por Juliana Sassi
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Criado em 1984 pelo ex-engolidor de fogo Guy Laliberte, hoje um dos homens mais ricos do mundo, o Cirque du Soleil é
uma organização de 1.2 bilhão de dólares com faturamento anual de U$$ 600 milhões. Emprega cerca de 900 artistas e 3.500 funcionários de mais de 40 nacionalidades e já se apresentou para mais de 50 milhões de pessoas. Conquistou mais de cem prêmios, entre eles o Emmy.
O grupo esta há 14 anos viajando com o Saltimbanco e tem mais 13 espetáculos acontecendo simultaneamente pelo mundo.
Para acomodar a estrutura grandiosa que veio ao Brasil, foi montada uma tenda especialmente concebida para a encenação, com capacidade para 2,5 mil espectadores.
São 51 artistas, com idades que variam entre 10 e 46 anos.
As cifras do circo também são espantosas quando se trata de investimentos feitos no corpo artístico contratado. Associado à indústria do jogo através de parcerias com a MGM Mirage INC, corporações de hotéis e cassinos, o Cirque du
Soleil esta longe do espírito saltimbanco. O enorme sucesso da companhia vem despertando o interesse de faculdades de administração, como a Harvard Bussines School
e a Insead. O caso é estudado em sala de aula, na tentativa de descobrir como o Cirque du Soleil multiplicou seu
faturamento por 22 em dez anos, apesar de o setor vir definhando gradativamente pelo mundo.
Para se apresentar no Brasil a companhia contou com o incentivo fiscal concedido pela lei Rouanet ao Bradesco, que investiu R$ 9.4 milhões no espetáculo. A iniciativa gerou discussões dentro e fora do Ministério da Cultura. Como os ingressos vão de R$ 100 a 400 reais, o ministro Gilberto Gil afirmou à Folha de S. Paulo, em abril último, ser uma distorção tal apoio. No mesmo mês, por meio do decreto 5.761, tornou- se obrigatória a apresentação, pelo produtor do espetáculo, de formas de democratização do acesso aos bens e produtos culturais resultantes do Incentivo Fiscal.
Para receber o incentivo, agora, o promotor deverá apresentar propostas como: o barateamento dos ingressos, a distribuição gratuita de uma parcela de entradas, o estabelecimento de sessões do espetáculo exclusivamente com entrada gratuita, a exibição do espetáculo em TV Pública, a realização de atividades de capacitação artística com profissionais brasileiros, ou ainda outras formas de democratização do acesso que o proponente considerasse mais adequadas ao projeto.
Para a apresentação no Rio de Janeiro a proposta do plano apresentado pela Cie, Companhia Interamericana de Entretenimento (empresa mexicana que promoveu a turnê do espetáculo no Brasil) foi considerado insatisfatório pelo Conselho Nacional de Incentivo a Cultura (CNIC) e por isso, não aprovada.
Para falar sobre o tema a CarosAmigos entrevistou o idealizador, diretor e palhaço dos Paralapatões Hugo Possolo, que foi coordenador de Circo da Funarte em 2004 e recebeu o Grande Prêmio da Critica APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).
Juliana Sassi- O que você acha da liberação de R$ 9,4 milhões pela Lei Rouanet para a captação de recurso junto a empresas patrocinadoras ao Cirque du Soleil?
Hugo Passolo - Atuei durante um ano como coordenador Nacional de Circo na Funarte (Fundação Nacional de Artes), onde os projetos passam para análise e julgamento técnicos e NÃO sofrem nenhum tipo de interferência política.
O curioso no Brasil é que pouco se investe em circo, seja através das políticas públicas como de leis de incentivo. Por isso o incentivo ao Cirque du Soleil causou tanto espanto. De repente, um representante daquilo que é um império do circo, uma potência da indústria de entretenimento canadense, desfruta de um incentivo fiscal. Creio que isso deveria ser avaliado não só do ponto de vista técnico, mas também político e moral. Eu acho que isso deve ter aberto um pouco os olhos do governo por ter se tornado público. Sugiro ao ministro Gilberto Gil, se ele permanecer no cargo, que fique atento e acompanhe de perto a aplicação do incentivo dado através da Lei Rouanet, porque, como se sabe, 50% ou mais dos investimentos são feitos pelas estatais.
A pergunta é - por que as estatais investiram tão pouco em circos até hoje? São pouquíssimos e pontuais os apoios a eventos e festivais que, se somados ao longo de um ano, não chegam a meio milhão de reais.
