O repórter de Caros Amigos, João de Barros, recebeu menção honrosa na categoria revista do 29ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, divulgado semana passada, com a matéria Um dia de Visita, publicada em dezembro de 2006, edição 117. Para comemorar mais esse prêmio importante do jornalismo que Caros Amigos recebe, disponibilizamos a matéria na íntegra, vale a pena ler de novo.
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A AVENTURA SEMANAL DAS MULHERES DE CRIMINOSOS PARA DUAS HORAS DE INTIMIDADE NA PRISÃO Uma sexta-feira de outubro, 7 da noite. Elas vão chegando lentamente, carregando malas e sacolas. Vêm de pontos diferentes de São Paulo e de cidades vizinhas. Algumas trazem filhos de colo. A maioria é jovem e usa tatuagem, algumas gravaram na pele o nome de seus amores. O cabelo, as mãos e os pés denunciam a passagem recente por um salão de beleza. As roupas justas acentuam as curvas do corpo, as blusas curtas, uma barriguinha indesejável por muitas. São mulheres calejadas – toda semana vão ao encontro de seus filhos, maridos ou namorados, estejam no presídio em que estiverem. E sonhadoras: têm fé que quando eles deixarem a cadeia desfrutarão a liberdade junto com elas. Mal chegam ao ponto de encontro, o bar e lanchonete Eddie, em frente à extinta Casa de Detenção, na zona norte de São Paulo, procuram a “guia” responsável pelo ônibus para conferir a reserva manuscrita num caderno. “Solange, teu nome está aqui, cunhada”, diz a guia, utilizando o tratamento dispensado a todas elas. “Se os presos se tratam por irmãos, nós só podemos ser cunhada.” No bar do Eddie, algumas “cunhadas” beliscam petiscos e se revezam num caraoquê. Músicas sempre românticas, nessa sexta-feira Roberto Carlos está a toda. Ali fora, uma banquinha vende churrasco de espeto e pão de alho. Ambulantes oferecem água mineral, refrigerantes, cerveja em lata, canetas, papel e selos. A conversa é posta em dia. As “cunhadas” falam das últimas cartas trocadas com o marido ou namorado, descem a lenha nas condições carcerárias, nos maus tratos, na Polícia Militar.São interrompidas apenas pelo telefone celular, que as faz deixar, discretamente, a roda de bate-papo. |
Até maio deste ano, as mulheres que visitam presos gozavam de status conforme a posição que o marido ou namorado ocupa no Primeiro Comando da Capital, o PCC. Respeitadas pela bandidagem, ninguém se arriscaria a assaltar suas casas ou a roubar suas famílias. Por serem mulher de “fulano de tal”. Mas, após a onda de ataques do PCC em São Paulo, em maio de 2006, esse quadro se alterou. Ser companheira de alguém do PCC virou um perigo. Elas contam de invasões policiais sem mandado judicial a casas de parentes de criminosos presos. E de supostas trocas de tiros como pretexto para a execução de suspeitos de integrar a facção. Sentem-se na mira da polícia.
Aos poucos, elas se contam às dezenas. Têm em comum o relacionamento afetivo com presos e aqui falam livremente de um convívio muitas vezes ocultado de parentes e amigos. Cássia, por exemplo, 38 anos, mãe de dois filhos – uma de 20 anos, outro de 10 anos –, vive com os pais. Pobre, foi criada num lugar que deu de tudo – trabalhadores e vagabundos, policiais e bandidos. Hoje, o personagem mais conhecido de lá é o ex-mecânico de automóveis Alexandre Pires Ferreira, mais conhecido como E.T., um dos maiores ladrões do país, que faria parte do primeiro escalão do PCC.Cássia era amiga dele e, por conta disso, acabou sendo apresentada a Marcão, companheiro de E.T., na prisão. Depois de abundante troca de cartas, ela foi conhecer Marcão e, desde então, o “ama demais”. Revelou logo o “romance proibido” aos filhos. Mas para os pais inventou que namorava um Marcos no interior do Estado. Com o álibi, nos fins de semana viajava para ficar com Marcão, então na penitenciária de Mirandópolis. Até que, depois de três anos escondendo um “segredo cada dia mais alucinante”, ela falou para o pai que seu namorado era um homem preso há treze anos e condenado a 22 anos e dez meses, por assalto, homicídio, receptação e falsificação de documentos. A mãe não sabe e, se depender de Cássia, jamais saberá. “Ela não entenderia um relacionamento assim”, simplifica.
