Paulistano criado no Bexiga, Nasi foi um dos líderes do agitado cenário musical dos anos 80. Junto com o seu amigo Edgar Scandurra, montou o IRA! no auge do movimento punk, do qual faz duras críticas. Colecionador aficionado de discos, conheceu o rap no inicio dos anos 80 e foi um dos primeiros produtores de rappers do país: “sabíamos que já existiam os dançarinos do largo São Bento e eu e o Skowa fomos lá na roda convidar os b-boys”. Hoje, Nasi divide seu tempo entre o IRA! que completa 25 anos no próximo mês e seu novo disco solo Nasi – Onde os Anjos não podem pisar. Aqui, ele fala sobre o movimento punk dos anos 1980, política, indústria fonográfica, jabás, drogas e pirataria – “às vezes tem discos de artistas que as cópias piratas saem antes. Não tenho como provar, mas duvido que uma multinacional deixe escorrer tanto dinheiro assim. Acho que lá em cima falam: “vamos dividir aqui”, é uma teoria minha.”
Entrevistadores: Andrea Dip, Cazu, Gabriela Laurenttis, Marcos Zibordi, Ronye Quintieri, Tatiana dos Santos e Thiago Domenici. Fotos: Cazu.
Thiago Domenici – Começamos as entrevistas da Caros Amigos sempre pela infância. Qual foi o seu primeiro contato com a música?
Nasci em São Paulo – 23 de janeiro de 1962 – e morei no bairro da Bela Vista, na rua 13 de Maio. Fui criado pela minha família paulistana, italiana do bairro do Bexiga, que é a parte da minha mãe. A família do meu pai é capixaba e carioca, meu pai veio bem cedo do interior do Espírito Santo para São Paulo para trabalhar. Com uns 6, 7 anos, contraí hepatite, que era uma doença preocupante na época porque não se sabia como era transmitida. Por isso, o doente ficava muito isolado. Fiquei de cama dois meses no meu quarto, os parentes vinham cumprimentar só da porta. Daí ganhei uma vitrolinha e comecei a colecionar discos, de história infantil, da Jovem Guarda, dos Beatles. A minha relação com a música começou a partir desse momento.
Marcos Zibordi – Mas a tocar um instrumento mesmo foi quando?
Estudei piano quando era criança, mas larguei, estudei violão e também larguei, não queria ser exatamente um músico.
Thiago Domenici – E você curtia o que exatamente?
Rock. Meu primeiro disco foi 48 Crash, do Suzi Quatro. Ouvia também Alice Cooper...
Thiago Domenici – Você era meio taradão na Suzi (líder da banda Suzi Quatro)?
Completamente, quem não era? Lembro que ficava olhando a capa do disco naquele tempo em que os garotos se excitavam vendo anúncio de lingerie. Para a época era um negócio superagressivo, ela eraband leader, usava roupa de couro, tinha uma cara de junkie. Isso era sexualmente muito atraente para os garotos, ela tinha uma postura muito inovadora. Ouvia também coisas mais infantis como Kiss, que todo garoto acaba curtindo, além das grandes bandas dos anos 60 e 70.
Tatiana dos Santos – Você é filho único?
Não, tenho um irmão.
Tatiana dos Santos – E como era a relação da sua família com a música. O que escutavam?
Meu pai ouvia bastante chorinho e música clássica, que eu ouvia por tabela. Não tem músico na família, mas tem atores. Acho que tenho uma noção cênica por conta disso. Acompanhei bastante um tio que fez teatro na EAD (Escola de ArteDramática da USP). Via muitos ensaios e peças dele da coxia. Além da música, o que me interessava era a coisa performática, eu era bem mais performático no início da minha carreira – como nos shows da Fábrica do Som (programa da TV Cultura na década de 1980). Também estudei canto durante muitos anos, primeiro canto lírico, depois canto popular. Sempre me perguntam: “Você não toca nada?” Respondo: “Toco corda vocal”. Existe esse preconceito, mas para cantar você tem que solfejar, repetir escalas na voz, e acho que é até mais complexo porque, entre os caras que tocam instrumentos, são raros os que conseguem cantar. Acontece esse embate que talvez não exista muito no mundo do rock, que é um mundo de bandas, o que já é um trabalho comunitário. Para o IRA! e as bandas da nossa época – muito influenciadas pelo “faça você mesmo" do punk –, não interessava se tocava. Se era um cara legal, pensava igual, “então vai aprender a tocar bateria, se souber fazer tum, tum já esta na banda”. Existe na música, exceto no rock, uma divisão, o preconceito do cantor em relação aos músicos e o contrário também. Acho que o exercício do rock fez bem para a música brasileira principalmente por causa disso. A MPB tem uma tradição muito característica que é a do cantor tocando seu violão, mesmo em movimentos mais elétricos como a Tropicália. Quais são as bandas da Tropicália? Os Mutantes e Os Novos Baianos. Em geral, são movimentos de cantores, a música brasileira está muito calcada nisso.
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| Edgar e Nasi - Reprodução do site: http://grupoira.uol.com.br/ |
Andrea Dip – Você teve uma banda pequena?
Tive, fiz parte de uma banda que nunca tocou ao vivo, que era de um colega de escola, comprei uma bateria velha para tocar e ainda toquei baixo. Já o primeiro show do IRA! foi em outubro de 1981 e depois nos dispersamos. Um dos fundadores do IRA!, o Adilson, estudava física na PUC e vivemos um tempo comohomeless no DCE da PUC. Reencontrei o Edgar, formamos o IRA! para tocar o primeiro show. Depois, o Edgar desapareceu. Ele já tinha um certo profissionalismo, tocava em bar e ganhava um dinheiro. Eu continuei como baixista daquilo que a gente fala que era o IRA!, mas nunca me apresentei ao vivo.
Andrea Dip – Você pegou o começo do punk?
Peguei, claro.
Andrea Dip - Como foi o começo do punk? Ele foi importante e é pouco falado, né?
O movimento punk em São Paulo foi um movimento rápido, forte e social. O punk, pelo próprio niilismo, se autodestruiu, as bandas se destruíram. O punk em São Paulo era dividido em duas turmas. A turma da Vila Carolina, que é a do Clemente (vocalista da banda Inocentes) e de todas as bandas que fizeram o histórico disco O Começo do Fim do Mundo e, por outro lado, tinha a turma rival e acabavam se pegando, que era do Grande ABC. O primeiro show do IRA! foi na PUC com algumas bandas do ABC. Essa turma se encontrava na Galeria do Rock (ponto de encontro de roqueiros da capital paulista). Lá se juntavam garotos desempregados e subempregados, garotos proletários que usavam a música como porta-voz da falta de futuro e de perspectiva que existia. Isso, junto com o caldo que vinha do movimento do rock simples que qualquer um podia aprender a tocar, que existia na Inglaterra. Esse movimento foi importante porque mexeu bastante no cenário do rock brasileiro da época em que as bandas tinham o estilo bicho-grilo, progressivo. Era um tempo de decadência do hippie e o punk apareceu. Ouvíamos muito punk rock quando montamos o IRA! como Ramones, mas também Gang of Four e Talking Heads. Os punks dessa turma da Vila Carolina eram muito presos a um tipo de radicalismo hardcore, de bandas com discurso mais radical e niilista e o som mais tosco . Esse som não nos satisfazia musicalmente, freqüentávamos os mesmos lugares onde se trocava informação, mas eu, o Edgar e o Adilson não fazíamos parte de nenhuma dessa turmas, nem do ABC nem da Vila Carolina. Na época, tinha muitos fanzines, era a principal forma de comunicação. Não tínhamos revistas de rock, só a revista Pop. Nas lojas de discos, se não conseguíamos comprar os discos, ficávamos ouvindo as novidades por lá.