Outro fator relevante é que as empresas ainda não têm uma visão das vantagens e possibilidades que o incentivo à cultura pode proporcionar. A Petrobras é uma das poucas que utiliza de forma eficaz esses recursos.
Os produtores nacionais não focam nessa ferramenta.
Acredito que, se a lei de incentivo não for reavaliada, se corre o risco de perdermos a contrapartida. O que ficou muito claro e chamou a atenção do público no caso do Cirque du Soleil é que o ingresso era muito caro.
Utilizar recursos públicos e não beneficiar a população é completamente errado.
O Cirque du Soleil publicou um anúncio na Folha de S. Paulo comemorando que tinha levado na pré-estréia, pouco menos da metade da platéia de crianças carentes.
...exigência da nova lei.
O que é um absurdo se você pegar projetos que se comportam moralmente de outra maneira. Posso falar com tranqüilidade porque sei que o Circo Roda Brasil já recebeu mais de um terço de todo seu público ou seja, de 30 mil pessoas que recebemos até hoje, nós já vendemos 10 mil para entidades assistenciais de programas culturais, de ONGS, de secretaria de assistência social da prefeitura. A gente se voltou para isso e trabalhou com ingressos a um valor superacessível, então essa contrapartida está colocada. A gente veio para um espaço público dignificando o circo. No Memorial da América Latina, nós juntamos dados para o circo brasileiro e ao mesmo tempo não tivemos a mesma atenção da mídia. Ela deu atenção ao blockbuster, porque, além do que eles receberam através da lei Rouanet, houve investimento direto, eu não sei a conta exata, mas foi algo em torno de R$ 20 milhões de investimento no Cirque du Soleil. A campanha de publicidade do Bradesco foi feita em cima do Cirque du Soleil, isso tudo é só uma visão de mercado que eu não posso dizer que seja condenável, isso é um negócio, ele vive como um negócio, o problema é atingir isso através de incentivo fiscal. Quando eu estava na Coordenação Nacional do Circo, recebi uma carta do vice-presidente do Cirque du Soliel solicitando isenção de impostos. Não era a questão do incentivo fiscal, eles não queriam pagar impostos, nem custos aduaneiros. Era uma carta de três laudas dizendo que o Cirque du Soleil tinha diversos projetos sociais no país. A minha resposta foi - ótimo que vocês tenham projetos sociais, que apóiem e continuem apoiando, que o primeiro mundo cubra a sua consciência tentando ajudar o terceiro mundo, porque lucra muito. Tubo bem, mas isso não justifica a isenção de impostos porque no país nenhuma empresa de entretenimento ligada a circo, diversão, teatro ou dança tem isenção de impostos. Não tem lei que proteja, os teatros pagam contas de luz altíssimas, não têm isenção de energia elétrica. A meia-entrada é feita por decreto, é lei mas entretanto não tem subsídio, o que inflaciona o ingresso para o público. O governo não está pensando no público, porque quando se coloca um ingresso a R$ 50,00, R$ 60,00 é porque sabe que a média vai ser feita em cima da meia-entrada. Meia-entrada é justa para estudante, é correta, no entanto tem que ter um subsídio já que ela é obrigatória, ou então que ela fosse livre, dá quem quer. Agora, ser obrigatória significa que estão fazendo a alegria com chapéu alheio. Porque dessa forma são as companhias e os artistas os mais atingidos. O futebol muitas vezes consegue sobreviver com a meia-entrada na base de liminares. No caso dos artistas não, porque parece que estamos brigando com o público e ninguém quer brigar com o estudante, ao contrário, quero que os estudantes venham, eles formam um público crítico que interessa ao circo, ao teatro e a dança.
Vocês trabalham tanto com espetáculos gratuitos quanto pagos. As apresentações são as mesmas para os dois tipos de público?
Claro, o mesmo espetáculo, porque você pegando recurso público obviamente que tem dar algum tipo de contrapartida. É claro que havendo a obra de arte em si, criada no país, elaborada como no nosso caso, que formamos um elenco estável, contratamos 22 pessoas, um ganho regular com uma qualidade de espetáculo, um padrão estabelecido, tudo isso acontecendo, você está criando uma série de contrapartidas. Veja que o Circo Roda Brasil hoje tem em torno de 40 a 50 pessoas vivendo em função dele, em um patamar completamente elevado, digno, de ganhos superlegais. Nós trabalhamos em um sistema cooperativado, não visamos simplesmente o lucro, isso vai de encontro ao objetivo do Cirque du Soleil e não só deles, existem outras ações que têm lei de incentivo e precisa ver se eles tão dando emprego, se existe a contrapartida para o público, se estão modificando o cenário nacional, isso é muito importante, se você modifica a realidade, consegue adequar a produção a uma outra perspectiva.