Cássia é fiel escudeira de Marcão.
Desde a primeira vez, visita-o todos os fins de semana – viajou
quase 100.000 quilômetros ao longo desse tempo. Mas não
conseguiu dar-lhe o que ele mais quer: um filho. Ela diz que está
fazendo tratamento médico para poder um dia levar-lhe a notícia
mais esperada. “Ainda não deu, mas quem sabe não
é neste fim de semana?”, indaga, abrindo um largo sorriso.
Histórias como a de Cássia são ouvidas aos borbotões
por aqui. Basta perguntar “como tudo começou?” e
se sucedem narrativas semelhantes.
O mais comum é o relacionamento começar com a apresentação da moça ao pretendente no presídio, como no caso de Cássia. Mas há outros meios: cartas para revistas femininas, classificados de jornais, em programas de rádio e, mais recentemente, por intermédio de bate-papo nos telefone celular e até por chats da Internet, elas são convencidas a ter um encontro amoroso atrás das grades. Traquejados, os presos estão sempre dispostos a esperar o tempo que a futura parceira quiser para, por fim, conquistá-la. Quando ocorre o primeiro encontro, eles sabem que a batalha está vencida. Foi assim com Cássia. É assim com muitas e muitas.
Há casos em que os presos é que são assediados pelas mulheres. São as chamadas “talaricas”, na linguagem prisional. “Trata-se de jovens que querem prestígio, proteção, status e reconhecimento, ainda que esses privilégios sejam direcionados aos presos, não à companheira”, afirma a antropóloga Karina Biondi, da Universidade de São Paulo, autora do trabalho acadêmico “Mulher de Ladrão – uma Descrição Densa”. E complementa: “Esses privilégios são desfrutados no cotidiano das periferias, onde há o alcance e a influência do PCC, e os valores são compartilhados pelas pessoas que estão fora das prisões porque, independente do alcance da influência do PCC, a mulher do preso é vista como parte constituinte dele”.
Os prisioneiros despertam uma espécie de fascínio em determinadas mulheres. “Afora as que conheceram os maridos antes da prisão e se mantêm fiéis, trabalhando e criando os filhos”, afirma o médico Drauzio Varella, “muitas outras foram infelizes em casamentos anteriores e trazem consigo a marca da traição. Elas se entregam então a esse novo amor porque, presos, esses homens são só delas por muitos anos consecutivos.” Embora não conheça teses sobre fascínio exercido por homens presos, o autor do livro Estação Carandiru afirma que “em certa camada social a mulher de um preso tem mais respeito e proteção, principalmente depois do fenômeno PCC”. Para ele, “a demonstração de poder da facção atrai mais e revive, de certa forma, o que ocorreu com todos os primatas, quando a fêmea se ligava ao macho por sua superioridade hierárquica”.
A PARTIDA
Quando dá 8 e 15 da noite, três ônibus de excursão
estacionam junto ao Eddie. No pára-brisa, os números 1,
3 e 5 indicam os raios da prisão (cada raio tem quarenta celas)
que uma parte das mulheres vai visitar no sábado. Os raios 2,
4 e 6 receberão a outra parte no domingo. No bagageiro vão
as malas e as sacolas. As sacolas levam biscoitos, doces, pão
de forma, sabão em pó. Os 6 quilos de alimentos cozidos
ou assados a que os presos têm direito serão acondicionados
em três tupperwares uma hora antes da visita. “Não
adianta levar a comida de casa porque azeda. É mais uma despesa
que o governo dá pra gente”, dizem elas.
