
Não seria de estranhar o encontro entre presidentes de países que são os maiores produtores de etanol do mundo tendo como pauta uma estratégia conjunta para desenvolver e comercializar uma fonte de energia alternativa ao petróleo, especialmente quando os combustíveis fósseis escasseiam, atingem preços exorbitantes, e poluem perigosamente o planeta. A questão é: Brasil – com 16 bilhões de litros anuais – e Estados Unidos – com 17 bilhões de litros anuais – há muito não negociam em pé de igualdade. Se isso já desperta desconfiança, a preocupação aumenta quando se sabe que, do ponto de vista de preço e qualidade, o nosso etanol – de cana-de-açúcar – é superior ao deles – de milho –, e a tecnologia brasileira está à frente da americana. Para piorar, o interlocutor do lado de lá é George W. Bush, o mais agressivo cultor da hegemonia americana dos últimos tempos.
Pelo petróleo Bush invadiu o Iraque e matou, até agora, mais de 100.000 civis, além de 3.000 soldados de seu próprio Exército. O que realmente quis o presidente dos Estados Unidos nessa conversa com o presidente Lula é o que procuram responder três matérias a seguir – visão de três intelectuais brasileiros que conhecem o assunto: Gilberto Felisberto Vasconcellos, sociólogo e um dos primeiros a perceber a importância geopolítica e ambiental dos combustíveis vegetais para o futuro do país e do planeta; o físico Bautista Vidal, um dos fundadores do Proálcool; e o embaixador Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e especialista em comércio internacional.
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Latifúndios no Brasil, o objetivo de Bush
Os norte-americanos sabem que a única solução energética é a produção extensiva de álcool e óleos vegetais. Dessa vez, querem o nosso território, como mostra Gilberto Felisberto Vasconcellos.
por Gilberto Felisberto Vasconcellos
Quando este artigo estiver nas mãos do leitor de Caros Amigos, o presidente Bush, tomando caipirinha escondido, já terá nos visitado, com o objetivo de fazer e assinar contratos entre os EUA e o Brasil a respeito da produção e comercialização do álcool e dos óleos vegetais, cuja produção só pode ser feita em terras dos trópicos. Por exemplo: o álcool da cana-de-açúcar, combustível que faz andar automóvel, trator, avião, indústria (tudo o que se faz com petróleo se faz com álcool) é extraído de plantas, cana-de-açúcar e mandioca, que não dão no território frio e temperado dos EUA.
A questão é física, geográfica, envolvendo a incidência de sol, de quantidade de calor e de água doce. O leitor não poderia perder de mira, por ocasião da visita do presidente Bush, que nenhum gênio ianque, japa ou tedesco será capaz de inventar uma tecnologia, digamos, um computador prodígio, que consiga transferir o sol de Belém do Pará para Wall Street.
Os jornais daqui e do mundo inteiro têm anunciado que o alvo precípuo da visita de Bush é o interesse pelo etanol, leia-se: o álcool, combustível substitutivo da gasolina que se tornou conhecido há trinta anos por causa do Proálcool mentalizado pelo engenheiro Bautista Vidal e seu amigo, o geólogo Marcelo Guimarães (este concebeu microdestilarias que produzem em 3 hectares de terra 200 litros de álcool, uma verdadeira agricultura familiar). Esses dois grandes cientistas são da escola da biomassa, saber de experiência energética e tecnológica, escola que tem alertado os governos e a opinião pública de que o trópico úmido, neste século 21, está no epicentro da história mundial. O que isso significa do ponto de vista do processo civilizatório? E o que a questão do trópico tem a ver com a visita de Bush e seu encontro com Lula?
É preciso dizer, antes de qualquer coisa, que desdobramentos econômicos e políticos se prolongarão para além dessa visita; talvez não apareça nenhum político pefelê ou tucano a beijar o anel da mão de Bush, mas isso não quer dizer que o encontro Brasil-EUA não seja nocivo para nós, pois contrato em pé de igualdade com os EUA é conversa de urubu com bode desde a Doutrina Monroe. (...)
Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, escritor e jornalista.

O etanol, como fonte de energia, chamou a atenção da PDVSA — Petroleos de Venezuela S.A. —, que pediu ao professor J. W. Bautista Vidal esclarecimentos sobre o tema. As perguntas da empresa venezuelana e as respostas do especialista foram cedidas à Caros Amigos.
TRECHO 1
O que são realmente os biocombustíveis? Quais são suas vantagens?
