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02 de julho de 2009

 


Honduras: um golpe pelo controle do continente


Por Marcelo Salles 


Golpe de Estado em Honduras?! Ué, mas essa época de golpes na América Latina não havia terminado? Agora a região não vive um período democrático? Não era por isso que aquele papo de “revoluções e ideologias” estava fora de moda, sendo cultivado apenas por uma meia dúzia de românticos saudosistas? 

Pois é, mas foi o que aconteceu. Para o desgosto das corporações de mídia e seus representados, as contradições políticas e sociais ficam cada vez mais evidentes no continente americano. E quando as contradições ficam evidentes, as tenebrosas transações, que adoram a calmaria, começam a aparecer. E máscaras começam a cair. 

No domingo pela manhã, 28 de junho, cerca de 200 soldados seqüestraram o presidente Manuel Zelaya e o enviaram à Costa Rica. Segundo a rádio local “Es Lo De Menos”, vários integrantes do gabinete foram presos e existem ordens de prisão para dirigentes de movimentos sociais, como a Via Campesina. A Telesur informou que também foram seqüestrados os embaixadores de Cuba, Venezuela e Nicarágua. O presidente do Congresso, Roberto Micheletti, assumiu o poder com o apoio do das Forças Armadas e do Judiciário. 

No dia do golpe os telefones celulares não funcionaram, assim como a eletricidade em alguns pontos deste país de 8 milhões de habitantes – o que prejudicou muito o trabalho da imprensa independente (sem que isto tenha sido alvo de críticas como no caso iraniano).

A Organização dos Estados Americanos deu prazo de 72h para a recondução de Zelaya à presidência, sob pena de expulsão de Honduras de seus quadros. Não houve um país sequer a defender os golpistas, pelo menos em público. Brasil, Itália, Colômbia e outros países chamaram de volta seus diplomatas. Lula disse que não vai reconhecer o novo governo. A Venezuela de Chávez ameaçou usar a força. Paralelamente, movimentos sociais e partidos de esquerda no mundo todo divulgaram notas e organizam manifestações de rechaço ao golpe.

Por outro lado, os Estados Unidos mantiveram uma posição dúbia. Apesar da declaração de Barack Obama, que pediu respeito às “normas democráticas”, a secretária de Estado Hillary Clinton negou o corte das relações comerciais e o embaixador estadunidense segue no país, o que caracteriza ao menos conivência com os golpistas.

 

Os bastidores

Os interesses estadunidenses começam a ficar mais visíveis quando olhamos para a balança comercial de Honduras: os EUA são o destino de 70% das exportações (café, bananas, camarões, lagostas, carne, zinco e madeira), ao passo que 55% das importações vêm do mesmo país, com destaque para máquinas e equipamentos para transporte, matérias primas para indústria, produtos químicos e combustíveis. O déficit hondurenho gira em torno de US$ 1 bilhão.

A CIA destaca em sua página na Internet que “investimentos em fábricas de maquilagem e setores de exportação não-tradicionais vem começando a diversificar a economia”. Talvez o projeto ianque para o país fosse transformá-lo, gradualmente, em base de trabalho escravo e semi-escravo, assim como fazem no Haiti e na República Dominicana, onde os trabalhadores recebem 1 ou 2 dólares diários para produzir calças, agasalhos e tênis que depois serão vendidos a preços duzentas vezes maiores nos países desenvolvidos.

Outro dado importante é sua localização geográfica. Honduras está no centro da América Central, entre Nicarágua, El Salvador e Guatemala. O domínio de seu território é, portanto, fundamental para manter todo o continente sob controle. Na década de 1980 isso ficou muito claro quando os EUA transformaram Honduras numa base militar de onde atacavam o governo sandinista na Nicarágua – isso com o dinheiro sujo da venda de armas para o Irã – e assim impediam a disseminação do ideário marxista pela região. E hoje em dia, quando os EUA perdem influência na América do Sul, é fundamental reter o controle sobre o restante da América Latina.

O golpe de 29 de junho acontece justo no momento em que Zelaya se aproximava da Alternativa Bolivariana para as Américas. Seguindo o exemplo dos governos sul-americanos que mudaram suas Constituições, o presidente deposto queria incluir nas eleições gerais de 29 de novembro uma consulta para aprovar a convocação de uma Assembléia Constituinte. Como o Congresso e o Judiciário haviam negado essa possibilidade, Zelaya decidiu seguir adiante com a consulta, ainda que seu valor fosse apenas simbólico. Como os militares se recusaram a distribuir as urnas, o presidente demitiu o chefe do Estado Maior Conjunto, Romero Orlando Vasquez Velasquez, que não acatou a ordem e teve apoio dos demais comandantes castrenses, assim como do Congresso e do Judiciário.