Thiago Domenici – Nesse período, você já tinha uma visão política da situação? Como vocês avaliaram os acontecimentos desse período?
Sim. Tanto que víamos de uma forma auspiciosa as greves dos metalúrgicos. Quando vimos o início de um movimento social que queria derrubar a ditadura, a luta pelas diretas, acreditávamos que este país ia entrar nos trilhos. Por volta de 1980, eu cursava história na Universidade de São Paulo e lá eu participava de várias reuniões do DCE. O IRA! fez um show nos dez anos do DCE Livre da USP, que coincidiu com o lançamento do segundo disco do IRA!, um show histórico na praça do Relógio. O IRA! nunca foi panfletário, os punks eram mais, falavam de uma maneira muito genérica sobre o sistema. O IRA! sempre teve um humanismo, um romantismo, nunca tivemos problemas de falar em amor. Isso era um problema para os punks, sempre vi isso mais como um machismo do que um radicalismo político deles. Tem muito disso na música e não adianta você escrever palavras de ordem em forma de letras e ser diferente no dia-a-dia. Não dá para ser um pelego na música.
Marcos Zibordi – Vocês nunca se reuniram para discutir a ordem dos músicos?
Sim, várias vezes naquela época. Na classe musical, precisa juntar todo mundo, e é difícil, dá uma preguiça...
Thiago Domenici – A classe não se junta por preguiça?
Não, tem gente que tem medo. Por exemplo, eu e o Edgar temos carteira de músico provisórias. Tenho vinte discos lançados, já toquei no exterior. Sabe como a Ordem dos Músicos ganha dinheiro? No Carnaval junta aquela fila de caras que mal sabe tocar um tamborim e a Ordem toma um troquinho, ou então aquela fila de músicos sertanejos, não os músicos sertanejospop, é gente muito simples que tem medo que, se não tiver a carteirinha, não faz show. Nas reuniões da Ordem, eu falava: “Classe musical não existe, classe artística não existe, na hora h todos viram as costas e você fica sozinho”. Teve um episódio famoso que foi a nossa briga no Hollywood Rock (festival de música da década de 90). No primeiro Hollywood Rock perguntaram na coletiva se estávamos cientes de que não ganharíamos cachê, como foi no primeiro Rock in Rio. Os artistas brasileiros, até por um complexo de vira-lata e também pela esperteza dos empresários, eram convidados. “Olha, está muito bom para você tocar aí, não precisa ganhar nada”. Hoje em dia, a situação se inverteu: a maior parte das bandas nacionais são é popular, leva tanto público quanto as bandas internacionais. Voltando ao episódio, na coletiva foi perguntado também se as condições eram as mesmas das bandas gringas e a gente respondeu que não. Já outros artistas nacionais, que não vou citar o nome porque não quero tripudiar sobre ninguém, escapavam da pergunta: “Veja bem, não é por aí, é assim, assado...”. Nós respondemos: “Temos menos palco, menos luz, menos som e não ganhamos nada”. Manchete, né? Deu uma briga e um dos organizadores, o Luís Carlos Niemeyer, nos chamou de bosta e xingamos de volta. Foi com esse clima que subimos no palco para o show. Os outros músicos que tinham os mesmos problemas que nós fingiam que não viam o problema.
Thiago Domenici - Fingiram que não era com eles.
É. Isso foi mudando com o tempo. Em 1999 começou um movimento com alguns músicos: eu, o Marcelo Nova, o pessoal do Velhas Virgens, Walter Franco e advogados simpáticos à nossa causa, porque a exigência da carteira da Ordem é inconstitucional, ela servia para a ditadura ter controle sobre os músicos. As profissões que precisam de Ordem são profissões cujo exercício precisa ser supervisionado acima do sindicato, porque elas causam perigo à integridade das pessoas, como, por exemplo, um advogado, um médico. Esse movimento suprapartidário contava com uma jurisprudência, acho que no Paraná, de um músico que tinha conseguido uma vitória na primeira instância. A Ordem é praticamente um cartório que existe, vou tocar em algum lugar e uma instituição privada me exige a carteirinha. Se existisse uma classe artística unida nesse sentido, seria mais fácil. Veja só a luta que foi para numerar os discos. A iniciativa do Lobão foi encampada por uma deputada do Pc do B, Tânia Soares, lá de Aracaju, e dividiu a classe artística. Todo mundo falou assim: “Lobão, eu apóio, eu apóio”. Vi medalhão da MPB falando:”Coitadas das gravadoras, vão perder dinheiro se numerarem disco”. Só que os principais executivos das multinacionais da música, com muito jeitinho, diziam:” Conversa lá com o artista, fala pra ele não assinar isso”. Falo isso porque meu irmão é empresário do IRA! e de vários artistas. Isso daí é coação. Pior, na verdade, foi aprovado e nada mudou. Com a numeração dos discos, tudo bem que agora CD já foi “pras cucuias”, mas hoje você pode cobrir uma auditoria, antes que auditoria eu poderia fazer?
Thiago Domenici – Rola um lobby das gravadoras com as bandas que estão iniciando e até com vocês?
É claro que as bandas mais comportadas, que aceitam tudo o que a gravadora fala, têm as portas mais abertas. Essas bandas não discutem a metodologia, o sistema da música de trabalho, que sempre batemos de frente com isso. Ou com apresentação em programa que achávamos que não tinha a ver: “Pô, lá vêm aqueles chatos do IRA!, com outros é tão fácil”. Sempre tivemos nossa visão de segmentação, não interessava ser lançado num programa de auditório, onde não tínhamos identificação estética nenhuma, programa movido a jabaculê, como era o caso do Chacrinha, que era o grande programa da época.
Andrea Dip – Você podia contar essa história.
