todo mundo fala de 1968 como o momento em que tudo aconteceu. E na verdade acredito que 1968 é um momento que foi construído, é o clímax de um momento histórico iniciado no final da Segunda Guerra Mundial com os movimentos de independência nacional de vários países. Tem a Guerra dos Americanos, que a gente conhece aqui como Guerra do Vietnã, os vietnamitas chamam assim porque eles estavam na terra deles e foram bombardeados, já que os americanos que invadiram, e eles também ganham militar e politicamente nos anos 1970.
Marcos Zibordi – Teve Cuba também no meio disso...
Não teve só Cuba, por isso estou dizendo que foi uma construção, além de Cuba, África, a luta do Congo, com o assassinato do Patrick Lumumba, um independentista democrata que os americanos entregaram a cabeça e que foi selvagemente torturado e assassinado. Tem a independência da Argélia, o Sukarno na Indonésia e, em 1959, a Revolução Cubana e aqui no Brasil João Goulart, quer dizer, são construções que vão influenciar e gerar o movimento de 1968, que na minha cabeça não explodiu no mundo, mas é o clímax de revoltas ao longo do planeta que culminaram em 68 tanto no Ocidente quanto no bloco socialista. Cuba mexeu muito com o próprio bloco socialista, a gente hoje não fala mais disso, mas na verdade Cuba foi uma alternativa à esquerda para os que queriam fazer a revolução e não necessariamente queriam se engajar no comunismo tal como ele era praticado na União Soviética, então o Fidel era um pouco enfant terrible, o cara que os soviéticos perceberam que tinham que apoiar, apesar das divergências com Moscou. Aqui mesmo no Brasil, por exemplo, a divisão de águas entre o Partidão que era contra a luta armada e todas as cisões que saem do Partidão e vão se posicionar à esquerda montando partidos, movimentos revolucionários que divergem da posição soviética que assumiu a via pacífica do socialismo, aí parte do pessoal não concorda e vai pra luta armada. Você tem o Marighella, que é o líder da ALN, tem o Apolônio de Carvalho, você tem o Jacob Gorender, o Mário Alves, quer dizer, você tem várias frações e rachas do Partido Comunista que geram lideranças à esquerda. Um lado dessa história que a gente não está abordando, que é fundamental, é a construção do guerrilheiro heróico Che Guevara, que morreu em outubro de 1967, que é justamente a construção da revolução permanente. O Che Guevara se engaja na Revolução Cubana, luta ao lado do Fidel, vira ministro da Revolução, só que percebe que a cena é outra, que o caminhar dele é outro, ele não queria administrar o socialismo, queria fazer o socialismo no mundo. Aí vai para a África e tenta implantar guerrilha lá, percebe que é possível, dizem, aí tem várias fontes, não conheço essa história profundamente, mas os próprios soviéticos ameaçaram denunciar sua presença na África caso ele continuasse. Ele sai e vai montar a guerrilha na Bolívia, era a maneira de ele incendiar a América Latina, que naquele momento era um barril de pólvora. O Che acreditou que, deflagrando o foco guerrilheiro na Bolívia, a Argentina iria acompanhar, o Brasil iria acompanhar e se deflagrariam um, dois, três Vietnãs, que era o que ele propunha. Então esse momento de 68 na minha cabeça é isso, tem a revolução política, essa que narrei, a revolução dos costumes, quer dizer, nada muito diferente do que aconteceu nas gerações anteriores, que era uma mentira dizer que não se trepava nas gerações anteriores, na belle époque se trepava e muito bem... os relatos que a gente tem, a literatura que a gente tem... é rica em sexo, né? O sexo não é invenção da minha geração.
| Marcos Zibordi – Na verdade, não entendi uma coisa, você falou que 1968 foi um divisor de águas na sua vida, então qual é o novo Sílvio depois de 68? O novo no Sílvio é o Sílvio que era filho de um advogado com uma médica, o Sílvio é um jovem judeu, escalado para casar com uma jovem judia, escalado para ser advogado, médico ou engenheiro, que eram as profissões nobres da época, todo mundo da minha geração ia fazer direito, medicina ou engenharia, e o Sílvio pira e resolve fazer cinema. |
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"Minha turma foi jogar pedra no O Globo e eu fui junto." |
Cheguei a fazer direito na PUC, mas já estava dividido, entre direito e sociologia. Naquele momento, em 68, 69, descobri que não queria ser advogado, até porque achava que no Brasil não tinha justiça, então não adiantava você ser advogado para nada, e se eu fosse advogado naquelas circunstâncias que eu vivia seria advogado burguês; ia ser advogado cível, comercial, quer dizer, naquela época, pra mim era impensável ser, mais a longo prazo, advogado de movimentos sociais, que eu poderia ser, advogado de presos políticos... a minha escala era ser um jovem judeu liberal, quer dizer, votar à esquerda, votar progressista, pensar à esquerda, mas ter aquela vida modorrenta da classe média.