 

A Escola das Américas

Vasquez é graduado na Escola das Américas, assim como outros militares hondurenhos – e latino-americanos em geral. Por pelo menos duas vezes Honduras foi diretamente controlada por ditadores formados na Escola das Américas (1975 e 1980). O congressista estadunidense Joseph Kennedy disse certa vez: “A Escola das Américas do Exército dos Estados Unidos é uma escola que produziu mais ditadores do que qualquer outra escola do mundo”.

No dia 1º de julho, o presidente golpista decretou Estado de Sítio. Qualquer pessoa pode ser detida em qualquer lugar e ser mantida na prisão sem acusação formal. As liberdades civis foram suspensas, o toque de recolher foi imposto e os cidadãos estão proibidos de se manifestarem. Apesar de tudo isso, o povo hondurenho segue nas ruas. Segundo Arturo Wallace, correspondente da BBC, cerca de duas mil pessoas protestam contra a ditadura recém-instaurada. O jornalista disse ainda que “os meios de comunicação transmitem apenas a versão oficial e os canais de notícias internacionais, como a CNN e a Telesur, estão fora do ar”.

As corporações de mídia no Brasil receberam a notícia do golpe com cautela. Apesar de a CNN ter entrado na cobertura no próprio domingo, a TV Globo, maior emissora do país, não interrompeu sua programação e deixou o assunto para segunda-feira. Na quarta-feira à noite, a matéria do Jornal da Globo não usou o termo “ditadura” e apenas uma vez falou em “golpe”. Em nenhum momento contextualizou os interesses dos EUA na região. Para mostrar “imparcialidade”, ouviu um cidadão a favor e outro contra “a crise política” instaurada no país.

O golpe de Estado em Honduras é  mais um capítulo na disputa pela hegemonia na região. De um lado, o bloco de esquerda encabeçado por Hugo Chávez. De outro, o velho esquema capitalista patrocinado pelos ianques. A posição de Zelaya é delicada, pois seus inimigos controlam os outros dois poderes da República (Judiciário e Legislativo), além das Forças Armadas. E contam com o apoio financeiro dos EUA. A seu lado estão os movimentos sociais, que mostraram boa capacidade de mobilização, e a comunidade internacional – que no geral não parece muito disposta a converter os discursos em ações. 

Os próximos dias dirão se Honduras seguirá sob o controle estadunidense ou se as forças populares conseguirão redefinir os rumos desse país centro-americano e, por extensão, varrer o imperialismo do continente. Seja como for, delineia-se na região um cenário de embate, vivo, que escancara a atualidade de golpes e revoluções, de utopias e romantismos. Um contexto que não interessa ao capitalismo internacional porque torna visíveis suas mentiras e contradições; e que, por isso mesmo, deve ser aproveitado por quem luta por um mundo mais justo, humano e solidário.  

Marcelo Salles, jornalista, é coordenador de Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do Fazendo Media (www.fazendomedia.com) e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.


As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.


Leia mais sobre o golpe em Honduras:

Para entender o golpe em Honduras - Elaine Tavares



 
 
__COMENTÁRIOS

Kátia Regina Assis - 05/10/2009
Acho que a América Latina que já sofreu com golpistas que pisotearam com furia a nossa liberdade de escolhas e todos os países democraticos, não devem se calar jamais diante do que aconteceu com Honduras,sob qualquer pretexto.Mudar a constituição, do País,tem que passar por consulta da população e aprovação do s congressistas e isto é problema do povo hondurenho.Agora, golpe de estado, destituição do presidente legitimamente eleito,ditadura,.....conheçemos bem esta historia ......

RODOLFO ANSELMO - 12/09/2009
DEVERIA SE REUNIR O HUGO CHAVEZ,EVO MORALES TODA CLASSE DE PRESIDENTES SOCIALISTAS COLOCANDO O EXERCITO PARA CORRER COM OS GOLPISTAS DE HONDURAS PARA REESTABELECER A ORDEM NO PAÍS.PRESIDENTE ELEITO DE UMA FORMA DEMOCRATICA DO DEVE DEPOS

Lisandra - 13/08/2009
Parabéns a voces do site!! tinha que fazer uma pesquiza sobre isso e achei o qe queria !

