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A ítalo-brasileira Alessandra Silvestri-Lévy passou três anos em Cuba, quando seu marido foi indicado embaixador da França na terra de Fidel. Otimista com a Revolução Cubana, ela fala aqui de coisas que todos têm curiosidade de saber sobre um país comunista em pleno continente americano. A entrevista foi feita há dois anos, e agora a própria Alessandra preferiu atualizá-la reescrevendo-a.


Entrevistadores: Antonio Martinelli Jr., Cazu, Débora Pivotto, João Mauro, Marília Melhado, Sofia Amaral e Tatiana dos Santos. Fotos: Cazu.

Tatiana dos
Santos - Podemos começar essa entrevista com você contando como foi parar em Cuba?
Meu marido foi nomeado embaixador da França em Cuba, até então eu conhecia muito pouco sobre o país, sabia apenas que era uma grande ilha no Caribe com um líder muito corajoso, que é Fidel e na minha opinião o exemplo de homem de verdade, com todas as características masculinas essenciais. Sendo um país com um clima quente, e praias fantásticas, achei que iria passar três anos de férias no Caribe. Antes de ir pra lá, meu marido me deu vários livros sobre Cuba para que eu pudesse conhecer mais sobre o país, faço questão de dizê-lo, pois não aprendemos nas escolas brasileiras a história cubana ou da União Soviética e muito pouco sobre a história dos países latino-americanos. Acontece que todos esses livros, sem exceção eram escritos por jornalistas americanos, ingleses, franceses ou brasileiros que passavam três meses em Cuba e publicavam um livro de 400 páginas achando que haviam entendido tudo. Eu folheava aqueles livros e não conseguia acreditar naquilo que os jornalistas falavam de Cuba; caso fosse tão ruim como eles diziam, imaginava que o povo já teria feito alguma coisa. Eu tinha uma vaga informação de que o povo cubano era combatente, revolucionário e politizado; portanto acreditava que se Fidel fosse o monstro que eles pintavam nos livros, os cubanos já o teriam mandado para o espaço. Então, desisti de ler e cheguei lá realmente virgem sobre a história, a cultura e a trajetória do povo cubano.

João Mauro - Você nasceu em São Paulo?

Nasci em São Paulo, filha de pai italiano e mãe brasileira, meu pai veio para o Brasil na década de sessenta, casaram-se e acabaram ficando por aqui, ele é de uma antiga, muito antiga família romana, e a família da minha mãe foi ( pois infelizmente meus avós já morreram) de industriais de São Paulo. Quando fiz 18 anos, fui para Roma.

Antonio Martinelli Jr. - Você foi para estudar?
Isso, não gostava muito daqui. Cresci entre dois mundos, fui educada entre duas culturas muito distintas: a matriz italiana e a matriz brasileira, todos os anos, desde bebê passávamos longas temporadas em Roma. Quando saí, foi num exílio voluntário, já tinha entrado na faculdade, Administração, no Mackenzie, que estava achando uma porcaria, comecei a trabalhar aos dezesseis anos na indústria da família, estava acostumada com um cotidiano prático e de conquistas, não agüentava ouvir teorias na boca de professores recém formados de 28-29 anos, não me convenciam, Collor acabava de ser eleito e pensei: agora que não moro nesse país por nada nesse mundo. Achei um absurdo a eleição, a primeira depois de anos de ditadura, votei para presidente aos 18 anos, junto com minha mãe que votava para presidente pela primeira vez aos
45 anos. Por mais que eu venha de uma família conservadora, jamais votaria numa pessoa como o Collor, um verdadeiro fantoche de televisão, com um currículo poluído e herdeiro de características coronelistas as quais considero primitivas. Fui embora em 1991, estudar, trabalhar, me criar no velho continente, primeiro em Roma, onde passei grande parte de minha infância e adolescência, onde mora minha família, depois em Paris, sozinha, estudando direito e literatura na Sorborne e em Los Angeles estudando cinema na UCLA. Nesse período fiquei indo e voltando ao Brasil até 1997, quando vim para férias, conheci o meu marido e acabei ficando. Nos casamos em 1998 e moramos em São Paulo até 2000, ele era cônsul-geral da França em São Paulo. Em 2000, fomos para Cuba.

Alessandra na frente da casa da Embaixada Francesa em Cuba. Foto de Alberto Korda.
Sofia Amaral - Onde vocês moravam em Cuba?
Em um bairro lindo de Havana, Miramar. Cheguei no dia 28 de outubro e meu marido já estava lá. No dia 29, ele havia preparado uma grande recepção na residência em Havana, que é uma réplica do palácio Ca´D´Oro de Veneza, levei três dias pra me acostumar com suas proporções suntuosas, tive que receber 1.500 convidados, assim fiquei logo de cara conhecendo muita gente. A residência é maravilhosa, com palmeiras de 15 metros, jardins imensos e um mundo de empregados. Eu acabava de dar à luz e tinha um bebê de um mês, eram 14 empregados, o cuidado com que me tratavam era fenomenal, a babá de Charlotte, Cira Marante, uma senhora loira de olhos azuis, que foi a enfermeira que cuidou do Che na entrada dele em Santa Clara, me dizia: “ não se preocupe porque estamos fervendo a água para tudo ”, e ferviam até as roupas de baixo da menina. Faço esse comentário porque me surpreendia o nível de conhecimento sobre higiene e cuidados que tinham, não imaginava um povo com tanto conhecimento de base, pois acostumada com o Brasil, onde não há muita noção de higiene básica. O povo cubano tem noção de cada detalhe, exatamente como em um país desenvolvido. Acho que no Brasil existe um enorme racismo social, aqui o cotidiano é dividido entre aqueles que detêm conhecimento e aqueles que vivem na ignorância. As classes desprivilegiadas brasileiras infelizmente não têm acesso ao conhecimento, à educação formal, à lógica, à matemática, é muito triste, pois acabam perdendo muito da beleza que é ser, ser humano. Em Cuba não tem isso, descobri que todos freqüentam o colegial até o último ano, e a grande maioria até a Universidade. Os que não continuam estudando é porque optaram por outra profissão, mas todos têm acesso à educação; o conhecimento é que é o grande instrumento de libertação, isso que a gente precisa neste país, investimento na educação e obviamente saúde. Devagarzinho você vai vendo. Não é só a empregada da sua casa, é o taxista, o vendedor de livro, o cara que varre a rua e que começa a conversar com você e conta que participou da guerra em Angola e dá uma aula sobre Angola.


