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Há mais de dois anos – precisamente em fevereiro de 2005 – a revista Caros Amigos trouxe a público as suspeitas de lavagem de dinheiro – comprovadas pela Polícia Federal semana passada na Operação Perestroika e amplamente divulgada pela mídia – que rondavam a escandalosa parceria que unia o Corinthians Paulista à empresa inglesa MSI, capitaneada pelo iraniano Kia Joorabchian. A revista foi, inclusive, ameaçada de processo pela empresa, mas quem acabou no banco dos réus, acusada pelo Ministério Público Estadual, foi a parceria. Em abril de 2005, ainda acompanhando o caso, Caros Amigos publicou uma série de matérias, quatro delas, na íntegra, você confere aqui.
Natalia Viana, Marina Amaral, João de Barros e Renato
Pompeu.
Colaboraram Andrea Dip, Thiago Domenici, Marcelo Salles (no
Rio) e Cauê Llop (em Londres). Foto: Alexandre Battibugli.
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Quem é Kia Joorabchian, esse misterioso personagem que
está pondo em polvorosa o futebol brasileiro? Quem compõe
esse grupo que ele diz representar e que está investindo milhões
de dólares no Corinthians, enfeitiçando diretores e
torcida? Sete repórteres saíram a campo e um editor
lançou-se à pesquisa para tentar responder a essas interrogações
e o resultado é um quadro cheio de lances espetaculosos, figuras
sinistras, acusações graves, suspeitas inquietantes,
tudo isso envolvendo uma série de pessoas que atuam fora do
campo de jogo. Uma história escandalosa que começa com
sotaque russo e, certamente, não vai parar por aqui.
DE ONDE ELE VEM?
Dos EUA, uma pista sobre o passado de Kia: o empresário
Roy Azim conta como o iraniano conquistou sua confiança e amizade,
levou vantagem e sumiu do mapa.
Por Natália Viana
Ninguém sabe direito a história da vida dele, nem como o jovem iraniano Kia Joorabchian, de apenas 33 anos, entrou no mundo dos investidores milionários que nunca dão as caras. Mas uma boa pista pode ser encontrada em um pequeno escritório em Miami, Flórida, onde um quirguistano alto e bem-apanhado mal consegue conter a revolta ao ouvir o nome de Kia.
- O que? Um baixinho, iraniano?!? Ele me roubou 21 milhões
de dólares! Onde ele estiver, eu destruo ele! Como uma barata!
Kia Joorabchian apareceu em meados do ano passado com uma promessa
caída do céu: transformar o cambaleante Corinthians
num time de “galácticos”.O plano era perfeito,
não fosse um pequeno detalhe: passados seis meses de sua provocadora
chegada ao país, ninguém tem a mínima idéia
de quem é ele. Como disse curto e grosso Ronaldo Pinto, presidente
da Gaviões da Fiel: “Chega um cara que ninguém
sabe de onde vem, que não é corintiano, e compra o time?
Quem são eles? Ninguém sabe”. O assessor Fernando
Mello soma ainda mais à aura de mistério: diz que Kia
não gosta de falar de sua vida pessoal “por uma questão
de segurança”.
O pouco que se sabe é nebuloso, e novos boatos surgem na imprensa a cada semana. Não é para menos: o iraniano aparece em registros públicos na Inglaterra com cinco identidades, nas quais variam sua nacionalidade – canadense ou inglesa –, sua idade – 33 ou 34 anos – seu nome – Kiavash Joorabchian, Kia Joorabchian e Kia Kiavash – e até a data do nascimento – 14 ou 25 de julho.
Kia teria nascido na cidade de Teerã, capital do Irã, onde sua família seria do ramo automobilístico. De lá, teria ido para a Inglaterra aos 6 anos (ou 10), onde a a família abriu várias empresas, principalmente revendas de automóveis. Ele já disse que teria se formado em ciências ou business - dependendo do repórter que faz a pergunta - na universidade Queen Mary, afiliada à University of London. Em entrevista pelo telefone, afirmou que estudou química e depois mudou de curso para business, mas não chegou a se graduar.
Uma coisa é certa: Kia começou nos negócios ajudando na revendedora de automóveis Mercedes-Benz do pai, Mohammad, a Medway Autos, em Kent, ao sul de Londres. Depois, foi funcionário da Bolsa de Petróleo de Londres.
Em 1997, conheceu Roy Azim, ou Ruslam, o nome russo desse cidadão do Quirguistão, que é dono da International Consultants LLC, empresa de consultoria internacional para investimentos nos ramos imobiliário, farmacêutico financeiro. Aos 47 anos, com clientes principalmente na Rússia, onde morou durante muitos anos, e conexões nos principais círculos de negócios dos países da ex-URSS, Azim garante que teve Kia como leal amigo e fiel escudeiro até 2001, ano em que desapareceu sem deixar vestígios.
Ruslam e Kiavash
A história começa com um encontro casual em Londres,
quando Azim diz ter sido apresentado a Kia pelo empresário
Simon Reuben, indiano que enriqueceu comercializando metais, notadamente
alumínio na ex-URSS. Kia tinha então 25 anos e foi-lhe
apresentado assim: “Este é um jovem que fala inglês
muito bem, ele vai te ajudar, pode confiar nele”. Na época
vivendo metade do tempo em Moscou, metade em Nova York, Azim falava
pouquíssimo inglês. O novo assistente serviu como uma
luva e foi para Nova York, morar em um apartamento de Roy. Em pouco
tempo eram amigos íntimos. Kia ajudava Roy fazendo traduções,
atuando como intérprete, organizando viagens, jantares, reuniões.
Com sua bela namorada Leila Rafi, americana, Kia era freqüentemente
visto ao lado de Roy e sua família. Saíam para bares,
restaurantes, festas. Viajaram juntos para Las Vegas, Colorado, Saint-Tropez,
Londres. A afeição pelo talentoso iraniano era tanta,
que Roy nem se importou quando recebeu, meses depois, um telefonema
de Simon Reuben:
– É melhor você se afastar desse Kia. Descobri
coisas sobre ele, não é de confiança. Pega dinheiro
de um monte de gente e não devolve.
Consultado, Kia retrucou que Simon estava com ciúmes. Procurei
Simon pelo telefone e ele, através de seu assessor de imprensa,
mandou dizer que conhece Kia, mas “não o considera um
amigo”.
Roy foi apresentando Kia para muitos sócios e parceiros de grande porte, especialmente russos. Como ele mesmo faz questão de frisar: “Fui o primeiro russo que ele conheceu. Ele não conhecia ninguém”. Roy confiava tanto em Kia que o encarregou de um negócio pra lá de polêmico e que alçaria o iraniano às páginas da imprensa internacional: a compra do jornal russo Kommersant.
