Literatura: O cortiço chamado Brasil
O cortiço chamado Brasil
Por Cecília Luedemann
A obra do escritor maranhense ainda surpreende as novas gerações dominadas pelo desejo de decifrar o enigma Brasil pela literatura. Antonio Candido já havia analisado a visão alegórica do Brasil no ensaio De Cortiço a Cortiço (1973), publicado na edição especial de O Cortiço de Aluísio Azevedo pela Expressão Popular, na coleção Literatura e Trabalho. A reportagem da Caros Amigos conversou com os professores Cláudia de Arruda Campos e Zenir Campos Reis (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), Enid Yatsuda Frederico (Unicamp), e o editor Miguel Yoshida, do coletivo da coleção Literatura e Trabalho sobre a atualidade de O Cortiço.
Segundo a professora Enid, O Cortiço ocupa um lugar destacado na literatura brasileira porque “é um dos poucos e bem feitos livros que tratam de uma classe social que até então era praticamente inexistente na literatura, só existiam as pessoas da corte.” Para o professor Zenir, na literatura brasileira, “o primeiro romance que narra o processo de enriquecimento é mesmo O Cortiço (1890) e vai demorar 42 anos até que surja outro, São Bernardo (1932), de Graciliano Ramos, um romance intencionalmente didático. O Cortiço é interessante, porque nele a riqueza não é um dado. Aluísio mostra como a riqueza é produzida.
O processo de enriquecimento se dá através do roubo, exploração, a poupança até chegar ao nível da miséria. Em muitos romances do século 19, as pessoas já estão ricas, recebem uma herança ou ascendem socialmente através do casamento.” A professora Claudia destaca: “Trabalho, poupança, lucro e exploração – este quadro completo do processo de enriquecimento só irá aparecer no romance brasileiro com O Cortiço (1890), acompanhando a trajetória do execrável João Romão.” Claudia compara o romance de Aluísio Azevedo com o de Graciliano Ramos: “Mas esta é uma história na qual a monstruosidade envolvida no enriquecimento trará conflitos ao próprio protagonista narrador. Não é o caso de João Romão, que segue impávido até o fim, quando a todos os atos criminosos que pratica ou promove, soma-se ao empurrão para a morte. Passará sobre o cadáver da escrava, na cozinha, para ir à sala receber a comenda da comissão de abolicionistas.”
Para ler o artigo completo e outras matérias confira edição de fevereiro da revista Caros Amigos, já nas bancas.