E qual seria então o público alvo do Circo Roda Brasil?
No Circo Roda Brasil o que acontece é que atingimos várias faixas. A gente pegou desde um público de poucos recursos, como aquele que comprou o ingresso do Soleil, que veio assistir e pode fazer o comparativo.
O ingresso a R$ 30,00 não é barato, se vêm os pais com um filho já são R$ 75,00.
É, não é tão barato, mas se você vier numa sexta-feira, que tem atividades de ação social, mais da metade da platéia é de público carente. Outro dia recebemos 60 pessoas da Casa do Adolescente de Guarulhos. A gente busca esse contato, obviamente precisamos do ingresso porque só o patrocínio não sustenta tudo. A nossa idéia com nosso patrocinador atual, a CCR, era ter feito gratuito, mas não foi possível porque a verba para o tamanho do nosso projeto não atingia isso, mas a idéia é essa. Mas não acho que todo espetáculo, que é arte, deva ser feito de graça. O público precisa enxergar o valor da arte e, dentro do sistema que a gente tem, que as pessoas paguem os ingressos. Obviamente que temos um país superdesigual então você precisa saber entender essa desigualdade, precisa ter responsabilidade por aquilo que faz e diz. Então, não basta dizer em cena que sou contra a desigualdade social, eu preciso atuar contra ela e isso está no valor do meu ingresso, na forma pela qual me relaciono com o público, em várias nuances. Se você pegar os 30 mil que já atendemos até agora, um terço foi com ingresso gratuito.
E como é para vocês conseguirem patrocínio? A lei Rouanet já patrocinou vocês...
Sim, esse projeto é via lei Rouanet. Não é a primeira vez que a gente atua com esse incentivo, já trabalhamos com a Petrobras, através de um edital. Concorremos com outros grupos, fizemos um projeto chamado Pano de Roda, que circulou em 23 cidades brasileiras e atuamos junto com a Pia Fraus. Circulamos com espetáculos gratuitos, eram espetáculos de rua, mas tinha arquibancada, esse teve a possibilidade de ser gratuito. O importante é que, quando você usa a lei, se posicione diante dela. Então, mais uma vez conseguimos esse resultado. O que acontece é que a lei tem muitos equívocos, ela precisava ser corrigida. Durante os 4 anos do governo Lula, havia a possibilidade de corrigir essas distorções e a única que teve foi depois do que aconteceu com o Cirque du Soleil e eu digo que foi pequena. Ela ainda não coloca a situação como deveria. Não se pode pegar um dinheiro público que uma determinada empresa pagaria ao governo e simplesmente repassar isso para um projeto artístico.
Se a empresa repassa esse benefício, ela está colaborando com o trabalho artístico e esse incentivo retorna como ação de marketing. É sempre importante que o produtor, o responsável pela obra de arte dê a contrapartida para o público também. Obviamente que a própria obra de arte já se caracteriza como uma contrapartida, mas é preciso mais, caso contrário a arte continuará elitizada.
Você acha que através das leis de incentivo fiscal a cultura acaba ficando nas mãos dos empresários que escolhem no que vão investir?
Se esse for o único mecanismo ele está errado, faltam outros mecanismos. A cidade de São Paulo tem um grande exemplo no teatro, tem uma lei de fomento. É uma lei voltada para os grupos que não se enquadram no mercado, que não teriam espaço com patrocinadores e ao mesmo tempo prevêem na continuidade do trabalho, uma maneira de inserção. A lei de fomento dá muito retorno. Ela mudou o panorama teatral de São Paulo. Diversos grupos criaram sedes, avançaram na sua pesquisa, se estruturaram. Muitos jovens saídos de universidades, ao invés de se voltar para o mercado, esperando por um emprego na televisão, no teatro ou no cinema, começaram a se organizar em grupos, viram que o trabalho continuado de pesquisa deu um resultado, inclusive de atrair público. O panorama do teatro de São Paulo é diferenciado, pois ele tem uma qualidade garantida por uma política pública, que foi conquistada pelos próprios artistas. A cada semestre os grupos de teatro podem concorrer à lei de fomento e ser subsidiados por 6 meses, 1, 2 anos e obviamente oferecendo a contrapartida à população. São espetáculos que acontecem na periferia, núcleos que se criam em diversos pontos da cidade, reverberam por causa da oficina outras atividades. O investimento em cultura ainda é muito baixo, o que sobra do orçamento da União é ridículo e estou falando isso comparando com países em desenvolvimento como a Argentina, Chile, que aplicam pelo menos um digito, 1%, 3% do orçamento geral da união, no Brasil a gente não chegou a um digito, a media é de 0,2%, chegando em a 0.6%.