Em 1999, o Kommersant era o principal diário independente
da Rússia. Certo dia, liga de Moscou para Roy, em Nova York,
Lev Chernoy, com quem tinha negócios de alumínio no
Cazaquistão e era amigo de Berezovski, do sócio de Berezovski,
o georgiano Badri Patarkatsishvili, além dos irmãos
Simon e seu irmão David Reuben:
– Roy, preciso comprar um jornal para o Berezovski, você
pode dar uma força? O dono do jornal mora em Los Angeles, chama-se
Yakovlev, você pode viajar pra lá e fechar o acordo?
Azim não podia viajar, e mandou o fiel escudeiro. Com mediação de Roy, Kia pediu 3 milhões de dólares de comissão. Chernoy fez a contraproposta de 500.000. Crente que ia receber parte do dinheiro, Roy pagou todas as despesas com advogados, passagens e gastos de Kia. Em Los Angeles, o iraniano foi apresentado a Yakovlev, ao empresário russo Dima Bosov e ao braço-direito de Berezovski, Badri. Levou junto o amigo (ou primo) Reza-Kermani, para “atuar” como sócio. De lá, afirma Roy, os dois rapazes viajaram para Moscou, onde conheceram Lev Chernoy e o próprio Boris Berezovski.
Para a imprensa, Yakovlev declarou ter vendido o Kommersant aos “investidores iranianos” – que nem falavam russo – porque queria manter a linha independente do jornal. Para convencer o cético editor do jornal Raf Shakirov, levou-o para uma viagem a Los Angeles, como me contou o próprio Raf: “Isso foi em maio ou junho de 1999, e todo o encontro foi feito para mostrar que eles eram sérios homens de negócios. Ficamos no luxuoso hotel Beverly Hills, e depois eles vieram para Moscou, no final de junho, e ficaram no cinco estrelas Baltschug-Kempinski, para dar a mesma impressão”. Não convenceram o jornalista. “Kia sempre foi muito simpático, sempre quer aparecer como um bom garoto, mas não tinha jeito de um homem de negócios sério”.
Em agosto, Kia e Reza apareceram numa desastrosa coletiva de imprensa
onde deram explicações vagas sobre quem eram. Prometeram
mostrar documentos sobre as duas empresas que estavam usando para
comprar o jornal – American Capital Investments Ltd e American
Capital LLC. Prometeram também não demitir nenhum editor
durante pelo menos um ano, e afirmaram estar comprando o Kommersant
para vendê-lo após uma reestruturação que
valorizaria a empresa.
Passado um mês, Raf foi demitido. Saiu contando a toda a imprensa
que recebera um documento provando que Berezovski era dono do jornal
e tinha Badri como sócio. Logo depois da demissão de
Raf, os dois “atores” desapareceram da Rússia.
“Imagine que aqueles que figuraram como donos do Kommersant
apareceram em junho e desapareceram em agosto. Como donos verdadeiros,
eles só atuaram por um mês”, diz Raf.
O jornalista, que nunca mais ouvira falar do iraniano, ficou surpreso com a empreitada brasileira. “Kia?! Oh, no!” Para ele, Kia está se especializando em uma atividade muito peculiar: “Ele se tornou um ‘ator’ de negócios; quando alguém não quer aparecer, pode contratá-lo”.
O sumiço
De volta de Moscou, Kia continuou ainda por algum tempo trabalhando
com Roy Azim. Mas seus gastos exagerados estavam gerando desconfiança:
com uma carta de crédito da companhia de Roy, o iraniano mantinha
seu estilo de vida elegante, com muitas viagens, excelentes hotéis,
bares, restaurantes, conta Roy. Além disso, o único
negócio que os dois tiveram juntos,um fundo de investimentos
sediado – adivinhe! - nas Ilhas Virgens Britânicas, começava
a tirar o sono de Roy.
A American Capital Fund Limited foi instituída em junho de 1999 por Kia Joorabchian como fundo de investimentos. Roy aplicou 4 milhões de dólares e seu irmão, Abdul Karim Muhimnov, 17 milhões, tornando-se ambos acionistas do fundo. Kia gerenciava o fundo através de outra empresa sua, a American Capital Management Ltd, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas Tinha uma procuração universal, o que significa que era o único que podia mexer no dinheiro. Para sediar a empresa, Roy alugou um escritório no número 12 da rua 44, sexto andar, em Manhattan. Roy é quem pagava tudo: mobília, reforma, equipamento, gastos. Pagava ainda o salário das secretárias e do motorista, mesmo que, do escritório, Kia manobrasse outros negócios de empresas particulares suas. E nunca deu um tostão a Roy nem do que o amigo gastou no escritório que, ele, Kia, ganhou com o acordo do Kommersant.
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| Kia e Roy de traje a rigor. Abaixo: Roy, Kia e a namorada Leila em Saint-Tropez, sul da frança |
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Sem notícias do seu dinheiro por meses a fio, Roy decidiu apertar o iraniano. Abriu um processo na Suprema Corte de Nova York em outubro de 2001, no valor de 19 milhões de dólares, acusando-o de fraude, por ter dito aos acionistas que tinha autorização legal para mexer no dinheiro; falsidade ideológica, por ter dito que tinha expertise em gerenciar fundos de investimento, o que era mentira; infração contratual com intenção de má-fé e negligência, por continuar movimentando o fundo mesmo sem ter autorização, sabendo que era contra a lei; infração de dever fiduciário, por ser depositário infiel; infração de contrato, por razões óbvias; por se negar a devolver a mobília e o equipamento do escritório em Manhattan; e delito de relações contratuais e vantagens econômicas, por ter causado dano aos interesse econômicos de Roy conscientemente.
A tática falhou: Kia sumiu do mapa. “Não pudemos ir ao tribunal porque não o encontramos para intimá-lo”, conta o advogado de Roy Azim, que pediu para não ser identificado. Investigações posteriores mostraram que, dos 21 milhões investidos, sobrava apenas 1 milhão e meio, em ações que Roy teve de vender. Nem notícia do restante do dinheiro, nem de Kia.
O processo foi arquivado em novembro de 2001, mas continua em aberto.
O advogado explica: “Se o Kia vier para os Estados Unidos e
for intimado, terá de vir ao tribunal e pode ser condenado
a pagar os 19 milhões. Daí teríamos de descobrir
onde ele possui bens, para poder retê-los, como, digamos, esse
time de futebol, que deve valer um bom dinheiro”. Ele diz também
que Roy vai abrir outro processo, nas Ilhas Virgens Britânicas.
“Ele é muito suave, muito perigoso, vem até a
sua família, brinca com as crianças, tenta fazer as
pessoas dormirem, e então checa tudo, números das contas,
quem é quem, o que está fazendo, quem são as
irmãs, os irmãos, ele é esse tipo de cara”,
desabafa Roy.
Em tempo: Kia negou ter sofrido qualquer ação judicial
nos EUA, e afirmou que Azim apenas trabalhava como consultor de sua
empresa nos EUA. “Não quisemos mais os seus serviços
e rompemos o contrato, só isso”.