João Mauro - Mas, normalmente, as pessoas questionam: se os cubanos têm a mesma formação, por que um vai fazer parte dessa equipe dos 14 empregados e o outro vai ser médico ou advogado?
A revolução cubana propôs fortes mudanças na sociedade. Entre as décadas de 20 e 50, Cuba era muito parecida com o Brasil. Existia uma oligarquia dona das terras produtivas e das empresas. Eram 400 famílias que dominavam a economia de um país de 6 milhões de habitantes com mais de 1 milhão e meio de analfabetos, que ganhavam menos de um dólar por dia para sustentar uma família de cinco ou seis filhos. Como o nosso povo brasileiro que está sofrendo, enquanto uma minoria vive como reis. Você não pode morar em uma cobertura no Morumbi ou nos Jardins e esquecer do cara da favela que não tem um tostão no bolso, que cria 6, 7 filhos sem condições financeiras, que morre em alagamentos, que quando chove deve mudar o colchão de posição para fugir das goteiras. Cuba era assim para pior. Daí chega a revolução em 1959, eles eram todos jovens, de 33 anos para baixo: o Fidel tinha 33 e o Che 31. Era um bando de jovens tomando o poder com idéias revolucionárias que ainda não eram comunistas na época, eles eram humanistas. A revolução cubana é inspirada em José Martí, poeta e escritor cubano que nos finais do século 19 já falava na união da América Latina e nos alertava sobre as vontades anexionistas e dominadoras do Império (Estados-Unidos). Martí inspirou e liderou o movimento que culminou em 1898 em uma guerra de independência contra a Espanha, a libertação de Cuba do domínio espanhol. Saem os espanhóis entram os americanos, que financiaram parte da guerra de independência em troca de favores, como a concessão de uma base militar em Guantánamo (1902), direito a comprar vastas áreas de terras produtivas, a United Fruits chegou a deter 50% delas. Mas respondendo a sua pergunta, quando você entra num processo revolucionário você sabe que o governo, por mais que queira, não consegue gerar emprego para todo mundo, o número de hospitais é “x”, de laboratórios é “x”, de empresas de engenharia é “x”, o cubano tem consciência de Estado. Ele é o Estado. A gente não tem consciência de Estado aqui. Aqui você é um. Você tem de se virar e lutar porque a prefeitura não arruma sua rua, você tem de pagar a escola, o médico, o transporte, você muitas vezes se forma e não sabe se vai conseguir trabalhar na área que escolheu. O governo não cuida da sua vida, e a sociedade também não ajuda, ficamos à mercê de nosso talento, nossa garra e nossos contatos. O governo cubano é participativo. Várias vezes conversei com engenheiros, arquitetos, formados que trabalhavam com turismo, em hotéis, porque a área de engenharia estava saturada. O salário deles para trabalhar na área de engenharia é equivalente a 15 dólares por mês. Trabalhando em um hotel a pessoa ganha em dólar e também muita gorjeta e não vai ficar triste porque sabe que vai ter um engenheiro tão bom quanto ele tocando o trabalho que ele poderia fazer. Você pode querer se formar em medicina, mas é limitado o número de hospitais e clínicas, Fidel montou uma estrutura de médicos que são voluntários no exterior, são milhares que todos os anos vão trabalhar em países africanos e latino-americanos, até para os EUA Cuba já ofereceu ajuda médica, mas o governo Bush não aceitou.... Os cubanos têm essa noção. Conheço neurocirurgiões que amam o que fazem e ganham 12 dólares por mês. A única explicação é um grande amor pelo ser humano e uma grande solidariedade que não vi em nenhum país do mundo. Ele poderia ganhar trinta mil por mês em Nova York ou no Brasil, mas ele fica em Cuba. Ele sabe que se sair de Cuba vai ter alguém tão bom quanto ele fazendo o trabalho, mas prefere ficar. Aprendi muito, pois convivi e convivo intensamente com o povo cubano, não me comportava como uma típica embaixatriz, que toma chá e joga bridge com um grupo seleto de senhoras na imensidão de seu palácio.

Tatiana dos Santos - Você chegou lá como embaixatriz achando que ia passar férias. Quais são as tarefas de uma embaixatriz?

A vida de embaixatriz é uma vida de mulher domada, temos muitas funções sociais cujas regras devemos obedecer. Eu me adapto, e consigo ter meu espaço, sinto prazer em receber, ter a casa sempre cheia, fazer com que amigos e convidados se sintam bem e sejam bem recebidos. O trabalho é dar todo o apoio ao marido, pois o trabalho também continua de noite, temos vários compromissos sociais, e recebemos muitos convidados na residência, praticamente todas as noites do ano. O ideal também é que a esposa venha a ter algumas informações que os homens não vão ter, a sensibilidade feminina sempre proporciona novas perspectivas. Éramos muito convidados pelo governo cubano para eventos como teatro, concertos de música clássica e congressos. Convivíamos com senadores, deputados, ministros, então tinha o dever de estar sempre penteada e arrumada com um grande sorriso no rosto recebendo todo mundo e gostar disso. Adoro a minha casa cheia, seria muito infeliz se tivesse que morar só com a minha família sem a porta aberta com gente almoçando e jantando. A empatia com o povo cubano foi muito rápida pelo fato de meu marido ter uma relação anterior com Cuba e eu ser brasileira. Logo que cheguei não entendi como fui eleita presidente do Grupo de Esposas de Embaixadores, devem ter achado que por eu ser jovem e dinâmica, seria boa, pois vesti bem o papel e fui reeleita por três anos consecutivos. Comecei a propor trabalhos humanitários, pois não via interesse em meros encontros para tomar chá. Organizávamos anualmente um bazar de Natal beneficente, e foi uma experiência e tanto, muitas esposas de embaixadores, pelo fato de casarem-se muito jovens e seguirem seus maridos em começo de carreira por vários países, na maioria das vezes acabam não conseguindo estudar e desenvolver uma profissão. Nosso grupo requeria um certo grau de programação, organização e trabalho, foi maravilhoso ver com que entusiasmo e garra elas romperam com resistências pessoais e se dedicaram à execução de nosso bazar de Natal, feito no Hotel Nacional, com mais de 73 países participantes e onde os cubanos vinham comprar produtos dos 4 cantos do mundo, desde chã do Paquistão a xales russos, incensos indianos, queijos e patês franceses, artesanato mexicano, comida japonesa, vinhos italianos, 8 mil cubanos passavam a cada primeiro domingo de dezembro pelos salões do Hotel Nacional para fazer seu shopping. Com a verba arrecadada pudemos, através de pesquisa conjunta com a Unicef e duas ONGs que operam em Cuba uma portuguesa chamada Oikos – Cooperação e Desenvolvimento e uma inglesa chamada Oxfam identificar as zonas mais necessitadas e elaborar projetos de cooperação humanitária, como a construção de uma creche na região de Pinar del Rio, completar a restauração de um hospital oncológico infantil, entre outros. Elas tinham o mapeamento da ilha inteira e falavam “ olha, essa região é a que está mais necessitada, aqui vocês podiam fazer tal coisa ”. Trabalhávamos com o respaldo dessas instituições. Era um trabalho sério, feito e operado através da ONG Oikos, pois como representação diplomática não temos como operar fundos na ilha. Uma das filhas do Raul Castro me ajudava nesse processo.