A cultura é fundamental para a construção dessa idéia de país forte. Não se faz educação sem cultura e vice-versa. Essas coisas estão muito ligadas e hoje estão rompidas. Então é preciso repensar o que são as políticas públicas. A própria lei de incentivo empurra o produtor cultural para o balcão, ou seja, antes era o balcão do Estado e agora é o balcão do marketing. Essa não pode ser a única opção, pode ser uma, que leve as empresas a se envolverem. Acontece que só se pensa em fazer anúncios; não pode vingar a idéia colonizada extrativista, de só tirar os valores do país e levar embora. Tem que se construir uma nação, a própria elite precisa mudar, ela ainda é muito provinciana. Eu estava na estréia do Cirque du Soleil e vi um monte de gente que parecia um bando de caipiras desenfreados, e era a elite, gente famosa, uma gente embasbacada, sem ver que aqui no Brasil temos os mesmos valores, que aliás o Cirque du Soleil vê esses valores e vem para cá fazer audição e levar mão-de-obra daqui, uma mão-de-obra acessível e de qualidade. Eles pagam bem, diferentemente do Brasil onde o circo está abandonado. No atual governo em que o presidente da Funarte, Antônio Graça, teve a sensibilidade de criar a Coordenação Nacional de Circo, fui o primeiro coordenador e não colocaram outra pessoa no lugar. Eu acho que o Graça deu um grande exemplo para que as secretarias de estado, os municípios, dêem atenção e criem espaço para o circo. O circo é refém de prefeituras pela quantidade de alvarás, de documentos que elas pedem. A única política pública que existe para o circo é exigir um padrão e um comportamento com que ele não consegue arcar, são altas as taxas, só exigências e nenhum apoio. A mídia não dá visibilidade ao circo porque ela o trata como mero entretenimento superficial, não entende a diversão popular, a poesia, a forca lírica que tem o circo. Então o circo é deixado de lado. Eu acho que o Circo Roda Brasil, o Circo Zani, que não são de tradição familiar, alguns circos contemporâneos, estão atentos a isso. A ABRACIRCO, Associação Brasileira de Circo, está atenta a isso e vem mudando o panorama de uns dois anos para cá, na tentativa de querer dignificar o circo. Eu enviei uma carta ao Guia da Folha comentando que o circo estava no item de passeios e felizmente eles tiveram a sensibilidade de mudar. Eles criaram um item de circo, porque o circo não é um parque temático, é uma atividade artística. Eu espero que a vinda do Cirque du Soleil sirva para dar mais espaço ao circo. Se pegarmos a quantidade de cadeiras dos circos no Brasil, se eles tiverem 10% de ocupação de suas cadeiras, ao longo de um mês eles fazem mais público do que qualquer filme nacional. No entanto o cinema nacional tem apoio, tem incentivo, tem políticas públicas, tem o olhar da mídia, tem prestígio, qualquer cineasta mediano que dê um grito consegue reunir-se com o ministro, já se um, dois donos de circo grande derem um grito serão silenciados porque eles não têm prestígio. O Cirque du Soleil tem a possibilidade de usar R$ 9 milhões através da lei Rouanet, enquanto tudo que se fez de circo nos últimos 3 anos não chegou a R$ 2 milhões, todos os projetos juntos chegaram a no máximo R$ 2 milhões.
Você acha que isso é uma coisa particular do Brasil?
Na Argentina foi diferente, o público lá é mais crítico, o circo lá tem mais incentivo, não é tratado como mero entretenimento superficial. Há uma postura crítica do público. Já aqui o que aconteceu foi que as vendas dispararam, até porque aqui teve um artifício, eles tinham uma série de convites que eram também via lei Rouanet para diversas empresas que nem sequer apareceram. No site do Ministério tem uma série de empresas que não tinham um logotipo na porta, nem no anúncio, nem nada e na verdade acabaram comprando os ingressos, que é uma coisa que a lei permite, mas se você for ver, foi uma venda de ingressos que fez com que se criasse uma idéia de que estava lotado, e aí criou um desespero porque era a primeira vinda do Cirque du Soleil para cá e agimos como desesperados, eu acho que o público não está totalmente errado, mas faltou visão crítica. Na Argentina vendeu tudo, mas demorou um pouco mais, foi mais difícil, existia crítica de circo, tinham outros espetáculos circenses acontecendo, tinha um comparativo, aqui no Brasil foram poucos os comparativos.
