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Shirley Casa Verde: "Aqui estou, negona"

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Shirley Casa Verde: "Aqui estou, negona"

Integrante do grupo Ca.Ge.Bê (Cada Gênio do Beco), Shirley “quebrou correntes” para se constituir como uma rapper consagrada no ainda hegemonicamente masculino cenário do Hip Hop brasileiro.

Por Gabriela Moncau

Nascida em 1980 na periferia de São Paulo, no bairro da Casa Verde Alta, Shirley Nascimento da Silva, hoje conhecida como Shirley Casa Verde, nome artístico com o qual assina suas letras de rap, define o bairro em que cresceu como “uma espécie de quilombo”, não só pela grande quantidade de negros, mas pela cultura que permeia o cotidiano da comunidade, espaço que permitiu com que ela e seus irmãos passassem a infância e a juventude sempre próximos da música.

A trajetória da jovem não difere dos anseios de muitas garotas negras da periferia. Oriunda de uma família pobre que pouco entendia a sua paixão pela música, – vista mais como um  sintoma de revolta e desvio do tradicional caminho estudo-trabalho do que como um dom, vocação ou carreira – a jovem é uma das inúmeras que batalhou muito para conseguir se sustentar com o rap. Teve de se virar sozinha desde cedo, foi obrigada a largar os estudos para trabalhar, enfrentou dificuldades para equilibrar os ensaios na escola de samba Unidos do Peruche onde desfilou durante a segunda metade dos anos 1990, engravidou cedo, e como ela mesma define, “quebrou correntes” para se constituir como uma rapper consagrada no ainda hegemonicamente masculino cenário do Hip Hop brasileiro.

Sua caminhada, críticas, opiniões e histórias, portanto, não dizem respeito à história pessoal de uma mulher específica, mas são emblemáticas das muitas “Marias Madalenas” (como define em seu novo CD) que passam pelas mesmas situações e dificuldades, incluindo as de muito talento espalhadas pelos becos e que ainda suam para usar o rap como o instrumento que dá voz às excluídas.

Shirley integra já há dez anos o grupo de rap Ca.Ge.Bê (Cada Gênio do Beco), junto com Cezar Sotaque e DJ Paulinho. Participou também de músicas com os grupos D’ Favela, SP  Funk, Saulinho Bandoleiro, Fator do EG, Teto, entre outros. Recentemente, gravou com Max B.O o seu primeiro álbum solo Ensaio e fez parceria com outras cantoras do cenário Hip Hop em uma produção do DJ Bola 8, do grupo Realidade Cruel.

Negra, com voz forte, Shirley lembra fisicamente uma de suas grandes referências  internacionais na música, a estadunidense Lauryn Hill, uma das primeiras mulheres a lançar um disco solo de Hip Hop (The miseducation of Lauryn Hill, de 1998). Deixa claro, entretanto, que tem um gosto musical bastante eclético: “gosto de Erikah Badu, Flora Matos, mas ouço de tudo um pouco, a inspiração vem de tudo que é lado”.

Não por coincidência, Shirley começou a se envolver com o Hip Hop no mesmo período em que sua casa passou por desestruturações familiares. O pai saiu de casa e a mãe desenvolveu uma série de problemas psicológicos, passando a maior parte do tempo internada em clínicas ou na casa dos avós, no Parque São Domingos. “Hoje ela está mais estável, mas na época a gente era muito criança, não tinha cabeça, a gente mal conseguia cuidar da gente, não tínhamos condições de cuidar dela”, conta. Shirley tinha 12 anos quando começou a morar sozinha, acompanhada apenas do irmão três anos mais velho. A caçula dos três, com 6 anos, passou a transitar entre a casa dos irmãos e a dos tios.

O interesse por Hip Hop partiu do menino. “Meu irmão falava que a gente precisava se distrair, que a rapaziada estava se envolvendo com isso, ‘vamos se jogar na dança’. No começo eu tinha vergonha, só tinha homem, achava que não era para mim, mas ele falava que não tinha nada a ver e depois de muita insistência comecei a frequentar as matinês e os ensaios”, relata. Faltariam ainda alguns anos para tomar gosto por cantar, mas já de início Shirley se interessou pela dança e passava as tardes treinando break em um depósito de areia perto de sua casa. “Ia muito pros bailes, conhecia uma pá de gente da zona sul, oeste, leste e eu comecei a levar umas minas também, falava pra elas que não era coisa só de homem, que não tinha nada ver, os homens queriam também que as mulheres participassem. Chegou uma época que a gente já era umas vinte mulheres dançando break”, afirma.

