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Uma década de orgulho

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PAÇOCA:

Uma década de orgulho

Por Pedro Alexandre Sanches

E lá se foi embora a primeira década do século 21. No Brasil, os dez primeiros anos deste novo milênio foram profundamente transformadores, e a música nacional, como é de seu feitio, oferece indícios preciosos sobre como e quanto estamos mudados.

Saber que os gêneros musicais mais interessantes e os músicos mais inovadores emergem preferencialmente das periferias (geográficas, econômicas, sociais, raciais, sexuais) é a mais antiga das novidades. O que ocorreu de inédito na partida do novo século no Brasil, entretanto, é que alguns de nossos mais atuantes artistas jovens passaram a proclamar o orgulho de ser quem são e de vir de onde vêm ou seja, das periferias, quaisquer periferias.

De início, esse processo de autoafirmação adquiriu modos (antigos) de embate. A explosão criativa de movimentos musicais-culturais-sociais como o funk carioca, o tecnobrega paraense, o rap paulista, o neoforró cearense e outros causou perplexidade, e esses estilos chegaram a ser classificados em prateleiras bem conhecidas, como fenômenos fabricados por maracutaias industriais quando as gravadoras multinacionais já não tinham poder de impor tramoias, nem a Globo conseguia emplacar sucessos com a desenvoltura de antes.

A mídia impressa se preparou para ignorar/espezinhar os novos movimentos como na década  anterior ignorara/espezinhara o pagode, a axé music e a música sertaneja, e como ignora/espezinha o Movimento dos Sem-Terra, o Movimento dos Sem-Teto, a Central Única  das Favelas, a Marcha das Mulheres, a Daspu e as Paradas Gays. Mas aí a própria grande mídia impressa já se encontrava em plena implosão.

Diferentes de todas as manifestações de massa que os precederam, esses movimentos, sobretudo o dos funkeiros cariocas, chegaram chegando O mínimo que declaravam era “sou feia, mas tô na moda/ tô podendo pagar hotel pros homens e isso é que é mais importante,” como cantou em 2004 Tati Quebra Barraco. Ela ecoava já a rapper (também carioca) Nega Gizza, que em 2002 lançara uma música chamada Prostituta: “Sou puta, sim/ vou vivendo do meu jeito/ prostituta atacante/ vou driblando o preconceito.” Quem procurou desqualificar esse tipo de manifestação orgulhosa servindo-se do velho e gasto discurso tipo Folha e Veja logo se viu num beco sem saída.

 

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