Grécia: plano econômico para matar de fome
Por Desinformémonos
“O plano para salvar a Grécia mais parece um plano para nos matar de fome”
Depoimento de Marina Fotinú, dos protestos nas ruas de Atenas (Grécia)
Depois de duas décadas durante as quais as pessoas pareciam ter perdido a capacidade de se organizarem e em que a voz da televisão era mais forte que a do vizinho, nos encontramos outra vez uns com os outros.
- Até que fomos bem, hein?
- Claro, pelo menos caminhamos, é um bom exercício!
Nós três tínhamos os olhos roxos por conta do gás lacrimogêneo. Estávamos sentados na escadaria do edifício histórico da Universidade de Atenas, no centro da cidade.
- Vocês chegaram com algum grupo organizado? – perguntei aos dois homens que estavam ao meu lado, depois de conversarmos um pouco.
- Somos completamente independentes – me responderam.
Ao mesmo tempo os policiais que nos haviam perseguido até lá passaram pela avenida em frente ao edifício. Estavam caçando um grupo de jovens. Mais abaixo, ardia uma fogueira, pois é bem sabido que o fogo ajuda contra os gases da polícia.
- Sempre esqueço que me causa dor de cabeça essa fumaça tóxica – disse um dos homens – alguém tem um paracetamol?
Manifestação
Era por volta das cinco da tarde. Fazia umas duas horas que os policiais já não lançavam bombas para esvaziar a praça Sintagma, em frente ao parlamento grego. A população estava decidida a permanecer ali. Os sindicatos e o partido comunista tradicional já tinham se retirado, mas os demais não. As manifestações dos últimos meses ficaram na história como massivas marchas e greves gerais. Não somente em Atenas onde foram às ruas entre 300 e 400 mil manifestantes, mas em toda a Grécia.
Na minha opinião foram três os pontos centrais desta greve e manifestação. O primeiro é que não foi uma greve com diferentes demandas de cada setor, a reivindicação era central: a retirada do governo socialista de PASOK (Partido Pan-helênico Socialista) e sua política. Já não dialogamos nem pedimos nada a eles. Queremos que saiam! O segundo foi a diminuição do poder de decisão dos sindicatos, pois todos tem líderes do partido no governo. Nessa greve participaram grupos de base de cada categoria, tomando decisões independentes em assembleias gerais em cada cidade pequena ou nas diferentes seções das cidades grandes. Com eles participaram também o movimento dos Indignados. O terceiro foi que a população chegou à marcha absolutamente decidida. Mas esse último foi resultado de um processo mais longo e complexo.
Pior Tempo
Dia 4 de outubro foi o aniversário dos dois anos do governo socialista do PASOK. Nesses dois anos o povo da Grécia tem vivido o pior tempo de sua história contemporânea depois da queda da ditadura em 1974. Sua economia faz alguns meses flerta seriamente com o colapso total. Com ela está caindo também o sonho de uma abundância capitalista baseada em empréstimos e consumo. Essa queda rápida está levando também a luta dos trabalhadores do século XX e o estado de bem estar, um “acidente histórico” do capitalismo europeu depois de Segunda Guerra Mundial e que já vai sendo a hora de corrigir em toda a Europa.
Pouco a pouco os difíceis termos econômicos foram entrando no nosso vocabulário cotidiano. Aprendemos como funcionam os mercados financeiros e o que significa nessas terras a política do neoliberalismo. Nos demos conta do nível de falsidade da abundância dessa Grécia orgulhosa dos Jogos Olímpicos de 2004. Muitos já sabemos que o caminho por onde estamos trilhando não era a única opção para salvar a economia, como trataram de nos convencer no princípio dessa crise.
Promessas
A reação não foi rápida. Ficamos a ver o governo, não sabendo o que pensar nem como reagir. O governo tomou o poder com 44% de aprovação em 2009, prometendo um programa completamente diferente que o que tem sido implementado. Pouco depois “revelou” que os governos anteriores (de direita) haviam manejado mal a economia e que haviam falsificado dados: o déficit e a inflação foram maiores do que havia sido dito. A Grécia foi apresentada por seu próprio governo como um Estado pouco confiável. O que não sabíamos então era que todos os Estados dependem de empréstimos para quitarem suas dívidas. Mas só os Estados “confiáveis” podem seguir esse caminho, e a Grécia já não estava entre eles. Com a primavera de 2010, a chamada “troika” chegou ao país: o Fundo Monetário Internacional, a União Europeia e o Banco Europeu. Já não podíamos decidir como ajeitar nossa própria casa. Estávamos sob supervisão internacional...
Desemprego
Foi como uma inundação que pouco a pouco tomava conta de tudo: dos salários, das pensões, da educação pública primária e secundária, das universidades, dos gastos em saúde, etc. Ao mesmo tempo em que a taxa de desemprego subiu de 11% para 15% em um ano, subiram também todos os impostos. As novas medidas nas quais votaram os legisladores no parlamento no dia 20 de outubro incluíam mudanças nos acordos de negociação coletiva.
O plano para salvar a Grécia mais parece estar nos precipitando para uma desvalorização interna: baixar os salários para baixar os preços. Dessa maneira o país poderia competir no exterior. Mas como se pode fazer isso em um país que já não produz nada e tem que importar tudo, inclusive os produtos agrícolas já que trabalhar no campo produz baixíssima renda? O plano para salvar a Grécia mais parece um plano para nos matar de fome. Faz pouco tempo, os professores de Atenas denunciaram que nas salas de aula havia crianças desmaiando por não terem comido.
Assembleias populares
Em maio, o povo voltou a ocupar espaços que havíamos abandonado nas últimas duas décadas: assembleias gerais começaram a ser organizadas em todas as cidades, retomando as praças públicas. Em Atenas, algumas semanas depois das assembleias que diariamente aconteciam na praça Sintagma, seguiu-se a organização de assembleias populares nos bairros. O governo respondeu com gás lacrimogêneo e bombas à população, mas foi muito importante a reação do povo diante do que difundiam os meios de comunicação. As pessoas passaram a ter mais confiança nos vizinhos “que estiveram lá” do que nas notícias.
Muitos ministérios, serviços públicos e edifícios de administração em toda a Grécia foram ocupados por seus trabalhadores, superando a participação dos sindicatos. Já há muitos grupos em toda a Grécia que trabalham com metas diferentes. Os protestos dos meses passados foram o resultado desse trabalho de base. Além do partido comunista tradicional que parece que joga um papel desconhecido junto ao governo, nas marchas houve assembleias populares, blocos de anarquistas, grupos de muitas categorias, junto com estudantes universitários e secundaristas. E todos estavam preparados para resistir à repressão do Estado: havia velhinhas com máscaras e com remédios para o estômago que ajudavam contra os gases tóxicos, aplaudindo cada vez que escutávamos o lançamento das bombas. A solidariedade foi imensa e não perdemos nosso humor. O povo chegou decidido a ficar na praça. Sim, dessa vez os gases e as bombas conseguirem nos dispersar.
Mas as demandas e as formas de luta estão se radicalizando. Já conseguimos derrubar o último governo, mas a luta não termina e agora devemos tratar de retomar nossas vidas.
Tradução de Gabriela Moncau




Comentários
Não adianta sermos a sexta potência econômica se a nossa riqueza é má distribuída e se somos devorados por políticos corruptos.De onde nasce a violência urbana? as drogas? a fome? a miséria? elas são filhas das injustiças,desigualdade e corrupção.LUTA!!!
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