Tatiana dos Santos – E a alimentação dos cubanos?

A comida cubana pode ser deliciosa, mas em Havana, por mais que você queira, em termos de produtos é muito limitada comparando com São Paulo, e os produtos não são de primeira qualidade exatamente para não terem que ser muito caros. Cuba é uma ilha e só tem indústria de transformação. Então, o leite é em pó e importado do México e os cubanos misturam com água e vendem na caixinha tipo Parmalat. O frango deles é um franguinho que pesa um quilo e duzentos gramas, dá pena ver aquele franguinho magrinho! Eu comia a comida dos cubanos, arroz e feijão, mojos y cristianos, peixe, principalmente pargo. As lagostas que lá são maravilhosas, guardava para as delegações estrangeiras que nos visitavam. Comprávamos 120 lagostas por mês. Ficava muito triste quando os turistas criticavam a alimentação cubana. Eles não têm outra coisa. Enfrentam um embargo há 45 anos. Se os americanos aceitassem vender produtos, eles teriam tudo na mesa. Passei por uma experiência curiosa: um jovem fotógrafo cubano, que levei para Paris na ocasião das exposições de fotografia cubana que havia montado por lá, não abriu a boca durante uma semana. Chegamos de volta a Cuba e fiquei muito preocupada, pensei que tinha feito uma besteira, levar um cubano que nunca saiu de Cuba para Paris, o choque cultural devia ter sido grande. Pensei comigo, o menino vai se suicidar, vou perder esse menino, 27 anos. Fui até a casa dele sem demonstrar minha preocupação, começamos a conversar e ele me disse: “Olha, adorei conhecer Paris, é muito bonita, adoraria ter dinheiro para passar um mês por ano lá, mas não moraria lá jamais, aqui em Cuba não tem inverno, não é como lá que no inverno se você não tiver comida, você morre, aqui tenho calor o ano inteiro, se não tenho comida, tenho um pé de banana aqui no quintal, tenho o meu vizinho que me dá uma manga, quando muito tenho a livreta – que dá direito a uma cesta básica mensal- se não quiser trabalhar, também não preciso, posso ir para a praia, posso fotografar, se tiver de morar em Paris vou ter de pegar metrô às sete e meia da manhã, trabalhar o dia inteiro, viver uma vida estressada. E se faltar dinheiro? Quem vai me ajudar? Como é que eu vou viver? Adoraria ter dinheiro e passar um mês por ano, mas se eu não puder, não vai mudar a minha vida, sou cubano e gosto de Cuba”. Então, partindo do princípio de que eles têm consciência e não estão sufocados, não estão morrendo de fome, Cuba é um país maravilhoso, sou a primeira a dizer que se fosse cubana não ia querer sair de lá, entendo os cubanos que estão fora e adorariam poder voltar e trabalhar em outras condições. Havana é uma cidade linda, é um povo alegre, divertido, tem música em qualquer lugar e a criança é o primeiro valor da sociedade, não tem uma criança abandonada ou de rua, não existem abusos sexuais infantis, como aqui neste país tem de monte. Não existe, na cabeça, na concepção de vida de um cubano você abandonar as crianças como na praça da República aqui em São Paulo, não existe esse conceito, eles já superaram tudo isso. O índice de mortalidade infantil em Cuba é equivalente ao da Inglaterra, o índice de expectativa de vida é igual ao americano. No índice de desenvolvimento humano, em que o Brasil é dos últimos países no quesito desigualdade social, Cuba, se não me engano, está entre os primeiros em várias áreas analisadas e em 52º lugar no geral. Quer dizer, para um país pobre, de 11 milhões de habitantes, comunista e com o embargo, são realizações fenomenais. Tem de comparar Cuba com outros países da região do Caribe, eu recebia muito europeu e latino-americano rico, porque a classe desprivilegiada jamais poderia fazer uma viagem a Cuba, e eles erram em comparar com o próprio país. Você tem de comparar com o que é o Haiti, Republica Dominicana, Guatemala. Viajei para o Haiti, antes da queda do governo Aristide e vi o inferno na terra, 90% de analfabetos, um povo miserável, é um terror, é o maior índice de Aids do Caribe.

Débora Pivotto - Como a população encara essa carência de produtos?
Para eles, não é carência. É muito simples: quando você não conhece o outro lado, não é carência. É difícil para o estrangeiro entender. Aqui em São Paulo você pega um brasileiro classe médio-alta, que teve acesso à universidade, sonha conhecer Paris e Nova York. O cubano médio que teve acesso à cultura, quando muito, se é de Santiago de Cuba, sonha em conhecer Havana. Não tem essas aspirações que outros têm e isso precisa ser respeitado. É muito parecido com o nosso nordestino do interior do Brasil. Você acha que o cara que nasceu em Belmonte, na Bahia, quer conhecer Paris? Ele está bem em Belmonte, vive bem ali, quando muito quer conhecer a cidade grande. Tive uma experiência: levei 14 fotógrafos cubanos para Paris. O mais jovem tinha 23 e o mais velho, 67. Todos foram pela primeira vez. Passagem paga, alimentação e estadia paga num superhotel. Por mais que sejam fotógrafos bons, não têm dinheiro para ficar gastando. O que mais queriam era conhecer os museus, fechei parceria com os principais museus de Paris para não ter de pagar, e eles se deleitavam. O meu medo era de alguém querer ficar, sabia que alguns deles tinham família na Espanha, “algum vai ficar”. Todos voltaram, sem exceção. O engraçado é que os meninos mais velhos também queriam conhecer as mulheres que fazem hotstrips, pois em Cuba é proibida a pornografia. Ficaram fascinados e ao mesmo tempo chocados com a desvalorização do ser humano e também com o aspecto materialista da sociedade, os preços absurdos que eles viam nas vitrines do Champs Elyseés. Uma bolsa Luis Vuitton por sete mil euros! Como alguém pode comprar uma bolsa dessas enquanto tem na África ao lado gente morrendo de fome?

Tatiana dos Santos - Existem muitos que esperam o fim da ditadura?
Ninguém chama de ditadura em Cuba. O povo ama o Fidel, ele sai na rua e as pessoas choram. As pessoas querem tocar, abraçar. Ele salvou os pobres, é o Robin Hood, tirou dos ricos para dar aos pobres. Você acha que o cara que morava num campo cubano, sem sistema de saúde nenhum, ganhando menos de um dólar por dia, vai criticar um homem desses? Por mais que a imprensa deturpe muito a realidade cubana, quando você está lá, começa a entrar nos pontos críticos, vê que muito de bom é feito, e eles com razão não aceitam ingerência externa.