De hoje em diante
Entre 2001 e 2004, pouco se sabe sobre as atividade de Kia. A única
certeza absoluta é que se tornou amigo cada vez mais íntimo
de Boris Berezovski, com quem era freqüentemente visto em Londres.
Tanto, que Boris fez pouco caso quando Roy Azim ligou para ele alertando
sobre Kia. “Eu avisei que ele era um cara perigoso, mas Boris
disse para eu não me preocupar, que ele apenas ia usar o Kia
para chamar táxi, fazer reservas em restaurantes, pagar contas,
essas coisas.”
A Caros Amigos, Berezovski negou ter sido apresentado a Kia por intermédio
de Roy Azim. Disse que conheceu o iraniano quando comprou dele o Kommersant
– ele mantém essa versão. Demonstrando enorme
intimidade com Kia, disse que ele é uma pessoa aberta, que
tem dado muitas entrevistas no Brasil, e que ele, Boris, tem acompanhado
de perto os seus passos por aqui – pretende construir um estádio
para o Corinthians porque “o Brasil tem muitas chances de sediar
a Copa de 2014”. Contou, ainda, que no ano passado sua mulher
Yelena veio ao Brasil para “dar um feedback” sobre o que
Kia andava fazendo por aqui. E, claro, defendeu Kia: “Pelo que
eu saiba, ninguém jamais provou que ele tenha jogado sujo nos
negócios. Ele é uma pessoa direita, tenho certeza de
que tudo o que ele está fazendo é absolutamente correto
e legal”.
Será?
Natália Viana é jornalista
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A VITÓRIA DE KIA
Na manhã e com um bom esquema tático, ele conquistou o presidente Dualib, que convenceu o Conselho Deliberativo a aprovar o contrato. Diante da derrota iminente, a oposição atacou a parceria, com denúncias de corrupção, de favorecimento e malversação de verbas. No final, venceu a força do dinheiro.
Por João de Barros
Antes de assumir o controle do Corinthians, o iraniano Kia Joorabchian providenciou uma auditoria no departamento de futebol do clube, solicitação prontamente atendida pelo escritório Veirano Advogados – o mesmo que cuida dos interesses da MSI no Brasil.
A auditoria, segundo o ex-vice presidente financeiro do Corinthians, Luiz Sérgio Scarpelli, revelou que o clube apresentava um “rombo astronômico” – algo em torno de 60 milhões de reais – quando, supunha o Conselho Deliberativo, o prejuízo acumulado devia ser de 33,4 milhões (caso o clube não obtivesse nenhuma renda extra, como a venda de jogadores, por exemplo): 23 milhões de reais relativos ao déficit acumulado até 2002, mais 10,4 milhões de reais, de acordo com o balanço de 2003.
Todavia, nos bastidores do clube houve um misto de assombro e resignação, proporcional à aprovação ou desaprovação pela parceria, quando se tornou público que a empresa Sports Marketing Agency S/C Ltda. (SMA), cuja dona é Carla Dualib, neta do presidente Alberto, receberia 6,1 milhões de reais graças a um contrato, com vigência de três anos, selado pelo avô em fevereiro de 2003, sem aquiescência do Conselho ou concorrência pública. Até o início deste ano, segundo admite o presidente Dualib, o Corinthians já desembolsara exatos 2.939.601,82 de reais, e os restantes 3.060.398,18 podem nem chegar aos cofres de Carla: Kia já disse que vai romper o contrato com a SMA.
Os negócios entre a SMA e o Corinthians já eram conhecidos por muitos conselheiros do clube. No início do ano passado, num jantar no Hotel Crowne Plaza, durante o lançamento do programa de esportes Estação Futebol, na Rede Vida, o vice-presidente Nesi Curi (ele é um dos dois diretores representantes do Corinthians junto à MSI), confidenciou a Scarpelli que “a renovação de contrato de patrocínio com a Topper era muito mais vantajosa do que o da Nike”. No entanto, a melhor proposta não ganhara “porque a Topper não pagava comissão para dona Carla”. Segundo o contrato celebrado com a Nike, a empresa de material esportivo vai desembolsar 15 milhões de reais até 2006.
Segundo outro importante conselheiro, a neta teria sido pivô da quebra de um protocolo de intenções estabelecido em dezembro de 2003 entre o clube e o grupo português Lusoarenas Desenvolvimento de Empreendimentos e Concessões S/A. A parceria previa investimento de 80 milhões de dólares para a construção de um estádio de futebol para o Corinthians, na Marginal do rio Pinheiros, zona sul de São Paulo, local em que o time mandaria seus jogos na cidade. Em contrapartida, o investidor alugaria o local para eventos e teria os direitos de publicidade do estádio por trinta anos. Porém, no dia 9 de setembro de 2004, o presidente Dualib desfez o pré-contrato. O representante da Lusoarenas no Rio de Janeiro, Aníbal Coutinho, nega, mas o motivo do rompimento – segundo o próprio Aníbal relatou a esse importante conselheiro – teria sido a recusa do grupo em depositar determinada comissão em nome da neta do presidente. Hoje, segundo o contrato firmado por Kia, quem detém a prioridade para construir um estádio em São Paulo – não a obrigação de realizar a obra – é a MSI.
Na esteira das nebulosas negociatas descobertas, afinal, pela auditoria promovida pela MSI ganhou consistência o rumor de que alguns diretores do clube eram remunerados, coisa proibida pelo estatuto do clube e pela legislação brasileira. O valor mensal total dessa “folha de pagamentos” giraria em torno de 150.000 reais e ela teria sido apresentada aos auditores pelo gerente financeiro do Corinthians, Marcos Fernandes. Entre os beneficiados estariam Nesi Curi, Carlos Roberto Melo, vice-presidente de finanças, e Antônio Roque Citadini, ex-vice presidente de futebol, os três com “salários” em torno de 30.000 reais cada.
Vazaram, ainda, os nomes de Daniel Cunha, vice-presidente de administração
(10.000 reais) e Luís César Granieiri, vice-presidente
de marketing (8.000 reais).
Tão logo soube que seu nome constava da lista de “assalariados”,
Citadini, que ainda exercia o cargo de vice-presidente de futebol,
obteve uma lacônica declaração “a quem possa
interessar” assinada pelo presidente Dualib, datada de dezembro
de 2004, segundo a qual ele, Citadini, “em nenhum momento recebeu
qualquer tipo de provento como salário, remuneração,
gratificação ou ajuda de custo”.
Diante de tantas denúncias, Sérgio Scarpelli havia solicitado formalmente, em 23 de novembro de 2004, ao presidente do Conselho Deliberativo, José de Castro Bigi, que fossem entregues – “em 48 horas” – o contrato celebrado com a neta do presidente e, também, a relação dos diretores e vice-presidentes que recebiam do clube proventos ou vantagens de outra natureza. “Você recebeu a resposta? Nem eu”, diz Scarpelli. “Aquilo não é um Conselho de homens, mas de beneficiados. Se a auditoria da MSI aparecer inteira, muita gente vai parar na cadeia.”
