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Entrevista

Chris Nineham é porta-voz do movimento Stop the War Coalition, na Inglaterra. Conta nesta entrevista como a população britânica está cada vez mais contra a guerra no Iraque.

por Natalia Viana

Natalia Viana - Em meados de outubro o chefe do Exército da Grã-Bretanha – general Dannatt – disse que a presença de forças armadas britânicas no Iraque "exacerba os problemas de segurança" naquele país. Desde então muitas autoridades têm vindo a público expressar seu apoio à retirada das tropas. Esse debate chegou ao governo?
Eu diria que tem um debate acontecendo dentro do governo, mas a cúpula ainda o está evitando - e tentando enganar ao público ou a si mesmos de que podem continuar assim. No momento, quase todas as parcelas da sociedade britânica acham que as tropas têm que sair do Iraque, que a invasão falhou não só politicamente, mas militarmente – e isso inclui o general Dannatt. No momento, os líderes do governo ainda não estão sabendo lidar com isso, principalmente porque, uma vez que o plano A falhou, eles não têm um plano B. Então o governo está em um momento de paralisia total, e ao mesmo tempo completamente isolado, sem respostas para as perguntas da população. Pesquisas de opinião publicadas pelo Guardian e pelo Independent há alguns dias mostram que 62 por cento da população quer que as tropas voltem para casa antes do Natal. E as avaliações feitas entre os soldados ativos no Iraque mostram que boa parte delas apóiam a posição do general Dannatt. Então não só a população em geral é contra a guerra, mas o exército é contra a guerra – desde o general até os soldados! E a maioria dos trabalhistas, do partido de Tony Blair também está contra a guerra - apenas um pequeno grupo de políticos em volta de Tony Blair ainda está se agarrando ao projeto.

Natalia Viana - O que leva o exército a ficar contra a guerra? 
Eles tiveram que se retirar de algumas partes do Iraque que estavam ocupando. Saíram da província Masan, e muito rapidamente o chamado "inimigo" tomou as áreas de onde eles saíram. Há cerca de 3 dias as tropas tiveram que se retirar da principal base em Masan porque estavam sendo fortemente atacadas. Então eles estão literalmente em retirada militar. O próprio general Dannatt disse que teme que o exército rache por causa do Iraque. Esse é o maior medo, que a guerra vai atingir um estado tão terrível que as ordens não vão ser obedecidas. Já temos evidências disso. Houve um regimento que na semana passada voltou para o Iraque, depois de uma retirada, e o comandante disse publicamente que estava aliviado por ter conseguido fazer seus homens aceitarem voltar pra lá. Então eu acho que os soldados estão encarando um esfacelamento da moral, do espírito, basicamente porque estão perdendo. E a outra coisa que o general disse é que a presença das tropas está na verdade aumentando a violência no Iraque. Eles reconheceram que não são queridos lá. E uma vez reconhecido isso, estão com grandes problemas.

Natalia Viana - Há cerca de 3 semanas o debate sobre a retirada reacendeu aqui no Reino Unido. O que causou essa mudança?
Olha, a opinião pública sempre esteve contra a guerra. Em 2003 estava dividida, 50 a 50 por cento. Mas no final de 2004 já havia cerca de 60% contra a guerra. Agora, eu acho que o que mudou foi o momento - estamos em um momento como a ofensiva do Tet na guerra do Vietnam em 1968, quando os vietnamitas se levantaram e, mesmo que tenham sido derrotados, ficou claro que a maioria dos vietnamitas era na verdade contra os americanos. Acho que, com relação à guerra do Iraque, esse momento ocorreu nas últimas 2 ou 3 semanas: ficou claro para o establishment que não há maneira de vencer porque o número de pessoas contra eles está crescendo, a violência esta crescendo. Essa percepção finalmente chegou com uma série de retiradas militares. Para os britânicos, a província Masan, e para os americanos, com o fracasso da operação "Stand Together", a tentativa de pacificar Bagdad. Então agora para o establishment a questão é reduzir os danos para minimizar essa catástrofe, um desastre inimaginável para George Bush e para a classe dominante americana, e em menor escala para a nossa elite também. É uma derrota histórica para eles.

Natalia Viana - Mas tanto Bush como Tony Blair continuam falando publicamente que vão continuar no Iraque e se negando a estabelecer um prazo para a retirada...
Olha, eu acho que as eleições americanas vão ser muito importantes nesse contexto. Se o Bush sair derrotado, vai ganhar força a parcela do governo que quer sair do Iraque. Isso é o que provavelmente vai acontecer. O que vai acontecer por aqui depende, a curto prazo, do que decidirem os americanos, porque a nossa classe política é covarde e obediente a eles. Mas por outro lado, se os americanos continuarem lá por muito tempo, acho que nosso governo não vai conseguir segurar a pressão da opinião pública. Pessoalmente, acho que no máximo dentro de um ano as tropas britânicas sairão do Iraque.

Natalia Viana - Então por que ambos os governos continuam falando em continuar no Iraque?
Essa resistência vai ser superada com o tempo. Mas a razão é simples: ninguém gosta de admitir uma derrota. Seria um golpe duro contra o imperialismo britânico e as pretensões britânicas ao redor do globo. E internamente, só Deus sabe o que está passando na cabeça do homem agora, mas seria uma humilhação total para Tony Blair. Aconteça o que acontecer, ele vai sempre ser lembrado por somente uma coisa, que é uma guerra desastrosa. Agora, além de tudo ter que orquestrar uma rendição provavelmente será mais do que ele pode suportar. Por isso os trabalhistas vão ter que se livrar dele antes de retirar as tropas - e isso não deve demorar, ele deve sair em janeiro ou fevereiro, no máximo.