A colonização da Argentina é diferente, é uma colonização não de exploração extrativista, apesar de toda a história de chacina dos índios em toda a América Latina, mas a colonização espanhola visava fixar núcleos produtivos. A colonização no Brasil era de tirar pau-brasil, ouro, e agora querem tirar nossa alma, nosso dinheiro, nossa produção, nossa mão-de-obra barata e elevar para outros lugares. Para se estruturar é preciso ter uma discussão mais ampla e mais aprofundada. Não repensamos o nosso país. A nossa democracia é muito jovem, temos que entender nossas formas de participação para inserir e mudar o país. Nós vivemos uma ditadura, depois tivemos a Constituinte de 1988, ainda formada no início de uma idéia democrática de país, feitas por políticos que não vivenciaram complemente a democracia. Hoje você tem um outro quadro de democracia, é preciso uma reforma política e estrutural. Não se pode achar que o que está na lei é o que deve prevalecer, a própria lei que regulamenta a profissão de artista é uma lei de 78, extremamente defasada, que significava uma defesa dos artistas em relação à Constituição e ao advento da televisão como profissionalização. Foi importante, foi uma grande defesa, mas que não está adequada à realidade de produção do pais, ela precisa ser revista.
Como você acha que virá essa democratização?
Depende do engajamento e da luta dos artistas, não adianta o artista ficar praguejando. A lei Rouanet é uma lei que viabiliza mas não se pode ficar restrito a ela. É preciso virem outras leis, é necessária uma lei federal de incentivo às artes cênicas e eu sugiro como molde a lei de fomento. Claro que tem muito o que ser discutido, a discussão tem que ser ampla, tem que ser significativa. Muita coisa que não se insere no mercado não vai receber subsídio. Um exemplo, um artesão do Vale do Jequitinhonha, que interesse um patrocinador teria nesse cidadão? Nenhum, ele não se insere no mercado, até porque do meu ponto de vista nós não vivemos uma idéia de mercado, nos vivemos um período mercantilista da arte, existem nichos de mercado, ainda está se formando, não existe lei de oferta e procura, há muitos subempregos na arte, não há dignidade na relação. Mudar esse quadro não é tão simples quanto parece, então não adianta dar uma machadada na lei Rouanet e não ter outra opção. Ela precisa existir como possibilidade de mercado, mas tem que ter opções para aquilo que não se encaixa. Durante um período achei que a lei Rouanet tinha que acabar, durante uns 4 ou 5 anos achei que ela tinha que ser aniquilada. Mas a minha vivência no poder público me fez ver que ela não devia se aniquilada, mas transformada significativamente, e ela não foi, por temor, por influência das grandes empresas e das próprias estatais que têm muito poder, porque são elas que utilizam 50% desses incentivos. Por serem estatais, elas deviam dar o exemplo, então já que o Cirque du Soleil teve R$ 9 milhões e R$ 7 milhões que vieram da iniciativa privada, as estatais deviam no próximo ano olhar para o circo, no mínimo ter uma cota para isso, não precisa ser uma grande cota, mas que conquiste 10%, 20% do que é voltado para teatro e dança, e dêem atenção para a população que é mais carente, que é o grande público do circo. O circo é a arte mais popular, a mais acessível, qualquer circo do país inteiro está atendendo a população. Por que não se voltar para ele e criar mais recursos?
Como você vê hoje, o panorama cultural brasileiro?
A perspectiva do artista é não perder a esperança, porque nossa vida é um pouco missionária, o tempo todo você está tentando apontar um caminho, descobrir, questionar, lidar com a esperança das pessoas. Não tenho uma visão niilista do mundo, ao contrário, eu provoco as questões, acho que tem saída, acho que é possível mudar, sou daqueles que acreditam que é possível reverter o quadro social, mas é muito difícil se você fica isolado, se não procura os seus pares, se não olha no olho, não se engaja, não batalha, não exerce sua cidadania. Tudo isso tem mais significado porque você não está achando isso sozinho, isolado em um gabinete. Então, hoje em dia eu acredito que é cada vez mais possível mudar o panorama, ele não é bom, mas também não é péssimo. Eu acho que temos conseguido avançar muito e sinto muita certeza disso pelo que aconteceu em São Paulo, os artistas de teatro mudaram a referência nacional de como lidar com política publica. Espero que isso sirva de exemplo para o resto do país.
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