Quando os 45 assentos de cada ônibus estão tomados por mulheres e crianças, os ônibus partem em comboio. Às 9 da noite, pontualmente, começa uma longa viagem de 640 quilômetros até a temida Penitenciária Maurício Henrique Guimarães Pereira, a P2 de Presidente Venceslau. Destruído pelos detentos em setembro de 2005, o presídio foi reinaugurado com 765 criminosos que se encontravam em diversos cárceres da capital e do interior, apontados pela Secretaria da Administração Penitenciária como líderes do PCC. A remoção desses presos foi o estopim para os ataques do crime organizado em maio último.
Nos seis raios da P2 de Venceslau há 738 detentos – normalmente, dois por cela. Eles passam a semana trancafiados num espaço de 3 por 4 metros, com um beliche de cimento, um vaso sanitário, um cano de água e uma pia. Têm direito a duas horas diárias de banho de sol, rádio e televisão, e são permanentemente vigiados por agentes de segurança penitenciária do Grupo de Intervenção Rápida – GIR –, funcionários que usam toucas ninjas para não ser reconhecidos e portam escudos e fuzis com balas de borracha. Os presos disseram a integrantes da Organização Não-Governamental de Direitos Humanos Justiça Global, que visitaram a prisão agora em novembro, que Venceslau está uma “panela de pressão, a um passo de virar” (virar significa rebelião). Eles se queixaram da presença ostensiva do GIR, inclusive nos dias de visita, e das revistas promovidas pela Polícia Militar quando, segundo disseram, são “esculachados, tratados como animais e apanham”.
As mulheres ficam sabendo disso, mas agora a preocupação número um do grupo é a hipótese de os ônibus serem parados no caminho pela Polícia Militar. A última vez foi há pouco mais de um mês. Elas contam que foram obrigadas a se despir na frente das policiais femininas para uma minuciosa revista. Joá lembra da humilhação que sentiu ao ter as partes íntimas apalpadas. “Elas passam a mão tanto no corpo da gente que eu falei: ‘Assim eu vou gozar, moça’.” A reação indignada e dita em voz firme conteve a policial, que se limitou a um pedido de desculpas. Depois são vasculhados o ônibus, o “jumbo” (os produtos levados pelas visitas), as sacolas e malas. “Não escapa nada.”
No início da rodovia Castelo Branco, a “guia” começa a distribuição de uma série de coisas destinadas aos presos. Um sabonete, um pacote de cigarros, um tubo de pasta de dente, um rolo de papel higiênico, um aparelho de barbear, uma caneta e uma folha de selos. Exceto os cigarros, os demais itens são direitos que o Estado deveria fornecer, conforme a Lei de Execução Penal. Mas parece que o PCC lhe tomou o lugar.
A mulher de Marcelo Rodrigues de Lima, condenado por assalto a 54 anos e preso há dezessete, conta que o marido é soropositivo e está com hepatite e anemia. Ela tem um salão de beleza em Campinas. Conheceu Marcelo há catorze anos e tem duas filhas com ele. Uma de 5 anos, que fica com a cunhada, e outra de oito meses. Aos 35 anos, “ajoelha e agradece a Deus todos os dias” por não estar – nem ela nem as filhas – infectadas pelo vírus da Aids. “Nas duas vezes que o preservativo estourou, fiquei grávida”, diz.
O amor, iniciado com troca de correspondência, manteve-se inabalável. “Tirando funcionários e diretores, que não deixam entrar os remédios, nem ao menos uma lata de Sustagen, ninguém o discrimina no sistema. Ele enfrenta tudo, luta para viver. Por isso tentou fugir da penitenciária de Lavínia, o que resultou na punição de cinco meses no Regime Disciplinar Diferenciado em Presidente Bernarde.” Agora, Marcelo está muito mal, porque não está recebendo a medicação indicada. Mas nem uma lágrima de desespero escapa dos olhos negros da cabeleireira. “É a nossa caminhada”, resume.
A VIDA COMO ELA É
Uma caminhada marcada por amor e ódio, idolatria e desprezo. São mães e mulheres de ladrões, homicidas, seqüestradores, traficantes, estelionatários. Muitas nasceram nos bairros mais miseráveis das cidades, algumas buscaram no crime a auto-afirmação e extrapolaram nas “correrias” – as ações – a troco de “adrenalina, para sentir o bagulho doido”.
