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Maconha, meu filho?

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Amigos de papel:

Maconha, meu filho?

Por Joel Rufino dos Santos

Tenho muitas lembranças de 1970, ruins e boas. Entrávamos nos piores anos da ditadura para-fascista. Para-fascista, simplesmente fascista ou, ainda, apenas reacionária? Os grandes fatos históricos são como o “cubo de Necker” de que nos falam os cientistas, um desenho no papel em duas dimensões, altura e largura, mas que observado fixamente nos aparece em três dimensões, altura, largura e profundidade, para depois retornar às duas dimensões e assim infinitas vezes. A descrição da última ditadura brasileira é fácil de fazer. Como defini-la, no entanto, é difícil: se a olharmos fixamente diversas das suas outras dimensões aparecerão. A única coisa que não se poderá dizer do cubo de Necker é quenão é um cubo.

A vida continuou o seu curso, durante a ditadura. Em boa parte ela, a vida, não foi afetada pelo regime. É possível que o leitor conheça muitas pessoas que não a experimentaram, não lhe sentiram o peso, embora fossem adultas, com identidade, trabalho e endereço conhecidos. Ou só a experimentaram indiretamente, pela política salarial antitrabalho, a restrição ao ir e vir, a prepotência do “guarda da esquina” etc. Essa experiência indireta de um fato tão marcante comprovaria que a vida é inesgotável, nada pode circunscrevê-la ou explicá-la completamente. Lembro ao leitor o final de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto. Depois de comer o pão que o diabo amassou, Severino, o retirante, desistido de viver vai se atirar de uma ponte. Seu José, mestre carpina, o detém:

"É difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia [qual a razão de viver]
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva".

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