Pela lente do diretor
por Cesar A. Gananian
Primeiro dia de filmagem. Observo no set a agitação de dezenas de artistas que estão aqui, por terem acreditado em um delírio concebido na solidão de uma madrugada qualquer, num monólogo interior que teve que se expandir em diálogos e diálogos para assim começar a virar filme. Como é difícil não me emocionar nesse exato momento.
Acordo. A responsabilidade de orquestrar todas essas cabeças criativas em alta velocidade e buscar uma unicidade para a obra requer frieza. A emoção desfoca o olhar crítico do realizador.
Cabos gastos e sujos se arrastam pesados pelo chão, tripés experientes e poderosos focos de luzes são posicionados por ágeis eletricistas. A suavidade da luz criada – enfim - ilumina o cenário e me tranqüiliza.
Em minha direção vem o ator, o elemento vivo de um filme. É com ele que terei que me dedicar profundamente a partir de agora (apesar da impossibilidade de ser uma dedicação exclusiva). O personagem já esta construído em seu exterior: a figurinista ao seu lado me mostra algumas opções diferentes de ajeitar a camisa. O ator colabora mostrando o efeito que essas opções refletem nas suas movimentações da cena a ser rodada. Como é bom o trabalho em equipe!
O diretor de som ensaia com ator e com o câmera as melhores posições para captar o som, de forma que o microfone não entre em quadro. Silêncio no set. Cinema é 50% imagem e 50% som. Ok... som! “Porque ainda não começamos a rodar?”, pergunta o assistente de direção. Um minuto… O diretor de arte rapidamente improvisa um criado-mudo para preencher uma pequena parte vazia da parede do cenário. O continuista atento, tira novas fotos dessa mudança. Ok, arte. Ok, luz...
Todos estão prontos, mas não quero rodar sem mais alguns ensaios. Filme independente tem pouca película, não temos o luxo de ficar repetindo inúmeras vezes a mesma tomada. Além do mais, como diz Jim Jarmusch, “a partir da segunda tomada os atores começam a atuar”. Tem que ser de primeira!
Confio no ator. Ele esta seguro, concentrado e confia em mim. Os meses anteriores de estudos e experimentações que tivemos foram fundamentais para essa segurança. A interpretação é um trabalho que envolve pesquisa. Acrescentar pequenos detalhes sempre enriquece a construção do personagem, Os ensaios nos permitem arriscar exageros, ir ao máximo para depois diminuir e assim, pouco a pouco, encontrar o tom e ritmo dos diálogos.
Estou sentado de frente para o pequeno monitor, imaginando como ficará esse plano ampliado a quase dez metros de alturas por quinze de largura. Me sinto quase seguro. Som? Gravando!Câmera? Rodando! Vai claquete! Cena 1 , plano 1, tomada 1. Só me resta dizer:
-Ação!!…
Como é difícil não me emocionar nesse exato momento.
Cesar A. Gananian é cineasta.