Sofia Amaral - Mas por que as pessoas querem sair de lá?
Não é todo mundo, em quase 4 anos morando em Cuba, nunca, NUNCA, nenhum cubano que conheci bem veio me falar que queria sair de Cuba. Aconteceu de eu conversar com alguns cubanos que ficam na fila da Seção de Interesse dos Estados-Unidos em busca de visto, e me diziam que queriam sair para ter melhores condições materiais e os que saem, saem pelos mesmos motivos que o cara que mora em Governador Valadares quer sair ou o cara que atravessa a fronteira do México, em Tijuana, para os Estados Unidos, para buscar melhores condições materiais. Não é todo mundo que topa trabalhar por dezoito dólares por mês.

Antonio Martinelli Jr. - Ao mesmo tempo, durante todo o governo do Fidel, a gente soube de intelectuais que foram perseguidos pelo governo justamente por não concordarem com a ditadura.
Esse é um tema delicado e devemos ouvir os dois lados. No princípio da revolução tinha um forte machismo enraizado, aquela coisa de espanhol machista, “hombre”. E aí teve o conceito de “hombre nuevo” trazido pelo Che. O Che era um homem muito rígido que não aceitava meio trabalho e desenvolveu o que a gente chama de trabalho voluntário. Ele foi ministro da Indústria e cortava e ensacava cana com o povo. Não é todo mundo que tem a força braçal para cortar cana. Então, se falava contra esse sistema: por que tenho que cortar cana? Não quero cortar cana. Mas, insistiam que deveriam ter esse conceito, as pessoas tinham que assimilar o homem novo e lutar com a mesma força e intensidade deles. Hoje, isso pesa muito, ou você está a meu favor ou esta contra mim, é o que o Bush falou. Na época não era assim, mas um pouco nessa linha. Eles queriam que todos pensassem como eles, mas as pessoas não pensam da mesma maneira, foram poucos intelectuais, como o Ricardo Arena, que saiu porque era também homossexual e disse que não era aceito. Bom, cheguei em Havana e na primeira semana estava passeando com meu marido e o motorista no Malecon, vi um bar lotado e disse para o meu marido: -“É aqui que precisamos vir” e o motorista: -“Acho que não, senhora, porque aqui são todos maricas”.

Antonio Martinelli Jr. – E a Aleida Guevara, filha do Che, você conheceu?
Ela é diretora pediátrica do hospital infantil, trabalha numa sala muito pequena e cuida de crianças com câncer. No hospital ela não tem computadores novos e precisam de 250 mil dólares para reforma. Quando vi as condições de trabalho, saí de lá soluçando, de ver a injustiça do mundo. Essa mulher é a filha do Che, ela trabalha das sete da manhã à meia-noite com crianças de dois anos com câncer, defeitos físicos, paraplégicas e está lá, trabalhando do jeito que pode, não reclama, ela trabalha com o cotidiano. Como a gente pode deixar acontecer coisa assim no mundo? Eu pedi pra ela me mandar o projeto, mas não tinha nem como mandar por e-mail, vou voltar pra França pra tentar capitalizar e mandar pra lá. Agora, eu sou uma, tem pessoas com muito mais estrutura, podem fazer isso com um telefonema e não fazem. Aí você vê o grau de humanidade de cada um.

João Mauro - E as recentes mortes que houve lá? Num país socialista, teoricamente, deveria ter um sistema penal mais justo, mas ainda adota a pena de morte. Houve até a ruptura com o Saramago. Ainda estão fuzilando gente?
Sou contra a pena de morte, sempre fui. Sou pacifista e humanista, mas aqueles três homens que seqüestraram um barco e colocaram em risco a vida de mais de 30 pessoas faz parte de um complô que começou há algum tempo. Quando você pega a posição geográfica da ilha, Cuba está exatamente entre os maiores países produtores de cocaína e o maior país consumidor de cocaína do mundo, que são os Estados Unidos. A rota do tráfico passa por cima. Cuba antes da revolução era o prostíbulo, o bordel, o cassino, o parque de diversões sexuais e de drogas dos Estados Unidos. Não tem como negar que o Fidel conseguiu transformar isso. Para você fazer com que o seu povo seja fiel e seus principios, a pena de morte foi adotada, mas sou contra.

Sofia Amaral - Há uma tradição militar também na revolução.
É uma tradição de guerrilheiro. Os conceitos mudaram. Agora é o terrorismo, e Cuba é radicalmente contra. Há trinta e cinco anos eram guerrilheiros e matavam também. Acontece que eram outros valores. Não posso colocar num mesmo nível um Che Guevara e um Osama Bin Laden, não tem como comparar e hoje em dia essa mistura está muito próxima, isso é muito delicado. Cheguei em Cuba em 2000 e não havia condenação à morte fazia 5 anos. O último caso foi de um homem que matou um pai e um filho a pauladas para roubar uma bicicleta e acabou condenado. Em março de 2003 houve o seqüestro desse barco, eles têm uma condenação sumária e são fuzilados. Estava aqui e não tinha muita informação, é difícil saber de onde está vindo o que se lê na imprensa, não dá pra saber o que realmente está acontecendo. Se o Saramago rompeu é porque nunca entendeu e conheceu direito. Os que conhecem, não rompem. O Gabriel Garcia Márquez continua. Então, você tem de entender quem é latino-americano e quem é europeu colonizador. Tem uma linha intelectual bem nítida. Ninguém rompe com a China que assassina 2500 pessoas a cada três meses. Ninguém publica e ninguém rompe. Ninguém publica que são condenações sumárias. O pelotão chama os jovens para assistirem em estádios públicos. O pelotão de fuzilamento mata e manda a bala ser cobrada da família, cinqüenta centavos. Alguém está falando alguma coisa das Filipinas, onde 79 foram condenados sem julgamento sumário? No Marrocos existem escravos até hoje no palácio do rei, que nascem dentro do palácio e morrem lá. Alguém fala?


Antonio Martinelli - Quando saiu nos inemas o “Antes do Anoitecer” teve grande repercussão e depois aqui no Brasil teve aquela moda do escritor Pedro Juan Gutiérrez, todo mundo lendo O Rei de Havana. Como é que você vê as pessoas que através da arte vão contra o Estado, você viu bastante?
O Pedro Juan Gutierrez é publicado em Havana, mas não é lido.
Nos três anos que passei lá, não conheci nenhum dissidente com alguma proposta de mudança efetiva para Cuba. Vi, sim, muitas propostas efetivas de pessoas que trabalham no governo cubano e que têm na democracia uma evolução natural, mas custa caro e é privilégio de país rico, a gente sabe o quanto custam as nossas campanhas eleitorais e depois volta zero para o povo, quantos esquemas são montados para financiar campanhas. Tem pessoas dentro do governo cubano que sabem que é um processo da história deles, não podemos interferir, querendo que se modernizem e que avancem. Cuba, querendo ou não, se abriu para o mundo a partir de 1992, quando os soviéticos pararam de ajudar economicamente. É um processo que leva tempo. A informação externa passou a chegar com os estrangeiros que visitam Cuba e o acesso à internet. Hoje existem quiosques em Havana que vendem jornais e revistas do mundo inteiro, o que não acontecia há 15 anos. Tem a internet também, fala-se que o Fidel censurou a internet, mas o buraco é mais fundo. A concessão de telefone e internet é ítalo-cubana e custa caríssimo, eu pagava sete dólares por minuto para qualquer chamada internacional.Internet é a mesma coisa, só que lá é como aqui, as pessoas não têm dinheiro para pagar e fazem gambiarra. Se você analisar com atenção, Cuba é o único país do planeta que resiste ao imperialismo americano. Eles são politicamente resistentes, tanto que Gutiérrez quando escreve diz das coisas pernósticas ou hiper realistas do cotidiano dele, tem um estilo literário à la Charles Bukowski, mas também não pega os Estados Unidos como exemplo.

