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por João Mauro Araújo
Perto da Catedral Metropolitana de Fortaleza, na rua Baturité, 162, também conhecida por rua da Escadinha, fica a casa do pesquisador e musicólogo Christiano Câmara. Em 1952, ele iniciou uma coleção particular, somando atualmente mais de 20.000 discos de cera e de vinil, oitocentos quadros, seis estantes de livros e 4.000 fitas em VHS. Para comportar todo esse material, ao longo do tempo Christiano foi abrindo mão do espaço da sua própria residência, tanto que hoje vive literalmente dentro de um museu.

Há cerca de três anos, o improvisado memorial foi registrado juridicamente como academia cultural sem fins lucrativos, ganhando o batismo de Associação dos Amigos da Casa Christiano Câmara. Além de prestar um serviço à memória do país, organizando seu importante acervo histórico, Christiano transmite seus conhecimentos musicais através de conversas, artigos e palestras, inclusive para estudantes que freqüentemente o visitam.

Os audiovisuais da coleção são datados principalmente da década de 1930: a chamada “época de ouro da música e do cinema ”. Sublinhando a tese de que a economia hegemônica também influencia decididamente na cultura, Christiano explica que o período dos anos 30 foi singular para a cultura mundial, pois, com a quebra da Bolsa de Nova York, os Estados Unidos afrouxaram a dominação, o que possibilitou a países como Brasil, Argentina e México desenvolverem suas artes com maior liberdade.

Christiano exemplifica bem isso no premiado documentário Rua da Escadinha 162 produzido por Márcio Câmara (fevereiro de 2002). “Eu digo lá no filme que, no Brasil, para ser pesquisador ou historiador, você tem de ser, antes de mais nada, colecionador. Aí complemento: ‘O que é um absurdo, porque qualquer brasileiro pode ser pesquisador ou colecionador, sem ter a necessidade de colecionar nada’.” Para Christiano, o governo é que tem a obrigação de disponibilizar “discoteca, biblioteca, fitoteca, e toda coisa de ‘eca’ que seja coleção para se pesquisar”.

Após concluir o ensino médio, a formação de Christiano seguiu inteiramente autodidata. Trabalhou no antigo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários (IAPI) durante seis anos, e a partir de 1956 no Banco do Brasil, onde se aposentou em 1979. No jornalismo, colaborou para o diário O Povo entre julho de 1974 e outubro de 1981, escrevendo uma coluna sobre música e cinema. Além disso, produziu e apresentou 112 programas sobre música erudita na Rádio Cidade, e mais 99 programas de música popular na Rádio Cultura dos Inhamuns, de Tauá, CE.

É esse cidadão que me recebe quando toco a campainha. Falando com um sotaque bem arrastado e firme, abre o portão: “Rapaz, você devia ter ligado antes avisando que vinha, que daí eu me preparava melhor. Não fiz nem a barba”. Convida para entrar, enquanto tento pincelar alguns pontos para a entrevista.

Sua esposa, Douvina de Andrade Câmara, oferece um cafezinho durante a conversa inicial na sala onde ficam os aparelhos de som, cujas paredes são preenchidas por retratos de personalidades do mundo da música e do cinema. Dona Douvina aproveita o rumo da prosa para lamentar o “fim dos regionalismos”, afirmando que sua cidade natal, Jaguaribe, CE, já não é mais a mesma, pois tem pouca gente caminhando pelas ruas, muitos automóveis e bastante gente com telefone celular. Encontramos um bom mote para discussão.

De repente, Christiano balança a cabeça, chama seus netos que jogavam no quintal e pergunta: “Como é o nome daquelas coisinhas que a gente bota no ar?” “Pipa.” “E aquela coisa que a gente risca na calçada?” “Amarelinha.” Daí o pesquisador contesta, dizendo que pipa e amarelinha nunca teve no Ceará, e sim como eram conhecidas: “arraia” e “macaca”. Indignado, não admite a padronização cultural promovida pelos meios de comunicação de massa oriundos dos grandes centros urbanos. Ligo o gravador, começa a entrevista.


