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Gilberto, dito Gillo Pontecorvo

Pisa, 19 novembro 1919 – Roma, 12 outubro 2006

por Alessandra Silvestri-Lévy

Roma 15-10-2006

A vida de Gillo Pontecorvo foi sem sombra de dúvidas uma sucessão de aventuras, malícias, reflexões e coragem.

Gillo estava em Paris na chegada dos alemães, escapou de bicicleta chegando a Saint Tropez com duas raquetes na mão e uma namorada na garupa, onde sobreviveu alguns meses dando aulas de tênis a ricos burgueses ainda não afetados pela guerra crescente. Vista a situação de perigo, judeu nascido em uma família não praticante, voltou ao norte da Itália e ajudou sua pátria a reconquistar a liberdade, lutou na resistência, combatendo na clandestinidade os fascistas e os alemães que dominavam a Itália.

Nascido em Pisa, dia 19 de novembro de 1919, formado em Química (seu irmão Bruno Pontecorvo foi um dos maiores físicos do século 20, estudando a oscilação dos neutrinos), foi jornalista, antes de decidir-se, assistindo ao filme de Rossellini “Paisa”, se tornar cineasta.

Seu primeiro filme, um média metragem, “Giovanna”, de 1956, conta a história de uma greve de operárias numa fabrica de tecidos.

Agraciado pela crítica, mas um fracasso comercial, “A Grande Estrada Azul”, 1957, com Yves Montand e Alida Valli, seu primeiro longa metragem, abrirá o caminho para sua atuação como diretor e roteirista.

Apaixonado pelo maravilhoso livro de Primo Levi, “Se Fosse um Homem”, junto ao roteirista Franco Solinas transformou, em 1959, na obra-prima “KAPO”, com Emmanuelle Riva e Susan Strasberg, filha de Lee Strasberg, o iniciador do método Stanislavisky na corte hollywoodiana, e fundador do Actor’s Studio.

“Kapo” recebeu diversas críticas, principalmente dos franceses. Jacques Rivetti, no nº 120 do ”Cahiers de Cinema” o acusa de; “...haver transformado o horror dos campos de concentração em espetáculo”, de haver rendido suportável tal desgraça na história humana. Vencedor de vários prêmios, aclamado por Visconti e Rosselini como melhor filme do ano, irá representar a Itália o Oscar.

Considerado perfeccionista mas preguiçoso pelos amigos, Gillo levará sete anos para finalizar a “Batalha de Argel”, ganhador do Leão de Veneza 1966; relata a insurreição dos membros do FLN (exército argelino para a libertação nacional) e a repressão dos militares franceses, filme financiado em parte pelo governo argelino. Odiado pela burocracia francesa da época, foi somente liberado para exibição nas salas de cinema parisienses em 1970, arrebatou platéias mundiais, e, é até hoje uma referência.

Em seu filme “Queimada”, 1969, com Marlon Brando, Gillo reativa a carga moral do neo-realismo com uma chave de leitura marxista, relatando com um toque romântico a opressão colonialista nas Antilhas, prossegue assim o discurso político-social, pano de fundo de suas obras.

Em “Ogro”, 1979, com Gian Maria Volonte descreve o ataque da ETA em Madrid, contra o governo de Carrerro Blanco, visto como herdeiro de Franco.

Gillo não acreditava que o cinema podia mudar o mundo, mas o usava para fazer eco a um público formador de opinião e que pensava.

Sua morte dia 12 de outubro às vésperas da inauguração do I Festival de Cinema de Roma, é para mim um sinal.

Um sinal que o bom cinema está morrendo e teremos décadas diante de nós, antes, que mentes geniais venham escrever, dirigir e produzir filmes.

Altamente midiático, com uma verba de 9 milhões de euros, o I Festival Internacional de Cinema de Roma chamado, “Festa del Cinema”, www.romacinemafest.org, prima pela organização e detalhes de como foi concebido, um júri popular com 300 inscritos, dos quais ficaram apenas 50, após uma seleção feita pessoalmente pelo cineasta Ettore Scolla através de encontros e reuniões. A meu ver, nasce de maneira democrática e inteligente, mas o foco ainda segue o mesmo, grandes estrelas de cinema hollywoodianas, como Di Caprio, Scorsese, nomes feitos para atraírem mídia, e um vácuo, um vazio em pequenos encontros, mesas-redondas e reflexões sobre estética, linguagem, intercâmbio de experiências.
Juventude pasteurizada por acreditar na fama instantânea; mentes talvez geniais, poluídas por shows de Tv como Big Brother, perdem a chance de se auto-enriquecer através de encontros, debates e principalmente, de se inspirar na experiência daqueles que, sim, sabem mais.

No velório de Gillo Pontecorvo, no Campidoglio de Roma, estiveram diversos ministros, o prefeito de Roma Walter Veltroni, cineastas, produtores, amigos, conhecidos e curiosos, mas o que mais chamava a atenção era a idade média de todos os presentes: 50 anos. Por descaso ou ignorância nenhum jovem cineasta ou curioso foi prestar homenagem ao grande jornalista, escritor, cineasta, diretor do Festival de Cinema de Veneza por 4 anos consecutivos (92-96) e criador do Instituto de Cinema Latino.

Tive o prazer, a sorte de conhecer Gillo desde pequena, amigo do peito de meu tio romano Sandro Silvestri, olhos vivos, rápidos, grande galanteador de mulheres bonitas, mente audaciosa, sagaz, capaz de lhe explicar as situações mais complexas de maneira sucinta, sempre com um toque de humor, mas um humor requintado.

Quando veio a SP alguns anos atrás, levei-o a passeio por vários lugares; já com a vista um pouco deteriorada, o que mais o surpreendeu foi o verde de nossa cidade e suas árvores, a cada manacá ou resedá dizia: “- Picci (sua mulher), veja como são belas as cores!” E fotografava incessantemente.

Fica aqui meu carinho e admiração por um homem de seu tempo, que com sua arte e talento se transformou num homem de todos os tempos, que na vida privada soube manter os pés no chão, sem se tornar pretensioso ou esnobe, que como a própria origem da palavra deflagra o sem nobreza.

Ele teria aproveitado a Festa do Cinema de Roma, para conversar muito, galantear muito, passear muito, morrendo nesse dia, foram os hóspedes do Festival que renderam a Gillo suas conversas e reflexões, o Festival ficará marcado para sempre por sua lembrança.

Alessandra Silvestri-Lévy é escritora, autora de Cubapor Korda (Cosac&Naify).

 

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[ 11 Comentários sobre esta matéria ]


1 - x2a652a 01/09/2008 às 09:01

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2 - Malia 27/08/2008 às 19:09

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3 - LYLBBFAkysJNlzAuWT 24/08/2008 às 09:21

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