Também por considerar tudo “muito nebuloso, atabalhoado e sem transparência”, o conselheiro e deputado estadual pelo PC do B Nivaldo Santana votou contra a parceria com a MSI e apóia a iniciativa do igualmente deputado e conselheiro Romeu Tuma Júnior (PPS) de instaurar uma CPI dos grandes clubes paulistas na Assembléia Legislativa, a fim de que eles não sirvam de trampolim para “negociações suspeitas”.
A parceria do Corinthians com a MSI de Kia Joorabchian começou em meados de 2004, quando Dualib decidiu partir atrás de recursos que aliviassem a dívida corintiana, já na casa dos 60 milhões de reais, assim discriminada: 15 milhões de reais para suprir o fluxo de caixa; 6,5 milhões referentes a empréstimos bancários; 9.177 reais no pagamento de impostos; 7.200 para reestruturação do clube; 5.219 para pagamento de fornecedores; e 17.230 reais como pagamento de contingências.
Avalista pessoal de 2 milhoes de reais dessa dívida, por ser presidente do clube, Dualib vislumbrou a chance de sanar as finanças do Corinthians e se livrar de suas responsabilidades legais quando o médico e empresário Renato Duprat Filho (dono dos falidos plano de saúde e hospital Unicor, que deixaram mais de mil desempregados sem receber os direitos trabalhistas e 100.000 pessoas sem seguro saúde) o procurou para dizer que um grupo de empresários europeus estava disposto a investir no futebol brasileiro. Era a luva de que a mão precisava.
Na época, Duprat já transitava com alguma desenvoltura na cartolagem do futebol – fora até diretor de árbitros na Federação Paulista de Futebol, na gestão de Eduardo José Farah. Iniciara-se no ramo em 1991ao patrocinar a camisa do Santos e tornar Pelé garoto-propaganda da empresa. Tornou-se sócio de Edson Arantes do Nascimento, na empresa Pelé Sports & Marketing, onde teria dado um golpe de 5 milhões de reais ao não pagar o combinado para que Pelé emprestasse sua imagem a uma obscura Copa da Paz, realizada em 2003 na Coréia do Sul, sob os auspícios de ninguém menos que o tristemente célebre reverendo Moon (já devidamente introduzido no futebol paulista por meio do Atlético de Sorocaba, em São Paulo). Duprat, de qualquer forma, granjeara imagem internacional em certos meios do mundo da bola, onde ingressava também um certo Kiavash Joorabchian.
Kia e Duprat conheceram-se em Londres. Não se sabe quem foi o primeiro a falar sobre a hipótese de investimentos no futebol brasileiro. O fato é que, algum tempo depois, Duprat já pavimentara o caminho para Kia se reunir com a cúpula do SBT de Silvio Santos a fim de obter os direitos de transmissão dos jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol. Kia queria rivalizar com a Globo, mas seu plano não prosperou. Primeiro, pela dificuldade de conseguir, um a um, os direitos de todos os times envolvidos na disputa; depois, pelo grau de enfrentamento que teria de encarar.
A dupla, então, mudou o jogo. Duprat começou a consultar dirigentes de alguns clubes sobre a possibilidade de um grupo estrangeiro aplicar nos respectivos departamentos de futebol. Ao conselheiro do São Paulo Celso Grellet, por exemplo, Duprat disse que representava investidores suíços. Não colou. Mas Duprat foi sondando o terreno: visitou o Santos, assuntou o Palmeiras, tateou o Grêmio de Porto Alegre, até que, em julho de 2004, chegou ao Corinthians.
Ao ouvir a promessa de que investidores europeus queriam aplicar no futebol brasileiro, Dualib se encantou. Duprat, então, ligou para Kia e informou-o do interesse corintiano. Passados alguns dias, Kia desembarcava no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e, a bordo de uma limusine Mercedes, alugada por Duprat, era conduzido ao estrelado hotel Fasano, em cujo mezanino foi apresentado formalmente ao presidente Dualib. Na ocasião, Kia informou que o grupo de investidores que representava estava disposto a aplicar 35 milhões de dólares no clube, 20 milhões dos quais “para saneamento de dívidas”.
Nesses mesmos dias, Renato Duprat criou certos desconfortos. No afã
de se mostrar rico e poderoso para Kia e com trânsito livre
na alta sociedade paulistana, convenceu a ex-esposa Olga Amato, filha
e sócia do ex-presidente da Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp) Mário Amato, a ciceronear
Yelena Berezovski, mulher do magnata russo Boris Berezovski (que se
diz amigo de Kia) numa tarde de compras na Daslu, talvez a mais badalada
casa de modas da cidade. Com a promessa de que as despesas seriam
cobertas por Duprat, Olga bancou a conta de Yelena, cerca de 20.000
dólares. Nunca veria a cor do dinheiro.
Nessa passagem por São Paulo, Kia freqüentou os restaurantes
mais caros da cidade, visitou casas noturnas, esteve rodeado de belas
mulheres. Mostrou desenvoltura até para resolver cenas constrangedoras:
prevendo um calote de Duprat, o dono da limusine Mercedes alugada
foi, com a polícia, cobrar dele os 5.000 reais do aluguel onde
a dupla se encontrava, no luxuoso restaurante Fasano. Diante do embaraço
de Duprat e do “barraco” que podia advir da pendenga,
Kia sacou do bolso um punhado de libras e pagou a dívida em
moeda inglesa.
O astuto Kia logo não precisou de muito tempo para ver a fragilidade econômica do clube e de seu presidente, cujo nome aparece no Serviço de Proteção ao Crédito, da Associação Comercial de São Paulo, por conta da execução de uma fieira de títulos protestados por bancos, como Safra, Mercantil do Brasil, Banco do Brasil e BCN, contra empresas em que Dualib e ou seus filhos Nelson e Edson figuram como executivos, entre elas a Rol Lex S/A Indústria e Comércio, a Dualib S/A Investimentos e Participações, a All Latex e a Companhia Brasileira de Artefatos de Látex. Contra a neta Carla consta apenas uma ação judicial, na 3a Vara da Lapa, por falta de pagamento do condomínio do Edifício Residencial Mont Blanc.
Para seduzir de vez o presidente, Kia convidou-o a ir à Europa com uma seleta delegação corintiana, que poderia ser escolhida a dedo por Dualib. Em 7 de agosto de 2004, a comitiva composta pela neta Carla e dois atuais diretores do Corinthians na gestão da MSI – Nesi Curi e Andres Sanchez – embarcou. A viagem teve duas escalas. A primeira em Londres, onde o grupo foi conduzido à presença de Boris Berezovski, de quem Kia sempre se comportou como fiel escudeiro. De lá, num avião de Berezovski, o séquito foi a Tblisi, capital da Geórgia, ao encontro de outro milionário da herança pós-soviética, Badri Patakartsishvili, dono, entre outras muitas coisas, do clube de futebol Dínamo local.