Não gostávamos de fazer o programa do Chacrinha, nada contra ele, acho que ele foi um revolucionário no tempo dele. Agora, o tempo em que pegamos o Chacrinha, infelizmente, já não era aquela realidade revolucionária dos anos 60. Na nossa época ele já estava velho e quem comandava o programa era o filho dele, o Leleco. Todo artista que tocava lá tinha que fazer vários bailes de graça na periferia do Rio de Janeiro. O Leleco ganhava, era uma coisa ridícula, nós nunca fizemos, mas tinha os amigos que faziam, os Titãs, o Ultraje, acho que até o Legião Urbana fez. Eram na Baixada Fluminense, tipo baile funk, um disco tocando, e daí as bandas tocavam umas duas músicas. Era uma maneira de pagar o cara porque ele ganhava a bilheteria daquele bailão. Ele era mafioso, me lembro que depois teve um escândalo de corrupção em alguma secretaria do Rio de Janeiro. Da gente, os caras diziam: “Vocês são elitistas! Não gostam de povo”. Pensávamos nisso porque é muito chato, não era nada contra aquelas pessoas que estavam no auditório. É que não gostávamos de tocar playback. Tocamos a música NúcleoBase no Chacrinha com playback com a maior cara. E o Chacrinha falava aquelas coisas e ele chegou no Edgard e falou: “Dança, dança!” Sabe quando você fica pensando “ai, acaba logo…”?
Tatiana dos Santos – E a história que vocês não quiseram tocar com o gorro de Papai Noel?
O pessoal falava: “Vocês são elitistas porque não deixam o povo conhecer a música”. Daí, a gente: “Vamos lá, então”. Enquanto as outras bandas tocavam todo fim de semana entre 1985 e 1988, só fomos duas vezes. Essa história do gorro não é que um gorrinho de Papai Noel vai me fazer mais ou menos homem, foi a circunstância. Chegamos lá e falaram: “Vai ter que usar gorrinho de Papai Noel”. Daí começamos uma negociação: “Só um usa”. “Não, todo mundo.” “O tempo inteiro?” “O tempo inteiro.” Todas as bandas se reuniram, estavam o Capital Inicial, Zero, Legião Urbana, que eu me lembre. Falamos: “Pô, assim não dá, qual é?” Enquanto discutíamos, tinha um cantor brega no palco, acho que era o Biafra, ele tirou o gorro e o Chacrinha deu um esporro nele. Não tinha conversa com eles, era uma coleira mesmo. Uma besteira, mas era a relação do artista com o programa. O pessoal do Capital e do Legião disse que não poria o tal gorro. Eles do programa ficaram sabendo e queriam nos convencer: “Olha o velhinho!” As outras bandas começaram a ceder e tocaram, nós fomos embora.
Marcos Zibordi – Você está falando dos anos 80 e eu queria quevocê contasse a suarelaçãocom os primeiros rappers.
Teve uma similaridade com o movimento punk aqui de São Paulo, o centro desse movimento no Brasil, que, apesar do discurso pesado e agressivo, dava a chance de inclusão cultural e até profissional para garotos pobres. O rap foi assim. Hoje existem cursos de DJ e de grafite. O punk se autodestruiu nisso de coquetel Molotov. Os punks de São Paulo ficaram xiitas, diziam: “Você está tocando bem demais”. O Clemente, o João Gordo tiveram problemas, foram perseguidos.
Andrea Dip – Teve algum problema drástico com vocês?
Não fazíamos parte do movimento, nossa música não era exatamente punk. Lembro que um dos primeiros shows que fizemos no Lira Paulistana, em Pinheiros, o cartaz falava em punk e new wave. Antes de ser conhecido apenas como o verde-limão, o new wave era a maneira de se ligar à música feita por Lou Reed, Iggy Pop, Patti Smith. Esses caras foram a semente do punk. Iggy Pop no comportamento e visual, o Lou Reed e a Patti Smith no discurso político. Foi a primeira vez que surgiu a palavranew wave, depois ficou conhecida, infelizmente no mundo inteiro, como uma coisa de pista de dança, descompromissada como os B52´s. Como não sabíamos nos definir ainda como pós-punk – acho que é a definição correta do IRA!, uma atitude e certa agressividade punk, mas com um som mais sofisticado. O Calegari, que era um músico dos Inocentes e tinha um fanzine, foi assistir ao nosso show e colocou uma crítica com o título de “Falsos Punks”. Ele dizia que tocávamos reggae, tinha solo de guitarra e se revoltava: “Desde quando punk toca solo de guitarra”. O cara ficou indignado e incitava os caras a quebrarem tudo no nosso show e terminava o texto dizendo: “Precisamos acabar com esses falsos punks!” Não foi um movimento de evolução musical. Quando os punks quebraram o Kid Vinil no Lira Paulistana, eu estava lá e vi tudo. O Kid Vinil foi um dos caras mais importantes na difusão dessa música. O rap surgiu e o punk se autodestruiu num bando de agressões mútuas.
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Reprodução do site: www.nasi.com.br |
Marcos Zibordi – Mas e a tua história gravando os primeiros raps?
Sou um colecionador de discos e no início da minha carreira cheguei a trabalhar como DJ. Numa época em que não tinha nenhum glamour, era tocador de disco mesmo, em danceterias como a Radar Tantan, a Clash. Um amigo nosso que foi muito importante para a história do IRA!, o Caíto, trazia umas coisas bacanas de Nova York e foi aí que escutei pela primeira vez o hip hop, em 1984. Aquilo me fascinou, era o single do Run DMC, King of Rock. Entre 1985 e 1988, só comprava discos de rap. No Brasil tem um movimento mais interessante que o americano.
Marcos Zibordi – Como eles chegaram até você?
O André (Jung, baterista do IRA!) também virou um aficionado do rap. Era a época dos chamados porta-estúdios, uma revolução para a produção caseira, podia fazer demotape em fita cassete. Eu, o André e o Skowa começamos a fazer produções próprias. Fazíamos umas festas no Espaço Mambembe, no Paraíso, em horário alternativo depois das peças de teatro . Nesse evento, surgiram bandas como o Luni, o Fábrica Fagus, Skowa e a Máfia . Sabíamos que já existiam os dançarinos do largo São Bento e eu e o Skowa fomos lá na roda de rap convidar os b-boys, inclusive o Thaíde, que era o líder do pessoal da São Bento, o mais inteligente, o mais saidinho. Depois ele me contou que os caras queriam me roubar, mas ele não deixou porque foi com a minha cara . Ele dança muito, mas nunca apresentou isso em seu show . Ele chegou de canto e falou todo malandro : “Tenho um rap, queria ver se dá pra cantar, tenho um amigo meu, o DJ Hum, parceiro, a gente fez um lance e eu queria saber se de repente eu posso ir lá”.
Thiago Domenici – Você lembra o que ele cantou?
Ele cantou Consciência: “Você diz que é esperto, lagartixa é mais, ela sobe na parede, coisa que você não faz...”. No porta-estúdio, fizemos uma base, uma produção em quatro canais, e foi a primeira apresentação do Thaíde, um puta sucesso. Levamos também os b-boys e toda a turma dele. Tive algumas festas e depois a gente se dispersou. Continuei o trabalho com o Thaíde e fizemos um disco, eu, o André e o Skowa. Para ver como é a indústria, éramos artistas da Warner, no auge do IRA! e levamos essas gravações caseiras e dissemos que estávamos pensando em fazer um disco de rap. O diretor artístico de uma gravadora do porte da Warner: “Isso não é jeito de cantar! Isso não é música. Pô, o que vocês estão fumando?” Foi uma esculhambação. Não tinham noção de que o rap era uma nova linguagem. Hoje podemos até dizer que a música eletrônica é fruto dessa linguagem, da cultura do DJ. Quem acabou comprando a nossa idéia foi o selo Eldorado, que lançou a primeira coletânea, o Cultura de Rua.