Thiago Domenici – E você teve que fugir da repressão?
Fugi por amizade. Nesse negócio do movimento cineclubista a gente se engajou, sempre tive um engajamento muito limitado, participei de manifestações políticas na rua, estou no enterro do Edson Luís, estou na missa de sétimo dia dele, tomei porrada da polícia, marcha de 100.000... sempre participei dos atos políticos, agora
eu, como a maior parte da minha geração, não acreditava numa militância política tradicional; quando você pergunta "o que que mudou na sua vida?", eu tive que fazer viradas radicais.
Vinícius Souto – Como foi a ida ao Chile?
Na época eu militava, e nessa segunda ruptura achava que a via pacífica ao poder não levaria a nada, então eu apoiava as organizações revolucionárias, era o que se chamava de apoio, de aliado...
Marcos Zibordi – Mas qual você apoiou exatamente? A ALN você apoiou?
Não. Minha militância era militância estudantil, então eu era meio que massa de manobra. No Rio de Janeiro era muito forte a DI, que era a dissidência do Partido Comunista, a organização do Vladimir Palmeira, do Franklin Martins, tal, sou um pouco mais novo que eles, então o que eu fazia? Eu rodava panfleto, colava “mosquitinho’’ nas paredes; por essa coisa de eu ter 18 anos em 68, os outros tinham 20, 21, eles são confrontados com a realidade, são levados à clandestinidade, e eu, como tenho 18 anos, não sou liderança, sou massa; então fiquei no papel de retaguarda, apoio, eu era frente política, não fui jogado na frente de combate, era apoio, era estudante. Eu pregava "abaixo a ditadura", "fora Rockefeller", essas coisas todas. Eu me lembro, morava na Raimundo Correa, uma rua em Copacabana, paralela à minha era a Dias da Rocha, minha turma foi jogar pedra no O Globo e eu fui junto. E aí tem um grande amigo meu, que resolve, para o bem geral do país, seqüestrar o primeiro avião no Brasil e, como o Brasil é um país sentimental, ele resolve se despedir dos amigos, e me convida para ir na despedida. Eu fui na reunião e, por sorte, tinha uma pessoa lá que ninguém conhecia, o meu amigo ficou com medo e não falou nada... No dia seguinte, quando a gente abriu o jornal que deu o primeiro seqüestro, a gente falou: “Omar está nessa” E a gente começou a perceber que ia sobrar pra gente, comecei a me preocupar, eu estava numa reunião com esse cara no dia que ele seqüestrou o avião. Aí comecei a falar para os meus pais, meu pai dizia: “Ah, isso é mentira tua, você não quer estudar e tal”. Aí, um dia cheguei em casa, está a polícia lá dentro, com a Aeronáutica. Tinha um telefone em casa que a polícia não sabia, fui para o quarto e liguei pro meu pai: ‘’Eles estão aqui...’’. Meu pai falou: “Então estou indo pra aí”. E, nessas coisas malucas que é o Brasil, minha mãe tinha tratado os caras muito bem, ficou conversando, deu uísque... e aí, quando cheguei em casa, ela me beijou e os caras perguntaram: ‘’Esse aí é o Sílvio?’’ E ela, com aquela reação de mãe, falou: ‘’Não, esse aí é o Sérgio”. Os caras podiam me pegar ali, era só pedir minha carteira de identidade, mas ela foi tão hábil que desconcertou os caras. Fui para o banheiro, queimei minha caderneta de telefones, fiz as necessidades, que nessa hora dá vontade mesmo, ninguém escapa, e aí, em um lance muito maluco, fui pra sala conversar com eles e eles falaram que o Sílvio tinha feito uma besteira e ia ter que ser levado. Falei: “É, o Sílvio é um babaca, tal”. E fiquei com medo do meu irmão chegar. Mas teve um lance genial. A empregada que trabalhava lá em casa era uma pessoa, que a gente não sabia, relativamente politizada. Ela pediu para ir comprar pão, saiu e ficou na esquina, quando meu irmão chegou, ela disse que a polícia está lá. Foi uma sorte louca. Falei para os caras que eu estava passando mal, se podia ir comprar remédio, e fui embora de casa. Saí correndo, meu irmão não chegou, meu pai chegou, os caras ficaram até uma certa hora, e antes de ir embora falaram: ‘’O Sílvio tem que se apresentar’’. E aí meu pai me trouxe pra São Paulo. Fiquei na casa de um tio meu, na mesma noite, e foi quando vi que não queria ir para a luta armada. Fui encontrar uns colegas de faculdade e me perguntaram: “Você quer ir pra clandestinidade ou pra fora?” Eu disse: “Pra fora, não tenho força e nem coragem pra encarar uma clandestinidade”.