Joá é uma jovem morena, de cabelos escorridos até os ombros, olhos negros e fala doce. Tem 25 anos, 50 quilos, não fuma e nunca usou drogas. O “barato” dela era “arregaçar, pra sentir o sangue ferver de emoção”. Foi presa aos 18 anos ao assaltar, junto com seis homens, uma agência do Banco Bradesco no centro de São Paulo. Cumpriu quatro anos e quatro meses de prisão, até ganhar liberdade condicional em outubro de 2004. “Foi uma fase turbulenta da minha vida. Primeiro, a polícia tomou a minha bolsa e levou os 100.000 do assalto. Depois, apanhei no pau-de-arara da cana, sem ter essa de ser mulher. Acabei indo parar na Penitenciária de Ribeirão Preto e em outros presídios onde tive de enfrentar as sapatonas que queriam graça comigo. Foi um período muito duro, vendo o sofrimento dos meus pais que iam me visita.”
Hoje, Joá vive num apartamento da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano – CDHU – num bairro da zona leste de São Paulo. Não deve mais nada à Justiça. No ano passado, entrou para a Faculdade de Obstetrícia da Unip de Campinas, mas os 700 reais da mensalidade fizeram com que parasse os estudos. Ela diz que sente um calafrio toda vez que entra em uma agência bancária: receia que haja um assalto e, por estar lá dentro, seja incriminada por causa de seu passado.
De sua vida bandida, Joá guarda uma feliz recordação. Quando estava presa na Penitenciária Feminina do Carandiru, numa construção contígua a um presídio masculino, ela, apoiada na grade da janela de sua cela, passava as tardes “pedalando”, isto é, girando um lenço à procura de um namorado no prédio vizinho. Depois que encontrou um, passou a “abanar” – enviar sinais com as mãos para se comunicar com ele. Por fim, veio a troca de cartas com o “homem de sua vida”. Durante a viagem de agora, Joá ficou sabendo que por um mês ficará distante do amante: Willian, 33 anos, preso há seis anos e condenado a 32 anos por assaltos, está de castigo, foi apanhado com um telefone celular. “Que dó, que dor. Meu marido foi vacilão, diz ela. E, deixando escapar um sorriso: “Queria passar o castigo todinho com ele, abraçada, fazendo cafuné, falando baixinho ao seu ouvido: eu te amo”.
Joá conta que sua época de maior sofrimento foi quando Willian ficou 360 dias no regime de RDD, em Presidente Bernardes. Ela até esteve no programa Caso de Família, no SBT, travando uma violenta discussão com a própria mãe, que nunca aceitou a relação com Willian. “Se eu me regenerei, ele não pode se regenerar?”, pergunta hoje. Então vira de costas para mostrar a estampa colorida na camiseta que veste: a foto de ambos, em pé, sorridentes. Uma imagem de felicidade. O que lhe resta desse mês “desgraçado”.
Até a única parada para um lanche, o ônibus permanece no zunzum. As “cunhadas” conversam sem parar, contam histórias, recebem e fazem chamadas nos celulares, cuidam das crianças. Parece que não se veêm há anos. Até o momento em que baixa um silêncio sepulcral do qual nem a petizada escapa. As moças, cobertas, deitam no assoalho, deixando os bancos livres para que as mais velhas adormeçam igualmente de corpo estendido. O ônibus avança então por mais cinco horas no sossego da noite. Só parará na P2 de Presidente Venceslau às 4 e meia da madrugada, quando as mulheres exibirão a carteira específica que as identifica na Secretaria da Administração Penitenciária, em busca de uma senha, na verdade um número impresso num pedaço de madeira que lhes dará a liberdade de entrar por duas horas na cadeia. Às 8 horas entrarão as visitas do raio 3; às 11, as do raio 1; e, às 14, as do raio 5. Isso no sábado. No domingo acontecerá a mesma coisa com as visitas aos raios 2, 4 e 6.