São combustíveis vegetais, renováveis e limpos do ponto de vista ambiental, de natureza química, que substituem os combustíveis derivados do petróleo e podem ser obtidos a partir da energia solar por meio da fotossíntese das plantas. Pela necessidade da radiação solar, eles podem ser produzidos em grande escala nas regiões tropicais que disponham de água abundante. O Brasil tem a maior proporção de água doce do planeta. São combustíveis vegetais: a) o álcool etílico, obtido por fermentação dos açúcares ou amidos; b) os óleos vegetais e a celulose, e seus inúmeros derivados. Ademais, esses combustíveis são renováveis, pois têm origem na radiação solar; não produzem efeito-estufa devido ao equilíbrio negativo entre o CO2 retirado da atmosfera para a formação dos hidratos de carbono e lipídeos das plantas e o CO2 resultante da queima dos combustíveis vegetais derivados – etanol, óleos vegetais e celulose, e seus derivados. Esses hidratos de carbono e lipídeos são formados nas plantas por meio de uma reação química endotérmica em que a radiação solar, pela fotossíntese, fixa o CO2 e a água, combinando-os. Pela abundância de energia solar, sua produção é concentrada nos trópicos, onde os custos de sua produção são menores e decrescentes em relação aos combustíveis derivados do petróleo, de preços irremediavelmente crescentes. No Brasil se produz etanol de cana-de-açúcar por metade do custo do álcool obtido de milho nos Estados Unidos e a um terço dos custos na Europa obtido de beterraba. Enquanto o petróleo leva 400 milhões de anos para se formar a partir da radiação eletromagnética do sol, a qual depende de tecnologias não eficazes de captação e armazenamento, o óleo de girassol, por exemplo, leva dois meses para se formar a partir da radiação solar. E, como os demais óleos vegetais, é de fácil manejo tecnológico pelos pequenos produtores rurais. Além da cana-de-açúcar e da mandioca, excelentes conversores energéticos de radiação eletromagnética em energias químicas, existem nos trópicos centenas de variedades de óleos vegetais, com destaque para o óleo de palma nos trópicos úmidos – toda a região amazônica da América do Sul, por exemplo –, de altíssima produtividade, capaz de produzir nessas regiões cerca de 8 milhões de barris de óleo diesel vegetal por dia, o equivalente à atual produção de petróleo da Arábia Saudita. No caso, renovável, sem risco de exaustão, pois depende do Sol. Esse potencial é muito maior se forem incluídas outras regiões da América do Sul, especialmente com uso de irrigação. O Sol um dia irá apagar-se, mas isso levará 11 bilhões de anos, o que garante uma razoável sustentabilidade, conceito tão falado e pouco compreendido. Transformando esses fatos da física da natureza em realidade econômica, cria-se a possibilidade de existirem civilizações sustentadas. Elas passam a plantar a energia de que necessitam tomando como base a maior fonte de energia, que é o Sol. Isso possibilitaria criar dezenas de milhões de novos postos de trabalho permanentes em regiões estratégicas, vulneráveis, hoje submetidas ao perigo da ocupação estrangeira, direta ou indireta por meios econômicos, especialmente pela compra descontrolada de terras. O modo inteligente de evitar tais ocupações estrangeiras é promover o aproveitamento dessas regiões, agora estratégicas do ponto de vista energético, com empreendimentos em mãos de nacionais – trabalhadores e produtores. Isso é considerado por estrategistas militares como o modo altaneiro de desaconselhar perigosas incursões externas, econômicas e militares, em nosso território. Com a vasta produção nacional de energia vegetal autônoma, altamente descentralizada, com custos reduzidos, criam-se as condições para um salto econômico de grande dimensão, suprindo com vantagens excepcionais o mercado mundial quando se desenha claramente o colapso do petróleo e dos combustíveis fósseis. E essa mudança da matriz energética brasileira e mundial, possível e necessária, abre a perspectiva para uma industrialização diversificada, especialmente de alimentos, produtos de construção civil, farmacêuticos e químicos em geral, com uma vasta gama de subprodutos, alguns de alto potencial, com mercado garantido. São exemplos a resinoquímica (a partir da mamona), a alcoolquímica e a bioquímica em geral. De modo indiscutível, existe uma grande vocação produtiva de uma extensa e rica região associada à produção mundial de energias renováveis, no ocaso das energias não renováveis, cujo esgotamento leva à guerra, como vem ocorrendo.
Em especial, com o outro lado de uma mesma moeda, a biomassa energética traz consigo uma grande produção de subprodutos alimentares. O pequeno produtor rural, a agricultura familiar poderá ter nesse campo econômico um novo e enorme espaço que lhe proporcionaria importantíssimo papel – desde que apoiado institucionalmente em adequado desenvolvimento tecnológico, capacitação gerencial e infra-estrutura logística e de distribuição nacional – no mercado externo, que cresce de modo acelerado em países de altíssimo consumo que já sofrem com o colapso do petróleo. A produção descentralizada e em grande escala de energias vegetais renováveis e limpas dos trópicos não vem para competir com os produtores de petróleo, mas para reduzir as pressões e conflitos criados por essa escassez e previsto colapso, e para alongar a vida das reservas de importantes países produtores sob permanente risco de ocupação militar por países hegemônicos.
TRECHO 2
Os biocombustíveis podem realmente substituir o petróleo?