Michaella Pivetti – Nisso você tinha que idade?
Dezenove anos.
Michaella Pivetti – Sua mãe apoiou sua escolha radical de política, apoiou também a escolha do cinema?
Eles eram muito confusos. Minha mãe achava que a gente era responsável pela própria educação, mas tinha aqueles temores de mãe: ‘’E se esse cara se ferrar na vida, se ele não for advogado, o que ele vai ser?’’ Por outro lado, não tinha coragem de dizer: “Ah, você tem que ser advogado, você vai fazer o que a gente quer”. Então eu ficava embaralhado dentro da minha própria confusão familiar. Se vocês conhecessem minha família, iam entender que Woody Allen é um grande documentarista. Ele não faz ficção, faz documentário, minha família é uma família woodyalliana. No domingo, todo mundo brigava, depois todo mundo fazia as pazes, aquela coisa muito sentimental. E fui vivendo e construindo minha própria história. Quando vim para São Paulo entra o lado dramático. Eu estava na casa de uns tios, na rua Peixoto Gomide, dia 4 de novembro de 1969, era dia de Corinthians e Santos, e aí começou um tiroteio, eu disse: “Paulista torce legal!” De repente alguém liga e diz: ‘’Não sai de casa, mataram o Marighella a uma quadra daí”. O prédio em que eu estava era o único na rua e a gente via toda a movimentação da polícia lá embaixo, na televisão os caras comemoravam, e eu chorava que nem louco. Fiquei no Brasil ainda um ano, fui seguido muito tempo e tal, vendo meus amigos ou desbundando, indo pras drogas, ou morrendo na luta armada, falei, meu caminho não é nem um nem outro. Não curto drogas e não quero morrer. Aí, dia 4 de setembro de 1970, Allende ganha as eleições no Chile e eu digo: é pra lá que eu vou. Quando fui tirar o passaporte, claro que o DOPS não deu, que meu pai teve que ir lá comigo, aí tirei o passaporte e fui morar no Chile, ver o socialismo de liberdade do Allende, experiência que me impressionou muito. Morei no Chile até 1972, dai fui morar na França, porque queria estudar cinema, já tinha certeza de que minha vocação era cinema, queria fazer cinema histórico, cinema político. Nessa caminhada fui muito influenciado pelos livros do Nelson Werneck Sodré, ele contava histórias nos livros e a gente falava, mas a gente não sabe nada disso no Brasil, a gente tem que contar essas histórias. E fui moldando e depois dessa caminhada descobri que queria mais que fazer cinema histórico, queria fazer um documentário sobre a realidade. Morei e estudei na França até 1976.
Marcos Zibordi – E o que você fez na França?
Entrei num coletivo de realização cinematográfica, para fazer cinema político, um coletivo que se chamava na época Slon, hoje se chama Iskra, fundado por um cara chamado Chris Marker, que fazia cinema político, fez filme sobre Marighella, fez filme sobre tortura no Brasil, sobre a marcha contra o Pentágono, esse filme fez a minha cabeça. E foi nesse grupo que tive a minha primeira experiência profissional grande, que foi trabalhar num documentário sobre o Chile chamado Espiral. Comecei a aprender a fazer cinema. Em 1976 volto pro Brasil já formado em história, porque paralelamente a esse filme fiz uma licença de história, e o diploma da Escola de Estudos e Ciências Sociais, habilitação cinema e história. A minha tese foi sobre Joris Iens, um cineasta que filmou a Revolução Espanhola, a Revolução Chinesa, Indonésia, Vietnã, Cuba, era um cara com uma cabeça fantástica. É o meu guru internacional.