Por que você acha que a mídia tem domínio sobre as culturas regionais? Como uma cultura forte, tradicional, cai diante da mídia?
Cultura forte o quê? Cultura forte em termos de folclore, mas não economicamente. Começamos a ser violentados desde quando surgiu o primeiro disco de cera. Tínhamos nossos compositores e cantores aqui do Ceará. Quando começaram a surgir os primeiros discos da Casa Edson (selo responsável pelo primeiro registro fonográfico do Brasil), então eles passaram a tentar imitar aquela maneira de cantar, compor e tocar violão – isso, em 1901. De lá para cá, a coisa só se aperfeiçoou. O rádio impunha por metade, porque deixava a mente livre, aí então você imaginava aquilo que estava ouvindo de acordo com a sua geografia sentimental. Ao passo que, quando vem a televisão, não, a coisa é assim: práaa! A minha mãe de criação sempre ouvia aquela novela O Direito de Nascer, que tinha a mamãe Dolores, a fulana que criou lá o fulano e tudo. Eu imaginava a mamãe Dolores com o biótipo dela: magrinha, religiosa e tal. Quando apareceu na televisão, a mamãe Dolores era uma baita duma mulata bem fortona, casca-grossa que só, totalmente diferente da mamãe Dolores que eu imaginava. Então, até o surgimento, o aperfeiçoamento da mídia com os satélites, televisão e tudo mais, a dominação da região mais rica sobre a região mais pobre – isso acontece no plano internacional – se fazia pela metade. Os regionalismos ainda tinham um pouco de coisa. Aqui se fazia samba imitando o sul do país, mas era um samba bem “cearensizado”. Você vê, a coisa atualmente está tão ridícula ao ponto de os sem-terra – os sertanejos – cantarem hip hop! Pelo amor de Deus! Tudo naquele balançado do norte-americano, aquele gingado. O sertanejo... avalie o resto. Ele não sabe que o irmão dele está fazendo um improviso, uma embolada, o coco... o baião? Músicas nossas, com temas nossos, do jeito nosso, com ritmo nosso? Era preciso primeiro começar dando brasilidade ao brasileiro.

Será que existe mesmo essa brasilidade? Por exemplo, o pandeiro não é brasileiro. Você pega outros instrumentos do samba, também não são brasileiros...
Mas abrasileirou-se. A maneira de tocar abrasileirou-se.

E o hip hop não pode se abrasileirar?
Não, isso não tem validade, não, sabe por quê? Do jeito que se canta o hip hop aqui, o francês também canta, o italiano, o alemão, o russo. É dominação; é imposição da música e do ritmo norte-americano. O que nós temos com jazz? O que a Argentina tem com o reggae, com o rock e o diabo a quatro, rapaz? Absolutamente nada. E do jeito que tem lá tem na Itália, tem na França. O norte-americano conseguiu através do dólar o que o Hitler não conseguiu através do fuzil.O mundo está dominado pelo norte-americano, e o pior é que a própria crítica que se poderia fazer sobre isso já foi devidamente avacalhada com a música aí: “Tá dominado, tá tudo dominado”. É o maior deboche. Exatamente pra quando aparecer um maluco como eu, que vai denunciar tudo isso, aí o fulano diz: “Tá dominado, tá tudo dominado”. Está dominado, sim. Não sei como é que ainda se faz turismo hoje. Você vai para França ver o quê? O francês se vestir e cantar como norte-americano? O turismo não tem mais validade, a não ser que você vá ver monumentos históricos, praças e residências históricas. Antigamente, você ia para a França ver o francês vestido como francês, tocando a sua valsa musette. O norte-americano não tinha nada a ver com a coisa. A coisa mais idiota que o norte-americano fez ultimamente foi ter invadido o Iraque, dominaria muito mais o Iraque se não tivesse levado a presença física para lá, porque com a presença física houve a reação. Aqui, somos dominados sem perceber, porque é subliminar, está na maneira de educar, de ouvir. Os jornais, as rádios, a televisão, teatro... são os arautos de tudo que vem lá da “maravilha”. Você vê que antigamente o máximo era o intelecto, era o “ser”. Alcancei o jovem tendo orgulho de ter uma boa biblioteca, saber, ter conhecimentos gerais, cultura humanista. Hoje, a cultura humanista foi tachada de “cultura inútil”, e o “ser” passou a ser a filosofia do “ter”. “Que negócio é esse de livro? Eu tenho é um carrão, último modelo.” Os esportes? Do mesmo jeito. E tudo isso se reflete onde? Na música.