Natalia Viana - Qual foi o efeito sobre a opinião pública dos ataques ocorridos em Londres em julho do ano passado? Segundo agentes de contraterrorismo, a Grã-Bretanha seria o principal alvo da Al Qaeda hoje em dia. Isso afetou o apoio à guerra?
É um efeito complexo. Obviamente, as bombas no verão de 2005 desestabilizaram o movimento, porque reforçaram a idéia de que existe essa ameaça terrorista, alguma coisa tem que ser feita. Então a curto prazo foi um pouco desorientador. Mas a longo prazo, as pessoas sentem que o mundo se tornou um lugar mais perigoso. A pergunta é: por quê? As bombas em Londres vieram depois da invasão do Iraque. Os políticos sabem que criaram um mundo mais perigoso, e a população britânica sabe disso também. Então na verdade a ameaça de ataques terroristas se torna um novo argumento para a retirada das tropas. Eu acho que o movimento antiguerra teve um grande impacto nisso tudo. É o maior movimento que já houve na história britânica, e penetrou toda a sociedade. É só pensar em quantas pessoas estiveram em protestos contra a guerra nos últimos 3 ou 4 anos...De cada 10 adultos ingleses, 1 já esteve em uma marcha anti-guerra. E a maior manifestação antiguerra do mundo aconteceu em 15 de fevereiro de 2003 em Londres, dois milhões de pessoas.

Natalia Viana - Qual é o tamanho do movimento agora?  
Temos 150 filiais em todo o país. Todas a cidades - todas - têm organizações antiguerra e comitês permanentes que fazem um monte de atividades. O protesto em setembro em Manchester foi o maior naquela cidade em pelo menos 100 anos, e todos os nossos atos reúnem pelo menos 50 mil pessoas!

Natalia Viana - Qual é a visão do movimento sobre a tática de retirada a ser adotada? Muitas pessoas argumentam que uma retirada abrupta vai deixar o Iraque imerso em um caos completo...
Nosso argumento é que as tropas não só não são a solução, elas são o problema. Não pode haver progresso político sob as armas de soldados americanos e britânicos! Nenhum país pode mudar para a democracia se está ocupado por forças estrangeiras. Nenhum governo eleito em um processo policiado pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha terá legitimidade. E o atual governo está prejudicado pela sua aliança com um poder estrangeiro. A violência está ficando pior a cada dia, e não há maneira de abrir o caminho para as organizações democráticas enquanto houver tropas estrangeiras ali. E não é uma coisa tão complicada, a retirada pode ser feita em algumas semanas apenas.

Malcolm Webb - Mas muitos vão argumentar que há uma responsabilidade das forças britânicas nessa situação, porque as facções estão em conflito agora, sendo que antes havia uma estabilidade, com um governo central, embora ele não fosse um exemplo...
Não subestime a quantidade de violência dirigida contra as tropas americanas e britânicas. Os jornalistas tendem a interpretar todo ataque como sendo um ataques sectário, mas o  número de ataque às tropas tem crescido a cada dia.

Natalia Viana - A coalizão tem uma proposta para a retirada?
Há todo tipo de discussão, mas nós não queremos dividir o movimento tomando uma posição determinada. Agora, a minha opinião é que se o povo iraquiano quiser que haja uma força da ONU, então que haja. Mas não cabe a mim, ao Tony Blair ou ninguém no Reino Unido decidir o que deve acontecer no Iraque. Eu sou um democrata, sabe, pode me chamar de ultrapassado. Não acredito em imperialismo humanitário, acho que os países devem cuidar dos seus próprios assuntos. Todas as pesquisas de opinião no Iraque mostram que a maioria absoluta da população quer que as tropas saiam de lá. As pessoas falam: vai ser uma catástrofe se sairmos do Iraque. Mas se 650 mil pessoas mortas não é uma catástrofe, qual é o conceito de catástrofe?

Natalia Viana - Ao mesmo tempo em que ressurgiu a polêmica da retirada das tropas, a imprensa inglesa foi tomada por manchetes a respeito do uso do véu pelas muçulmanas no país. Você vê uma ligação entre as duas coisas? 
Sim, sem dúvida. Nas últimas semanas uma série de políticos deu declarações que de alguma maneira atacam a comunidade muçulmana no Reino Unido. Primeiro foi o líder do partido conservador, David Cameron, dizendo que os guetos muçulmanos têm que acabar. Depois John Reed, o ministro da Casa Civil (Home Secretary), atacou os extremistas islâmicos, e depois teve o deputado do partido Trabalhista, Jack Straw, dizendo que não aprova o uso do véu pelas muçulmanas, além de ministros dizendo que tem que haver espiões nas universidades para vigiar os muçulmanos. Isso tudo é incrivelmente perigoso porque ajuda a gerar um sentimento de racismo - e tem aumentado muito o número de ataques racistas no país, ataques a mesquitas, essa postura é incrivelmente irresponsável. O assunto do véu, por exemplo, Jack Straw diz que está preocupado com a integração das muçulmanas, mas não há nada que possa criar mais divisão em uma sociedade do que estigmatizar uma parcela da população. Não é só um acaso que isso esteja acontecendo ao mesmo tempo em que a guerra ao terrorismo está pra fracassar. Por isso que no dia 18 de novembro o movimento vai ter uma Conferência Nacional Contra a Islamofobia e a Guerra ao Terror, e vamos fazer de tudo para que essa ligação fique clara na cabeça das pessoas.

 

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[ 293 Comentários sobre esta matéria ]


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