Tatiana dos Santos – Quando o Gutiérrez esteve aqui no Brasil, ele disse: “se eu quisesse ficar aqui eu ficava, mas estou pra morar no Malecón”.
Também acho. Se eu tivesse nascido cubana iria morar em outro lugar pra que?

Antonio Martinelli - Queria entender o que você disse sobre o Gutierrez não ser lido em Cuba.
Ele é publicado, mas não é lido porque não tem publicidade de livros.
Você tem de partir do princípio de que um cubano médio tem nível superior ou colegial completo e sabe fazer as próprias escolhas e por mais que se tenha um Gutiérrez, um Eduardo Galeano ou Noam Chomsky e até um Bush da vida, ele sabe fazer um contraponto para o seu cotidiano e escolher a literatura que lhe interessa, porque, o final das contas, somos todos individualistas, e a maioria dos mais inteligentes não segue modismos.

Marília Melhado - E para o cubano comum que não pode viajar para Paris, qual é a noção de mundo?
São superpolitizados. O jornal cubano tem o Estado e não uma série de multinacionais por trás. Por mais que o jornal cubano tenha 16 páginas, muitas vezes tem matérias mais pungentes e detalhadas que o New York Times, porque o cubano é extremamente investigativo, ele não vai te contar uma história, ele vai te detalhar de A a Z o fato.

Sofia Amaral - Por que você acha que os EUA nunca tentaram efetivamente invadir Cuba?
Porque a primeira tentativa que teve foi um fracasso total, que foi o episódio da Baía dos Porcos. A política dos EUA é de reforçar o embargo e impedir que os americanos viajem para Cuba. Agora eles tomaram medidas para evitar que famílias que morem nos Estados Unidos façam remessas de dinheiro para seus familiares em Cuba. Acho que a ação oposta acabaria com o sistema. Se o governo liberasse que todo cidadão americano pudesse viajar para Cuba, no primeiro ano iriam dois milhões e isso acabaria com Cuba, eles trariam toda a influência pop americana. Cuba recebe dois milhões de turistas estrangeiros anualmente. Se o governo americano liberasse, você iria ter dois milhões a mais só de turistas americanos, que iriam entrar ali e nenhum regime segura dois milhões de capitalistas visitando o seu país, é a maneira mais fácil de acabar com o sistema. Eles são o vírus dentro do sistema deles, eles começam a ver as roupas e o modo de pensar e vão querer também, vejam como a própria China e o Japão estão se ocidentalizando, é muito triste ver a homegenização do mundo, e consequentemente a perda de tradições e rituais. Espero que Cuba não só mantenha a sua, mas seja um exemplo para outros.

 

Sofia Amaral - Queria saber um pouco sobre a juventude cubana, tem uma parte contra o sistema?
Não, porque a juventude cubana nasceu na revolução. Imagina que a revolução foi em 1959, tenho amigos que nasceram de 1930 até 1980. Quem nasceu antes da revolução, hoje está entre os 50 e 70 anos, teve filhos e netos. Esses filhos foram escolarizados, tiveram acesso à educação, à saúde, à alimentação, o período áureo deles foram as décadas de 70 e 80, quando chegava dinheiro a rodo da União Soviética, eles tinham de tudo. A partir de 1992, foram três anos de miséria econômica e humana total. Não tinham petróleo, alimentação, trabalho, tiveram de fechar várias indústrias, eram 200.000 desempregados. Os cubanos me detalhavam como foi esse período, chamado de “período especial”- não havia carros nas ruas, não existia meio de transporte, o melhor bem de consumo que você podia ter era uma bicicleta, tenho amigos que caminhavam 20 quilômetros para poder buscar alguma coisa e em Havana a média é de 25ºC por ano, imagina você indo trabalhar a pé. Eles têm o CDR - Comitê de Defesa da Revolução. Cada dez blocos tem um CDR. Na época eles organizavam as sopas comunitárias, onde até os ministros também ajudavam e tomavam dessa sopa, não tem a nomenclatura que vive bem. Nos períodos de dificuldade é difícil para todos. Contaram-me até de um vendedor de rua que fazia sanduíche de frassada. Frassada é pano. Picava o pano, misturava com uma soja, fritava e vendia na rua. Imagina um povo que resiste a isso tudo e resiste por ideais que a gente não tem, que a nossa juventude nunca teve. Não há como explicar.

Débora Pivotto – É um ideal mesmo deles ou é uma coisa imposta por uma educação?
As pessoas mais velhas têm outros valores, já que viveram na Cuba pré-revolucionária. A babá da minha filha, a Cira, foi enfermeira em Santa Clara. Quando o Che entrou lá, foi ela quem deu a bombinha de asma para ele, toda orgulhosa. Ela viveu tudo aquilo, o dono do hospital era amigo do Batista (Fulgêncio Batista, ditador derrubado pela revolução) e dentro do hospital havia-se organizado uma dissidência, que pegava algodão, álcool e faixas para mandar para os revolucionários que estavam nas montanhas. Quando o Che chegou em Santa Clara no trem das 5 e meia da manhã, a cidade estava toda em alerta, mas ninguém podia deixar a luz acesa para que a polícia do Batista não desconfiasse. Ela conta que ficaram varias pessoas em casa, esperando e saíram todos às ruas quando ele chegou, aí não teve como negar que ele já tinha conquistado a cidade. O povo saiu pelas ruas e o Che vitorioso, com uma forte crise de asma e o braço quebrado, foi levado ao hospital onde Cira- toda orgulhosa conta- que foi ela quem deu a bombinha de asma para ele. Ela viveu sua vida adulta no período revolucionário, e conosco viajou várias vezes para a Europa, a levei pela primeira vez para uma loja de roupas francesas, um magazine tipo Marisa, em São Paulo, que tem de tudo e foi a primeira vez na vida que ela entrou numa loja com tantos produtos e eu disse: “Cira, escolhe o que você quiser”. Ela não sabia o que fazer, mulher é igual no mundo inteiro, você entra numa loja com carta branca, fica alucinada, ela encheu dois carrinhos com roupas. Custou-me duzentos dólares, que não é nada, pensando na quantidade de roupas adquirida, saiu o preço de um par de sapatos numa loja cara. Ela foi para casa e como toda mulher faz, pegou tudo, dobrou, colocou na cama para olhar e falou: -“Acho que comprei demais, porque não preciso de 8 pares de calcinhas, 7 sutiãs, 7 camisetas, 5 saias”... Eu falei: - “Bom, Cira, você tem irmã, prima, sobrinhas” – aí ela começou a dividir. Porque na loucura do consumo ela aproveitou, quando se deu conta do que tinha feito, viu que não precisava de tudo aquilo para usar. Cada vez que a gente viajava, ela falava: -“Capitalismo nunca mais, Paris é muy bela, tenho noção que a senhora deve viver muito bem, mas e as pessoas que não vivem assim? E as pessoas que vivem na periferia dos bairros que a gente foi? E as pessoas que têm de lutar para sobreviver? Eu não quero mais ver isso no meu país.” Ela está com 75 anos e viveu o que era antes, a família dela é de origem espanhola, loira, branca e galega e trabalhava no campo por um dólar por dia, o sonho da vida dela era ser médica pediatra, mas nunca pôde estudar. Imagina a sua satisfação de ver o seus sobrinhos poderem ser engenheiro e economista. Para ela não tem preço, porque se não fosse a revolução eles não teriam acesso a isso. Em Cuba existe um verdadeiro humanismo, e uma solidariedade sem precedentes na história da humanidade.