Existem bandas de hip hop que também fazem embolada... (característica do nordeste brasileiro, é uma forma de poesia cantada e improvisada ao ritmo do pandeiro, em compasso binário)
O hip hop é a embolada norte-americana. Se elas fazem a embolada, não precisam fazer hip hop e nem aquele balançado idiota. Não é cultura nossa, é cultura do norte-americano. O problema é esse.

A junção das culturas não pode enriquecer?
Mas qual junção? Não há junção de culturas. Olhe, o Centro Popular de Cultura da UNE, quando queria se insurgir contra os descaminhos que o Brasil estava seguindo em 1964 – digo isso porque presenciei –, usava esse mesmo argumento. Usava a música norte-americana, a “canção do subdesenvolvido” e não sei o que, naquele deboche e tal... O povo não manjava nada. Equivale a uma prefeita do PT que tivemos aqui, uma das primeiras frases que ela disse: “Estão dilapidando o erário público”. O povo não manjou nada. Isso é maneira de falar para o povo? Em vez de ter dito simplesmente “estão roubando”? O mal do intelectual – e de quem faz tudo isso – é pensar que o povo pensa como ele. No meu filme, quando disse que o povo nunca cantou Garota de Ipanema é porque nunca vi ninguém do povo cantando Garota de Ipanema. Não? Então é o quê? É a coisa bem rasteira nossa: “Boneca de trapo, pedaço da vida que vive perdida no mundo a rolar... (Meu Vício É Você). Nelsão, Nelson Gonçalves cantando Adelino Moreira. Agora, a mídia sabe que domina tudo... A televisão passa duas horas com um programa pacifista, entrevistando um fulano que tem uma mensagem pacifista: “Nós precisamos nos unir, acabar com essa violência...”. E tudo, a coisa mais linda do mundo. Quando termina aquilo, aí ela diz: “Agora nós vamos assistir ao Rambo”. Aí, pronto, lá vem violência. Você precisa ser coerente com o que faz.

É possível derrubar essa mídia?
Através da independência econômica. O nosso sertanejo fala isso de uma maneira muito natural: “Quem come do meu pirão prova do meu cinturão”. O país que domina a economia, o mais rico, impõe as suas artes, a maneira de ser, o seu modo de vida a ser imitado por todos os outros que dependem da sua economia. Dentro do próprio país dominado, as regiões mais ricas dominam as regiões mais pobres. Aqui mesmo dentro da nossa miséria, a capital domina o resto do interior, e por aí vai. Uma cidade do interior, por exemplo, a cidade principal, vamos dizer: Morada Nova (município a 162 quilômetros de Fortaleza), domina as fazendas que estão ao redor.

Como acabar com a dominação?
Primeiro, precisamos ter respeito próprio. O Fidel não fez isso lá para o povo cubano? É impressionante. O problema é que o modelo que temos não é o... O pobre não quer acabar com a miséria, não, ele quer acabar é com a sua miséria; quer que o outro se dane. Daí a proliferação dessas notícias e programas de violência. A música é a infra-estrutura, ela é o reflexo da base. Na década de 30, a chamada “época de ouro”, que infelizmente não conheci porque nasci em meados da década de 30 – os países se redescobriram por causa da crise do dólar, donos do dinheiro estavam resolvendo seus problemas em casa e afrouxaram a dominação. É onde você vê todo o referencial de música popular. Não existia samba: era maxixe, não sei o que e tal. O samba se fixou na década de 30, a embolada, a marcha, a seresta, tudo isso. Na Argentina, a mesma coisa: tango, milonga, valsa e tudo mais. No México, a mesma coisa. Depois, quando voltou a dominação, voltou a ser o “sul-maravilha”. O próprio Luiz Gonzaga – ele, que é o arauto dos nossos costumes – no pós-guerra tem uma musiquinha que dizia: “Se eu acerto, o corte sai bacano, pelo sistema norte-americano, é o alfaiate do primeiro ano...”. Quer dizer, o corte de fazenda só saía bacana – que ele chama “bacano” para rimar com norte-americano – se saísse do modelo americano. Você vê uma moda aqui na capital, vai no interior, que ela já chegou através da televisão. Vê pela Carmen Miranda: a Carmen Miranda bem que tentou, mas, coitadinha, não passou de uma macaquinha, né? Nhi-nhi-nhi, se rebolando. E outra coisa, baiana rumbeira daquele jeito, com miniblusa?... Você já viu? Não existe. O que acho interessante é que essas denúncias que deveriam estar sendo feitas no sul do país – só tem um que faz, chamado José Ramos Tinhorão – não se faz.