Foi uma festa inesquecível. Ao retornar, cinco dias depois, o presidente Dualib manifestou seu deslumbramento com a recepção conferida ao grupo. No Parque São Jorge, sede do Corinthians, ele não cansava de relatar aos conselheiros a nababesca excursão. Contou ter sido hospedado em instalações luxuosas, voado à Geórgia num avião fretado com chuveiro a bordo, e calculou que os anfitriões gastaram 500.000 dólares com o quarteto brasileiro. “O pessoal é podre de rico. O Corinthians, realmente, só tem a ganhar com a parceria.”
No dia 24 de agosto, o pré-contrato entre a MSI e o Corinthians era aprovado por 264 dos 271 membros do Conselho Deliberativo do clube. Explica-se a avassaladora votação à inquestionável força política de Dualib no grupo. Desde que se elegeu, em 1993, ele tratou de alterar a composição estatutária anterior. Antes, participavam da assembléia geral trezentos sócios, sendo noventa vitalícios (um terço) e 210 eleitos quadrienalmente (dois terços). Hoje, são quatrocentos conselheiros: duzentos vitalícios (sessenta eleitos e 140 indicados) e duzentos quadrienais (cem eleitos e cem indicados pelo presidente do Conselho, José de Castro Bigi, amigo de Dualib. Detalhe: em fevereiro de 2004 foram empossados doze conselheiros da família Dualib – dois filhos, uma filha, dois sobrinhos e sete netos do presidente, oito dos quais são vitalícios.
Tendo o presidente como sua voz no Conselho, como porta-voz de seus interesses no clube, Kia tratou de satisfazer a torcida, prometendo contratar jogadores de nível internacional, uma “era galáctica” para o clube. Os nomes apareciam nos jornais como contratações “quase” certas: entre outros, o técnico Vanderlei Luxemburgo, que estava no Santos, os jogadores Robinho, também do Santos, Mascherano, argentino do River Plate, Wagner Love, ex-centroavante do Palmeiras e então no CSKA, de Moscou, e Carlos Tevez, do Boca Juniors – este comprado, enfim, por declarados 22 milhões de dólares, quase 60 milhões de reais, a mais cara contratação da história do futebol brasileiro.
A batalha final para a aprovação da parceria entre o Corinthians e a MSI foi realizada no dia 23 de novembro de 2004. Numa tumultuada sessão, o Conselho Deliberativo aprovou a parceria, mas a oposição recorreu à Justiça para contestar a decisão. O motivo é que um dos conselheiros, Rubens Aprobato Machado, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB nacional), queria que a votação do acordo com a MSI fosse nominal. O presidente do Conselho, José de Castro Bigi, também ex-presidente da OAB, mas estadual, colocou o pedido em votação, solicitando aos que fossem a favor que ficassem em pé. Aprovada a moção, Bigi confundiu-se e encerrou a assembléia sem votar a parceria. A oposição, temendo a derrota mesmo que a votação fosse nominal, deixou rapidamente o recinto.
João de Barros é jornalista
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CASO DE POLÍCIA
Aprovada a parceria, a disputa foi para a prorrogação. Primeiro, num distrito de bairro, onde o delegado Tuma deu queixa de tentativa de suborno e ameaça de morte. Depois, entraram em campo a Abin – Agência de Informações do Governo Federal – o FBI e a Interpol por causa da suspeita de lavagem internacional de dinheiro.
Por Marina Amaral
Approbato faz questão de dizer que nunca fez oposição política ao presidente do Corinthians – os motivos para sua resistência à parceria são técnicos e éticos. Como advogado, foi encarregado pelos conselheiros do Cori (Comitê de Orientação) de analisar o pré-contrato, ainda em agosto, quando deparou com a maior aberração jurídica de seus quarenta anos de carreira, como ele mesmo diz: ao verificar, como procedimento rotineiro, o registro da MSI na House Companies, em Londres, descobriu, estarrecido, que a empresa simplesmente não existia. Só no dia 31 de agosto, uma semana depois de Approbato revelar aos conselheiros do Cori que o Corinthians estava entregando seu departamento de futebol a uma empresa fantasma, a MSI foi criada em Londres. Ainda assim, Joorabchian não aparece entre seus sócios – que está em nome de outra obscura pessoa jurídica – e o capital social declarado é de 1.000 libras esterlinas. “Como uma empresa que ninguém sabe de quem é, com um capital de 6.000 reais, pode se responsabilizar por um empreendimento, de 40, 50 milhões de dólares?”, indaga o advogado.
Inconformado com o negócio pelos mesmos motivos, delegado e deputado Romeu Tuma Jr., com longa experiência na investigação de máfias brasileiras e estrangeiras, acionou a Abin – Agência Brasileira de Informação – e a Interpol – onde havia trabalhado – para pedir informações sobre a MSI, Joorabchian e o magnata Berezovski. No final de agosto, recebeu um relatório da Abin confirmando as suspeitas de que o iraniano da MSI sempre havia atuado como testa-de-ferro de Berezovski e outros homens ligados à máfia russa e tchetchena, todos com pedido de prisão decretado pelo governo Putin. Algumas semanas depois, a Interpol confirmou e ampliou os dados obtidos pela Abin sobre Berezovski e seus sócios, e também o mandado de prisão contra o magnata russo acusado de ganhos ilícitos e lavagem de dinheiro.
As investigações do deputado policial chegaram aos ouvidos de Dualib, que telefonou a Tuma pedindo que mostrasse os relatórios a dois homens de sua confiança: o médico Jorge Kalil e o juiz Miguel Marques. Ao ler os documentos, Kalil pediu a Tuma que conversasse por telefone com a neta de Dualib, Carla, que se declarou “muito preocupada” com as descobertas do deputado, e com o próprio presidente do Corinthians, que reconheceu a gravidade das acusações, mas não admitiu recuar da negociação com a alegação de que romper o pré-contrato acarretaria no pagamento de uma multa de 25 milhões de dólares, prevista entre as cláusulas leoninas impostas pela MSI. Tuma argumentou que o pré-contrato não tinha validade jurídica, uma vez que Joorabchian cometera falsidade ideológica ao se declarar representante de uma empresa inexistente, e combinaram de conversar pessoalmente.
