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A fórmula do filme de sempre

por Cesar A. Gananian

A estrutura em si é muito simples: duas horas de filme divididas em 3 atos, recheados de clichês para facilitar o entedimento (afinal, para fazer um filme de sempre não se deve confiar na inteligência do espectador).  

O primeiro ato costuma ser o mais tranqüilo. Em um dia geralmente ensolarado, conhecemos melhor o personagem central e seu cotidiano. Nada muito complexo, geralmente uma personalidade bondosa ou carismática, um sujeito qualquer vivendo uma vida qualquer.

Porém, passados 30 minutos (tempo suficiente para que espectador já esteja familiarizado com todos personagens e o mundo que os rodeia), alguma coisa muito importante acontece. Chegamos ao famoso Ponto de Virada! O homem é despedido, a garota foge de casa, o experimento dá errado e o cientista vira um cachorro. Enfim, rompe-se a delicada estabilidade em que viviam os habitantes daquele filme.

As regras que conhecíamos já não valem mais nada porque, a partir de agora, estamos no segundo ato. Todos estão perdidos: durante uma hora os nossos desamparados personagens estarão sendo postos a inúmeros desafios. Pequenas derrotas, pequenas vitórias.Van Damme tentando quebrar uma árvore na Tailândia… com a canela. A garota aprendendo a se maquiar e descobrindo os poderes de um decote.  Dor e perseverança! Nesse segundo ato temos, muitas vezes,  a presença do mestre, uma pessoa sábia e excêntrica que guiará o personagem principal. Vale lembrar que os atores que fazem esses papéis costumam ser indicados ao Oscar de ator coadjuvante.

Uma hora e meia de filme percorrida. O personagem principal já não é mais tão ingênuo como no começo da história. A experiência do segundo ato o preparou  para enfrentar o Segundo Ponto de Virada e assim entrar no terceiro ato. O maior medo do nosso personagem finalmente terá de ser confrontado. Talvez seja interessante acrescentar bastante chuva e que toda a sequência seja noturna.

Clímax. O rapaz tímido decide confessar seu amor, mas é tarde demais, a garota cansada de esperar já fez as malas e está na estação de trem para mudar de vida. A corrida contra o tempo, a luta final, a descoberta de que o mestre, na verdade, é o vilão! Meia hora de cenas com cortes rápidos, suor, sangue, lágrimas. E…de repente... um longo plano em câmera lenta.  O grande plano que decidirá a vida de todos os personagens. Clichê favorito do filme de sempre. A bola de basquete gira no aro….vai entrar ou não? Claro que sim, é  para isso que pagamos o ingresso! NUNCA se deve decepcionar o cliente, ou melhor, o espectador. Vitória, amor, justiça. Fim. 

Sobem os créditos e o público se emociona com a trilha sonora orquestrada por John Williams. Pouco a pouco as luzes do cinema se acendem e, cansado do turbilhão de imagens, o espectador volta à realidade, como se o efeito da droga estivesse passando… Ele perdeu todo seu senso crítico e, nessa ressaca,  se sente intimamente frustrado. A mensagem do filme de sempre é sempre uma só: sua vida não passa de um longo primeiro ato.

Obs: Existem outros tipos de filmes, mas esses não costumam ter fórmulas…

 

Cesar A. Gananian é cineasta.

 

 


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