Sérgio Costa - 23/07/2009
Se todo governante que chegar ao poder resolver se perpetura lá com o discurso de que trabalha para pobres então o mundo vai parar. trabalhar para pobres é coisa de gente com espirito filantropico. algo não muito comum entre politicos. Politicos devem trabalhar em prol da sociedade como um todo, o quanto cada um tem no bolso é outro departamento. O pobrismo prescisa sair do palanque e dar lugar a razão, a racionalidade, a verdade, o carater, ao patriotismo, ao compromisso, a honra, a honestidad

Flávio José Barbosa - 18/07/2009
O momento é singular na história da América Latina, governos democráticos, progressistas, de muitas matizes de centro esquerda , e esquerda com articulações com os movimentos insurgentes, com todo o anacronismo da guerrilha de foco, organizados em bloco, em torno de relações econômicas mais favoráveis para seus países e a maioria da população historicamente explorada. O Manuel Zelaya é um liberal orbitando entre neste contexto de excepcionalidade política, precisamos intervir com sensatez!

daniel - 18/07/2009
Golpe? Zelaya afrontou a Constituição hondurenha. O exército simplesmente fez valer a lei. Nenhum presidente pode rasgar a Carta Magna para perpetuar-se no governo. Honduras não tem impeachment. Se o presidente tenta a reeleição, é automaticamente deposto de acordo com a lei. Não houve golpe. Houve uma sucessão democrática completamente legal. Assim como o impeachment do Collor não pode ser chamado de golpe. TODOS estão sujeitos à lei.

Rafael Andrade - 17/07/2009
Quando soube do golpe de estado em Honduras, nao hora me veio à mente o golpe de 64 no Brasil. Na América Latina, todo presidente que se mostre partidário à causa dos mais empobrecidos e defende os interesses de quem realmente necessita, é taxado como "louco" ou "agressor da democracia", princepalmente pela mídia brasileira que é claramente neoliberal. Mais presidentes deveriam seguir o exemplode Rafael Correa que fez uma constituição em prol de seu povo e não de sanguessugas multinacionais!

Karine Brandão Oliveira Rios - 17/07/2009
É notório a limitação de informação feita pela mídia brasileira com relação aos acontecimentos internacionais e sociais. Poder, a partir deste atrigo, ter conhecimento desse assunto é de grande importância, pois poderemos assim formar conceitos mais solidificados e conscientes.

Juliane - 16/07/2009
Amei descobrir essa revista. Muito boa... Muito bem explícita a notícia que facilita o entendimento do leitor... Enfim, estão de Parabéns!!!

Rodrigo Luz - 15/07/2009
Faltou dizer que Zelaya quis convocar uma Assembleia Constituiente para garantir sua permanência no poder.

Márcio Vieira - 14/07/2009
O engraçado é que brasileiro algum achou que houve golpe de Estado quando FHC comprou o 2º mandato. Dois políticos do partido em que eu me inscrevera, PFL, declararam que receberam R$250.000 e foram expulsos do partido, mas o 2º mandato foi aprovado. Não acho válido interferirmos na política de outros povos. Eles que cuidem de sua Soberania e de sua forma de governo. Mas cuidado especial deve ser dispensado aos militares. Eles aprontam a baderna depois, pressionam pela anistia.

Tiago - 13/07/2009
Obama deu uma nova "face" ao Imperialismo. Ele é pop, amigável. Eis o maior trunfo do Imperialismo. Renovar sua face, dar um caráter mais "gente boa" aos seus interesses. E o mundo ainda está iludido com os traços morenos e com o discurso "amigo" de boteco do Baraca.

Rodolfo Ricciulli Leal - 09/07/2009
Os ideais socialistas de igualdade e fraternidade estão se dissipando e já amargam a quase que total descrença, comparável ao contínuo e inexorável fim da crença no sobrenatural. Portanto existe desconfiança sobre as atitudes de ambos os lados. Não sendo claro, para a imensa maioria, quem foi o primeiro a dar um golpe. Se o presidente, ao desrespeitar a atual constituição ou os militares em destituí-lo sob a alegação de protegê-la contraditóriamente. De qualquer forma Zelaya deve ser reconduzido

Luiz Antônio - 09/07/2009
Esta é a matéria mais verdadeira escrita sobre o assunto. Parabéns ao autor por ter esboçado com tanta clareza os interesses imbutidos na aparente declaração contrária ao golpe feita pelos EUA. E como ficou bem explicado na matéria, os EUA estão amplamente preocupados com o novo redirecionamento político que tem tomado o cone sul do continente, que vem ameaçando os seus interesses econômicos, ainda mais agora quando eles estão mergulhado numa forte crise onde acumula uma dívida interna crescente

Manoel Perez Martins - 09/07/2009
M.Zelaya é um politico de direita que foi seduzido por H.Chavez e tinha como objetivo a prorrogação de seu mandato ,contrariando assim a constituição de Honduras ,logo isto tambem é um golpe . O que caracteriza a queda de Zelaya é um conflito institucional . Se os EUA tem participação nisto ,erra o governo de Obama e renasce ai a velha politica imperialista americana ,sempre condenada. Assim toda América Latina deve antes de acusar responsaveis por suas mazelas, fazer a lição de casa.

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