Só é permitida a entrada de parente de primeiro grau – esposa, pai, mãe, irmão e filho – e de uma companheira, desde que o nome dela conste do rol de visitantes do preso. Amigos, padrastos, madrastas, sogros, sogras ou enteados maiores de idade não podem entrar. Nessa semana, a direção do presídio decidiu que as roupas dos presos – camisas brancas, lençóis, cobertores, toalhas etc. – não poderão mais ser trazidas pelas visitas. Só entrarão, agora, via Sedex. “Imagine: o custo de eu mandar um sedex com roupa é o mesmo que eu gasto na viagem. É o fim do mundo”, diz Gê, guardando os lençóis que trouxera para o marido.
Quando a busca pelas senhas termina, às 6 da manhã, o grupo se divide pelos hotéis e pensões da cidade, cuja diária varia de 10 a 20 reais por pessoa. É hora do café da manhã, de um banho, de ir às compras a fim de completar o jumbo do dia. A escolha é pela rotisseria Frango Tudo, que vende os assados preferidos dos presidiários, como costela, cupim e frango, acompanhados de batata frita, farofa, arroz e macarrão. A sobremesa pode ser um pudim de leite, um arroz doce, ou uma das seis frutas que podem entrar na cadeia – maçã, pêra, goiaba, mexerica, banana e melão.
A proprietária do Frango Tudo,
uma senhora baixinha, de modos autoritários, que traz uns óculos
negros pesados sobre o rosto claro, repete várias vezes a mesma
conta de uma freguesa na máquina de calcular. As mulheres sabem
que, por serem familiares de criminosos, também são suspeitas.
“É outro preconceito: todo mundo acha que por sermos mulheres
de presos somos todas vagabundas”, diz Cláudia, que aguarda
na fila à espera da maionese. “Porém, se não
fosse a gente pra movimentar o comércio, ó, já
era.” De fato: só das passageiras de um dos ônibus
da excursão, o Frango Tudo faturou pelo menos 1.000l reais. Semanalmente,
ao menos seis ônibus levam as “cunhadas” até
a Presidente Venceslau, localizada no Pontal do Paranapanema, quase
na fronteira de Mato Grosso.
Lia é uma paranaense loira, atraente, de 31 anos, 1,66 metro,
51 quilos, muito falante. Advogada, trabalhava na área de Execução
Penal em Curitiba. Atendia réus presos. Recebia xavecos, mas
nunca se interessou por nenhum deles. Até ser “flechada
pelo cupido”, o que a levou agora a Venceslau. O homem é
tido como um dos chefes do PCC, condenado a 109 anos de prisão
por latrocínios e homicídios. Está preso há
dezesseis anos. De abril a agosto deste ano, trocou cartas com ela,
nas quais se mostrou “um cavalheiro”: romântico, bem-intencionado,
à procura de “uma verdadeira companhia” que preenchesse
a solidão do cárcere.
Lia gostava cada vez mais das cartas que recebia. “Fui sendo absorvida pelas declarações que ele fazia, pelo seu arrebatamento e, depois de enfrentar jornadas de terapia, cedi à paixão: pedi que ele colocasse meu nome no rol de visitas.” Na primeira visita que fez, tudo nele a emocionou. Os “gestos delicados”, o “respeito cavalheiresco”, a “conversa simpática e amistosa”. Na despedida, um único beijo selaria o futuro de Lia: era namorada de um preso.
Na visita seguinte – como em todas desde então – ela fez escova no cabelo, fez as mãos, os pés, comprou roupa nova – trocou os vestidos compridos que usava por calças justas – e lingerie. Naquele dia ela foi “acariciada demais” – diz como forma implícita de contar a primeira relação sexual com o parceiro. “Enlouqueci de paixão. Ele é muito dengoso. Nunca fui tão valorizada, tão bem tratada por um homem como sou hoje.”
