Economia
Itália: Incertezas da crise econômica
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- Publicado em Terça, 07 Agosto 2012 14:31
Governo tenta assumir o timão do sistema, mas protestos aumentam as incertezas
Por Anelise Sanchez
Especial para Caros Amigos
ROMA – Até novembro do ano passado, o então premier Silvio Berlusconi tentava convencer a opinião pública de que a Itália encontrava-se imune à crise econômica mundial. Segundo ele, “os restaurantes do país estavam sempre cheios e devido a uma grande demanda, dificilmente conseguia-se reservar uma passagem aérea”.
Poucos meses depois, com a entrada em cena do governo tecnocrata liderado por Mario Monti, palavras como austeridade fiscal, recessão, spread, desemprego e cortes no orçamento, tornaram-se frequentes no vocabulário de milhares de famílias italianas. Para estancar uma desenfreada dívida pública e justificar medidas amargas, ministros técnicos apelam para chavões populistas conclamando uma união nacional. Em uma espécie de pacto silencioso, o Parlamento do país não ousa discordar do governo “salva-Itália”, agitando constantemente o fantasma grego para lembrar que, em caso de movimentos de protestos, o perigo de colapso mora ali ao lado.
Mais:
O euro já completou dez anos e o que existe hoje é uma Europa unida pelo endividamento, mas fragmentada politicamente; escrava de um rigor fiscal que impõe aos países membros a necessidade de manter déficits baixos e uma proporção reduzida da dívida em relação ao PIB.
A arquitetura da Zona Euro, comandada pelo Banco Central Europeu e fortemente influenciada pelo idealismo monetário alemão, prioriza o controle da inflação, assim como especificado em seu estatuto.
No entanto, a defesa do valor de sua moeda em detrimento do estímulo ao desenvolvimento econômico transformou o velho continente em uma presa fácil para o poder financeiro e os seus constantes movimentos de especulação.
O mercado de subprime americano, ou seja, as hipotecas que não foram quitadas, provocaram uma grande avalanche na economia mundial, mas não foram o único fator responsável pela crise na Europa.
Buraco da Dívida
Em 2011, o Deutsche Bank, até então detentor de 8 bilhões de euros em títulos da dívida pública italiana, começou a vendê-los rapidamente, provocando a sua desvalorização. Em um efeito cascata, outras instituições financeiras seguiram gradualmente o mesmo comportamento e o resultado foi desastroso porque para recolocar os mesmos títulos no mercado o governo da Itália foi obrigado a pagar dividendos cada vez mais altos.
O que poucos cidadãos italianos sabem é que os mesmos bancos contribuiram com a depreciação dos títulos também são portadores de produtos derivados chamados CDS (credit default swaps), uma espécie de seguro perverso contra um eventual calote. Em prática, uma maneira de permitir aos compradores de títulos de renda fixa a possibilidade de repassarem a terceiros os riscos de não serem pagos pelos emissores, mediante uma comissão. Maior é o risco de falência de um país, maior é o valor desses títulos derivados, concentrados no portfolio de poucos bancos.
Mais do que nunca, a democracia passou a ser subordinada ao mercado financeiro, repetindo a histórica usurpação da soberania do poder executivo de muitas nações. Vale lembrar que em 1976, graças a uma manobra do magnata David Rockefeller - por muito tempo presidente do Chase Manhattan Bank - foi criada a chamada Comissão Trilateral; um passo fundamental para o empobrecimento do conceito de estado-nação.
Elite Global
A ideia era realizar um fórum de discussão privado composto por uma elite de personagens como magnatas, banqueiros, acadêmicos e políticos da Europa Ocidental, América do Norte e Japão. Homens que pretendiam deslocar o epicentro do poder; tranferindo-o dos governos nacionais para tecnocratas. Para essa nova casta, a chamada crise de governabilidade exigia uma receita baseada no laissez-faire e na filosofia de uma elite global não eleita democraticamente.
Passados mais de 30 anos, dois dos personagens europeus que integravam a Comissão Trilateral:, Mario Monti e Lucas Papademos subiram ao poder. Desde 2005, o novo premiê italiano também é um 'internacional advisor' do gigante banco americano Goldman Sachs, acusado de ajudar a Grécia a maquiar suas contas para ingressar na Zona do Euro.