Marcos Zibordi – Quem seriam os brasileiros?
Vladimir Carvalho é um cara com quem tive muita proximidade, Geraldo Sarno, Sérgio Muniz, a caravana do Thomaz Farkas, Paulo Rufino tem um filme muito bonito chamado Lavrador, Lavra-dor, dos anos 60, que fala da reforma agrária. Com a cabeça feita pelo documentário em 1976 volto para o Brasil disposto a ajudar na redemocratização através do cinema. E aí as pessoas me contam que o fato político mais importante que aconteceu aqui naqueles últimos anos foi o enterro do JK, que todo mundo foi pra rua sem perguntar se teria repressão ou não, se seria permitido ou não. E aí procurei um amigo que tem uma produtora de cinema, um cara a quem sou historicamente ligado, era um cara muito rico, falei: "Eu topo fazer documentário". E ele: "Quero fazer filme pra público, não quero fazer filme pra intelectual". Eu falei: "Vamos nessa". E é o que faço até hoje, até hoje sou acusado de ser didático.
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| “Intimidar-se frente à propaganda é como intimidar-se frente aos fuzis inimigos” |
Michaella Pivetti – Como é fazer, com a sua politização?
Eu, com a minha politização, acho que quero me comunicar. Na verdade, não faço cinema para mim mesmo, eu faço para me comunicar com o outro. Senão, sento contigo na mesa de bar e converso. Aqui a gente está conversando, não preciso fazer um filme pra contar isso. Agora, se eu quero falar de globalização, vou fazer um filme. Não para falar do meu umbigo, vou fazer um filme para falar da história, da política. A minha visão histórica nunca é uma visão nostálgica, ela é voltada pro futuro. Então, essa coisa do JK, por exemplo, na verdade o que a gente queria era a democracia no Brasil. A gente vivia em plena ditadura militar.E a tese que a gente defende no filme é que com JK teve democracia e desenvolvimento econômico. Então, o filme não era ancorado no passado, não era uma saudade do governo JK, era mostrar: “Olha, é possível no Brasil ter uma democracia formal sim e ter desenvolvimento”. E aí foi função boa, visto por 600.000 pessoas, quer dizer, atingiu o objetivo do produtor e atingiu o meu. Foi lançado em 80, puta sucesso de público e tal, coincide com o momento em que no Rio estouram as bombas que matam a secretária do presidente da OAB, dona Lida Monteiro da Silva, e mutilam o jornalista José Ribamar. Os jornais fazem chamada pro filme, o JB estampa na primeira página: “Veja os anos JK, lição de democracia”. Aí já houve o retorno dos exilados, anistia e tal, e a gente vai brigar pelas Diretas. Então faço o Jango de 81 a 84, saiu na campanha das Diretas, e virou o filme das Diretas. ‘’Vamos brigar, pelo direito de votar pra presidente, pela justiça social.’’ Um milhão de espectadores. Essa dobradinha funcionou.
Michaella Pivetti – E hoje?
Estou lançando um filme amanhã – vamos datar porque essa entrevista vai sair depois –, 17 de agosto de 2007, em seis salas: duas no Rio, duas em São Paulo, uma em Santos e uma em Campinas. No mesmo dia está sendo lançado Os Simpsons, em quinhentas salas. Guerrilha cultural. Estou muito feliz de poder contar a história do Milton Santos. Não sou uma pessoa nem resignada e nem me deixo abater pela adversidade. No começo da conversa falei que tenho muita admiração pelo Fidel, e que duas frases dele me fizeram a cabeça. Uma é a inscrição que o grande documentarista cubano Santiago Álvarez, outro grande guru meu, tinha na sala dele, “Intimidar-se frente à propaganda é como intimidar-se frente aos fuzis inimigos”, uma frase do Fidel que também tenho na minha sala. E a outra é uma história que o Fidel conta, que uma vez ele estava fazendo pesca submarina e aí veio um tubarão na direção dele. Ele foi saindo de fininho, mas o tubarão veio agressivo na direção dele, não teve outro jeito senão encarar o tubarão, e o tubarão fugiu. E ele concluiu: “Assim se faz com os imperialistas”. Então é isso, quer dizer, não tenho medo de estar disputando espaço com um filme que tem quinhentas cópias e toda a mídia.
