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Flip: No palco, a literatura

Festa de Paraty faz espetáculo literário e levanta questões

Por Aline Khouri
Especial para Caros Amigos

Flip-iO tempo é o da infância. O lugar; as ruas da cidade de Recife. Há uma menina baixa, sardenta, com cabelos arruivados e com um grande mérito: tem pai dono de livraria. Reveca é seu nome. Um dia, Reveca anuncia casualmente que possui Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato e promete emprestá-lo à Clarice, colega sem condições financeiras para comprar o livro. Reveca pede então à Clarice que vá à biblioteca buscar o livro no dia seguinte. Clarice comparece no dia seguinte, porém escuta que o livro ainda não chegou. É o início de um plano diabólico: a menina ruiva sempre dando desculpas e fazendo a outra retornar dia após dia com a esperança de finalmente colocar as mãos naquele livro grosso. Quando a mãe de Reveca descobre o motivo de encontrar repetidamente aquela menina loira à sua porta, fica espantada e lhe entrega enfim a obra tão esperada.

Fascínio

O relato acima faz parte das memórias da escritora Clarice Lispector. O texto – que nos revela o fascínio com a literatura ainda na infância – pode ser encontrado na obra “Felicidade Clandestina”, que reúne contos variados da autora. Clarice Lispector utilizava a palavra não apenas como seu instrumento de trabalho, mas também como fonte necessária para se sentir viva. Assim como ela, há inúmeros outros aficionados pela literatura e para atender este público não faltam grandes eventos como festas e feiras. A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) é apenas um deles.

Mês de julho. Quando a cidade de Paraty (Rio de Janeiro) começa a ser preenchida por cores, formas e sons de pessoas vindas de todo o Brasil, não há dúvidas: é o início de mais uma edição da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). A cidade fica lotada e andar pelas ruas com paralelepípedos e encantadores casebres com arquitetura colonial torna-se ainda mais difícil. Na última edição, cujo encerramento ocorreu no último domingo, a FLIP alcançou seu recorde de público: 25 mil pessoas reunidas em torno de um objetivo comum; celebrar a literatura.

Cultura do espetáculo

Ainda assim, é válido questionar se grandes eventos literários como as bienais do livro e a FLIP estariam tratando a literatura Flip-i2apenas como um espetáculo em detrimento de sua essência. A Caros Amigos conversou com especialistas que se dividem a respeito do tema.

Para a filósofa e escritora Marcia Tiburi, o glamour não é algo negativo: “Sempre frequento esses eventos. Não vejo com maus olhos. Julgo que todos estão ajudando a criar uma valorização do livro, da leitura e dos escritores no Brasil”.

Eduardo Murad, coordenador da pós-graduação em Gestão do Entretenimento da ESPM do Rio de Janeiro, concorda: “Acredito que haja um estímulo para o início no meio literário. Sempre tenho a sensação de dejá vu nessas discussões, como se cultura e entretenimento não pudessem se misturar nunca e fossem completamente distintos.

A questão central é a promoção da literatura em si não apenas como lazer, mas como discussão e espaço político”.

Se Marcia e Eduardo avaliam positivamente a promoção da literatura, o jornalista e escritor Sergio Vilas-Boas discorda. Convidado para participar de uma das mesas de debate da FLIP, em 2011, ele é categórico ao revelar sua decepção: A maioria está lá, na verdade, para comer, beber, dançar, comprar, colher autógrafos, tirar fotos com famosos, verem e serem vistos. Vale pensar na espetacularização do evento – o que, aliás, pode parecer um paradoxo, já que a literatura é, por natureza, antiespetacular”, ressalta.

Formato

Após promover mesas de debate por 10 anos, os organizadores da FLIP notam que um bom mediador é fundamental para que os encontros promovidos na feira sejam proveitosos. Neste ano, o modelo de condução dos debates foi alterado e houve um número menor de mediadores responsáveis por mais mesas, com a preocupação de atuar com temas semelhantes, que geralmente giram em torno dos escritores contando sobre os bastidores de seus trabalhos e suas relações com o processo literário.

Para o jornalista Sergio Vilas-Boas, os assuntos promovidos estão ultrapassados: “Pesa contra mim o fato de eu ser profissional da escrita e leitor voraz, do tipo que realmente lê livros. Ao contrário do que se possa imaginar, uma pessoa com um perfil como este meu tem mais dificuldade de se envolver num evento que se propõe a “expor escritores falando sobre seus processos criativos”. Honestamente, isso não tem mais nenhum sentido para mim”.

“A feira literária é apenas para quem já é engajado? As pessoas não podem ir lá e descobrir outros horizontes?”, questiona Murad, da ESPM, para quem “qualquer coisa que incentive a leitura para além dos 140 caracteres de um twitter é uma vitória”.

Perfis

Márcia Tiburi também acredita que a programação seja válida tanto para os apreciadores da literatura como para leigos. “Acho que isso tudo faz parte do processo de "publicização" do mundo dos livros em um país de analfabetos. Quem leva livro a sério, vai saber aproveitar e quem só quer o lado carnaval, vai ficar com essa parte”.

Milton Bellintani, jornalista e professor da pós graduação em Jornalismo Cultural da PUC São Paulo, acrescenta que o erro está em atribuir a eventos como a FLIP a obrigação de sanar as deficiências educacionais de nossa sociedade “Esses eventos poderiam atuar de forma sinérgica com o poder público e a academia, e não apenas utilizar essas instâncias como facilitadoras de seus negócios privados. Mas sou cético em relação a isso. O setor privado entende a educação como mercadoria. Cabe aos poderes público e legislativo criar políticas permanentes de incentivo à leitura e à difusão também da produção literária independente”, esclarece.

Se por um lado há o espetáculo, talvez a festa possa sim contribuir para que as pessoas dêem seus primeiros passos dentro do universo literário e quem sabe fazer da literatura seus paraísos, como o escritor Jorge Luís Borges, para quem o céu deveria ser uma espécie de biblioteca.

 

Comentários   

 
0 #1 Paulo Caetano 15-07-2012 21:04
Discordo de Bellintani ao dizer que se atribui a tais feiras o objetivo de sanar 'as deficiências educacionais de nossa sociedade'.

A crítica com a qual essas feiras se deparam diz respeito a leituras diluídas, que apontam mais para o entretenimento do que para o exercício da reflexão.

Cabe ao leitor ver a mesma procede.
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