


Há algum tempo, a paisagem do rio São Francisco é cerrado, caatinga e até chegar ao mar transforma todos em ribeirinhos. Quente é o sol que se anuncia vermelho, em beleza incomparável; há o azul do céu, mais as cores da terra, espinho, barro, sede, dor, linhas no rosto, pele das morenas a cantar e lavar. Crianças pequenas no tamanho e sertanejas no jeito de crescer. Noite chega: frio azul-escuro, brilho das estrelas. Frio que dá calafrio são as grandes barragens e hidrelétricas, as visões da morte, esgotos, metais pesados, eucalipto, soja, desmatamento, assoreamento, carvoarias, desigualdade social. Gente que não percebe: revitalização e dignidade são chão e água pra plantar verdade e colher simplicidade, e não grandes projetos. Neste ensaio, pessoas invadiram as lentes com seus lugares, jeito e força. Deixar-se tomar pelo Velho Chico é querer voltar, é poder perceber a palavra desenvolvimento servindo de máscara para o uso predatório de recursos naturais e descaso com a gente, vida, do rio.
João Zinclar é free lancer em Campinas, SP, colaborador do jornal Brasil de Fato e dos movimentos sociais em Campinas e região. Percorreu toda a extensão do São Francisco (2.700 quilômetros) em 2005 e 2006, da sua nascente em Minas Gerais até a foz em Alagoas e Sergipe, fotografando a atualidade da realidade socioambiental do rio.
Texto de Clarice Maia, jornalista.