Marcos Zibordi – Você estava na produção do Cultura de Rua?
Estava, junto com o Skowa e outros produtores também. A música que fez sucesso foi Corpo Fechado, do Thaíde. Hoje em dia é difícil encontrar um artista que não tem influência do rap, a música brasileira não é a mesma depois do rap.
Thiago Domenici – E a relação de vocês com a mídia? O IRA! teve o auge, depois ficou sumido um tempão. Como é ficar de fora e retornar?
Acho que o rock na década de 90 – diga-se de passagem, graças a Deus também – perdeu o status de música da moda. Toda hora que existe um movimento hegemônico de música, a maior vitima é o próprio gênero musical.
Tatiana dos Santos – Mas agora não está na moda de novo?
Não que nem era nos anos 80.
Andrea Dip – Vou aproveitar o gancho para falar isso com você. Você não acha que esses movimentos de agora como o emo (emocore) deixaram de ser um movimento político com atitude social e viraram puro consumo?
Sem dúvida. Pra você ver como é engraçado, imagine se aquela turma do hardcore em sã consciência em 1980 ia falar que o hardcore ia virar música radiofônica.
Andrea Dip – Nossa, não mesmo.
O que quero dizer é que por volta de 85 o rock era mainstream. Você falava em rock, estava contratado. Isso fez muito mal para o rock nacional porque virou um saco de gatos. Algumas bandas legais, como, por exemplo, As Mercenárias, da cena alternativa de São Paulo, nunca tiveram chance de tocar nas rádios. Naquela época tinha muita porcaria, era 80 por cento de porcaria. Às vezes, a mídia me deturpa porque publica que eu disse que “os anos 80 foram uma merda”. Eu nunca disse isso. O que quero dizer é que tinha muita porcaria.
Marcos Zibordi – Você não disse isso, mas já deve ter ouvido, é quaseumconsenso, as pessoas que ouvem música hoje dizem que a música brasileira a partir dos anos 90 é anos-luz superior à música dos anos 80.
Como o Segura o Tchan, né? Se cuspiu muito nos anos 80, por isso que acho até engraçado esserevival que tem agora, é o revival do eu era feliz e não sabia. Porque era assim: anos 80? Década perdida. Em parte é verdade, porque realmente tinha muita porcaria: Ursinho Blau, Blau(bandaAbsinto),Joga a Mãe no Tanque pra Ver se Quica (banda Dr. Silvana). Na hora que vira um movimento hegemônico, o que interessa para a indústria são os artistas descartáveis, que não dão problema. Artistas de música mais complicada e sofisticada ou que não se adaptam ao formato da gravadora dão trabalho. Então eles pegam aquele cara com uma música descartável, um artista que vai durar esse verão e “não vai mais encher nosso saco e vamos vender disco pra caramba”. Isso aconteceu com o rock, o rock se banalizou muito nos anos 80, apesar de ter tido coisas muito legais que estão sendo redescobertas agora. Por exemplo, você vê essas coletâneas que saíram na Inglaterra e na Alemanha com o pós-punk paulistano, que fizeram sucesso de critica e fizeram, por exemplo, As Mercenárias voltar.
Marcos Zibordi – Mas na década de 90 tivemos o Chico Science...
Mas para cada Chico Science dou três bandas de axé para você. E não foi isso que fez sucesso, Chico Science foi um fenômeno até mais pra gringo do que pra nós aqui, vai botar uma música do Chico Science na FM no Brasil... Para ganhar um disco de ouro é difícil quando é uma música mais complexa. Nomes bons surgiram, como Lenine. Mas solta ele e o Jacaré (dançarino da banda É o Tchan) no meio da multidão para ver quem dará autógrafo.
Tatiana dos Santos – Quando você toca hoje no show uma música do IRA! superpolítica dos anos 80, como sente o público?
Sinto que as músicas do IRA! têm até mais aceitação hoje em dia. Acho que o IRA! tem uma linguagem mais coloquial. Uma característica nossa e de outros artistas daquela época é que, mesmo com o passar do tempo, as coisas que falávamos não ficaram datadas. Por exemplo, “se sou eu ainda jovem passando por cima de tudo”
é um verso com que a garotada pode se identificar hoje em dia. Isso é mais importante do que você fazer hoje o rock do mensalão, que daqui a pouco não tem mais sentido. Quer dizer, cada vez mais penso que só vamos mudar o país com uma mudança humana, não só com a transformação política, isso a gente vê muito claramente com as decepções que temos hoje. Não adianta você se dizer de esquerda se vai usar os mesmo artifícios que a direita usou e se você tem o mesmo plano de vinte anos no poder que tinham o Collor ou o FHC. Quer dizer, a gente precisa de uma transformação, uma nova maneira de fazer política, e precisamos de novos políticos. E pra isso precisamos de um novo eleitor. Tudo isso é muito mais complexo do que simplesmente dividir o mundo entre esquerda e direita.
Thiago Domenici – Vi uma declaração sua de que no começo da carreira você achava que a música podia mudar as coisas e que depois você concluiu como a política é importante também para as mudanças...
Não é uma coisa só minha, todo mundo que começa uma banda de rock que valha a pena acredita que sua música vai transformar o mundo. Foi assim com os Beatles, o Clash. Quando você alcança uma certa maturidade, vê que a música faz parte, é trilha sonora das mudanças que existem. Não foi a música dos anos 60 que transformou os anos 60, ela foi a trilha sonora das mudanças que estavam no ar, da contracultura, das revoluções de comportamento e de idéias que aconteciam. Isso é fruto até de uma certa arrogância juvenil, que é muito bom que exista, acho que jovem serve pra isso, se você não é arrogante e não acha que vai mudar o mundo quando você tem 18, 20 anos, vai ser arrogante quando? Depois você vê, isso não é diminuir a importância da música, é só colocá-la no devido lugar. Por isso, falo para você, não adianta um artista escrever o hino da transformação do nosso tempo, se no dia-a-dia dele como cidadão e ser humano faz tudo que não prega na música, se é um artista que trata ou paga mal as pessoas que trabalham com ele ou trata as pessoas feito lixo. Tem muito artista que é assim. É aquela história, se você entrasse na cozinha dos principais restaurantes, não jantava. Se você conhecesse a maior parte dos compositores, não acreditava na música deles.
Thiago Domenici – Você se filiou ao PC do B...
É, sou filiado.
Thiago Domenici – Então você realmente acredita que não só com a música, mas talvez se filiando partidariamente pudesse...
Acredito na política num sentido muito maior, não só na política partidária. Principalmente hoje em dia.