Cinema?
A respeito do cinema deu-se a mesma coisa. O cinema está exatamente como começou: sujo, violento, pornográfico, catastrófico – não tem novidade. Rapaz de família, moça de família não ia a cinema, mesmo porque era nos galpões dos armazéns de ponta de rua. Daí o nome “poeira”. Era feito para os imigrantes ignorantes, então só dava pornografia, só dava filme-catástrofe, do jeito que estamos vendo hoje. Hoje em dia é pornografia, ou é Rambo, terremoto, maremoto, Titanic... O negócio é ser desastre: é o cinema do desastre.

Alguma boa referência musical?
O Bezerra da Silva (faleceu dia 17 de janeiro de 2005) fazia umas denúncias terríveis: “Se você subir o morro atrás do ladrão, ele está lá embaixo escondido atrás da gravata e do colarinho”. É coisa desse tipo. “Foi o doutor-delegado que disse, ele disse assim: ‘Está piorando, até filho de bacana hoje em dia está roubando’.” Essa é a música autenticamente popular que a classe média chama de “brega”. O povo só faz música brega porque o salário dele é brega e a vida que ele leva é brega. Então, brega não é a música que ele faz, é tudo aquilo que ele vive. A classe média, os intelectuais, os universitários fazem essas coisinhas refinadas, bonitinhas, exatamente porque eles não têm esse problema. Eles moram lá nos seus apartamentos de cobertura, tomando seu uísque importado... Não é aquela cachaça do botequim. A música é um reflexo da vida que a pessoa leva. Onde é que hoje sai uma música daquele tipo, “Ai, ai, meu Deus, tenha pena de mim, todos vivem muito bem, só eu que vivo assim. Trabalho, não tenho nada, não saio do miserê, ai, ai, meu Deus, isso é pra lá de sofrer...”? (Tenha Pena de Mim, de Ciro de Souza e Babau,)

O senhor acompanhou o movimento Mangue Beat?
Mangue Beat, rapaz? Nós não temos nada a ver com isso. Olha o nome... Pelo amor de Deus! Beat? O que é beat? Não temos nada a ver com isso. É a mesma coisa nas palestras. O nacionalista vai dar uma palestra, aí tem coffee break. O Ariano Suassuna é que andou reclamando disso. O meu problema é que convivi trinta anos com a ralé e sei o que ela pensa. Não adianta querer fazer isso, aquilo, e aquilo outro, 30.000, 40.000, 50.000 pessoas no estádio do Maracanãzinho: “O Brasil inteiro está cantando aqui”. O Brasil inteiro... Eles reúnem 30.000, 40.000 e dizem que é o Brasil inteiro. Esse é o retrato da mídia: totalmente alienada.

Poderia citar alguma curiosidade do mundo da música?
O que vi de mais interessante foi em 1966, inclusive fui entrevistado na televião local por Armando Vasconcelos. Ele disse: “Olha, essa denúncia que você está fazendo aí é interessante, estamos tomando conhecimento, mas ninguém vai se aluir. As pessoas vão ficar horrorizadas quando um dia lá uma rede de televisão do sul-maravilha fizer”. Dito e feito: trinta anos depois, o Maurício Kubrusly fez essa mesma denúncia através do Fantástico e o telefone não parou de tocar. Eu disse: “Rapaz, eu já fiz essa denúncia há uns trinta anos atrás. As quatro primeiras notas do Hino Nacional são idênticas à Primeira Sonata do Paganini”. (Niccolò Paganini: violinista e compositor italiano – 1782 -1840.)