A conversa não ocorreu por falta de “clima” entre os interlocutores. No dia 12 de novembro de 2004, Tuma recebeu uma ligação anônima o ameaçando de morte. Dois minutos depois, recebeu nova ligação, do mesmo número de telefone, mas não atendeu. Ao ouvir o recado gravado, o deputado reconheceu a mesma voz, dessa vez dizendo: “Quero agradecer o senhor por ter ferrado o Corinthians, agora vamos ficar pobres como o Botafogo”. O delegado Aloízio Pires de Araújo, da 2º Delegacia Seccional, SIG-SUL da capital, abriu inquérito para esclarecer o episódio e descobriu que o celular do qual partiram as ligações pertence ao centro cirúrgico do Hospital São Luiz. Ouvido na delegacia, o anestesiologista Sérgio Humberto Erdmann assumiu a autoria da segunda ligação (negando a primeira, que não foi gravada), e afirmou ter feito a ligação a pedido de seu superior, o médico Jorge Kalil.
Houve outra tentativa de calar o deputado, dessa vez mais “suave”. Tuma Jr. foi procurado em seu gabinete na Assembléia Legislativa por Marcelo Squassoni, um ex-funcionário de seu irmão, Robson Tuma, que propôs um suborno de 1 milhão de dólares em nome de Renato Duprat Filho para que não “atrapalhasse” mais as negociações. Cauteloso, o deputado gravou a conversa e pediu a Squassoni que ligasse a Duprat de sua sala para confirmar a veracidade da “oferta”, o que foi feito e também gravado, como consta de inquérito policial aberto no 36º Distrito Policial da capital paulista.
A diretoria do Corinthians já tinha conhecimento de tudo isso quando o contrato foi apresentado para aprovação, na polêmica reunião de 23 de novembro. Também não havia como ignorar que, com um capital de 1.000 libras esterlinas, seria muito difícil à MSI cumprir duas das principais exigências dos conselheiros do clube, incluídas nas cláusulas do contrato: a apresentação de uma carta-fiança no valor de 20 milhões de dólares, emitida por um banco internacionalmente reconhecido como “de primeira linha” – que nunca chegou –, e o compromisso de que todo o dinheiro transferido pela MSI ao Corinthians fosse registrado no Banco Central do Brasil. Pelo menos em relação à aclamada compra do passe do craque argentino Carlos Tevez já se sabe que isso não ocorreu.
LAVAGEM “DE VARAL”
Na opinião de Tuma não resta dúvida: o objetivo
principal do arrendamento do Corinthians por Joorabchian e sua turma
é lavar dinheiro, o que não constitui exatamente uma
novidade no mundo do futebol. Duas CPIs – a CPI da CBF-Nike
na Câmara e a CPI do Futebol no Senado – chegaram a crimes
comprovados de lavagem de dinheiro, seja através da movimentação
de contas em paraísos fiscais, cujos recursos eram transferidos
para o Brasil por meio de um esquema sofisticado envolvendo contas
CC5 (como no caso do escândalo do Banestado), seja de um modo
mais simples: a supervalorização de valores na compra
e venda de passes ou direitos de imagem dos jogadores.
A simplicidade desse segundo esquema tem como desvantagem a maior exposição dos mecanismos do crime, daí ter sido apelidado de “lavagem de varal” por policiais que investigam as operações de transformar dinheiro “sujo” (ilícito e, portanto, sem origem declarada) em dinheiro “limpo” (cuja origem pode ser justificada). A CPI do Futebol encontrou esse tipo de lavagem entre as transações feitas pelo Flamengo durante a vigência de sua parceria com a ISL, uma gigantesca empresa suíça de marketing esportivo, que assinou com um contrato com o clube carioca semelhante ao da MSI com o Corinthians. Em catorze meses a ISL despejou os 80 milhões de dólares no Flamengo, mas os 20 milhões de dólares que, pelo contrato, deveriam ser usados para saldar as dívidas do clube (por coincidência, exatamente o mesmo valor prometido pela MSI para pagar as dívidas do Corinthians), foram desviados para a compra de jogadores e de direitos de imagem, enquanto a dívida do clube crescia 140 por cento.
“O detalhe é que nenhum dólar desses milhões passou pela contabilidade do Flamengo. Era a mala preta que funcionava pra lá e pra cá nas negociações milionárias de passes e direitos de imagem de jogadores”, conta o ex e atual presidente do Flamengo, Márcio Braga, conselheiro do clube à época da parceria. Por esse motivo, as transações dos jogadores comprados pelo Flamengo foram consideradas pelo Banco Central como operações fraudulentas de câmbio e o clube foi multado em 100 por cento do valor de cada uma delas. A primeira multa, de 35 milhões de reais, vence no mês que vem.
A mesma coisa pode acontecer com o Corinthians, se for comprovada alguma fraude na compra do passe de Carlos Tevez, feita em dezembro de 2004 pela MSI, por anunciados 22 milhões de dólares. Já se sabe que o dinheiro não passou pelo BC, mas há a possibilidade legal de que uma empresa internacional, associada à MSI, tenha comprado o jogador na Argentina e cedido seus direitos ao clube paulista. A transação será investigada pelo Banco Central, como anunciou o órgão. Se for comprovada a fraude, o Corinthians – que até agora só viu 2 milhões de dólares dos 20 milhões prometidos pela MSI –terá de pagar uma multa no mínimo igual ao valor milionário pago pelo jogador argentino.
DE PAI PARA FILHO
Confirmada a compra do passe de Carlos Tevez, a desconfiança
de Tuma Jr. cresceu. Era exatamente o que faria uma empresa interessada
em lavar dinheiro, na modalidade varal: um contrato milionário,
ao que tudo indica com recursos transferidos diretamente das Ilhas
Virgens Britânicas para a Argentina, sem nenhum papel que comprove
o valor real da transação.
Um documento obtido pelo deputado em dezembro mesmo reforçou suas suspeitas: uma carta do governo britânico aos governos brasileiro e americano pedindo que as agências de inteligência dos dois países (Abin e FBI) monitorassem a aplicação de recursos financeiros de Joorabchian. Tuma juntou os relatórios recebidos anteriormente, as notícias de jornal que falavam de uma possível revenda de Tevez para o time inglês Chelsea e da possível compra do passe do jogador brasileiro Wagner Love do CSKA e entregou o dossiê ao Ministério Público Estadual, pedindo a abertura de um procedimento investigatório.
Ele explica: “Se o objetivo da MSI é realmente lavar dinheiro, as transações de Tevez e Wagner Love se encaixariam perfeitamente. No caso de Tevez, a lavagem se completaria com a venda de seu passe ao Chelsea, assim como a compra do passe de Wagner Love do CSKA também por um valor astronômico, embora ainda não concretizada. Afinal, Chelsea e CSKA têm o mesmo dono, Roman Abramovich, velho parceiro de Berezovski”. Ou seja, o grupo estaria lavando dinheiro comprando e vendendo jogadores para times que também lhe pertencem.
O dossiê de Tuma foi entregue ao procurador-geral do Estado
de São Paulo, Rodrigo Pinho, no dia 18 de janeiro, que o encaminhou
ao Gaeco (Grupo de Repressão Especial ao Crime Organizado).