A grande abundância de energia solar dos trópicos do continente sul-americano, especialmente do Brasil e demais regiões tropicais, a excepcional disponibilidade de água, uma vasta fronteira agrícola ainda não utilizada de terras férteis e uma longa e comprovada experiência tecnológica de produção e uso dessas energias vegetais renováveis indicam tais potencialidades. Com a nova civilização da fotossíntese, a energia pode ser “plantada”, mudando a inexorável predeterminação das limitadas reservas fósseis e estabelecendo excepcionais vantagens comparativas da produção de combustíveis vegetais. Precisam, porém, ser complementadas com um novo quadro institucional de instrumentos operativos, eficientes e práticos, que envolvam adequadas infra-estruturas para assumir a nova dimensão mundial promovida pelo ocaso das energias não renováveis de origem fóssil. Essas conclusões foram apresentadas ao final de seminário promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, com participação de cerca de seiscentos especialistas e produtores, em 2005. Todos os estudos até aqui realizados, especialmente na Secretaria de Tecnologia Industrial do Ministério da Indústria e Comércio, principal responsável pela implantação do Proálcool, convergem para a mesma conclusão. O governo brasileiro está cuidando atualmente da criação de uma empresa de economia mista para responder pelos combustíveis renováveis, assim como a Petrobras cuidou com total sucesso do petróleo. A ação da Petrobras ocorre, porém, na área da mineração. O universo das energias renováveis envolve principalmente a agricultura, a bioquímica, exige bases científicas distintas e, conseqüentemente, pessoal de competências diversas, embora complementares. Produtos energéticos competitivos geram conflitos naturais que exigem adequado tratamento, para somar e fortalecer o quadro institucional nacional. Confundir seus objetivos provocará desgastes e desperdícios desnecessários, prejudicando os resultados.
Ricupero: etanol no lugar da Alca
por Marina Amaral
O embaixador Rubens Ricupero, que já foi ministro da Fazenda e secretário-geral da Unctad – Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento, e hoje é diretor da Faculdade de Economia da Faap, em São Paulo, e presidente da Fundação Fernand Braudel, que reúne historiadores e economistas do mundo inteiro, destaca que a importância da visita de Bush é mais política do que econômica, nesta entrevista a Marina Amaral.
TRECHO 1
Como o senhor está vendo essa visita de Bush ao Brasil e que tipo de acordo o senhor acha que seria vantajoso para nós?
Penso que é altamente positivo e inteligente que os americanos não tenham insistido no tema da Alca, porque é uma iniciativa que já completou quinze anos de negociação e, quando uma iniciativa desse tipo dura mais de dez anos sem frutificar, é sinal de que existem dificuldades intransponíveis tanto do lado deles como do nosso. Então achei inteligente a iniciativa deles de renovar a agenda incluindo uma negociação em torno da experiência brasileira do álcool como combustível. Mas não se deve pensar que isso signifique que os americanos vão remover as dificuldades tarifárias que hoje incidem no etanol brasileiro no mercado dos Estados Unidos. O coordenador americano nessa matéria, Greg Manuel, deixou claro que o governo americano não pretende mexer na questão tarifária, e a tarifa para os exportadores brasileiros de álcool é muito alta. E, mesmo que pretendesse estabelecer uma cota-tarifa para o etanol brasileiro (um instrumento comercial que reduz ou zera as tarifas até determinado volume de produtos exportados), o presidente dos Estados Unidos não tem força para isso. Pela Constituição americana, a prerrogativa em matéria de comércio é inteiramente do Congresso, que hoje tem maioria contrária ao presidente Bush e já manifestou várias vezes que, em matéria de transações internacionais, não pensa da mesma maneira. O Executivo nos Estados Unidos não pode nem negociar com outro país se não tiver um mandato explícito do Congresso. E esse que está atualmente em vigor expira em julho deste ano e uma nova autorização vai depender dos democratas, que têm a maioria no Congresso. A liberdade de ação que o presidente americano tem nessa matéria é pequena.
TRECHO 2
Voltando ao acordo de Lula e Bush sobre o etanol. Essa história de tubarão negociar com peixinho provoca desconfiança. O que o senhor acha que Bush realmente quer?
No momento, essa idéia americana de colocar o álcool e os biocombustíveis no centro das negociações bilaterais tem uma explicação 50 por cento política e 50 por cento econômica. O econômico é o interesse real pela tecnologia brasileira e a produção de etanol, parece que ele está realmente interessado nisso. Mais 50 por cento é o que te falei no início da conversa: eles sabem que a proximidade com o Brasil é estratégica na América Latina e também sabem que não adianta dar murro em ponta de faca e insistir na Alca. Portanto, a saída para não desistir do que eles pretendiam politicamente com a Alca é pegar um tema em que o Brasil é bom, tem relevância e construir uma relação mais positiva em torno disso e assim caminhar em direção a seus objetivos. Então acho que 50 por cento disso é sincero, mas, a não ser que haja uma cota-tarifa, os impactos políticos serão mais importantes do que os econômicos.
Marina Amaral é jornalista.
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