Débora Pivotto - Ouvi falar que tem uma diferença entre as pessoas mais velhas que viveram antes da revolução e os jovens que já nasceram numa Cuba mais pobre...
Muita gente saiu do país quando a revolução triunfou, obviamente as famílias mais ricas, que tinham mais interesses econômicos. Os que têm uma visão capitalista da vida foram embora para o México, Estados Unidos, Canadá, Europa. Por exemplo, a família Bacardi ( marca de rum famosa) é de lá. Várias famílias importantes foram embora. Muita gente de classe média alta também saiu. Então acabou ficando uma classe intelectual e uma classe desprivilegiada que teve acesso à cultura, educação, alimentação e moradia. Essas pessoas é que estão formando o país hoje, é uma segunda e terceira geração de pessoas formadas e que querem alguma coisa a mais. Quando já têm o nível intelectual formado, pensam na parte material. Se a economia melhorar, melhor. É como a gente aqui, não adianta falar que está bom pra todo mundo, está bom pra alguns. Agora, se o país crescer, vai ter mais emprego e as pessoas que agora estão ganhando 350 reais vão ganhar 500, mas se fizer um comparativo com a atual situação aqui do Brasil, 350 reais é para pagar tudo. Então, quem ganha 350 reais aqui está pior do que o cara que está lá ganhando U$ 15, porque tem escola, transporte, moradia, saúde, alimentação grátis, e o 15 é o “pocket money”, para gastar, ir ao cinema, comer pipoca, mas ainda não é suficiente. Eles querem que o país cresça, depende da vontade do governo, e da economia. Os jovens sabem disso também. Então, senta e espera ou faz alguma coisa pra mudar. O que a gente está fazendo para mudar a nossa geração aqui? O que vocês estão fazendo? A gente está sentando e esperando. A gente votou no Lula, e aí? Estamos fazendo alguma coisa? Precisamos partir do princípio de que lá eles tem noção de Estado e que o Estado está fazendo concretamente mudanças para que a economia do país melhore. Quando um estrangeiro chega em Cuba, pergunta: “Você gosta do Fidel?”. Você vai para Paris e pergunta se o taxista gosta do Chirac? Nunca vi. O estrangeiro em Cuba acha que tem que ficar perguntando. É a visão caricatural do país.

Débora Pivotto – Você conheceu o Fidel? Ele freqüentava a sua casa?
Foi várias vezes em casa. Ele é fenomenal, é extremamente inteligente e perspicaz, tem uma memória que nunca vi em um homem só, impressionante. Nunca vi um chefe de Estado sair na rua como ele sai, ele quer saber de tudo, visitar os locais, um fato que me impressionou foi num desses furacões violentos que passam todos os anos por Cuba, destruindo imensas plantações e zonas de moradia, teve um furacão de 220 km/h que ia passar por cima de Havana, ficamos todos muito preocupados, pois ia ser desastroso e por um milagre maior acabou desviando, era um sábado à noite, eu em casa, passando informações sobre a direção do furacão por telefone para vários amigos cubanos que estavam sem eletricidade (pois corta-se a luz para evitar incêndios, e na residência temos geradores), quando de repente vejo imagens na televisão de Fidel que tinha pego o carro com os guarda-costas e foi atrás do olho do furacão prestar solidariedade às famílias que estavam perdendo tudo. Em Cuba a cada ano passam furacões terríveis e o que se faz é evacuar zonas de perigo para que não haja perda humana, perda material tudo bem, a gente reconstrói, mas uma vida humana é insubstituível. Ele é a imagem do homem macho, que cuida, que protege, que tem coragem de falar coisas sobre os outros países que poucas pessoas têm. A gente pensa muito que ele podia, na década de 70 ou 80, ter se retirado, se transformado num grande líder político humanista e colocado uma pessoa à frente do governo e, ele estaria sempre lá, fazendo parte de um conselho socialista-humanista, mas acredito que ele sabe muito bem o que faz, ele está lá ainda e é muito respeitado. As pessoas o tratam com um carinho e admiração que é raro ver. Quando ele vinha em casa, os funcionários de casa queriam estar perto, só de ele vir em nossa casa era um orgulho para os empregados. Ele é um mito.

João Mauro – E como é a participação política do povo cubano?
Existe a Assembléia do Poder Popular, formada por deputados votados pelo povo, que ganham salário mínimo. Éum trabalho quase voluntário. Eles são eleitos pelo povo por cada região do país e depois vão viabilizar as propostas do governo e os CDRs, os Comitês de Defesa da Revolução, que funcionam como um esquema de síndico do bairro. “ Em cada barrio, revolución” é a propaganda deles. E é muito engraçado, porque os únicos pôsteres que se vê quando viaja de uma cidade para outra são sobre os temas da revolução. Na frente da embaixada americana tem um outdoor: “ señores imperialistas, no tenemos ningum miedo”. Não se vê foto do Fidel, você tem do Che, do Martí, do Cienfuegos, isso porque o Fidel não morreu, ele ainda pode errar, só depois da sua morte é que a gente vai ver se ele terá pôster, busto, nome de praça, assim crêem os cubanos, alguém só é merecedor de orgulho nacional quando tenha vivido a vida inteira na idoneidade e transparência. Muito diferente do que a gente vê por aqui...

Tatiana dos Santos - E o problema da prostituição?
Não é tão grande como é no nosso Rio Grande do Norte ou na Tailândia. É um problema mundial, homem ou mulher que quer viver de prostituição, não tem como você segurar. Elas em Cuba, pelo menos, têm sistema de saúde pago e nível superior completo. Então se ela quer fazer, é opção dela. Cada um é dono do seu nariz.