Apesar da intensidade, o envolvimento com a dança durou pouco. A barriga começou a roncar e antes da hora se viram obrigados a ter vida de adulto. Aos 15 anos Shirley já tinha carteira  assinada, arranjou um emprego como ajudante geral em uma indústria de produtos alimentícios, teve de largar os estudos e a dança. A situação financeira apertou mais ainda dois anos depois quando, aos 17 anos, engravidou. “Foi uma fase difícil, não podia sair porque tinha que cuidar da criança, uma época em que tive que ser mulher sem querer ser”, recorda. Mas foi no ano seguinte que os rumos começaram a mudar. “Um amigo meu e do meu irmão começou a colar mais lá em casa e cantava rap e tal, e eu gostava muito de ouvir os sons, ficar imitando, mas não levava muito a sério, achava que eu não tinha voz nenhuma pra isso”, diz. Na época, a jovem estava trabalhando em uma metalúrgica e quando era chamada para cantar rap achava “que era uma loucura completa. Estava com a minha filha pequena, pensava nos benefícios que eu tinha no trabalho, nem considerava a possibilidade”.

Quando um amigo cantor gospel a chamou para montar um novo grupo de rap da quebrada, Shirley de cara negou. Sua curiosidade, no entanto, não permitiu que ela assistisse só de longe o novo grupo, composto apenas por seu irmão e o amigo Renato. Todos os dias saía do trabalho e ia acompanhar os ensaios. Começou a decorar as letras, cantar um pouquinho aqui  e ali e depois de dois meses já criou coragem para pegar no microfone. Com largo sorriso no rosto, a cantora conta que aos poucos se deixou levar pelo que tornaria seu vício: “Eu falava ‘só vou fazer o refrão’, ‘só a dobra’, ‘mas não vou gravar nada, hein gente?!’. Aí nem percebi mas já tava envolvida na música. Mergulhei de cabeça no rap e nunca mais quis parar de nadar”.

 

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Comentários  

# SJ - CAPÃO
Muito boa a matéria,muito bom ver uma mulher talentosa como a Shirley sendo entrevistada por uma revista tão importante que representa um foco de resistência.
Shirley representa tanto em nas músicas do CAGEBE como nas participações que faz,sua voz marca qualquer ouvido que escutá-la. Não esqueço até hoje uma vez que a vi se apresentando na Ação educativa,ela cantava com o coração e se emocionava com aquilo que cantava.
Viva o rap e a presença de mulheres talentosas e resistentes que enfrentam as mais diversas barreiras pra conquistar seu espaço.
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# Quilombola Jah kNomo
Salve negona e família...
Tamo junto corações fortes que lutam pela zona norte!!!

Gueto é nóis 1 milhão de voz!!!
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# Carla
Adora Shirley Casa Verde canta muito voz muito forte mesmo so quem viu essa mulher cantar ao vivo sabe,quando termina o show de sua banda a turma pede bis querendo mas.
Fui no show que ela fez na clube da ford,quando terminou apresentação publico pedia mais foi muito emocionante.
Acompanho o grupo CAGEBE faz um tempo e agora que conheci um pouco mas sobre a historia de Shirley Casa Verde.
Parabéns Revista Caros Amigos por publicar matérias importante.
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# Naiara
POCHA MUITO GRATIFICANTE PODER SABER UM POUCO MAIS DA SUA HISTORIA ,HOJE TUDO QUE ESTA CONQUISTANDO NA SUA VIDA VEIO DOS FRUTOS DA SUA CAMINHADA QUE NAÕ FOI NADA FACIL ,EU FICO MUITO FELIZ POR VC AMIGA E SINTO UMA GRATIDAÕ por VC mostrar e representar taõ bem a mulher na cultura HIP HOP ,ISSO E´MARAVILHOSO VC TEM UM TALENTO NATO ,JA NASCEU BRILHANDO E VAI BRICAR CADA VEZ MAIS VC E´UMA OTIMA PROFICIONAL ,MAMAE E AMIGA VC MERECE TUDO DE BOM DEUS te abençoe PARABENS bjuss negona .....
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# Shirley Casa Verde
Fico muito feliz pelos elogios isso me faz bem vocês não sabe quanto. Ainda tenho muita coisas para aprender,musica Rap Nacional é o que gosto mesmo de coração, pois foi essa cultura que me amparou e me transformou na pessoa que sou hoje.

Um grande abraço paz.
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