Tatiana dos Santos - Foi no momento da numeração dos discosquevocê se filiou ao PC do B?
Na verdade, meu contato com o Partido Comunista tem dados familiares. Sou de uma família de professores comunistas. Tenho tio-avô que morreu no Araguaia, tenho esse caldo desde a infância. Já fui vizinho também de um diretório do PC do B, e lá tive oportunidade de conhecer pessoas nos quais acredito e voto como Aldo Rebelo e Jamil Murad. Essa atividade esquerdista sempre se refletiu no IRA! em muitas ações que fizemos no início da formação do PT. Já participamos até de campanhas, no caso da Erundina. Para você ter idéia, participamos junto com outros artistas de um show no teatro Ruth Escobar organizado pelo antigo Partido Comunista, em 83, para levar remédios para a Nicarágua.
Tatiana dos Santos – Campanha na televisão você chegou a fazer?
Cheguei a fazer, apoiei o Genoino, o Lula, o PC do B. Na televisão, apoiei vários candidatos da UJS – União da Juventude Socialista.
Tatiana dos Santos – Você se arrepende?
Arrependimento não, mas decepção sim, principalmente no cargo majoritário. Se bem que acho também que temos de mudar um pouco o enfoque da discussão hoje em dia. Temos uma preocupação exagerada com a presidência da República, a gente se esquece de se conscientizar primeiramente em votar em bons vereadores e deputados. Enquanto não mudarmos o Congresso, pode botar quem for lá, que ou ele será derrubado ou ele vai entrar nesse tipo de corrupção corporativa que existe. A gente até pode eleger um que fale melhor o português, mas já tivemos de tudo. Tivemos um catedrático e temos um operário e os problemas foram os mesmos. O FHC teve um arranjo político mais profissional, para não deixar as coisas vazarem...
Thiago Domenici – Tinha um controle maior do Congresso.
Exatamente. O PT se lambuzou todo, daí houve a decepção. Acredito no momento em uma nova maneira de fazer política, de ligação com os movimentos sociais e preocupação em primeiro lugar com quesitos básicos como educação e distribuição de renda. Hoje existe um enfoque nos números. Tal índice prova que existe menos desemprego e o poder aquisitivo do trabalhador subiu e um segundo instituto de pesquisa diz que o valor diminuiu. E o Brasil continua com uma realidade perversa em termos de educação, que é uma das coisas que temos para reformar neste pais. Além disso, a reforma política é essencial. Essa forma de fazer política multipartidária, com partidos de aluguel, é difícil. Precisa de uma Assembléia Constituinte para fazer a reforma política. Deveríamos ter uns quatro partidos bem definidos ideologicamente. Um partido de esquerda, definidamente de esquerda, um de direita, porque é preciso isso também, nem toda idéia de direita é absurda. E partidos de centro. Hoje não existe mais o petismo, existe o lulismo. O presidente não tem mais nenhuma relação com o partido dele, com o programa de seu partido e com as suas bases. Não tem compromisso com os movimentos sociais ou mesmo empresariais, só tem que se relacionar com o Congresso e manter a economia naqueles patamares preestabelecidos internacionalmente para não haver fuga de divisas e inflação. Na verdade, não vejo possibilidade de mudança na próxima eleição se for este ou aquele.
Thiago Domenici – Na última eleição, você votou no Lula?
Sim, votei no Lula e o apoiei.
Thiago Domenici – E nas próximas...
É duro isso, viu! Estou quase na campanha do voto nulo. É que o voto nulo também vai para alguém. Sempre prestei atenção nos deputados que votei, seria bom que cada vez mais a população tivesse esse tipo de preocupação. Revi muitos conceitos, sempre fui defensor da obrigatoriedade do voto, achava que num país como o Brasil, cheio de coronelismo, se o voto não fosse obrigatório, ia haver o impedimento de os pobres votarem. Hoje em dia, quem vota mais errado é a camada mais carente, porque não tem educação, não tem acesso à informação que lhe desse uma visão do mundo que a cerca, são as maiores vitimas, pior, vitimas de si mesmos. Voltando sobre em quem votar, é claro que acho a coerência da Heloísa Helena apaixonante, mas o programa que ela tem para o Brasil não ficou claro. O Cristovam Buarque, com o discurso dele baseado na educação, é tudo que eu gostaria de ver em todo presidente, mas todo mundo sabe que ele não será eleito.
Thiago Domenici – Ou então que o discurso é diferente da prática.
É, qual a diferença do picolé de chuchu e o sapo barbudo? Nenhuma, quer dizer, em termos de política econômica, não. Quer dizer, o que a gente esta vendo é uma continuação do assistencialismo, você pode até falar que o Lula avançou aqui ou lá. Mas, basicamente, a gente continua com o mesmo problema de um superávit primário que impede a distribuição de renda, que não vai ao encontro das necessidades de elevação do padrão de vida da maior parte dos brasileiros. No Brasil, nenhum governo bota a mão para mexer nos lucros absurdos que os bancos têm.
Gabriela Laurentiis – Você falou da educação e o que se fala hoje em dia é sobre cota na universidade, o que você acha disso?
Se ainda fosse estudante, lutaria contra a cota. É uma questão polêmica. Mas, para mim, é muito claro que, se você coloca na lei a questão da raça, abre uma prerrogativa muito perigosa. Uma das características do Brasil e uma de suas grandes qualidades é a mistura de raças, muito diferente dos Estados Unidos, onde o apartheid é um fenômeno.
Gabriela Laurentiis – Mas e a cota para colégio público?
É aí que eu queria chegar, é uma boa maneira. Não podemos esquecer também que o Brasil foi o último país a abolir a escravidão, e existe sim um preconceito racial muito grande. Mas nesse lado temos que ter leis mais duras contra o preconceito. Agora, se você quer atingir o mal pela raiz, tem que melhorar a qualidade do ensino público, que é péssimo, e dar cota para estudante de escola pública que prove que precisa.
Gabriela Laurentiis - Mas você não acha que as pessoas estudariam em colégios públicos e quem tem dinheiro pagaria aulas particulares, enfim, não seria um processo que levaria a nada?
Não acho que vai elevar a qualidade do ensino público em uma ou duas gerações. Na época dos meu pais, você prestava o vestibular para entrar numa escola pública . Isso só voltará a acontecer a longo prazo.
Tatiana dos Santos – Queria voltar um pouco para o rap. Teve aquele rap do começo com o Thaíde, queria quevocê falasse a diferença que sente dos primeiros raps e os de hoje, assim, comoConexão do Morro.
O Thaíde tem mais relação com aquele conceito dos Estados Unidos do black is beautiful, tem mais associação com a malícia, com a linguagem brasileira e de valorização da auto-estima. O discurso dos Racionais, que é maravilhoso, é uma coisa mais política e de protesto. Acho que o rap nacional é o melhor do mundo porque ele continua, a meu ver, com um discurso engajado com a periferia, não perdeu esse contato, que na maior parte, nos Estados Unidos, se perdeu, virou gangsta rap, mainstream. Por exemplo, o Thaíde também tem um molho, umswing que é brasileiro. O rap brasileiro, além de manter essa ponte entre a zona norte e a zona sul, entre a periferia e o centro da cidade, até em trabalhos mais populares, como o D2, Rappin’Hood, MV Bill, você sente essa linguagem mais brasileira, hoje existe um rap nacional, se o americano ouvir ele vai falar: “Pô, que jeito diferente, tem umswing diferente”. O D2 foi bem fundo nisso aí.
