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Todos somos Pinheirinho aqui e agora

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Por Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida
Especial para Caros Amigos

Às vezes, os jargões ganham vida. A luta continua.

Os lutadores e lutadoras do Pinheirinho foram desalojados e vivem uma situação muito difícil, extremamente difícil. No entanto, sua luta, que é nossa luta, continua. Sob certos aspectos, cresce e deve crescer ainda mais.

Também no Brasil a direita cresce, mas carece, em especial no que se refere a setores da classe média e da burocracia de Estado, de fortes direções políticas, mesmo no plano partidário. O PFL-DEM vive espasmos e os tucanos se atritam o tempo todo, enfraquecendo-se reciprocamente. Já a grande burguesia, se enchendo de lucros, mas em pânico diante de crises no curto prazo, divide-se entre o apoio ao governo e a distância prudente, sempre aberta para quaisquer planos b, c ou z.

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A política parafascista de Geraldo Alckmin não é simples sadismo de um tresloucado. Possui certo grau de coerência, desfruta de sólidas bases sociais e expressa uma aposta clara. Como alguns analistas já observaram, trata-se de apresentar São Paulo como o estado que premia todos os que querem prosperar, dos cidadãos contribuintes, que vencem por seus próprios méritos e possuem o legítimo direito de manter o que conquistaram fora do alcance dos desordeiros e fracassados e, portanto, inimigos do alheio.

Caso ganhe, ele se cacifa como o grande paladino da direita brasileira. Neste sentido, incrementa a militarização da cidade de São Paulo, viola direitos de dependentes químicos pobres, suja as mãos com o sangue do Pinheirinho e, se achar que deu certo, continuará na mesma toada. Já anuncia novos e violentos despejos de sem-teto ou, para usar uma linguagem elegante, “reintegrações de posse”.

O pessoal ligado à especulação imobiliária sorri até as orelhas, mas não percebo aplausos entusiásticos de amplos setores da burguesia. É melhor não cutucar o povo com vara curta e, se o governo federal – na cola do anterior – sabe como lidar com ele, que dê certo enquanto dure. O neonacionaldesenvolvimentismo não atropela os interesses da grande burguesia (capital imperialista incluso). Por outro lado, caso a situação fuja ao controle, é importante que alguém se apresente para restaurar a ordem.

Correlação de forças

O governo Dilma não tem qualquer pretensão de mexer na atual correlação intraburguesa de forças, exceto no sentido de se fortalecer gradualmente. A ideia é capturar cada vez mais os segmentos da burguesia que apoiam o tucanato e promover políticas sociais compensatórias.

"Pinheirinho produziu a mais radical e politizada manifestação coletiva de sem-teto, ao menos neste início de século (...). Cai o lero-lero de que os impactos da presença estatal, da indústria cultural e do narcotráfico tornavam impossível a ação política dos sem-teto nos grandes centros urbanos"

No plano eleitoral, o objetivo tático mais importante é vencer as eleições para a prefeitura de São Paulo, até para, na sequência, ganhar o governo da “locomotiva”. Isto implica, como diziam os antigos, comer pela beirada do prato e apostar no erro do adversário, até porque este se desespera. Aqui se trata mais de expressar sensibilidade social e jamais de estimular a “desordem”. Pode-se até amparar os lutadores e lutadoras do Pinheirinho, desde que... parem de lutar.

Dilma declarou no Fórum Social Mundial que o tratamento dado a eles foi “bárbaro”, mas não se solidarizou com a luta deles nem, no calor da chacina, protestou contra o tiro que o representante do governo federal recebeu da PM paulista. Afinal, argumenta Eduardo Cardozo, existe um pacto federativo e “não podemos” nos intrometer nos assuntos paulistas. Lula não somente recebeu a visita de Alckmin, nos Hospital Sírio-Libanês, como trocou sorridente abraço com o tucano que mandou atirar contra o povo organizado.

Os dois personagens não são aliados partidários nem adeptos das mesmas políticas sociais. Mas a prática é o critério da verdade. Exigimos que o governo federal desaproprie a área e a devolva, em condições adequadas, a seus moradores e moradoras. Enquanto isso, que lhes assegure, com ou sem participação do governo estadual, condições de moradia digna.

