Entrevista: Miguel Littín
Entrevista: Miguel Littín
“O mais profundo ideal da democracia é o povo representar a si mesmo”
Por Gabriela Moncau
Num dia cinzento (em todos os sentidos), desembarcam na ilha os prisioneiros encapuzados. A perspectiva do espectador é a mesma dos cerca de 30 ex-ministros do governo do socialista chileno Salvador Allende, que no mesmo dia da morte do presidente com o golpe militar, em 1973, já eram encaminhados, com um saco na cabeça e as mãos amarradas, à chamada Ilha Dawson. A 200 quilômetros ao sul de Punta Arenas, a ilha abrigava um campo de concentração criado com base nas ideias de Walter Rauff, oficial da inteligência nazista da Alemanha. É essa a trama do mais novo filme do chileno Miguel Littín, um dos mais importantes cineastas latino-americanos da atualidade, em longa-metragem de parceria entre
Chile, Brasil e Venezuela, e já nos cinemas.
Conhecido pelo engajamento de seus filmes, Littín, descendente de gregos e palestinos, iniciou sua carreira no cinema logo cedo e, com o impacto de O chacal de Nahueltoro, longa lançado no final dos anos 1960 abordando a situação de precariedade dos homens do campo, foi nomeado por Allende como diretor da estatal Chile Films em 1971. Em sua extensa filmografia, constam Companheiro presidente (1971), A viúva de Montiel (1979), Sandino (1990), Crônicas palestinas (2000), entre outros. Assim que o general Augusto Pinochet assume o governo chileno com o sucesso do golpe militar, Miguel Littín aparece na lista dos 5 mil exilados absolutamente proibidos de pisarem em sua terra.
Em 1985, no entanto, chega ao aeroporto de Santiago um “uruguaio”, sem barba,
cabelo castanho claro (e não negro), roupas finas de tecido inglês, sapatos de camurça, gravata italiana. “Tinha que deixar de ser um diretor de cinema, pobre e inconformado
como tinha sido sempre, para transformar- me no que menos gostaria de ser neste mundo: um burguês satisfeito”. O trecho é do livro A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, escrito por Gabriel García Márquez, grande amigo do diretor que, encantado com sua ousadia, resolveu registrá-la, detalhadamente. Miguel conseguiu driblar os riscos do poder militar e, fantasiado (nem sua própria mãe o reconheceu) conseguiu passar seis semanas no Chile filmando mais de 7 mil metros de película sobre a realidade do país a qual havia sido expulso, que já enfrentava 12 anos de violento regime militar. O resultado foi o filme Ata general do Chile, em uma versão de 4 horas para a televisão e outra de duas para o cinema. “Quando Miguel Littín me contou em Madri o que tinha feito, e como tinha feito, pensei que atrás de
seu filme havia outro filme sem ter sido feito e que corria o risco de ficar inédito”, justificou-
se o escritor colombiano.
Para ler a entrevista completa e outras matérias confira edição de janeiro da revista Caros Amigos, já nas bancas.