Tatiana dos Santos – E no rock o que você acha?
Olha... vamos ver o lado bom. Eu, por exemplo, não uso Internet, mas principalmente por causa dela o movimento independente é uma realidade mais legal. Tem festivais, selos. Mas infelizmente tem muita coisa fraca, como esseemocore. É por isso que hoje em dia se valorizam tanto os anos 80. Numa boa, eu sou de uma geração que teve Renato Russo, Cazuza, olha as coisas que eles escreveram.
Ronye Quintieri – Queria voltar aos anos 80, nos Perdidos na Noite, do Fausto Silva, não tinha jabaculê, pelo contrário, ele abria as portas para a boa música...
Tem tanto jabá que você nem sabe. Não tenho nenhum pudor em falar que as músicas do IRA! tocaram pra caramba nos últimos tempos, você acha que não pagaram pra tocar? Claro, não existe nenhum artista que toque em rádio em que a gravadora não pague. Isso é uma coisa muito séria. É uma batalha muito grande essa questão do jabá nas rádios, é corrupção muito séria.
Thiago Domenici – Isso acontece até em rádio voltada para o hip hop como a 105?
Não existe rádio FM de sucesso que não cobre. O pior é que ninguém fala nem no preço. O pior é que isso está embutido no preço do disco. É por isso que o disco é caro. Hoje em dia, uma gravadora gasta mais dinheiro para divulgar e fazer a música tocar do que para gravar. Estamos dentro do mercado e sabemos disso. Hoje em dia, para fazer um bom disco num bom estúdio, são gastos em média uns 150.000 reais, o que não dá para o cheiro em uma campanha de disco. Nós falamos sobre isso no período de lançamento do discoIsso É Amor em 1999. O Pedro Alexandre Sanches, um jornalista muito inteligente que trabalhou na Folha de S. Paulo, fez uma entrevista com a gente e começou a puxar uns assuntos assim, quase em off depois da entrevista, sobre a questão da numeração e do jabá e demos nossa opinião. Ninguém falou para ele não publicar, ele não foi desonesto com a gente, foi inteligente. No outro dia saiu publicada uma matéria elogiosa e um boxe sobre esse assunto com a gente falando que jabá existe mesmo e que nos Estados Unidos até já deu cana para alguns. No outro dia ligaram da Abril, nossa gravadora na época, falando que uma grande rede nacional de rádio tinha ligado para dizer que, além de não tocar mais o IRA!, não iriam tocar nenhum artista da Abril.
Thiago Domenici – Não pode falar qual é a radio?
Não posso falar. É uma grande rede nacional de rádio.
Cazu – Até hoje os artistas pagam verba de promoção, mas emitem nota de...
Tucanaram. É como o Lobão fala ironicamente. Vende o espaço, mas pelo menos mostra que estou comprando cinco minutos na rádio. Na cabeça de boa parte do público parece que a música toca de forma espontânea, porque o povo gosta. Mas daí tem aquele papo de que você elitiza e que eu gosto só de música, que o povo não gosta. É sempre esse papo, o povo. As pessoas até pedem a música, mas elas têm acesso às músicas para poderem pedir? Não, elas só pedem o que toca.
Thiago Domenici – Fala-se pouco do jabá e fala-se muito da pirataria, qual é a tua opinião sobre isso?
É uma conseqüência, é claro. O nosso disco Acústico vendeu 250.000 cópias, mas sei que vendeu muito mais na banca do camelô. É até umstatus, né, estou fazendo sucesso e estou vendendo no camelô. Sobre a pirataria, não podemos esquecer que o preço do disco é caro e o pirata é um disco de segunda classe, um disco popular. Quem tem dinheiro compra o disco bom, com encarte bonito, todas as informações, que não pula faixa. Se a pessoa não tem dinheiro, ela compra esse disco popular, agora, o problema não é o camelô, é aquele cara que está por trás dele. Porque nada me tira da cabeça, sei que é teoria da conspiração, que existe um conluio de um chinês ou um coreano com o presidente da gravadora (risos). Às vezes tem discos de artistas que as cópias piratas saem antes. Não tenho como provar, mas duvido que uma multinacional deixe escorrer tanto dinheiro assim. Acho que lá em cima falam: “Vamos dividir aqui, você vende disco de segunda classe”. É uma teoria minha.
Andrea Dip – Quem tem mais dinheiro ainda baixa da Internet...
Vou achar maravilhoso o dia em que eu quiser escutar um pedacinho de uma música, eu pague 20 centavos, vou baixar ela. Isso vai acabar com as gravadoras.
Andrea Dip – Mas já existe, né?
Mas não funciona muito.
Tatiana dos Santos – Vocês não pensaram em fazer como o Lobão, ser independente, vender disco em banca de jornal?
Esse trabalho solo que lancei agora (Nasi – Onde os Anjos não Ousam Pisar), eu banquei tudo, a única coisa que eu não fiz foi a distribuição, que é feita pela Sony. No IRA! eu divido 12 por cento do líquido por quatro. Nesse disco tenho 45 por cento. Mas também paguei o disco, falei com um grande produtor, que é o Apolo 9, e fechei por um preço que é um quarto do que ele cobraria de uma gravadora. Fiz um videoclipe com o Selton (Selton Mello), que é meubrother.
Andrea Dip – Uma hora as gravadoras vão quebrar de vez?
Já estão quebrando. Tem uma gravadora multinacional muito conhecida que, para me pagar os direitos autorais em uma participação em um especial, de 10.000 reais, depois de o disco ganhar disco de ouro, me disse que estava sem dinheiro. Coitadinhos, vocês não querem um dinheirinho emprestado (risos). É um absurdo uma multinacional chorar as pitangas por um mês para me pagar em um disco que a ajudei a vender. É por isso que entra aí a teoria da conspiração. Existe um caixa dois na pirataria.
Andrea Dip – Se não existe, você acabou de dar uma idéia ótima.
É, porque as gravadoras protestam, mas de efetivo nada se faz. Então alguém está ganhando com isso. Tem alguém muito poderoso lá em cima.
Thiago Domenici – Queria entrar em um tema um pouco espinhoso, que é a questão das drogas, já que você fala com muita desenvoltura sobre isso. Li uma declaração sua que dizia que a sociedade não aceita um ex-dependente, quando o cara vai se tratar e sai, a sociedade tem um certo preconceito. Queria que você contasse essa sua fase. Como foi?
