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Cotidiano

Defensoria Pública da União em SP enfrenta precariedade

Falta de funcionários dificulta atendimento à população

Por Alexandre Bazzan
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DefensoriaPU-SP-iQuem chega cedo à Rua Fernando de Albuquerque consegue ver uma enorme fila que chega a dobrar esquina em dias mais movimentados. São pessoas com problemas na área previdenciária, trabalhista e cível, sendo que os primeiros valentes chegam às 5 da manhã para reservar seu lugar.

A Defensoria Pública começa o atendimento por volta das 8 e meia da manhã quando a fila atinge seu ápice, mas devido à falta de estrutura e pessoal, são distribuídas senhas, 110 por dia. Edson Julio de Andrade Filho, que coordena a área de atendimento, explica que com o atual contingente é impossível atender mais pessoas. "Ficamos atendendo até o último assistido", diz ele.

Além da Jornada

Com frequência esse atendimento ultrapassa as horas de trabalho convencionais e não se trata de um caráter provisório, mas de algo que se tornou rotina no trabalho da Defensoria paulistana. A situação já se arrasta por mais de dois anos e não tem previsão de melhora.

Edson relata casos até de pessoas que, por não terem conseguido senha para atendimento e não terem como voltar para casa, acabam virando a noite no local para que possam ser atendidos no dia seguinte.

O defensor público-chefe substituto, Marcus Vinicius Rodrigues Lima, explica que a situação nas DPUs de todo o Brasil é alarmante. As verbas quando comparadas com as recebidas pelo Ministério Público são vexatórias. Como na maioria dos casos o Estado Brasileiro está no banco dos réus e existe descaso por parte da Federação em proporcionar um serviço legal de qualidade para que o cidadão consiga seus direitos. Existem vários processos que acabam prescrevendo por falta de agilidade na elaboração de recursos e outras peças legais.

Marcus Lima explica que apesar desta precariedade em todo o território nacional, em São Paulo, especificamente, a situação é ainda mais preocupante. Apesar do contingente reduzido de defensores, o calcanhar de Aquiles da DPU da cidade são os servidores. São Paulo tem das menores médias de servidores por defensores do país - veja tabela abaixo.

Unidade Servidores Defensores Média
Goiânia (GO) 12 9 1,33
Fortaleza (CE) 15 14 1,07
Recife (PE) 70 18 3,88
Teresina (PI) 18 7 2,57
São Paulo (SP) 30 56

0,53

Os servidores são as pessoas que fazem o atendimento inicial, triagem, encaminham os assistidos para os defensores e providenciam outras partes burocráticas como fotocópias, levantamento de documentos, entre outros serviços. Atualmente os próprios defensores estão fazendo parte desse serviço, o que resulta em menos tempo para analisar casos e consequente diminuição no número de pessoas assistidas por dia.

A DPU perdeu nos últimos dois anos cerca de 20 servidores e mais de 20 estagiários sem reposição adequada dos quadros. Os motivos são vários, sejam os baixos salários, a alta carga de serviço e a falta de perspectiva. Pelo déficit de servidores, a carga de trabalho em São Paulo é de 8 horas para servidores e defensores, 2 horas a mais em relação a outros estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, isso aliado ao alto custo de vida, faz com que pessoas concursadas evitem a capital paulista. As pessoas que eventualmente se arriscam, usam a DPU como uma ponte para outros concursos. Após adquirir treinamento e experiência essas pessoas vão para outros setores do funcionalismo público.

Os assistidos

Em uma sociedade que abre mão dos seus direitos comprando carro ao invés de exigir transporte públicoDefensoriaPU-SP-i2 de qualidade, substitui a saúde pública por planos de saúde e o ensino gratuito por escolas pagas, quem não tem condição de pagar por direitos básicos se resigna a enfrentar longas filas.

Lucky Favour Ukpoma, nigeriano refugiado, tem paralisia em uma das pernas e necessita de passes gratuitos e auxílio no transporte coletivo. Ele é um dos muitos que têm necessidades especiais, mas que acabam esperando por horas.

Maria Pereira dos Santos Cavalcanti foi com sua filha que é deficiente auditiva e recebe auxílio por causa de um desvio na coluna que dificulta sua locomoção. Conseguiu ser atendida somente às 5 da tarde; como chegou às 10 da manhã, passou 7 horas esperando e ainda ficou sem almoço. Ela conta que teve que adiar compromissos para conseguir ir até a DPU.

Dramas diários

A aposentada Juleta Texeira Dias, de 65 anos, saiu de casa às 4 da manhã e após 4 horas e meia e 4 conduções, chega ao local para conseguir pegar senha. São centenas de histórias diárias, sem contar as pessoas que não conseguem ser atendidas.

Edson Julio de Andrade Filho explica que existe a triagem para o atendimento preferencial, mas como a quantidade de idosos e pessoas com necessidades especiais é muito grande, eles acabam esperando tanto quanto os demais assistidos.

Marcus Vinicius Rodrigues Lima conta que existe boa vontade por parte dos servidores e defensores que fazem com frequência mutirões aos fins de semana para adiantar o serviço, “mas é como enxugar gelo, conseguimos organizar um pouco, entretanto, devido ao baixo contingente, as coisas logo voltam a se acumular."

O mutirão mais recente foi na quinta-feira (7/6), mas os trabalhadores da DPU esperam que providências sejam tomadas, caso contrário o cidadão continuará esperando.

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