João Mauro - É verdade que tem uma área turística na qual os cubanos não podem entrar?
Não, mas por causa da prostituição, o governo, se não me engano em 1996, vetou a entrada de cubanos em hotéis de turistas para ver se dava uma freada nessa história. Mas eles entram, você chega no Hotel Nacional, sempre tem cubano ali, eu mesma organizava um evento anual no Hotel Nacional para os cubanos. Em Varadero, que é uma área turística com vários hotéis, eles entram e saem, pois muitos têm casas, familiares e existem hotéis para os cubanos, que obviamente não podem pagar os mesmos preços de hotéis para estrangeiros. Ainda existe a lei, mas já está adaptada, então os próprios gerentes dos hotéis sabem quem é quem. Eu mesma, muitas vezes, por falar bem o espanhol e parecer uma cubana, era cobrada em pesos cubanos. Por exemplo, uma entrada no aquário de Havana custa em pesos cubanos o equivalente a 0,05 de dólar, e o preço para estrangeiro é de U$ 2,00, mas dizia “olha, sou estrangeira, me cobre o preço em dólar”, porque não acho justo usufruir de algo que é privilégio deles.

Alessandra com Fidel vendo o livro Cuba por Korda

Antonio Martinelli - Como foi o seu contato com os fotógrafos e como começou essa historia em Cuba?
Quando cheguei em Cuba, levei uns quatro meses para começar a entender um pouco e fui guiada pela primeira pessoa com quem tive contato, o Alfredo Guevara. Fiquei conversando duas horas com ele e não sabia quem ele era. Fui saber no dia seguinte que ele foi o fundador do ICAI - Instituto Cubano de Audiovisual e Cinema. Ele é um dos tops intelectuais de Cuba, e um dos homens que foi fundamental para o desenvolvimento do cinema latino-americano, foi embaixador de Cuba na Unesco, viveu em Paris por uma década e eu lá conversando com ele sem saber quem era. Ficamos muito amigos, fui bem sincera com ele: “ Olha, Alfredo, sou virgem da história do seu país e preciso que vocês me guiem para que eu entenda um pouco.” A gente ia almoçar e conversava. O segundo que conheci e que me ensinou muito sobre a vida e a fotografia foi o Korda, o conheci em 2000, íamos passar o reveillon em Havana e eu disse para meu marido: -“Jean, vamos fazer uma festa de ano novo daquelas de arromba e vamos convidar muitos cubanos”. E foi aí que o Korda me conquistou, ele chegou em casa com uma jovem em cada braço, uma ruiva de 19 e uma loira de 21. Achar uma ruiva e uma loira em Havana é difícil. Aí eu falei comigo mesma: -“ Esse é dos meus, um verdadeiro bon-vivant, porque com 73 anos e as duas juntas, é demais, tenho que ficar amiga desse cara ”. E assim nasceu uma amizade, muito profunda, ele acabou morrendo em Paris, de ataque cardíaco, sendo cuidado por paramédicos franceses, praticamente em meus braços. Em Cuba ele morava perto de casa e eu ia até lá de bicicleta. Chegava na casa dele, tomávamos um rum, fumávamos um cigarro e passávamos horas conversando, e assim fui entrando um pouco no cotidiano da vida dos cubanos e me apaixonando por sua criação artística e musical. Como a Europa conhece muito pouco a história cubana, fiz o projeto de um panorama da cultura cubana para a França. Escrevi e redigi um projeto para apresentar ao governo cubano, o projeto continha as sete áreas: cinema, fotografia, artes plásticas, música, literatura, dança e teatro. O livro Cuba por Korda eu não poderia ter feito sem esse trabalho que fiz antes. Falei com algumas pessoas em Paris, alguns museus, a cinemateca francesa, instituições públicas e um pessoal que conhecia, para ver se eles teriam interesse em abrigar uma mostra de artistas cubanos e eles me deram ok. Foi um projeto muito ambicioso, de um ano inteiro, sobre o panorama da cultura cubana. Começou em junho de 2002 e foi até agosto de 2003. Acho que a melhor maneira de conhecer um país é através de sua cultura, que é sua identidade e principalmente pelas novas gerações. Apresentei o projeto para o Fidel em um jantar e ele gostou e aprovou. Daí comecei a montar, com a ajuda do diretor da área internacional do Ministério da Cultura, Pedro Monzon, que hoje é embaixador de Cuba na Tailândia. A primeira coisa que fiz foi visitar artista por artista e ver o que eles tinham, para estruturar meu trabalho de curadoria. Visitei mais de 120 artistas. Deu trabalho fazer a curadoria. Só para a área de artes plásticas, montei um dossiê de quase 400 páginas com fotografia, currículo e o tipo de obra de cada um. Depois, passei para a fotografia. Comecei a visitar a casa de cada um, que me mostrava as fotos e eu via o que podia funcionar para uma mostra francesa ou não. E vi de tudo, porque tem gente que mora bem e tem gente que morava em lugares que você não tem nem idéia. Fechei o ciclo com 10 contemporâneos. Tem um, por exemplo, o Pupo, um fotógrafo negro de 32 anos, as fotos dele são maravilhosas. Ele trabalhou durante muitos anos como tradutor de inglês do Ministério das Relações Estrangeiras. Ele é de uma sensibilidade... o pai dele é da santeria, o candomblé, e ele tem umas fotos dos rituais de candomblé que nem Pierre Verger fez na Bahia. Ele me levou para visitar a casa dele, num dos bairros mais pobre de Havana, porque algumas das fotos estavam lá. O único bem de consumo que tinha na casa era uma televisão, então ele me botou na sala e ligou a televisão. Não tinha mais nada, a casa de bloco e eu lá sentada. Vi em quais condições esse artista maravilhoso trabalhava e fiquei mal, fiquei angustiada nesse dia. Esse menino, se não fosse a revolução, ia ser um bandido de rua. É como milhares que tem aqui, com potencial maravilhoso a ser explorado mas não têm o instrumento, não têm a base. Nas condições que ele nasceu e cresceu, na idade dele, se não tivesse tido cursos e ganho uma câmera, uma Leica de um turista de passagem... ele seria como são milhares de centenas de crianças e adolescente brasileiros, não podem desenvolver talentos artísticos porque não têm condições, e a revolução cubana, deu condições a seu povo. Ele foi o fotógrafo que mais se revelou nessa mostra que fiz na França. Um talento que vocês não imaginam. Casou com uma brasileira e virá para o Brasil. Outro exemplo é o Jose Manuel Fors, as obras dele são maravilhosas, ele vende por até 15.000 dólares. É um trabalho de pesquisa que nem no Brasil a gente tem. A dificuldade é que lá não tem papel e produto químico. Não tem para vender. A exposição dos contemporâneos eu fiz com a Fnac. A Fnac patrocinou os papéis e o produto químico. Cada um trabalha com um tipo de papel. Tem um contrato agora dizendo que cada vez que houver uma exposição fotográfica cubana no mundo, o material fotográfico e o trabalho de impressão têm de ser pagos.
No cinema foi complicado, porque vira e mexe tem apagão em Cuba. Então, onde estão guardados os filmes tem de ter ar condicionado. Às vezes tem apagão às oito horas. Liga-desliga, liga-desliga, as películas ficaram bem danificadas. Aí fiz um trabalho junto com o pessoal da Cinemateca e o Icaic. No acordo, o Icaic depositou 85 filmes na Cinemateca Francesa, porque lá tem toda a estrutura para conservar e eles estão restaurando dois filmes cubanos por ano. Isso foi muito legal, proporcionou que uma nova geração pudesse assistir aos filmes feitos em Cuba da década de 60 até agora.