O que quis dizer é que não existe ex-dependente. Se você tem dependência, tem para o resto da vida. Quer dizer que você não pode mais usar. Quando você sai da clínica, quer falar para tudo mundo o que passou. Isso faz parte da doença. Eu, como várias pessoas, saí e falava adoidado. Primeiro é uma euforia pela felicidade de ter saído e uma coisa química do seu corpo também. É também uma maneira que você pensa que está ajudando aos outros. Daí, existem pessoas que publicam matérias legais, que realmente te entrevistam direito, colocam em um contexto bacana. Mas boa parte encara isso tudo como sensacionalismo. Então você se expõe bastante e percebe que a maioria das pessoas tem mais facilidade em ter preconceito com você, depois que você assumiu que fez um tratamento, do que antes. Como, por exemplo, o caso do Maradona, ele usou por um tempão e o pessoal falava: “Ele é doidão, mas bate um bolão”. Quando começou o calvário dele de clínica em clínica, todo mundo falava: “Esse cara não tem cura”. E, quando ele ficou bonito, todo mundo falava: “Tá bom, você viu a cara do Maradona? Até parece que ele não está mandando uma”.
Thiago Domenici – Fica a marca, né?
E existe um preconceito grande, a maioria das pessoas fala: “Nossa, se ele foi se tratar, xi...”. Em vez de pensar que a pessoa precisou de muita coragem, de grana, de apoio. O pior é que temos péssimas campanhas de conscientização sobre drogas. Geralmente aparecem pessoas que não têm nada a ver com drogas. Aparece a Eliana apontando os dedos. Ela não fuma nem cigarro, entendeu? Ou “Drogas, tô fora”. Não é isso. A maioria das pessoas vai ter em um determinado momento da vida contato com a droga, é inevitável. As campanhas são baseadas em um moralismo e não em tratar o problema como doença. Não é um problema de caráter, mas pode levar à deterioração dele. Uma família tem muita dificuldade em levar seu filho para um tratamento, porque é uma espécie de assumir um fracasso próprio. Fracasso que não existe. Se a gente tivesse mais campanha e mais divulgação sobre a questão dos caminhos da dependência, sobre as várias formas da dependência, as pessoas iam tirar esse ranço moralista. Gosto de citar o caso do Maradona porque ele acabou com a vida dele. Mesmo sendo um cara amado, quase morreu, perdeu tudo, dignidade, condição física, tudo e, depois de sucessivas tentativas, conseguiu se tratar e se transformou numa coisa melhor do que ele era, voltou lindão, fez programa, bem-humorado, deu declarações legais. Por outro lado, você vê o Pelé, que é um superatleta. Ele não fuma e não bebe, é o exemplo vivo de abstinência. Mas e o filho dele? Então, se enfrentássemos um pouco esse moralismo, tiraríamos esse manto que faz as famílias terem um preconceito, uma resistência para levar seus filhos para um tratamento.
Thiago Domenici – Alguém já te convidou paraparticipar de campanha?
Graças a Deus não convidaram. Vão convidar pra quê?
Thiago Domenici – Mas seria até o caso para você levar suas idéias.
É meio utópico, isso não existe. Acho que tem de ser uma coisa mais ampla, acho que isso devia estar na escola, ter uma aula. Porque, quando a gente está em uma clínica, fazemos isso, estudamos as drogas.
Tatiana dos Santos – Acabou de ser liberada a lei de que uma pessoa apanhada com certa quantidade de droga não vai mais para a cadeia como traficante. Antes, uma pessoa era apanhada com um baseado, já ia em cana.
Parabéns. Isso é uma coisa, que até o nosso moralismo faz a gente deixar de dar parabéns ao governo Lula. Isso é um avanço que vem de décadas. Uma coisa que se fala desde que me conheço por gente, de separar a pena e o tratamento de quem é usuário da do traficante. Faz décadas que se inventou isso e nem se fez barulho sobre a aprovação da lei. Tenho certeza de que muitos estão pensando: “Agora, o cara fuma maconha e nem preso vai mais, daqui a pouco vão estar dando dinheiro pra preso”. Por isso que fica assim. Ninguém expõe.
Cazu – Ontem, a Tati Quebra Barraco foi presa fumando um baseado. Aí, ela falou: “Vamos para a cadeia, vamos para a delegacia. Porque senão antigamente tinha que pagar”.
É verdade e ainda mais no Rio de Janeiro. Já fui achacado lá e isso que vou contar vai ao encontro do que aconteceu com a Tati Quebra Barraco. Uma vez, numa época em que eu estava na ativa, como se fala, eu estava num show no Circo Voador e subi com um amigo o morro de Santa Teresa. Fomos de bar em bar, não tinha nada. Ele falou: “Nós vamos ter de subir a favela”. Eu nunca tinha subido em uma favela no Rio de Janeiro, pra mim a favela era como aqui. Daí subimos, eu, ele e a namorada dele. A namorada ficou no carro e fomos nós dois, já doidão. Ia subindo e vendo os caras armados, com capuz nas escadas, adrenalina, ufa! Tinha um cara no topo do morro que devia ser o que mandava, estava muito louco e lembro que na época, acho que hoje não tem mais, mas a gíria aqui em São Paulo era chamar de farinha e farinha no Rio era ofensa. Eles falaram: “O que vocês querem?” “Farinha.” “Aqui não tem farinha, não, vocês estão loucos?” Nisso, o cara doidão, não sei de onde fui tirar, acho que porque estava com crachá de músico, abri o peito e fui falar: “Bicho, sou músico”. Daí, os caras: “Nossa!!” Clack, clack. Imagina eu, completamente deslocado sem saber agir dentro daquele nicho? Fazendo tudo errado. Nessa hora, os caras falaram: “Sai andando”. Foram os segundos mais demorados da minha vida, virei as costas e falei: “Não quero mais nada, vamos embora”. E o cara: “Não, espera aê”. Fui descendo e ouvi pah! pah! Puta que pariu, olha a situação. A namorada do cara esperando no carro, e eu pensando: “O que eu faço?” Volto e falo: “Ele encontrou um amigo lá, me deixa em casa?” Se eu for embora, tô fodido. Então, voltei e ele disse que o cara tinha dado uns tiros pra cima, lembrei que estava com uma bota, e o cachê do show inteirinho na bota. O cara chegou pra mim e falou: “Seguinte, aqui não se fala farinha, entendeu? E se você é músico, não me interessa”. E eu: “Sim, senhor”. “Você quer comprar?” “Quero”.