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Nasce mais um Clube de Trocas: a experiência em economia solidária nos bairros Nova Viçosa e Posses

 

São 17h 40 e a tarde ensolarada de sábado dá lugar ao início da noite. Dezenas de crianças correm de um lado para outro, levantam poeira e amplificam o barulho sertanejo que escapa do porta-malas de um automóvel, estacionando em frente a um bar. É o começo do primeiro clube de trocas de Nova Viçosa e Posses, bairros da periferia de Viçosa, Minas Gerais. Antes, porém, o grupo de aproximadamente 20 pessoas faz uma roda. Alguns ainda têm dúvidas de como irá funcionar, convesam entre si. O barulho aumenta e chega a atrapalhar a conversa. “O que eu vou fazer com o Café (o nome da moeda) se não posso comprar com ele fora daqui?” pergunta Conceição, empregada doméstica, 37 anos.

Café agora é moeda social, apesar de não valer nos supermercados ou padarias do bairro. No galpão da Associação Assistencial da Pastoral da Oração de Viçosa (APOV) ele circula de mão em mão, tem valor de troca. “Como tem muito café na região, ele foi escolhido para ser o nome da moeda”, explica José Eufrásio da Cruz, 29 anos, pedreiro, enquanto cadastra os primeiros sócios do clube.

Na Zona da Mata mineira o café costuma ser mais que um produto, faz parte da cultura local. A cafeicultura foi fundamental no povoamento da região há dois séculos e hoje está presente em qualquer visita inesperada aos moradores. Apesar de constituir apenas 5% do território mineiro, com seus 35.000 km2, a região foi até o início do século 20 a mais rica do Estado, por apresentar as melhores condições físicas para o cultivo do grão, que na época era a maior riqueza do país.

A região já foi a maior produtora do Estado, variando proporcionalmente de 90% na década de 1880 até 70% na década de 1920. Isto levando em conta que nesses anos o café ocupou sozinho, cerca de 60% do total das exportações de Minas. Hoje se não produz tanto, com a crise na década de 20 a região perdeu espaço para o sul de Minas, mas a cultura ainda é forte, tanto que foi o nome escolhido pelo grupo para a moeda social.

O banqueiro José

Usando boné de uma equipe de basquete norte-americana, camisa pólo azul, bermuda e chinelo de dedo, José não tem pinta de Olavo Setúbal ou Henrique Meirelles, mas é quem regula a moeda que circula no recinto. Controlar o Café significa, simbolicamente, poder. Entretanto, o discurso de José é diferente do baronato que ainda sobrevive na região. Ele avisa que quer é distribuir. José e Adriana Madalena, 33 anos, foram escolhidos pelo grupo para administrar o banco no primeiro momento do clube de trocas, mas ressaltam que o sistema é rotativo e que nas próximas reuniões têm que prestar conta a todo o grupo.

Os dois foram também os primeiros a chegar. José trazendo couve e abóbora, plantadas no quintal de sua casa e que valem meio Café cada. Adriana trouxe pé-de-moleque caseiro que custa um Café o pacotinho. “Não sei se está bom, mas ninguém vai quebrar o dente”, diz ela, bem humorada, e um tanto receosa por expor pela primeira vez um produto feito por ela.

De pedreiro a banqueiro, José cadastra
moradores pro clube de trocas.

A moeda simbólica é um instrumento para facilitar as trocas e não deve ser acumulada ou vendida. A cada cadastrado - chamados ‘prossumidor’ por serem consumidores e produtores ao mesmo tempo - é emprestado cinco Cafés para a primeira feira, que devem ser pagos, sem juros, antes da próxima. A cotação de um Café é de um real, a princípio. José explica que a idéia é que com o passar do tempo o grupo cresça, fortalecendo o clube e, conseqüentemente, a moeda. Já convencida e com algumas notas no bolso, Conceição circula entre as mesas e se interessa por toalhas de renda e panos de prato que Maria Eufrásio, 28 anos, dona de casa, faz em enquanto cuida da filha Isamara, de nove.

Isamara nasceu com paralisia cerebral. Pelo tamanho e idade não deve pesar menos de 20 quilos, mas Maria Eufrásio, que é irmã de José, a carrega para onde vai. Sem perder o ânimo, ela conta que o que vale é a oportunidade de expor seus produtos e de conhecer o que os companheiros de bairro produzem. As toalhinhas de Maria Eufrásio custam entre quatro e oito cafés.

Já Maria, 80 anos, é a mais velha da feira e também a mais modesta; trouxe para expor apenas um copo de vidro de requeijão, lacrado com plástico. O recipiente contém uma pasta verde com aparência pouco convidativa. O valor, que ela mesma fixou, são cinco Cafés.