Sinais

Neste complexo tabuleiro onde a pequena e a grande política se misturam o tempo todo, talvez já seja possível sinalizar alguns elementos de análise.

O primeiro deles é que o Pinheirinho produziu a mais radical e politizada manifestação coletiva de sem-teto, ao menos neste início de século. Depois dos mitos do fim da questão agrária no Brasil; da impossibilidade de articulação de lutas de empregados e desempregados; da inércia final e fatal de amplas categorias de trabalhadores (como na construção civil, setor bancário, metalúrgicos etc.); cai o lero-lero de que os impactos da presença estatal, da indústria cultural e do narcotráfico tornavam impossível a ação política dos sem-teto nos grandes centros urbanos.

O segundo é que, por mais que a chamada grande imprensa tente ocultar, o assunto é político. Na conjuntura, a linha divisória principal passa entre quem é a favor da vitória ou da derrota do Pinheirinho. É claro que existe um amplo meio de campo dos sem informação, sem posição formada, onde se encontram milhões a serem sensibilizados pelos que ousaram se levantar sem pedir favor aos dominantes. Mas uma coisa é certa: com toda a heterogeneidade deste campo, se alguém é a favor do Pinheirinho e contra a política do governo Alckmin, dá pra conversar. Se for a favor do açougueiro do Morumbi, não tem acordo. Do contrário, com ou sem a presença de Alckmin, esta política parafascista se expandirá rapidamente pelo país.

Vitória ideológica

Enfim, o que pode ser uma boa notícia. Apesar da vitória militar do demotucanato e da cobertura que este, como de praxe, obteve da grande imprensa, a luta do Pinheirinho obtém vitórias onde as classes populares brasileiras perdem todas nos últimos anos: na luta ideológica. A manifestação dos cineastas na cerimônia do Prêmio Governador do Estado para a Cultura em São Paulo (presença do carniceiro do Morumbi) foi fantástica; o ato político unitário do 25 de janeiro teve ótima repercussão; juristas críticos começam a se manifestar inclusive no âmbito internacional; ao menos um respeitável jornal estrangeiro critica o governo paulista e – melhor ainda – os grandes meios de comunicação brasucas; e vários destes, inclusive na internet, já se reposicionam e fazem uma cobertura mais cautelosa do embate.

Se não atuarmos com toda a persistência e urgência possíveis nesta conjuntura, deixaremos passar uma oportunidade histórica para o avanço da luta política dos dominados neste país.

Vigilância

A urgência se deve ao aspecto contrário: a extrema fragilidade atual dos lutadores e lutadoras do Pinheirinho. Em uma escola e dois dos três centros poliesportivos, continuam cercados e controlados pela polícia. E todos os alojamentos são precários: fervem sob o sol e gelam durante toda a noite; falta água, comida, roupa (fraldas inclusas), material de limpeza e – o que também é importantíssimo – lazer, especialmente a criançada. É preciso denunciar tudo isso o tempo todo. É preciso encontrar meios políticos de retirar a polícia destes locais. É preciso organizar redes de solidariedade que levem os recursos materiais e culturais necessários. Aqui, de fato, somos tod@s Pinheirinho.

Longe de filantrópicas, estas ações de solidariedade e antibarbárie podem ser políticas e politizadoras, inclusive de nós mesmos. Parafraseando Gramsci, abriu-se um momento em que a vontade pode ter razão em seu otimismo.

Ousar vivê-lo é o nosso desafio.

Lúcio Flávio Rodrigues de Almeida – Departamento de Política da PUC-SP.