A nova vida pessoal de Lia pressionou a vida profissional da advogada. Ela largou todos os casos criminais que defendia por temer ir a um presídio, acontecer uma rebelião e a polícia ou o Ministério Público a acusarem de estar a serviço do crime. “Fui para a área da família”, diz ela, que aguarda o namorado ter direito ao regime semi-aberto em 2008. Até lá, faz planos com ele: uma vida simples, trabalhar, quem sabe comprar um sítio, ter filhos e nunca mais cometer um delito. “Digo sempre a ele que estou lhe entregando uma parte preciosa da minha existência. Ele compreende. Por isso nós nos gostamos, sem falsidade, numa relação de companheirismo. A gente se completa: ele me respeita demais e eu me dedico muito a ele.”
Afinal, chega a hora de se aprontar. O presídio proíbe a entrada de pessoas vestindo jaquetas com forro ou capuz, brincos, cintos, anéis e adereços de metal para prender o cabelo. Nota-se que quem já é casada, quem tem filhos com os presidiários não se importam tanto quanto as mais jovens, as namoradas, em caprichar no visual, em parecer airosa e recatadamente insinuante. Mas todas elas devem seguir as normas e cadeia não é lugar para a mulher aparecer de roupas transparentes, minissaias e camisetas curtas demais. Acima de tudo estão a honra e a moral do homem...
Nas penitenciárias comuns e nos Centros de Detenção Provisória, o mutirão de presos para a recepção dos familiares começa na sexta-feira. As cadeias – quase todas superlotadas – passam por uma faxina completa. Armados de vassourão, água, sabão, rodo e pano, os presos lavam os raios com esmero. As celas são higienizadas e preparadas para o grande dia. O respeito aos visitantes é total. Para garantir a privacidade da visita íntima, cada beliche – há celas com oito camas – ganha uma cortina improvisada, um lençol preso a cordões. Rádios e televisores são ligados no volume máximo a fim de encobrir os possíveis arroubos do casal. Invadir essa privacidade é falta gravíssima. Por isso, os detentos sem visita ficam zanzando nos corredores ou no pátio. Conhecem o “proceder” da ocasião: quando um casal passa, todos devem abaixar a cabeça até o queixo tocar o gogó. Quem cobiçar a mulher do próximo é classificado de “talarico”, e pode morrer.
Às 10 da manhã, o calor sufoca a cidade de 40.000 habitantes, colonizada por imigrantes alemães, italianos, espanhóis e japoneses. O sol bate com tal força que parece a um passo de incendiá-la. Mesmo assim, na porta da cadeia, a cinco minutos do centro, há perfume no ar. De muitos cheiros: de lavanda, de comida, de desejo. Uma apetência sensual percorre o corpo das jovens “cunhadas” quando elas descem a caminho da radial, a galeria que cruza de ponta a ponta os raios da prisão.
Será uma longa e incerta jornada até a cela. A primeira revista é a dos jumbos, feita sobre uma mesa, quando todos os recipientes são abertos. A comida é perfurada por facas e garfos e totalmente revirada. Os recipientes então voltam à sacola com uma senha de identificação – a outra é entregue à visita, que seguirá para a mais demorada e constrangedora das filas, a da revista íntima.
Inicialmente, elas terão de mostrar às agentes penitenciárias que não levam para dentro do presídio nada escondido, como aparelhos ou chips para celulares ou drogas. Para isso, têm de escancarar a boca de modo a demonstrar que nada levam sob ou sobre a língua. Em seguida, despem-se totalmente e fazem três flexões seguidas a fim de provar que nada lhes escorregará da vagina ou do ânus. Quando resta dúvida, a visitante flexiona o corpo para trás, mostrando o canal genital à funcionária, ou para a frente, de forma a expor o reto (há presídios em que a mulher se senta num banco e expõe a genitália para as agentes; elas dizem que o banco não é limpo entre uma revista e outra). Aquela que for flagrada com drogas tem destino certo: a delegacia de polícia. Se estiver com celular ou um chip,ficará proibida de entrar no presídio.
As crianças maiores de 5 anos passam pelo mesmo vexame. São desnudadas diante de um agente penitenciário do mesmo sexo. Vitória, de 6 anos, acompanhou a mãe Rosana na visita ao pai Alexandre. Envergonhou-se de tirar a roupa diante de uma desconhecida. Normalmente extrovertida, a menina ficou paralisada de susto, contou a mãe. Sentiu medo de tudo – do ambiente prisional, das revistas, dos guardas. “Ela não vem mais aqui”, decidiu Rosana.