- O que é isso Maria?

- É um remédio a base de sebo de carneiro e ervas.

Para um pequeno grupo ela conta que quase perdeu o dedão do pé em um acidente com uma foice, mas que o ferimento cicatrizou usando apenas a pasta. “Cura desde queimadura até machucado” diz ela convicta que logo consegue trocar seu produto por Cafés. Pergunto se ela não quer trocar o saber: “não posso contar o segredo”, convicta.

Já Conceição continua circulando, gostaria mesmo que tivesse arroz, feijão, açúcar, óleo e macarrão que vão ajudar em casa, mas a feira ainda é bem modesta. A primeira edição conta apenas com 15 expositores. “É apenas uma experiência surgida após quatro reuniões. A idéia é que a própria feira possa capacitá-los e que assim cresçam com autonomia” diz Leonardo Leite, que assessora a feira pela Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Universidade Federal de Viçosa (ITCP).

Essa experiência em economia solidária, construída em conjunto com a população, vem sendo conduzida pelo programa de extensão universitária Teia, do qual a ITCP faz parte. O Teia é composto, atualmente, por 19 projetos e atua junto a setores da população geralmente excluídos dos direitos e da cidadania como agricultores familiares, atingidos por barragens, trabalhadores sem-terra, moradores de periferia, alunos e professores de escolas públicas. Segundo Leonardo, “uma universidade mais aberta e democrática para a população é o que estamos tentando construir”.

Os primeiros clubes de troca

O Clube de Trocas são recentes no Brasil. O primeiro aconteceu em São Paulo, em 1998, iniciou-se como um local de troca de saberes e, em seguida, passou a incorporar bens e serviços. Hoje os clubes de troca se multiplicaram pelo país, juntamente com o número de sócios. “Eles representam alternativas criadas para resistir às contradições econômicas, já que abrem possibilidades de adquirir e fornecer bens e serviços entre os membros do próprio grupo”, afirma Leonardo.

Neles algumas regras devem ser respeitadas, cada um troca o que quer e todos devem participar das reuniões e têm o direito de voto. A metodologia adotada reúne elementos da educação popular, práticas dos movimentos sociais e das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O propósito desses clubes é que os moradores possam buscar saídas coletivas para os problemas comuns.

Em nova Viçosa e Posses, bairros da periferia, que juntos contam com pouco mais 5.000 habitantes, em sua maioria negros e mestiços, eles também são uma novidade. O comum é encontrar por ali desempregados, fome e doença que desembocam, quase sempre, em violência, como em quase todas as periferias do país. O bairro, que era loteamento de um empresário que se elegeu prefeito local, foi um ‘presente de grego’ oferecido aos pobres no final de década de 70.

A elite local gosta de dizer que o loteamento foi distribuído com o objetivo de fornecer à população menos favorecida, condições de acesso a um pedaço de terra para construção da moradia. Olhos atentos e críticos, entretanto, percebem muito mais. Fizeram ali um gueto capaz de esconder a nódoa que macula o nome da cidade universitária, símbolo de cultura e berço do ex-presidente Artur Bernardes.

Na época, o pedaço de terra foi repartido em um total de 5 mil lotes, desses 1 mil foram doados. Os que foram vendidos tinham preços populares - variando, na época, entre três salários mínimos e um e meio - e podiam ser financiados em até 24 meses. Porém, os baixos valores estavam associados à completa falta de serviços de infra-estrutura e saneamento básico, ainda presente, depois de quase 30 anos.

Essa é a primeira vez que um clube de trocas acontece no bairro. Com ele, como afirma José, os moradores pretendem melhorar as condições “materiais de vida”, mas quem observa com atenção percebe que o que acontece, apesar de pequeno, é maior do que isso. Organização popular, elevação da auto-estima, autonomia e novas formas democracia participativa são elementos não vistos com freqüência por ali que ganham acepção plena em uma simples feira.

Com o Café os moradores tentam suprir a ausência de escassos Reais. Tentam também superar as contradições que a própria monocultura do café construiu na região. Se dará certo ou onde essa experiência chegará, Liquinha, 56 anos, não sabe e nem desconfia. Ela tem os pés duros, firmes no chão e reclama de quanto gastou para trazer doces parafinados. “Vale pela solidariedade, mas a parte econômica para mim não foi vantagem”.

O certo é que o autor mais citado nas metodologias de trabalho que envolvem as redes de economia solidária é Paulo Freire. “É que ninguém caminha sem aprender a caminhar, sem aprender a fazer o caminho caminhando, sem aprender a refazer, retocar o sonho por causa do qual a gente se pôs a caminhar”.

Leonardo Vilaça Dupin é jornalista.


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