Pior Crise
Depois de 15 anos marcados pelo excêntrico governo Berlusconi e de uma crise econômica inegável, para muitos italianos a proposta de um sóbrio governo tecnocrata parecia ser a melhor solução para realizar no país reformas estruturais adiadas há décadas, reconquistar credibilidade no cenário internacional e estabilizar o mercado financeiro interno.
No entanto, apesar das duras mudanças anunciadas para o mercado de trabalho, o sistema tributário e previdenciário, da criação de novos impostos e da luta do governo Monti contra a evasão fiscal, a Itália continua enfrentando a sua pior crise desde o pós-guerra.
Pobreza Evidente
A taxa de desemprego no país atingiu 9,3%, com impressionantes picos de até 31,9% de desocupação juvenil, e os italianos começam a conviver com situações até então raras. Segundo os dados divulgados pela associação Coldiretti, em 2011 o furto de produtos alimentares nos supermercados aumentou cerca de 7,8%. Na capital, os abrigos da Caritas hospedam com cada vez mais frequência italianos sem-teto e em alguns semáforos da periferia romana, antes ocupados quase exclusivamente por imigrantes estrangeiros, não é difícil encontrar jovens artistas de rua ou desempregados que pedem esmolas. Em algumas zonas da cidade, é fácil cruzar com italianos que pechincham entre barracas de roupas ou acessórios usados ou de segunda mão.
Outro dado dramático refere-se ao número de suicídios por motivos econômicos. De acordo com um recente estudo realizado pelo Istat (Istituto Nazionale di Statistica), de janeiro a maio de 2012, pelo menos 38 italianos perderam a vida porque não conseguiam pagar as próprias dívidas.
Órfã
Além da recessão, de uma democracia ameaçada pela ilegitimidade de um governo tecnocrático e da perda de fascínio de um desenfreado sistema neoliberal, atualmente a Itália também é orfã de sua política.
Tangentopoli parecia ser uma página que pertencia ao passado do país, mas novos casos de desvio de verbas públicas destinadas aos partidos aumentou o abismo entre a população e as instituições italianas.
Os mais recentes escândalos envolveram importantes facções políticas como a xenófoba e autonomista Liga do Norte e o ex partido La Margherita, uma antiga força moderada da esquerda italiana que em 2003 uniu-se à coalisão “Uniti nell’Ulivo” guiada por Romano Prodi.
Umberto Bossi, ex secretário-geral da Liga do Norte renunciou ao cargo porque junto com o filho, Renzo Bossi, é investigado pelas promotorias de Milão e de Nápoles porque teriam usado fundos do partido em benefício próprio. Outra suposto caso de fraude agravada contra o Estado e apropriação indébita é o do ex partido La Margherita, cujo tesoreiro, Luigi Lusi, teria desviado 13 milhões de euros dos cofres de seu partido.
Avessos à Política
As notícias abalaram o já fragilizado equilíbrio entre os líderes do Parlamento italiano e provocaram a ruptura entre opinião pública e a política. No mês de maio passado, o comparecimento dos eleitores às eleições municipais caiu drasticamente. Somente 48,9% dos cidadãos que tinham direito a votar compareceram as urnas, contra os 54,8% daqueles que votaram na precedente eleição municipal.
Mais do que nunca, os resultados das últimas eleições municipais – as primeiras desque que Monti assumiu a chefia do governo - evidenciaram uma grande insatisfação popular. Grandes partidos como o PDL (Popolo della Libertà), liderado por Silvio Berlusconi, e Liga do Norte foram castigados, perdendo consenso, enquanto a grande surpresa foi o comediante Beppe Grillo.
Autor de um dos blogs mais lidos do mundo e considerado por muitos um expoente da antipolítica, Grillo também é fundador do chamado Movimento Cinque Stelle e defensor da saída da Itália do euro.
O movimento, que se auto-define como “livre associação de cidadãos” e ao contrário das outras siglas políticas não recebe nenhum tipo de financiamento público, cresceu rapidamente. Na cidade de Parma, no norte da Itália, obteve 20% dos votos no primeiro turno das eleições municipais; um evento que representa um barômetro para a eleição nacional prevista para o próximo ano.