Os bebês, a maioria concebida na prisão, são as vítimas mais novas da degeneração moral nos calabouços. Nus, têm a fralda, a mamadeira, a chupeta, as mantas e as roupas examinadas. São vigiados como filhotes abjetos de uma espécie amaldiçoada. “O estigma ao qual os familiares de presos estão sujeitos”, diz a antropóloga Andréa Bueno Buoro em sua dissertação de mestrado “Negociando a Dignidade Humana: os Familiares de Presos e a Percepção de Direitos Humanos”,para a Universidade de São Paulo, “não se relaciona a uma característica pessoal sua, mas é, antes, uma extensão do estigma que cerca o presidiário”.
A saga não acabou. As mulheres ainda terão de passar diversas vezes pelo detector de metais – em alguns presídios, após a passagem pelo detector, as mulheres têm o braço direito carimbado antes de entrar no quadrilátero das celas; dizem sentir-se como “gado marcado” e reclamam de voltar para casa em transporte coletivo com a marca da prisão. O detector de metais é tido como o “maior vilão do presídio”. Se o seu alarme soar, estará “provado. que a mulher carrega no corpo algo proibido. Todo o esforço feito até ali deixará de ter valor. “A ordem é quando apitar não deixar entrar”, diz secamente a vigilante.
"PEDAÇO DO INFERNO"
Foi o que aconteceu com Patrícia, uma bonita mulata de 28 anos,
ao deixar a cadeia, barrada pelo detector. Trazia de volta nas mãos
a sacola com o jumbo, igualmente vetado. Chorava, incrédula:
“Filhas da puta”, dizia, assentando suas coisas no comprido
banco de madeira do lado de fora da P2. “Filhas da puta”,
repetia. “Passei quatro vezes naquela merda. Apitou duas. Então,
falei que era uma injustiça, que o aparelho só podia estar
desregulado. Pedi pra me levar ao médico, que me fizessem um
exame de toque. Elas diziam que não, que o sistema não
funciona assim. Insisti. Estava de consciência limpa. Não
tinha nada comigo. Queria ir ao médico, pagaria a consulta, o
exame de raios X, tudo o que quisessem. Mas elas diziam não,
era pra eu sair logo, senão seria enquadrada por desacato à
autoridade e a visita ficaria suspensa por um mês. É a
terceira vez que o aparelho apita na minha passagem. Já fui à
Comissão de Direitos Humanos da OAB, reclamei na Ouvidoria, e
nada”. E prosseguia: “Esse presídio, que lugar é
esse? É um pedaço do inferno! Só tem funcionário
folgado, autoritário, ditador, que faz o que bem entende porque
tem o GIR pra garantir a humilhação. A gente é
pequena pra brigar com o Estado. Mas, juro, rezei uma ave-maria e um
pai-nosso para não voar no pescoço da funcionária.
Depois eles falam em res-so-ci-a-li-za-ção, dizem que
a família é muito importante. Ressocialização
onde, meu Deus, na boca do inferno? Colocam o preso num lugar longe
da família, em presídios a 300, 400, 500 quilômetros
de distância. O Márcio está aqui há meses,
no sistema há um ano e dois meses e nem sequer foi julgado! Devia
estar num CDP (Centro de Detenção Provisória),
mas não! Eles querem que todo mundo morra. Cultivam o ódio
e a injustiça. São todos uns soberbos, que só falam
com a gente para ameaçar. Depois, quando um cara sai daqui vai
querer o quê? Vai querer vingança. Porque eles só
alimentam a vingança e a maldade no coração do
preso. Por que aquela merda sempre apita comigo? Vai ver é porque
sou negra. Quem vai pagar o meu prejuízo? Eu trabalho a semana
inteira, sou secretária, nunca desacatei ninguém. Gastei
400 reais nessa visita, com gasolina, pedágio, comida, hotel,
mercado e até com remédio, que o Estado devia dar. Quem
é que vai pagar?
