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Boaventura de Sousa Santos: "O Mediterrâneo, que foi o berço do capitalismo, está em chamas"

30/08/2011

 

Entrevista Boaventura de Sousa Santos: "O Mediterrâneo, que foi o berço do capitalismo, está em chamas"

Em entrevista, o sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal) comenta a reorganização da esqueda mundial, as mobilizações atuais e o papel desempenhado pelo Fórum Social Mundial (FSM) até hoje.

Por Marina Pita

Caros Amigos - O senhor acredita que a esquerda mundial está se reorganizando?

Boaventura de Sousa Santos - Escrevi um livro sob a emergência de um nova esquerda mundial (infelizmente só disponível em inglês: The Rise of the Global Left. Londres Zedbooks, 2006) em que mostro o papel do FSM para repensar e reorganizar a esquerda.

Na década de 2000, o FSM e as transformações que ele tornou possível foram os fatores mais relevantes para a esquerda mundial, ainda que os seus efeitos tenham sido mais destacados na América Latina. Os movimentos sociais passaram a ter um papel muito mais visível e importante como forma de organização de interesses e como atores políticos.

A década em que entramos faz outras exigências que o FSM, na sua atual forma, não pode responder. A reorganização da esquerda é hoje tão urgente quanto difícil. Um pouco por toda parte, as forças de esquerda estão em estado de choque perante a assustadora hegemonia da versão mais predadora e anti-social do capitalismo global, o neoliberalismo.

Apesar de todas as crises que ele provoca, agora no coração do sistema mundial, continua impávido, ditando as regras da “resolução” das crises sem que surjam alternativas creíveis. Na Europa, os partidos socialistas renderam-se ao neoliberalismo com a Terceira Via e os partidos de esquerda radical ficaram isolados na denúncia das injustiças, sem possibilidades de serem opção de governo. Por incrível que pareça, são os partidos mais à direita que assumem a “defesa dos mais desprotegidos”.

Entretanto a extrema-direita faz o seu caminho sem grandes impedimentos, como se acaba de provar tragicamente na Noruega. Nos EUA é há muito difícil identificar a existência de pensamento e de ação de esquerda. A arrogância dos conservadores (plena de matizes racistas) mostra que um país hegemónico em decadência pode infligir tanto dano a outros países como a si próprio.

Na África, as revoluções democráticas do Norte de África são promissoras ainda que os governos de transição estejam a tentar garantir continuidades preocupantes com os regimes ditatoriais anteriores. Na Líbia, assistimos ao espectáculo patético de uma intervenção imperialista com o único objectivo de garantir o acesso ao petróleo e criar um aliado de Israel que substitua o Egipto. Nos outros países do continente, o neoliberalismo predador, combinado com a crise ecológica a que o atual modelo desenvolvimento conduz está a lançar milhões na fome e na doença prevenível.

Na Ásia, o maior país do mundo, onde tanta esquerda depositou esperança, é um OPNI (um objecto político não identificado). Por sua vez, a Índia vive alucinada com a promessa de potência emergente, arrasando as populações e economias camponesas e as culturas locais com zelo ditatorial.

Por fim, na América Latina, os governos progressistas não têm hoje o dinamismo que tiveram na década anterior, revelaram-se muito mais cúmplices com os interesses capitalistas do que aquilo que prometeram, não parecem ter nenhuma alternativa ao desenvolvimento insustentável, mostraram, nalguns casos, traços autoritários que contradizem a sua origem histórica nos movimentos sociais, mostraram-se incapazes de combater o paramilitarismo e o golpismo (Honduras).

A potência imperial, apesar de decadente, regressa ao continente semeando, a contrarevolução, já não com recurso aos militares (agora, fora de moda), mas antes através de projetos de desenvolvimento local com os quais procura dividir o movimento popular e instigar a oposição aos governos progressistas.

Como sempre, o seu objetivo é o controle dos recursos naturais de que tem uma sede infinita. Por sua vez, Cuba, procura reinventar-se na pior conjuntura internacional possível, sem poder beneficiar de um novo pensamento de esquerda nem poder contribuir para ele, como já aconteceu no passado.


Caros Amigos - Como o senhor entende a existência do Fórum Social Mundial no contexto atual?

Boaventura de Sousa Santos - O FSM cumpriu um papel muito importante: mostrar que a globalização neoliberal era apenas uma das formas de globalização e que, ao seu lado e como resposta a ela, estava emergindo uma outra forma de globalização - a dos movimentos sociais.

Isso permitiu dar visibilidade à diversidade dos movimentos sociais no mundo, aumentar o conhecimento recíproco entre eles e criar algumas condições para aprofundar as alianças e articulações transnacionais. Este papel foi cumprido cabalmente. Por isso, o contexto atual obriga o FSM a reinventar-se, partindo do que já foi feito para o que falta fazer: organizar lutas setoriais transnacionais sempre que o consenso entre os movimentos relevantes seja robusto.