Sempre no primeiro turno, em Gênova, cidade natal de Beppe Grillo, o movimento Cinco Estrelas obteve 15% dos votos , enquanto o PDL foi apenas o quinto partido mais votado, segundo resultados preliminares.
Outro resultado significativo foi aquele de Palermo, Sicília, onde o partido Italia dei Valori, do ex-juiz do processo Mãos Limpas, Antonio Di Pietro, foi o mais votado no primeiro turno das eleições. Na mesma cidade, as coligações de centro-direita e de centro esquerda somadas não obtiveram mais de 30% da preferência popular.
Humorista Incomoda
O sucesso de Grillo não agradou as tradicionais facções políticas porque o grande diferencial do movimento é a sua proximidade com a comunidade local. A sua proposta está na possibilidade de oferecer aos cidadãos a chance de sugerir seus nomes preferidos para as listas de candidados concorrentes em cada cidade e a sua futura equipe. Tudo isso votando on-line no site do Movimento Cinque Stelle e selecionando os melhores candidatos em base ao seu mérito profissional, experiência no setor e certificado penal. Isso porque não é raro que políticos acusados de crimes como corrupção ou associação mafiosa continuem seu mandato parlamentar na espera da conclusão do processo penal.
“Atualmente, na Itália, os assessores são nomeados somente depois dos resultados eleitorais, muitas vezes dando preferência a amigos ou pessoas de confiança, mas nós não pensamos assim”, explica Federico Pizzarotti, candidato a prefeito de Parma, no blog do movimento.
O jovem Pizzarotti obteve quase 20% dos votos no primeiro turno das recentes eleições municipais e surpreso declarou que “o resultado é um sinal de que o modo de fazer política do movimento, em meio as pessoas e ouvindo os cidadãos, funciona.”
Ataques
Outros fortes sinais de descontentamento são a série de ataques a diversas sedes da Equitalia, agência italiana encarregada de arrecadar impostos não pagos pelos contribuintes, e as ameaças de novos atentados terroristas por parte da chamada Federação Anarquista Informal, que se auto declarou responsável pelo recente ataque a Roberto Adinolfi, chefe da empresa Ansaldo Nucleare, baleado nas pernas no mês de maio do ano passado. O atual temor do governo é o fortalecimento de grupos ligados às Brigadas Vermelhas,que aterrorizaram a Itália durante os "anos de chumbo", promovendo uma revolução armada.
Indiscutivelmente, o clima de insatisfação e a falência do neoliberalismo estimularam na Europa a fomentação de novos movimentos sociais que contestam os partidos tradicionais e almejam diferentes experiências de governança. Assim, iniciativas públicas e privadas que antes eram consideradas pequenos laboratórios de participação democrática hoje começam a conquistar espaço.
Decisão Popular
Na pequena cidade de Capannori, em proximidade de Lucca, na Toscana, prefeitos e assessores ensinam os seus 46 mil cidadãos a entenderem um balanço. Dessa maneira, é a comunidade que decide quais projetos deverão ser financiados pela prefeitura.
Na Áustria, empresários e pessoas comuns uniram-se para mudar as regras de acesso ao crédito fundando a chamada Demokratische Bank. Baseando-se na “economia do bem comum” do escritor Christian Felber, a ideia é permitir que os clientes do banco contribuam com o financiamento de iniciativas sociais ou de cunho ecológico. Já as empresas virtuosas que mais contribuírem com o bem comum poderão pedir empréstimos a juros muito baixos ou igual a 0%.
Outra iniciativa interessante funciona na cidade de Nantes, na França. Com a crise econômica e problemas de liquidez financeira, muitos empresasários locais tiveram dificuldades de acesso ao crédito. Para resolver esse impasse, foi decidido eliminar o dinheiro nas transações entre as empresas da região. Os empreendedores que aderem ao projeto, em vez de pagar economicamente por matéria-primas ou serviços e sofrerem com os juros altissimos cobrados por bancos tradicionais, tornam-se um fornecedor do outro.Alternativas válidas que demonstram que invertir a rota é possível.
O mercado pode continuar tentando reanimar um sistema econômico moribundo, mas tudo indica que a sua asfixia e só uma questão de tempo.