O comando das investigações está a cargo do promotor
Roberto Porto, que considera “graves” as denúncias
envolvendo fraudes, evasão fiscal e lavagem de dinheiro por
parte do que seria uma quadrilha organizada internacionalmente, mas
acha que “ainda é cedo para falar sobre o caso”.
Muitas surpresas ainda devem vir, acredita o promotor, que, uma semana
depois de receber o dossiê, recebeu outro documento, no mínimo
estranho. A MSI Licenciamentos e Administração Ltda.,
constituída em São Paulo pela MSI sediada em Londres
para gerenciar o licenciamento de direitos do Corinthians e o departamento
de futebol “arrendado”, foi registrada na Junta Comercial
do Estado de São Paulo, no dia 21 de outubro de 2004, como
exige o contrato da parceria. O patrimônio da empresa, no entanto,
mais uma vez não condiz com a magnitude dos negócios
que tem de administrar. De acordo com o registro na Junta, o capital
da empresa é de 1.000 reais. Também não consta
o nome de Kia Joorabchian como sócio. Os sócios são
dois advogados da Veirano Associados, ambos com menos de cinco anos
de formados: Carlos Fernando Sampaio Marques e Maurício Fleury
Pereira Leitão. O endereço registrado é o mesmo
desse escritório de advocacia em São Paulo, que tem
entre seus clientes o próprio Kia Joorabchian.
Marina Amaral é jornalista
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UM DEFENSOR CONVICTO |
João de Barros foi ouvir o presidente corintiano, Alberto Dualib, o homem que assumiu o contrato de parceria com Kia.
Qual é o patrimônio do Corinthians?
Um bilhão de reais. Só de terra dá uns 700 milhões.
São 200.000 metros quadrados no Parque São Jorge, 200.000
metros em Itaquera, com um centro de treinamento moderno, hotel cinco
estrelas, com 24 apartamentos duplos, onde fica a molecada que ganhou
a Taça São Paulo de juniores e outro centro de treinamento
com mais 230.000 metros na Airton Senna. Com o dinheiro que sobrar
da parceria, vamos construir lá o centro de treinamento mais
moderno do Brasil.
O clube estava em situação difícil antes
da parceria?
Antes das parcerias, e mesmo nos intervalos entre elas, o balanço
era zerado vendendo dois ou três jogadores por ano. Mas há
três anos não vendemos ninguém. Por isso, tivemos
dificuldades. Mas nunca atrasamos um dia a folha de pagamento. Nenhum
compromisso o Corinthians atrasa. O nosso passivo é de 20 milhões.
E por que se fala em 60 milhões?
Falam por falar, bobagem. Quem conta um conto aumenta um ponto. Vale
o que está lá. É um clube muito equilibrado.
As finanças estão zeradas?
Exatamente. É só receber da MSI. E eu só pedi
2 milhões de dólares até agora porque o dólar
está muito baixo. Quero ver se melhora, mas entrando os 20
milhões de dólares zera tudo.
Quando e como a MSI procurou o senhor? Foi o Renato Duprat,
o Kia...?
Os dois, o Renato e o Kia. E tivemos informações muito
precisas. Eles procuraram outros clubes, mas acharam que o Corinthians
tem a maior torcida, o maior retorno, situação financeira
estável, não tem passivo gravoso, está em dia
com os impostos, tudo isso foram aspectos fundamentais que os incentivaram
a investir no Corinthians. E porque tem diretoria íntegra.
Se o dirigente é malandro, o cara não faz negócio.
Na contramão, presidente. O senhor não conhecia
a fama de trambiqueiro do Renato Duprat na praça?
Ele só intermediou. Não participou da negociação,
apresentou o negócio. E eu o considero uma pessoa correta.
Ele ganhou alguma comissão na intermediação
do negócio?
Do Corinthians, nada. Se teve alguma coisa é lá com
Londres.
Qual foi a sua impressão do Kia ao vê-lo pela
primeira vez?
Ele me foi apresentado no Fasano. Depois vieram outras investidores
de Londres.
Qual o nome deles?
Não vou falar mais nome de investidor nenhum. Dá muita
confusão.
O Badri veio ao Brasil?
Não, não veio. Ele é dono de um clube lá,
o Dínamo Tbilisi. É uma pessoa muito abastada, de muitos
recursos. Se fala muito disso, daquilo, mas ninguém prova nada.
Tem muita coisa que aconteceu até no Brasil. É só
olhar as privatizações que tiveram por aqui, se considerar
como foram feitas, vai achar parecida com a história de lá.
Como foi a visita ao Berezovski?
Ele falou que não tinha interesse no negócio, não
era o ramo dele. Ele apresentou a gente na Geórgia a esse amigo
(Badri). A Geórgia tem uma cultura meio italiana, viu? Quinze
times de futebol. E esse homem tem televisão, tem tudo lá.
Um negócio de louco. Tem alumínio, um magnata, viu?
E ele falou: “Quero parceria de intercâmbio, trazer a
cultura do futebol do Brasil para cá e mandar jogadores para
aprender no Brasil”. O acordo foi assinado, é um protocolo
com o Dínamo de Tbilisi.
Presidente, o Kia manda no futebol do Corinthians?
Não, absolutamente. O Kia é um parceiro. Todo negócio
que ele faz é discutido entre quatro – dois do Corinthians
e dois dele.
Mas o Kia tem o voto de minerva.
Mas não tem acontecido isso porque não tem havido divergência
de modo que ele precise usar o voto de Minerva. É um casamento
recente, um precisa conhecer mais o outro. O contrato diz: o Corinthians
não perde autonomia. Voto de Minerva é briga. E briga
não vai existir. A administração é coletiva.
Se eles montam um time forte, ganhando títulos, pagando o passivo,
as despesas do futebol, quem é que vai brigar com um parceiro
desse? Só se não for inteligente.
Segundo o contrato, a autonomia é da MSI.
Não existe autonomia. Autonomia é do clube. Artigo 217
da Constituição! (Artigo 217: “É dever
do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-formais,
como direito de cada um, observados: (I) a autonomia das entidades
desportivas dirigentes e associações, quanto a sua organização
e funcionamento”.)
Como foi a contratação do Tevez?
Foi discutida, mas não vou entrar em detalhe.
Foi uma operação legal, passou pelo Banco Central?
Não. Só tem de passar pelo Banco Central o dinheiro
do Marcelo Mattos, que era de São Paulo. Quando é de
um país para outro não há necessidade. A MSI
comprou o Tevez e passou o direito federativo para o Corinthians para
ele poder jogar. Porque empresa não pode ter jogador. Só
clube.
O senhor não receia que o Banco Central queira saber
qual é a origem do dinheiro?
Não, absolutamente. Isso é onda. Tudo que está
sendo feito é legal, dentro da lei, por advogados que consultam
o Banco Central, a Receita.
O senhor é avalista de alguns negócios do Corinthians.