A próxima Conferência da ONU, Rio +20, pode ser uma ocasião decisiva para ditar o futuro do FSM.

Caros Amigos - Passados dez anos de existência, o que mudou? Quais avanços se registrou?

Os avanços foram enormes sobretudo na América Latina, onde a emergência de governos progressistas, as lutas exitosas contra os tratados de livre comércio e as exigências populares por formas de democracia de alta intensidade não se podem explicar sem o FSM.

No final de janeiro do ano passado, quando encerrávamos o FSM de Dakar, vivemos intensamente uma experiência que nos revelou o quanto o mundo estava mudando. Ao mesmo tempo que participávamos das nossas atividades, estavamos de olho na trasmissão das manifestações da Praça Tahrir no Cairo. A revolução democrática estava acontecendo em outros lugares e em contextos bem distintos dos nossos.

O FSM nasceu num contexto político em que uma das questões mais importantes para as forças progressistas era a relação entre partidos e movimentos sociais. As revoluções do Norte de África e as mobilizações no Sul da Europa revelam que a questão mais importante já não é essa.

É antes a questão da relação entre partidos, movimentos e ONGs, por um lado, e a grande maioria da população empobrecida, humilhada, reprimida, precarizada que não se reconhece em nenhuma dessas formas de organização, por outro. Ao contrário do que antes se pensou, essas maiorias não são despolitizadas. Apenas têm outros modos de entender a política, outros patamares de mobilização e buscam outras formas de organização política. Entender esta mudança e tirar as lições adequadas delas é o grande desafio do FSM. Nele está o futuro do FSM.

Caros Amigos - Poderia citar alguns exemplos de resistência e luta que hoje despontam no cenário mundial? Se sim, quais caracteristicas desses movimentos destacaria?

O Mediterrâneo, que foi o berço do capitalismo, está em chamas hoje em dia. As duas margens passam por convulsões muito significativas. Os conteúdos das lutas em que se traduzem são mais semelhantes do que parecem à primeira vista. As duas margens lutam por uma “democracia real ou verdadeira”, ainda que com agendas, tempos e discursos distintos.

A margem Sul luta pela democracia prometida, enquanto a margem Norte luta por uma democracia que não falte às promessas. Em ambos os casos, a democracia por que se luta é uma democracia de alta intensidade, que garanta a participação significativa dos cidadãos e combata a desigualdade social.

As formas de luta também têm algumas semelhanças. São pacíficas e em nenhum caso defendem a luta armada; são mais defensivas que ofensivas, pelo menos até o momento; lutam por uma profunda reforma do Estado e do sistema político; não se vêem nos partidos de esquerda existentes e olham com suspeição a sua aproximação; tão pouco se vêem como movimentos sociais ou ONGs e rejeitam porta-vozes ou representantes que falem em seu nome; são muito heterogéneos em seus discursos e agendas e, por hora, não as querem transformar num programa coerente; preferem a escala local e nacional de luta, ainda que sejam porosos no contágio.

Está aqui o embrião da reorganização da esquerda (ou melhor, do mosaico das esquerdas)? Só o futuro o dirá.

Caros Amigos - Na sua perspectiva, como movimentos específicos de luta por direitos de segmentos como mulheres, gays, ambiental se coloca no atual contexto? São importantes? Como?

Uma das conquistas do FSM foi mostrar que, no campo abstrato, não é possível estabelecer hierarquias entre lutas. As hierarquias abstratas são excludentes e levam a desperdiçar energia mobilizadora e emancipatória. Em quase todo o mundo atravessamos um período de lutas defensivas (lutar por não perder o que já se conquistou). Por outro lado, sabemos que a grande maioria dos cidadãos e grupos sociais não se organizam em movimentos sociais e que os que se organizam querem ter razões fortes para isso.

Estabelecer hierarquias que não decorram das lutas concretas é um convite à desmobilização. A importância das lutas é sempre definida contextualmente. Num contexto em que uma dada luta assume liderança é sua obrigação criar pontes com as restantes.

Por exemplo, se numa certa conjuntura o movimento dos sem terra assume particular importância, deve procurar articulações com movimentos de mulheres, indígenas ou ecologistas, etc e dar visibilidade às sua agendas pelo seu valor em si e pelo modo como elas podem contribuir para reforçar a agenda dos sem-terra.

É isto mesmo que estão a fazer as mobilizações dos indignados nas ruas e praças do sul da Europa.

 

* Entrevista concedida para reportagem da edição especial "Dilemas e Desafios da Esquerda Brasileira".

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