Thiago Domenici – Teve uma coluna sua no Terra Magazine criticando o júri de Brasília, você escreve: “Primeiro preconceito: que documentário não é cinema”. Tem isso para complicar a situação?
Total. Mas, para sorte minha e para azar deles, nos três festivais em que entrei com três filmes e que tinham júri popular, eu ganhei. E os filmes que ganharam o júri oficial sumiram na poeira da história. Sei das limitações que a gente tem hoje, mas prefiro fazer a cabeça de cem pessoas que querem fazer a cabeça e seguramente serão cidadãos ativos pela transformação do mundo, que contar um conto de fadas pra 10 milhões.
Marcos Zibordi – Festivais de documentário, você entra?
Prefiro concorrer com ficção. Não quero ser o mico-leão-dourado. Tentei entrar no “É Tudo Verdade” esse ano porque tinha o maior prêmio de documentário brasileiro, eram 100 paus. Eu queria concorrer com o Milton Santos como plataforma de discussão do que é o documentário brasileiro. Queria acabar um pouco com essa senilidade precoce que está atingindo certos jovens, que acham que é legal falar do nada.
Marcos Zibordi – O que é senilidade precoce?
É falar de nada. Você tem o mundo pela frente para encarar, tem um processo perverso de modernização, tem um deslocamento da criação, da renovação para a periferia, e aí fica a classe média contando histórias da banda de rock do vizinho, do amigo, é isso.
Thiago Domenici – Você estava falando dos prêmios, qual a importância de ganhar um prêmio de cinema, e mesmo o Oscar, para a produção nacional?
Hoje, nenhuma, tudo virou mídia. Mas, nos anos 50, nos anos 60, grandes filmes receberam Oscars. Na verdade, o cinema deixou de ser o que era, hoje é uma grande operação de mídia, das grandes empresas de entretenimento, virou entretenimento. Quando falo que documentário não tem público, estou falando de escala. Você pega um documentário bem-sucedido no Brasil, hoje, ele tem 50.000 espectadores, e tem filme com 5 milhões.
Thiago Domenici – Queria entrar na idéia do filme, como foram os encontros com Milton Santos, se não me engano é a última entrevista dele.
Em 1995 pinta o convite para fazer Josué de Castro Cidadão do Mundo, Geografia da Fome, ligado ao movimento de luta contra a fome no Brasil, aí vou fazer o filme, converso com a filha do Josué, Ana Maria, que me diz: ‘’Olha, um cara que você tem que ouvir agora é o professor Milton Santos, acabou de ganhar o maior prêmio de geografia do mundo”. Então fomos a Paris ouvir o Milton Santos, ouvir Abbey Pierre, e aí a entrevista do Milton Santos para colocar no Josué e fico fascinado com ele. Foi a entrevista mais difícil de eu cortar, porque ele falava tudo com uma lucidez impressionante e estava aquela farra da globalização, a classe média toda indo pra Miami, comprando tudo que é objeto possível, e eu pergunto: ‘’Professor, você não acha que esse mundo é legal, vai dar certo?’’ E ele: “Não vai ter para todo mundo”. Em 95 ele já sabia disso, e fiquei com isso na cabeça. O filme fica pronto, mando pra ele, ele gosta muito, a gente se reencontra em 96, eu secretário da Cultura em Brasília, do Cristóvão, ele vem a Brasília dar uma conferência, a gente sai junto, conversa, ‘’temos que fazer alguma coisa juntos’’, fica mandando recado um para o outro. Em 2000, o auge da globalização, soube que ele ia dar uma conferência no plenário, a 200 metros da PUC do Rio de Janeiro, onde sou professor há trinta anos. Falei: vou me preparar para ouvi-lo, e combinei com os alunos, câmera, tripé, não sei o que e ele cancela a conferência por questão de saúde. Aí percebi que era ali ou nunca. Liguei pra ele e ele topou dar a entrevista, já estava superdoente, e marca comigo em São Paulo, na USP, 4 de janeiro. Eu estava superduro naquele momento, peguei um ônibus com o assistente, vim com uma câmera supervagabunda, uma VX1000, para quem conhece cinema é a precursora disso tudo que está aí. Aqui pegamos o Chevette de um amigo e fomos pra USP. Eu já tinha visto ele dando entrevista, e para quem o conhecia era uma pessoa extremamente formal, duvido que alguém tenha visto uma entrevista do Milton Santos sem terno e gravata.