Em algum momento o senhor temeu perder algum patrimônio pessoal
por causa de dívidas do clube?
Absolutamente, nunca me preocupei com isso. Tudo que acontece no Corinthians
eu assino. Com o vice-presidente ou o vice de finanças. A única
coisa assinada com aval são 2 milhões do Bradesco, uma
conta caução, que se paga juros sobre o saldo devedor.
Um negócio que todo mundo faz.
O senhor recebeu alguma carta do Banco Morgan Stanley recomendando
o Kia?
Me entregaram a carta em Londres, do Morgan Stanley recomendando-o
como pessoa íntegra, que os negócios dele sempre foram
muito sérios.
O senhor não se assusta com o passado do Kia? Quatro passaportes,
nomes diferentes...
Não. Falam muito, mas não vi provar nada. Até
agora não aconteceu nada, espero que não aconteça
e acho que não vai acontecer.
O Kia tem contra si um processo na Corte de Nova York...
Ele disse que não existe nada contra ele em Nova York.
Nos Estados Unidos, o Kia é acusado por um ex-amigo
chamado Roy Azim de ter sumido 17 milhões de dólares
dele.
Nunca soube disso.
E se o senhor deparasse com essa informação,
que providência tomaria?
Nenhuma. É problema dele, não é problema meu.
Não abalaria o casamento?
De jeito nenhum. Isso é coisa que diz respeito a ele em outro
país. Ele me garantiu que não existe nada, que isso
foi um negócio lá que queriam prejudicá-lo. Não
vejo por que tenha influência no Brasil.
Presidente, pelo contrato, ele tem poderes até para
transferir o futebol do Corinthians para outra empresa.
Só se for alguma empresa ligada a ele mesmo e se estiverem
de acordo ambas as partes. Ele é um homem de futebol. Já
investiu 98 milhões de reais com dois jogadores. Comprou o
Tevez por 23 milhões de dólares, 70 milhões de
reais. O Carlos Alberto custou 8 milhões de euros, 24 milhões
de reais. Só aí já dá 90 e pouco. Estão
pagos. No dia 7 de fevereiro ele vai pagar o Sebastian, mais 4 milhões
de dólares. Está aí o que ele desembolsou.
Ele fez uma auditoria no clube antes de assumir o departamento
de futebol?
Ele mandou o pessoal do Morgan ver contabilidade, documentação,
mas não fez auditoria. Na época, o Morgan estava ligado
ao escritório lá (Veirano Advogados). E nós temos
auditoria mensal, respeitada, feita por uma empresa nacional.
Surgiram notícias de que alguns dirigentes são
remunerados no Corinthians. É verdade?
Não, absolutamente. Alguns recebem ajuda de custo para despesas
de transporte, gasolina etc. Mas não existe dirigente remunerado.
Quem apôs a assinatura no contrato MSI Corinthians?
O presidente do Conselho, eu e mais dois vice-presidentes. O contrato
foi aprovado por maioria absoluta. E eu teria, de acordo com o estatuto,
condição de assinar sem passar pelo Conselho.
O senhor também tem o Conselho na mão. Há
doze Dualibs no Conselho.
Não fale isso. Tinha quatro na administração
anterior. Depois, eu coloquei mais seis, mas já tirei dois
que não comparecem. Tem gente com muito mais conselheiro da
família do que eu. E quem indica os conselheiros não
sou eu. É o presidente do Conselho.
E quem assinou pela MSI?
O Kia e um diretor dele lá, da empresa dele. A MSI tem dois
diretores.
Quem são?
Diretores deles lá. Eu sei, mas não vou lhe dizer.
Eu lhe digo, presidente. São dois advogados da Veirano:
Carlos Fernando Sampaio Marques e Maurício Fleury Pereira Leitão.
A MSI no Brasil foi montada com capital de 1.000 reais. O que o senhor
tem a dizer a respeito?
A empresa vai ser capitalizada com o dinheiro que vem de fora. Quando
chegarem os 20 milhões, ela integraliza o capital. Não
é preciso abrir empresa com capital alto.
O senhor conhece a empresa Lusoarenas? Fez algum negócio
com ela?
Conheço a empresa, mas não fizemos negócio com
ela. Havia um pré-contrato para construir o estádio
do Corinthians, mas venceu o prazo e nós não renovamos.
O representante da Lusoarenas, Aníbal Coutinho, contou
a conselheiros que lhe foi solicitado propina para o negócio
ser concretizado.
Absolutamente. Nunca houve isso. Se ele falou, pode sofrer um processo.
Eu não admito uma coisa dessa. Não vou falar o nome,
mas eles é que tinham intermediários.
O senhor e sua neta Carla têm contas no exterior?
Não.
Como foi o contrato com a sua neta Carla, que nem passou
pelo Conselho?
Não precisa passar pelo Conselho. Eu tenho autonomia para fazer
isso. E ela não tem exclusividade. Quem quiser fazer contrato
é só levar que o clube faz. O Kia já me falou
que vai continuar trabalhando com ela. Se ela arrumar contrato bom,
vai ter a comissão dela, de 10 por cento, quando todo mundo
cobra 20 por cento.
Quanto vale hoje o patrocínio na camisa do Corinthians?
Nos dois últimos anos foi 25 milhões. Dois milhões
foram comissão da SMA (empresa da neta). Hoje estamos com a
camisa branca e vamos ver os interesses. Acho que vale pelo menos
20 milhões. Mas vamos aguardar, 17, 18 milhões.
O clube fica com quanto?
Tudo que faz parte da receita de futebol – patrocínio
na camisa, renda de bilheteria –, eles têm 51 por cento
e nós 49 por cento, abatidas as despesas. O contrato é
muito bom, viu? Nele, você viu, a gente não perde nada:
eles dividem o lucro e bancam o prejuízo. E ninguém
faz nada sem a palavra final do presidente, ele que assina. Não
tem essa história de arrendado. Tanto que é meio a meio.
Presidente, o senhor disse: “Ninguém faz negócio
com gente que tem problemas”. Mas o senhor e suas empresas,
entre elas a Rol Lex, têm diversos títulos protestados
Eu não tenho empresa há quinze anos. A Rol Lex não
tem nada a ver comigo. Estava na mão de um filho e de um sobrinho.
Se aparece o nome é o sobrenome.
Aparece Alberto Dualib.
A empresa teve problemas internos de administração depois
que eu saí. Quando saí, o chefe... eles tiveram prejuízos
por muitos anos. Mas eu não tenho mais nada a ver com ela.
Quando eu estava lá, dava aval. Mas está tudo com garantia.
Para encerrar, o senhor pretende fazer a sucessão
no Corinthians ou vai permanecer no cargo?
O futuro a Deus pertence. Falta um ano. Não vou antecipar nada.
Se chegar até lá, é evidente que vou tentar fazer
o sucessor. Agora, permanecer na presidência, o tempo dirá.
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