Wikileaks desafia o império e seus cães de guarda
Wikileaks desafia o império e seus cães de guarda
Estados, empresas e grandes mídias se unem para tentar barrar o vazamento de informações secretas da diplomacia dos Estados Unidos.
Por Bárbara Mengardo e Caio Zinet
O novo inimigo número um dos Estados Unidos não é um espião russo ao estilo dos filmes de James Bond, e muito menos um suposto fanático religioso que possui bombas nucleares. As novas tecnologias possibilitaram que a mais recente ameaça à soberania norte-americana viesse por meios digitais, com o vazamento de milhares de documentos secretos no site WikiLeaks.
Os Estados Unidos e outras grandes potências mundiais assistiram estupefatos à rápida reprodução dos conteúdos que julgavam ser sigilosos, e armaram o contra-ataque: reuniram seus fiéis cães de guarda – a grande mídia e empresas do setor financeiro – para tentar frear o site e criar denúncias contra seu fundador, Julian Assange. O resultado dessa empreitada ainda é desconhecido, mas pesquisadores e militantes do mundo digital afirmam que o WikiLeaks promoveu uma imensa mudança na dinâmica da internet, trazendo à tona diversos assuntos, como a democratização da informação, controle do conteúdo virtual e a falaciosa imparcialidade dos meios de comunicação.
Razões do Estado
Apesar de existir desde 2006, o WikiLeaks ganhou maior notoriedade no começo de 2010, quando iniciou uma extensa publicação de arquivos relativos às ações militares norte-americanas no Oriente Médio.
Dentre os mais de 400 mil itens publicados estava um documento do exército dos EUA sobre a grande quantidade de civis mortos na Guerra do Iraque, um manual para tratamento de presos em Guantánamo e um vídeo que mostra soldados americanos a bordo de um helicóptero matando civis iraquianos, dentre eles crianças e dois jornalistas da Reuters.
A segunda cartada do WikiLeaks foi a publicação de telegramas trocados entre a Casa Branca e as embaixadas dos Estados Unidos nos mais diversos países. O conteúdo das mensagens está sendo liberado aos poucos em jornais escolhidos pelo WikiLeaks. No Brasil, a jornalista Natália Viana recebe em primeira mão os arquivos secretos, e os jornais responsáveis por divulgá-los são O Globo e Folha de S.Paulo.
Informações sigilosas de diversos países passaram a circular na Internet, promovendo mudanças no cenário da comunicação. “O WikiLeaks colocou em dúvida as famosas razões do Estado, onde a transparência não pode entrar, onde ninguém questiona. Ou seja, agora a informação da opinião pública pode sim vir dos corredores onde estão os arquivos dos Estados”, afirma o sociólogo e professor da Universidade Federal do ABC, Sérgio Amadeu.
O WikiLeaks questionou a transparência dos Estados e a legitimidade de manter assuntos em sigilo, o que deixou em alvoroço não só as grandes potências econômicas, mas também as mídias tradicionais. “O WikiLeaks coloca em cheque os filtros da imprensa, que tem informações que não divulga por vários motivos: por não considerar importante ou por motivos econômicos e ideológicos”, diz Sérgio.
Muitos motivos nutriram o ódio das grandes mídias pelo WikiLeaks. O site escancarou a falácia da imparcialidade e ameaçou os Estados e organizações às quais estes meios dedicavam incondicional fidelidade. Entretanto, não noticiar as bombásticasrevelações do WikiLeaks significava estar alheio aos assuntos de maior repercussão mundial.
O jornalista Dênis de Moraes expõe essa contradição: “O WikiLeaks coloca os meios de comunicação tradicionais na parede, porque eles não têm mais o controle da divulgação desse tipo de informação através da manipulação, silenciamento, ocultamento ou distorção. Por outro lado, eles não podem desconhecer informações importantes do cenário diplomático e político”.