Marcos Zibordi – Aquela camisa...
Ele que escolheu. E deu a sua última entrevista completamente diferente do que ele era.
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| Milton Santos na entrevista para o documentário de Silvio Tendler |
Marcos Zibordi – Ciente de que era a última?
Ach que sim, porque logo depois ele foi hospitalizado e não consegui fazer mais nada.
Michaella Pivetti – Isso foi em que ano?
Janeiro de 2001, inclusive cheguei a falar: “Vamos filmar na sua casa”. E ele deu um sorriso meio longe, e a outra filmagem que eu fiz já foi no cemitério. Aquela camisa, conversei recentemente com a viúva dele que me contou que aquela camisa ele trouxe da Índia para o filho dele, Rafael, que disse: ‘’Essa camisa não vou usar, não, pai”. E ele é que botou a camisa para dar a entrevista mais despojada da vida dele. Fez uma avaliação do mundo e sinalizou coisas que estamos vivendo hoje, também fala da indústria da comunicação de massas, fala do problema desse filme, que a indústria da comunicação de massas são quatro, cinco empresas mandando em 98 por cento do mercado mundial.
"Aprendi, até com o próprio Milton Santos, a ocupar os espaços da mídia com elegância. Não vou dar uma entrevista para a Caros Amigos, que é um órgão que respeito profundamente e tem um espaço fundamental, pra lavar roupa suja do cinema"
Marcos Zibordi – Mas ele fala também coisas que hoje a gente vê que são um pouco diferentes, como o elogio que ele faz à China, a toda a potência da economia chinesa, que hoje a gente olha com algumas críticas.
Não tenho mandato dele e nem posso falar em nome dele, mas acho que não refaria a opinião dele, não. O que ele diz na entrevista é que a China está usando, à maneira dela, os mecanismos que tem para se desenvolver. E desenvolver é isso que ele fala no filme, quer dizer, quando ele fala que são os de baixo que vão mudar o mundo, está falando dessa realidade, que quem tem que discutir o que é planeta somos nós, entendeu? Essa reeleição do Lula, quer queira, quer não, ele derrotou a grande mídia, foi candidato à presidência da República contra toda a grande mídia e ganhou a eleição, e o Milton Santos me fala na entrevista que o povo não acredita na grande mídia, falou em 2001 o que aconteceu agora. Então acho que ele é uma pessoa clarividente, definindo a clarividência com uma soma de intenção e conhecimentos, estudos. Acho que ele tinha toda a razão.
Thiago Domenici – Você faria um filme sobre o Lula?
Eu não estou opinando muito sobre política, não. Acho que as coisas estão tão partidarizadas que vou um pouco na linha do Milton Santos, quer dizer, hoje acredito muito mais na luta através de movimentos sociais. Tenho dito nas minhas entrevistas que os partidos políticos viram sopa de letrinhas, são legendas com nomes desprovidas de conteúdo. Aí não interessa militar num negócio que não tem uma base programática. Prefiro acreditar muito mais nos movimentos sociais. Ele fala isso no filme, quem vai mudar são os de baixo, os de baixo de cada país, dos países mais pobres do mundo, e acho que quem tem condição de se organizar para mudar o mundo são os movimentos sociais, o MST, o MTST – os sem-terra, os sem-teto, os sem-trabalho. Acho que o mundo vai mudar a partir de uma base social, a partir da base política.
Marcos Zibordi – Como driblar a grande imprensa, por exemplo?