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Comentários  

# januaria pralon
parabéns mais uma vez pela excelente matéria, mídia popular e resistente. valeu!
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# januaria pralon
parabéns por mais essa excelente reportagem, reflexiva e de resistência.
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# joao debiasi
vc ganha pra escrever isso? a verdade é que não importam as mentiras de vcs, a maioria do povão brasileiro, em conversa em bares, no dia a dia é a favor de desocupações
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# Ana Valle
Temos em vários estados regiões em situações de guerrilha,dominados por grupos que exercem poder paralelo,temos estados semi-independentes dentro das favelas,na amazônia e mato grosso,onde o governo federal não alcaça e não exerce sua função,temos grupos armados do governo invadindo, desalojando e agredindo cidadãos,sem trazer nenhum benefício,apenas desamparo, assim como fazem os governos ditatoriais em outros países.
Que nome daremos á isso?
Que nome damos ás favelas,lar de todos aqueles que estão fora do padrão estabelecido pela sociedade e que precisam de lugar para viver e existir como todos nós?O que são,nominando além do termo favela?Como pode a políca invadir,em nome do quê?
Na verdade, sabemos porquê.O que não queremos é ouvir claramente que a desigualdade econômica/social e a má distribuição de recursos,junto com a má(péssima) administração do nosso modelo de governo faz de todos aqueles que vivem em situação economica desfavorável, reféns e refugiados,sem direitos,sem valor e sem a minima chance de serem ouvidos e contados como cidadãos Brasileiros.
E que nisso,onde todos nós somamos um ponto, fazemos parte e por omissão apoiamos.
Eu,dona de casa,segundo grau completo e só,penso que devemos assumir que geramos imensos campos de refugiados,sem justiça,sem governo e sem assistência,e assim criamos estados paralelos,baseados na lei de sobrevivência que devem urgentemente receber uma legislação que os proteja e crie desenvolvimento e futuro.
Não é a polícia que vai resolver essas questões.Nem mesmo as ONG's,mas um governo que se ocupe de administrar para o povo Brasileiro,conforme suas necessidades.
Me fere ouvir pessoas"de bem"reclamando que seus impostos vão financiar bolsas-familias,que vão criar uma nação de vadios,enquanto financiam auxílios terno, combustivel e muito mais para os senhores da classe política,que com os salários que recebem nem precisam disso.
Desculpem minha ignorância e meu desabafo.Obrigada.
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# Fábio
Muito boa matéria, esqueceu de citar inúmeros protestos que surgiram dos brasileiros residentes no exterior que se articularam em inúmeros coletivos e fizeram protestos diante das Embaixadas/Consulados do Brasil no exterior. Como também elaboraram manifesto de repúdio, de cobranças de medidas sociais e legais, e de denúncia de violação de Direitos Humanos. Escrevemos para esse jornal para avisar dos atos, mas em vão não tivemos retorno. Envio matéria sobre os atos em Buenos Aires, Santiago, Lisboa, Madrid, Paris e Berlim.

viomundo.com.br/.../...
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# Romualdo
Interessante da esquedopatia é que ela não permite os contaminados de olhar para o proprio traseiro. Gostaria que vcs realizassem uma reportagem sobre as intervençoes do "estado opressor na bahia". Tanto no caso dos policiais como no caso da manifestação dos alunos pelo aumento do transporte (no qual um garoto ficou cego) ou no caso das desocupações feitas pelo governo totalitarista facista de Dilma Hitlerseff no Acre e em Brasilia!!!! Em brasilia teve uma gravida que teve que abortar pela agressividade da policia. Vcs tinha que ter vergonha na cara!
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# Aurélio
Percebe-se que nosso amigo Romualdo é um verdadeiro alienado.
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# marcelo
A verdade, Joao Debiasi, é que 80% do povo brasileiro não lê. Jornal nacional,fantastico e Veja, é a melhor forma de se viver a vida sem compreender o que se passa ao seu redor. Esqueça os bares e passe a frequentar bibliotecas. Estude história,ciencias sociais e filosofia, para iniciar uma compreensão do mundo em que voce vive. Até lá, tire duvidas, não opine, para não falar besteira. É só um conselho.
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# Bete Torii
Muito obrigada, Lucio Flavio; você disse tudo o que eu penso e ainda ampliou e me explicou alguns aspectos. Sim, este momento-fato é um divisor de águas. Seu último parágrafo é uma das pérolas do texto.
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# beatriz santos
Parabéns pela clara e abrangente análise.
Ressinto-me profundamente da falta de manifestaçao e comprometimento do governo federal com a situacao do Pinheirinho. A nós só nos resta nao permitir que o caso caia no esquecimento, que a "política parafascista" do governo Alckimin siga com as reintegracoes de posse e ocupacoes arbitrárias, que a solidariedade aos violentados se disperse. Somos (e continuaremos sendo) todos Pinheirinho.
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# luiz
Classe média cresce, mas não lê nem bula de remédio.
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