Esta relação conflituosa explica a cobertura que as grandes mídias fizeram das acusações contra o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, e o episódio de sua prisão. Apesar de divulgarem novas informações sobre o caso diariamente, os grandes meios tentaram extrair de suas reportagens a ligação entre a prisão de Assange e os documentos divulgados através do WikiLeaks.
Ao invés de explorarem essa relação, os grandes meios focaram sua cobertura nos supostos casos de assédio sexual cometidos por Assange. Toya, que integra o coletivo editorial do Centro de Mídia Independente do Brasil (CMI Brasil), critica a cobertura da imprensa brasileira: “Havia muitas coisas que não se encaixavam ou se contradiziam, como por exemplo, o fato de não ter sido estupro, mas sim sexo consensual onde a camisinha furou. Há muita desinformação a respeito deste assunto, principalmente sobre a ordem de prisão emitida pela Interpol.
O modo como a grande mídia cobriu a prisão de Assange simboliza o desconforto em noticiar eventos que destroem os pilares sobre os quais esses grandes veículos se sustentaram durante anos.
Um exemplo emblemático é a invasão dos Estados Unidos ao Afeganistão em 2002 e do Iraque em 2003. Sobre os eventos, toda a grande mídia brasileira aderiu ao discurso oficial, que afirmava que os norte-americanos entraram nesses países para derrubar ditadores e fazer uma guerra contra o terrorismo islâmico. As fotos que apontavam a existência de tortura em prisões iraquianas e informações sobre mortes de civis quase passaram em branco. Os documentos divulgados pelo WikiLeaks em 2010 desmontam essa visão, porque demonstram que o governo americano tinha total conhecimento do uso indiscriminado de violência contra a população local e até mesmo contra repórteres. Segundo os documentos oficiais, tornados públicos pelo site, durante a guerra do Iraque foram mortas 109.032 pessoas, sendo 66.081 civis (mais de 60%), 23.984 inimigos (os chamados “insurgentes”), 15.196 membros das forças do governo iraquiano e 3.771 membros das forças da coalizão.
Para Dênis de Moraes, a divulgação dos documentos e do vídeo pelo WikiLeaks forçou a grande mídia brasileira e internacional, que historicamente esteve comprometida com interesses norte-americanos, a divulgar dados que iam contra sua ideologia, sob o risco de serem, ainda mais, desmoralizadas: “A grande mídia não pode silenciar, e se omitir completamente de divulgar os dados apresentados pelo WikiLeaks” afirma.
Em resposta à ameaça que representava o Wiki-Leaks, os Estados se articularam rapidamente para conter a sangria de informações. A Interpol saiu à caça de Julian Assange por conta do suposto caso de estupro cometido na Suécia, as mídias omitiram e distorceram o que puderam, e as grandes empresas, fiéis companheiras e possíveis alvos de ataque do WikiLeaks, também reagiram.
Como tentativa de barrar a ação do WikiLeaks, os sites da Visa, Mastercard, Paypal e Bank of America pararam de repassar as doações feitas para a conta do WikiLeaks, o que causou reações por parte da sociedade civil.
Hackers se articularam e derrubaram o site destas empresas do ar. Para Amadeu, tal ação visava chamar atenção do mundo para o fato de umaempresa ter o poder de bloquear a conta de um cidadão, sem ter como lastro decisões judiciais. “As empresas de cartão de crédito unilateralmente desaparecem com uma conta, se essa moda pega, eles [sistema financeiro] passam a decidir o que é legal e ilegal, para quem eu posso ou não doar dinheiro. Isso é uma coisa muito grave, pois empresas privadas estão dizendo para quem as pessoas podem ou não se solidarizar”.
A jornalista Natalia Viana resume a situação: “Há um pânico tanto do governo quanto das empresas de que tudo pode ser vazado”.
Controle da informação
Outra discussão colocada em destaque pelo WikiLeaks foi o debate em torno do controle do fluxo de informações na internet, o que faz muitos especialistas em comunicação ficarem temerosos quanto aos frutos que o site pode gerar.
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