Falam também da Marselhesa...
Não, mas a Marselhesa (hino nacional francês, com letra e música de Claude Joseph Rouget de Lisle) é o andamento – naquela época, todo mundo usava. A própria marselhesa já usava andamento das anteriores. Mas digo das quatro primeiras notas que são idênticas à Primeira Sonata para violino e violão do Paganini. Você quer que eu bote aí? (aponta o toca-discos)

Por favor.
Agora, veja bem a excrescência da lei do plágio. Ela exige que o plagiador seja suficientemente burro para plagiar toda a escala musical – de sete notas – e acrescentar mais uma. Quem melhor definiu o plágio foi o doutor Edman Ayres de Abreu, que na década de 70 era um procurador da prefeitura de São Paulo. Ele escreveu um livro precioso, O Plágio em Música, e lá descreve maravilhosamente o plagiador. Diz: “O plagiador, apesar de cometer o mesmo delito do falsário, age exatamente ao inverso deste, porque, enquanto o falsário faz tudo para se aproximar da obra original que ele está falsificando, o plagiador, partindo dela, lança mão de todos os recursos para escamotear o seu delito. O crime é o mesmo, só que o plagiador é dissimulado, o falsário não. O falsário quer que se diga: “Olha a coisa tal”. As pessoas normalmente levam para o terreno policialesco – se teve ou não a intenção de roubar aquilo. Muitas vezes, o fulano é traído. Nessa época que o nosso Francisco Manoel da Silva compôs o Hino Nacional, ele estudava as sonatas do Paganini, do Rossini... Está tudo explicado, não tem nada demais. Aí é onde eu digo o papel deletério da mídia: no lugar de explicar como estou explicando, tenta escamotear. “Não é plágio porque oficialmente falta copiar notas tais, tais e tais...”. Não interessa, o plágio quem detecta é o ouvido humano. Se você ouve uma música e diz “ei, rapaz, essa música é direitinho a música de fulano de tal”, então é um plágio, não é autêntica. Você não vai inventar.

O senhor acredita em coincidência?
Não, coincidência não existe. Isso aí já é safadeza. Existe é inconsciente, plágio inconsciente.

Tem até um conceito do Freud que diz que você às vezes tem aquilo guardado, daí inconscientemente reproduz.
É, tem guardado porque alguém ouviu aquilo na infância.

Douvina - Dizem que até a mãe ouvindo o feto pode guardar.
Sim, mas isso não é coincidência. Isso aí é um plágio não-intencional. Agora, o sujeito fazer uma coisa aqui e o outro fazer outra lá totalmente igual, só se as circunstâncias forem as mesmas. Assim mesmo, não terá nunca um plágio sem a intenção.

De onde veio o interesse pela música erudita?
Quando comecei a discoteca, já foi com um disco lírico. Fui primeiro para a música erudita, depois que voltei para a popular. Mas aqui tinha dezessete estantes de livro e tinha um piano ali na sala. É como estou repassando para o meu neto. É o tal negócio, as pessoas não furtam, não, herdam. Essa história de o pai ou mãe dizer: “Não sei por que esse menino ficou desse jeito, porque eu fiz tudo...”. Houve alguma falha! O meio ambiente influi muito: o que vê, ouve, mas também tem os genes, a herança de 30 por cento. Acredito que tenha sido essa herança que se manifestou. Mesmo assim, aqui não sou levado a sério. Meu bisavô era pesquisador e nasci nesta casa. Comecei a juntar material em 1952 e dez anos depois comecei a pesquisar e analisar as peças recebidas.