Márcio foi preso por porte ilegal de arma e formação de quadrilha. Ela o conheceu numa festa há oito anos e nunca mais o deixou. "Quando uma pessoa encontra seu verdadeiro par é para toda a vida." E uma mulher "deve gozar os bons momentos e ajudá-lo nas adversidades". Patrícia resolveu registrar um boletim de ocorrência sobre o detector de metais. Na delegacia há dois funcionários de plantão - um investigador e um escrivão. Ela pede para fazer o BO de preservação de direito. Relata que foi humilhada na fila de visita dos presos depois que o aparelho apitou. O investigador diz que "isso é normal, há muitos casos assim. Por isso, essa história de visita íntima na cadeia devia acabar. As visitas deviam ser de outra forma, sem contato físico com os presos”. Patrícia dá de ombros para a opinião. Informa ao escrivão o seu nome, seu endereço etc. e espera até que uma cópia do documento esteja em sua mão. |
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Agradece e volta ao presídio. Nada feito: ela só poderia entrar com autorização do diretor, que, “infelizmente”, está em local incerto e não sabido. (À noite, lá fora, saboreando uma variedade de sorvetes servidos por quilo, as “cunhadas” – algumas apanhadas pelo alarme do aparelho e que também exigiam o exame de toque até serem desestimuladas pela ameaça de desacato – acham que o detector deve soar por obra de algum dispositivo secreto à disposição das funcionárias. Elas comentam que naquela tarde algumas “pontes” – nome dado às mulheres que levam coisas ocultas aos presos, ganhando pela tarefa um punhado de reais – não foram molestadas ao entrar no presídio, enquanto outras, “umas dez pelo menos”, viveram as mesmas vicissitudes de Patrícia.)
Aquelas que conseguiram vencer todas as etapas serão acompanhadas pelos homens armados do GIR até as celas, onde são trancadas com os seus anfitriões. A presença da guarda causa constrangimento nos adultos e alimenta o medo e a revolta nas crianças. Muitas delas assumem os códigos, símbolos e valores da prisão. Mal a cela se fecha, empunham a garrafa de refrigerante como se fosse uma metralhadora e – rá-tá-tá-tá – exterminam os algozes do pai.
Em apenas duas horas – o tempo da visita –, as visitantes ficarão impregnadas do cheiro da cadeia. As celas, insuportavelmente abafadas, exalam um odor pesado característico dos cárceres. “É um cheiro de cachorro molhado, misturado com suor humano, água sanitária e comida”, diz uma visitante. “Um cheiro que não é bom nem ruim, só é inconfundível.” Antes de sair da cela, elas despejam em sacolas plásticas o que sobrou do jumbo – e as deixam com o companheiro. Na despedida, um beijo sela o fim do encontro.
De acordo com a tese de doutorado em educação “A Eficácia Sociopedagógica da Pena de Privação de Liberdade”, do professor Roberto Silva, ex-interno da Febem, “a prisão serve de espaço para a socialização de amplos segmentos sociais. O comportamento do delinqüente deixa de ser patologia individual e se transforma em patologia social, uma vez que a cultura prisional ultrapassou as muralhas da prisão e fundamenta, agora, o imaginário de grupos organizados e comunidades”. E mais: “Uma geração de crianças, nascida e socializada dentro ou em torno da prisão e submetida a um processo generalizado de criminalização das relações sociofamiliares, aponta para o surgimento de famílias criminosas, o que permite deduzir que a pena de prisão fomenta uma nova e ousada forma de organização da criminalidade”.
A visita acabou. As “cunhadas” passeiam pela cidade. Trocam confidências sobre o encontro que mantiveram na cadeia. Sobre o que conversaram? “Ah, sobre a família, os filhos, o andamento dos processos, a vida.” Às 8 da noite, todas já estão a caminho dos ônibus que as trarão de volta. Mais 640 quilômetros de estrada. Poucas se dispõem a sair do ônibus nas duas paradas do retorno. O cansaço bateu. Às 7 da manhã, elas desembarcam no Carandiru. Para recomeçar tudo dali a cinco dias.
João de Barros
é jornalista.
joaodebarros@carosamigos.com.br
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