“Vai então, compra lá com o moleque.” Eu já tremendo: agora vou ter que comprar, vou ter que tirar a minha grana. Bom, ninguém me roubou, desci. Só que lá embaixo a polícia já estava esperando: "Que vocês estão fazendo ai?” Meu amigo jogou fora as coisas e eu peguei – pra vocês verem como é o vício –, guardei não sei onde. Inventei a maior história, chorei, falei: “Minha namorada subiu pra comprar maconha, doutor”. E esse meu amigo carioca: “Cala a boca”. Sou de São Paulo, que é outra reação. Em São Paulo vem um polícia e começa a falar e vem teu amigo e fala “cala a boca”, já é tapa na cara direto, né? Comecei a falar de novo o papo de ser músico e o polícia: “Ih, mas a gente vai pra delegacia”. E eu: “Bicho, não posso, meu ônibus está me esperando lá em Copacabana”. Só que os caras me revistaram e não acharam nada. Moral da história, não fui assaltado pelos traficantes e fui assaltado pela polícia! Então, é desse tipo de situação que essa lei vem ao encontro. Sinceramente, sempre tive uma dúvida muito grande em relação a essa questão porque é muito complexa. A liberação ou a proibição das drogas? Sejam elas pesadas ou não, isso é um conceito que pouco importa, porque tem muita coisa que é pesada e liberada. Mas, depois de tanto pensar, e dentro do quadro de violência urbana sem parâmetros que a gente tem, cheguei à conclusão de que tem de liberar mesmo. Porque você não vai impedir. É como a questão do desarmamento. Não fiz campanha contra, mas fui lá secretamente e votei não. Não sou a favor da arma, mas mudaria se votasse a favor. Já existe um estatuto do desarmamento. Não precisa disso. Agora, ao proibir oficialmente dessa maneira, dá mais força para o mercado negro, que já existe. Então, é a mesma coisa em relação à droga. Não acho que a liberação vá solucionar o problema, mas vai melhorar muito os efeitos disso. Na medida em que se pudesse ter o controle de venda, de dinheiro. Assim como o cigarro deveria fazer, pagam-se impostos altíssimos e parte desses impostos tinha de ir para criar clínicas que tratassem de quem é dependente de tabaco. Acho muito importante, e nenhum presidente fala sobre programas de recuperação. Porque, quando uma pessoa, dependente ou não, está a fim de usar, você pode fazer o que for e ela vai usar. Agora, a pessoa que quer parar de usar não encontra apoio. As instituições, muitas delas são caras, algumas são baratas, mas pouco divulgadas. Ninguém liga pra alguém que quer parar de usar droga. Levam para a igreja, e com todo o respeito, mas não é na igreja. Lá, a pessoa pode encontrar um suporte espiritual, mas, para uma pessoa tratar vício, precisa de tratamento médico, precisa de terapia específica. Deveríamos ter campanhas que dessem mais coragem para as famílias procurarem esse tipo de ajuda, e não ficar escondendo e fingindo, porque daí volta naquele ponto que eu falei. Porque, enquanto o cara está usando, olham para ele e dizem: “É o jeitão dele, sempre foi assim doidão”.
Ronye Quintieri – Você chegou ao fundo do poço?
Olha, primeiro que todos têm uma hora em que chegam ao fundo do poço. Inclusive, tem pessoas que chegam no fundo e continuam cavando. Acho que isso tem a ver com a relação de perda, perde o trabalho, a dignidade, as pessoas que ama, a família, dinheiro, oportunidades, tudo. Algumas pessoas têm apenas uma perda e já procuram ajuda. O mais importante é ter a vontade profunda e sincera de parar de usar e isso não chega com moralismo, chega na hora que se vê que não faz mais efeito e se vê que precisa de ajuda, porque sozinho não consegue.
Ronye Quintieri - Quem te ajudou?
Meu irmão. Quando eu estava num péssimo estado e não queria parar de usar, meu irmão chegou a contratar segurança pra me pegar à força, ele ia fazer isso, mas foi orientado bem, e viu que não deveria fazer isso. Não que toda vez isso não seja necessário, porque acho que às vezes as pessoas estão em um estágio avançado, à beira da morte, e acontece de ter de fazer um tratamento de choque para a pessoa não morrer dali a cinco minutos. Mas não é isso que vai fazer uma pessoa parar de usar ou não.
Thiago Domenici – Seu desejo sincero.
Exatamente. Meu irmão foi com quem procurei ajuda em um momento em que eles já tinham meio que desistido. Não desistido, mas não acreditavam mais. Porque já tinham me levado em psiquiatra, me internei em 1997. Essas tentativas dele foram em 94, 95. Lembro que ele me mandou para um cara que é uma sumidade no tratamento de dependência química. Lembro de esse médico ir na minha casa umas 3 da tarde. Eu abria a janela e perguntava quem era. E ele respondia: “Doutor Van Helsing”. Nunca vou me esquecer disso. Porque é uma analogia maravilhosa, estava em um estado de vampiro.
Cazu – Como é que você vê o IRA! hoje? Vocês ainda se juntam?
Vou falar uma coisa, 25 anos é uma boda difícil de ser completada. São poucos casamentos que chegam nessa hora. Nós passamos um momento maravilhoso com o Acústico. O Acústico na verdade veio na seqüência de bons discos do IRA! Nós fizemos o Isso é Amor, em 99, disco elogiadíssimo, ganhamos o prêmio da APCA (AssociaçãoPaulista de Críticos de Artes). Antes fizemos outro disco que também ganhou um prêmio da APCA que foi o Vocênão Sabe Quem Eu Sou. Depois veio o disco ao vivo e ganhamos Disco de Ouro. Com O Acústico conseguimos vender, tocar bastante, além de recebermos boas críticas. Coloco o Acústico junto com os melhores discos do IRA!. Quando você monta uma banda, quando tem uns 20 e poucos anos, a condição básica é que todos pensem igual. Quando você fica adulto, você tem particularidades. E é difícil hoje em dia. Estamos tentando fazer um disco novo e até agora não pegou. Tem uma musiquinha aqui ou lá. E ainda eu e o Edgard lançarmos dois discos solo. Isso atrapalhou a nossa concentração para fazer esse disco.
Thiago Domenici – O IRA! sempre foi uma banda que manteve compromisso com o rock nacional, até hoje, inclusive, depois das várias fases.
Tem uma definição do IRA! que sempre me incomodou porque acaba virando um rótulo, que é o de banda honesta. Nunca gostei porque parece que exclui a nossa parte musical. Falar em banda honesta é meio arrogante porque parece que as outras não são. É aquela velha história de que honestidade não devia ser qualidade e sim uma obrigação. Entre os altos e baixos da nossa carreira, as brigas que compramos, as vezes que nadamos contra a maré, criamos uma aura que é verdadeira e merecemos, que é a de artistas verdadeiros. Isso é bacana. Mas, também na hora em que você vai fazer um disco novo, tem que provar tudo de novo. E, quanto mais vezes você faz, parece ter cada vez menos aquele descompromisso que tínhamos no começo. Ao mesmo tempo, quando subimos ao palco, é uma relação maravilhosa, estamos fazendo grandes shows porque somos músicos melhores. Apesar de hoje sermos pessoas com gostos musicais diferentes.
Thiago Domenici – Com trabalhos paralelos também, né?
Os trabalhos paralelos são importantes também. Às vezes eles criam problemas para o IRA!, de agenda. Por outro lado, não tenho dúvida de que o IRA! está junto até hoje por causa disso. Porque o trabalho que o Edgard faz é diferente do IRA! e o que faço também é diferente. Se não fosse isso, ia virar uma guerra dentro da banda.
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