Guerrilha cultural, na verdade é o que estou fazendo com o Milton Santos, vocês fazem com Caros Amigos, vocês não têm nem de longe a tiragem de uma grande revista brasileira, mas não vai deixar de escrever por causa disso. Não vão deixar de publicar o que pensam pra ter mais público, vão ter o seu tamanho e conseguir chegar às pessoas nas quais querem chegar, está chegando todo mês lá em casa. E não me interessa se meu filme vai fazer 2.000, 5.000 ou 200.000 espectadores, eu quero despertar as pessoas que o assistam, não quero adormecer, não quero anestesiar as pessoas. Agora, você tem formas para chegar no grande público, eu sei fazer, já fiz. Já trabalhei em televisão, já fiz novela, já fiz institucionais, não trilho o caminho que trilho por incompetência, mas por convicção. Estou muito mais feliz com as coisas que faço do que estaria se estivesse com o bolso cheio de dinheiro e infeliz porque estou mentindo. Na verdade, a gente tem que aprender também a negociar com a grande imprensa, tem que saber o tamanho da gente e lutar para ocupar os espaços. O grande problema é que está tudo sitiado e também, como o próprio Milton Santos diz no filme, a gente tem muito mais ruído do que informação. E ruído é essa coisa desconexa, na verdade você não tem uma opinião pública contra o MST, você tem pequenas informações e essas pequenas informações confundem, não permitem juntar lé com cré. A gente fica falando, por exemplo, de democracia, quebra de barreiras, mostra no filme qual é a democracia que os Estados Unidos querem, fechando as fronteiras para os mexicanos e para os latinos, é isso que é globalização? As mercadorias e os capitais podem circular e as pessoas não? A Europa fazendo muros para impedir a entrada de africanos? Isso que é livre circulação? Os africanos que eles precisam para limpar as latrinas européias estão lá dentro. Os outros que estão com fome morrem. Isso é que liberdade? Então vamos discutir isso, e um filme como esse é fundamental para dar nexo à história.
Marcos Zibordi – Você viveu renascimentos e mortes do cinema brasileiro. Começa no Cinema Novo e chega neste momento que às vezes chamam até de renascimento. Qual a tua avaliação, está achando, tem que ter mesmo os insumos governamentais?
Tiro o chapéu para meu amigo Orlando Senna, que é o homem do audiovisual do governo, não sei nem se é bom elogiá-lo, não sei se gera ciumeira. Mas acho legal a política de cinema que está sendo desenvolvida. Lastimo profundamente a privatização da Vale do Rio Doce, se fosse do Estado hoje ela estaria colaborando nessa política, assim como a Petrobras. Acho que é fundamental preservar e defender um Estado brasileiro que organize a sociedade. Não sou a favor dessa farra das privatizações. A sociedade tem que discutir tudo que ela quer, e tudo em proveito e benefício do povo.
Marcos Zibordi – E, esteticamente falando, o cinema que estamos fazendo nos últimos dez anos você gosta?
A gente não conhece 2 por cento do cinema que a gente está fazendo no Brasil. Se eu falar trezentos filmes, você nunca vai ter ouvido falar. Você tem hoje cineastas. Paradoxalmente, há uma legislação que facilita a produção cinematográfica. Não sei se é bom ou se é ruim, você negocia direto com o patrocinador, não tem ninguém que me proíba de produzir filmes, me viro e consigo fazer filmes independentes como esses que estou fazendo. E consigo circular. Tem gente que reclama disso e queria um fundo único de governo para tudo do cinema, sou contra. Cinco, seis pessoas vão resolver o que se pode fazer no cinema brasileiro. Se essas cinco, seis pessoas forem minhas amigas, estou feito. Se forem minhas inimigas, não filmo mais. Não quero jogar no tudo ou nada. Quero acreditar na possibilidade de pluralidade da sociedade. Acho que a legislação brasileira, com todos os problemas que tem, permite uma busca, uma negociação.
Marcos Zibordi – Qual sua opinião sobre a obra do Eduardo Coutinho, Walter Salles?
Aprendi, até com o próprio Milton Santos, a ocupar os espaços da mídia com elegância. Não vou dar uma entrevista para a Caros Amigos, que é um órgão que respeito profundamente e tem um espaço fundamental, pra lavar roupa suja do cinema. ‘’Fulano tem mais grana que eu, não sei quem ganhou não sei o quê.’’, não me interessa.
Thiago Domenici – Como você fala bastante sobre o Oriente Médio, queria saber sua opinião sobre os conflitos.