E aquele assunto de passar a música do disco para o CD, que você considerou até como um delito?
Do jeito que estão fazendo... Bote esse gravadorzinho mais ou menos por ali. A mesma música é uma canção-seresta de 1933, gravada pelo cantor Francisco Alves, que compôs o hino de despedida do ano, que todos os brasileiros cantam, mas não dizem de quem é: “Adeus ano velho, feliz ano novo...”. Ele é o “Rei da Voz”. Em 1933, na Odeon, gravou essa música muito bonita do Freire Júnior, Parda Morena, que foi posta em CD lá em Curitiba por um fulano que tem uma coleção de discos raros. Mas não adianta nada! É o mesmo que burro olhando pra palácio, porque gasta uma fortuna para mascarar o som, para tirar o chiado e tudo mais, e afeta até o andamento da música. O que ele faz é tornar a música apática, sem vida. Numa gravação que fiz aqui, sem recurso nenhum, pedi para o rapaz que ia passar para CD não abafar nada, não remasterizar nada, deixar do jeito que estava o original. Então vou mostrar aí a gravação dele, que até o andamento está alterado, está mais lento, e a gravação que eu fiz aqui. Vamos ver. Essa é a gravação dele. Essa é a gravação que eu fiz (alterna trechos da gravação original com a remasterizada) . Está na mesma altura. A gravação dele: horrível! Esse é o som que ele está passando para o resto do Brasil todinho. Um crime o que esse rapaz está fazendo. Falsidade ideológica. Essa geração desse disco de cera nunca ouviu a gravação desse jeito aí, acabado. E o pior não é isso, o pior é que o Brasil inteiro pensa que o som dos discos daquela época era daquele jeito, não era, não. Era desse jeito que eu mostrei. Temos uma coisa que nunca existiu, aquele tipo de som nunca existiu.

Quanto à sua casa, o governo demonstra algum interesse? Podiam colocar no roteiro cultural de Fortaleza...
Com essas críticas? Coisa nenhuma! Talvez tenha demonstrado interesse em demolir isso aqui. Tá louco! É uma metralhadora giratória. Nunca tive vez. Estou tendo vez agora por causa do espaço que esse filme (Rua da Escadinha) me abriu. Os governos são eleitos para melhorar o nível de vida do governado – eles recebem o voto pra isso, não é? –, mas lá em cima começam a trabalhar para os grupos industriais, para as firmas de construção... a especulação imobiliária desfigurando as cidades. Fulano entra na política arrastando a cachorrinha e sai milionário. Não tem um sistema que possa pegar esse fulano aí e fazer devolver o dinheiro roubado dos cofres públicos. Agora mesmo temos quantos exemplos por aí? É impressionante. Aqui mesmo foi empossada uma vereadora que está sofrendo processo de roubo.

Você fala muito no “sul-maravilha”. Como você define isso?
Sul-maravilha é o eixo que vai do Rio a São Paulo. O Baudrin na década de 60 uma vez denunciou isso: “O mal dos cariocas e dos paulistas é pensar que o Brasil é a faixa de terra que vai do Rio a São Paulo”. Continuam pensando desse mesmo jeito.

Querem centralizar?
Mais ainda. Quanto mais se aperfeiçoam os meios de comunicação, mais aperfeiçoa a dominação em tudo. Se jogar aqui Flamengo e Ceará, o estádio lota com torcedor do Flamengo. Se jogar Ceará e Flamengo lá no Rio, se o carioca for ao estádio, não tem um só torcendo para o Ceará, e se tiver é caladinho. Chama-se isso dominação cultural; capachismo cultural. Uma vez, fui dar uma palestra e no intervalo um músico muito meu amigo me chamou: “Seu Christiano, cuidado aí com o que o senhor está dizendo. Você disse que a nossa música é mais rica que a música americana...”. Eu digo: “No Brasil, as regiões são muito ricas pelos seus folclores; muito diversificados. Se você tirar o banjo ou aquela música caipira da América do Norte – o rock, principalmente, que é das grandes cidades –, acaba. “Não, mas isso é impossível”, ele disse. Mas por quê? “Porque eles são mais ricos.” E essa é a mentalidade de todos. Se o país é mais rico, obrigatoriamente a música tem que ser mais rica, mais bonita. Disse a um outro: “Mas, rapaz, você atualmente só está tocando música norte-americana”. Ele chegou e respondeu: “Claro, você acha que eu vou tocar música de pobre?” Eu gostei muito disso, isso é bom demais.


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