Eu quero a paz no Oriente Médio. Você vê que existe um certo preconceito da colônia judaica contra a Caros Amigos. Eu não tenho, acho a Caros Amigos uma revista fantástica. Entendo as pessoas que escrevem lá. Acho que as grandes potências, o imperialismo, fazem no Oriente Médio a mesma coisa que fazem na África. Dividem os povos para reinar. Quem ganha com a guerra do Oriente Médio? O petróleo e a indústria de armamentos. Tem dois povos se matando e podendo viver em paz. Jerusalém é capital e berço de três religiões do mundo, aquilo ali seria um espaço fantástico para turismo, para convivência, para fraternidade. Aí ficam dois povos se matando e fundamentalistas de um lado, fundamentalistas de outro se locupletando com uma guerra. Fui filmar lá agora, em janeiro, fevereiro. Filmei em Israel e na Palestina. Ouvi um cara que foi condenado a 27 anos de prisão e ficou dezoito anos na cadeia. Fui na casa dele em Ramalah, levado por uma jornalista israelense. Filmei uma editora israelense que só publica livros de autores árabes, publica em hebraico, autorizadas. Filmei em uma escola que tem crianças metade árabes, metade judias, na mesma sala. Não avisei que ia lá, apareci lá com minha câmera e eles estavam discutindo o direito dos árabes em Israel, chegando à conclusão de que são menores que os dos judeus. Filmei um palhaço que é filho de uma judia comunista com árabe comunista, tem o nome de Giuliano, em homenagem ao filme Salvatore Giuliano, do Francesco Rossi. A mãe dele teve durante muitos anos um teatro em Jenin, que é uma cidade ocupada, para crianças palestinas. Ela morreu, ele fez um filme sobre ela. Pediram para ele reabrir o teatro, ele vai toda semana, mesmo sendo território ocupado, apresentar teatro para as crianças. Fui buscar iniciativas de paz entre árabes e judeus. Acredito nessa fraternidade.
Thiago Domenici – Como diria o Knispel, “dois Estados para dois povos”.
É, o Gershon é o grande arauto que vocês têm, é uma criatura magnífica. Toma porrada pra caramba, porque escreve lá. Sou fã dele, adoro ele. Acho que se pode lutar pela fraternidade no mundo e ali é um território... digo no meu artigo que vocês publicaram, “deixa os dois povos conviverem em paz, que a cama vai resolver tudo. Quando um começar a transar com o outro...”.
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Cenas do documentário |
de Silvio Tendler |
Thiago Domenici – Queria saber se é verdade que você tem o maior arquivo particular de filme e vídeo do país, com mais de 5.000 títulos.
Acho que sim. Porque, quando comecei a fazer JK, as pessoas não tinham arquivo organizado, o Arquivo Nacional não tinha isso, ninguém tinha, era uma bagunça. As pessoas que tinham material tinham medo de ceder um filme político. JK naquela época era um homem proibido. Fui juntando, colando figurinha. Descobri que existia um cara que comprava filme e vendia a quilo, para derreter e transformar em escova de cabelo, aproveitava o celulóide. Comecei a comprar, fiquei com um monte de lata, que estou organizando. Hoje tenho tudo listado e estou digitalizando.
Thiago Domenici – Você vai abrir para o público?
A listagem já está na Internet, a pessoa pode acessar, ver o que tem de filme, e aí entra em contato com a produtora. Vou aderir agora ao Common Rights, porque acho fundamental. Copyright é um crime.
Michaella Pivetti – Você ensina o que na PUC?
Ensino cinema. Dei o primeiro curso no Brasil de cinema e história. Cheguei com essa novidade em 1976, fui dar aulas no Departamento de História da PUC, o Departamento de Ccomunicação teve interesse em me contratar em 1978 e estou na PUC desde essa época.
Michaella Pivetti – Como está a formação de cinema no Brasil?
Tem muitas escolas, o Brasil hoje está formando muita gente pra cinema. Quero ver isso daqui a cinco5 anos, se vai ter mercado para absorver esse povo. Tem muitas escolas particulares e do Estado.
Vinícius Souto – Queria saber se dá para definir a principal mensagem do Milton Santos, se há alguma coisa que o sintetiza?
“Sejam otimistas.” Abro o filme com uma frase do Sartre que, na verdade, é o símbolo do pensamento do Milton Santos: a gente está vivendo hoje em um mundo horrível, mas a esperança é a convicção dele, ele sabe que a esperança vai chegar e que vamos conseguir mudar esse mundo para melhor. Então abro e fecho o filme com esse pensamento. Ele termina dizendo que é otimista. Que o mundo está muito complicado, muito feio, mas que o mundo futuro é seguramente bem melhor e que nunca houve humanidade. Agora que está havendo os primeiros ensaios do que será a humanidade. Acho que é isso, lutemos juntos contra as perversidades que estão aí, contra o que ele chama de globalitarismo. A globalização com autoritarismo.
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