Antônio Martinelli - Tanto documentários como ficção?
A maioria é ficção. Eu levei 14 documentários que eles tinham, uma coisa na época chamada “Noticieros Históricos ”, que eram 7 minutos de jornalismo antes do filme, como tinha aqui antigamente. São em preto-e-branco, a maioria de Santiago Alvarez. Por exemplo, a morte do Kennedy. Eram as notícias da época filmadas com o jeito cubano. São 14 que passavam antes dos filmes. O que a gente fez foi juntar o filme feito no ano com o Noticiero da época. Então você tem um filme de 1972 com um Noticiero de janeiro ou fevereiro de 1972.

Com o músico Ibrahim Ferrer

Tatiana dos Santos – Da música cubana, o que você levou?
Foram três meses de festival de música cubana nas praças de Paris. Mas é que música é mais difícil de trabalhar porque os grupos cubanos são grandes, às vezes com 22 pessoas. Fotógrafo você vai levar 15, pintor você leva 10. Amo música, meu sonho era só trabalhar com música, mas não tenho cabeça e estrutura para cuidar. Então tem duas empresas que já trabalham com músicos cubanos. A outra é formada por estatais francesas, que organizam shows no verão francês.

Antônio Martinelli – E literatura?
Revirei a literatura e fiz uma seleção de livros contemporâneos cubanos que não tinham sido publicados em francês. Esse é o trabalho mais difícil, tem de contatar as editoras, mandar cópia do livro, eles não lêem em espanhol, mandam traduzir, mesmo assim, conseguimos publicar 6 livros. Foram 4 editoras que publicaram os 6 livros de literatura contemporânea cubana. Esse livro do Korda foi lançado na França em outubro de 2002.

Cazu - Quando você vai trazer para cá?
Aqui é difícil. Os franceses têm infra-estrutura para poder bancar. Conseguimos patrocínio da Air France, porque foram quase 1.500 quilos de filme. A Cinemateca Francesa bancou a mostra e o catálogo, a FNAC as exposições de fotografia. Aqui é tudo difícil, mesmo para a cultura nacional a gente não consegue patrocínio. A exposição de fotografia está na agenda do Instituto Tomie Ohtake, então deve estar vindo para cá. E a idéia é trazer os fotógrafos para cá também, porque o sonho deles é conhecer o Brasil, para eles, é o "irmão grande”.

Sofia Amaral - Por que eles têm essa simpatia toda?
Porque eles sabem que o brasileiro é um povo muito parecido com eles. Temos o mesmo tipo de colonização européia e a imigração africana, é um povo muito similar. Você vai para a Bahia e vê Havana. Estou fazendo um estudo sobre a imigração africana aqui, você tem todo um pessoal que trouxe o candomblé, lá é a santeria, são os iorubas que vieram da costa do Benin. E foi na mesma época porque Bahia e Cuba produziam açúcar e tabaco que eram enviados para Espanha e Portugal, e os de má qualidade eram enrolados no açúcar que era muito apreciado pelas tribos do Golfo de Benin, que já eram escravagistas em sua formação e trocavam escravos por tabaco, e esses escravos infelizmente eram trazidos para o Brasil e Cuba em condições inumanas. A escravidão é uma das grandes tragédias da humanidade.

Cazu – Por que Cuba, que ia tão bem nos esportes, na ultima Olimpíada não emplacou ninguém? É algum fator conjuntural?
Não. Cuba sempre proporcionou grandes incentivos aos esportes. Desde pequeno, se o menino joga bem futebol, já vai pra escola de futebol, se joga bem tênis, vai pra escola de tênis... Eles são fortes em boxe e beisebol. Acho interessante que os bons jogadores de beisebol não saem de lá. Conheci apenas um que saiu e vários que tinham propostas bilionárias americanas e que falam “não, eu quero defender meu país”. Isso é integridade. Fiquei impressionada com um deles que recebeu uma proposta e o contrato era de 80 milhões de dólares e ele não mora nem em Havana, mora em Pinar del Rio, é um jogador famoso cubano e fala “se todo mundo fizer isso, quem vai defender o meu país?” Os valores são outros, ser revolucionário é uma conquista pessoal.

Antonio Martinelli Jr. – Você conheceu a casa do Hemingway, lá?
É uma casa linda. A arquitetura cubana é maravilhosa, e não foi destruída, está intacta. Então você tem período colonial, que é Havana Velha, período de final de1800, começo de 1900, que é o centro de Havana, tem a arquitetura dos anos 20, 30, a dos anos 50, que é maravilhosa. São essas casas de Miramar, Cubanacán onde está o Instituto Superior de Arte, que é maravilhoso e é uma das grandes obras arquitetônicas mundiais e patrimônio da humanidade. Nem nos EUA tem um lugar com tantos períodos arquitetônicos representados em uma só cidade.

Antonio Martinelli Jr. – Existem nomes na dramaturgia?
Tem revistas de teatro, eles publicam as peças e são super cautelosos. Todas as peças escritas são depois publicadas nessa revista teatral. Existe o “Maio Teatral”, um festival de teatro, tem festival de literatura, uma vez por ano com um prêmio literário. Tem o festival de cinema, tem o Balé Nacional de Cuba, que ainda é considerado um dos melhores do mundo. A produção é que é difícil, por exemplo, usa o que tem para a cenografia e eles são extremamente criativos. O Tropicana, que é um show de música e dança, as roupas são maravilhosas, mas o pessoal que organiza diz: “olha, é difícil, porque às vezes a gente quer criar, mas tem de se limitar ao tecido que tem”. E é o tecido que tem naquele período, porque é remessa, no próximo mês não é o mesmo. Fui tentar decorar o quarto da minha filha e queria morrer, mas é daí que vem a criatividade. Minhas crianças estudavam em casa com duas professoras cubanas e varias outras crianças de várias nacionalidades inclusive cubanas, e nunca brincaram com brinquedo de plástico, a professora me pedia caixas de papelão, dessas de supermercado. No dia seguinte, a caixa de papelão tinha virado um teatro lindo, feito de madeira e papelão pintado. Tudo se recicla. Um motor de geladeira vai fazer uma bicicleta virar uma mobilete.

Antonio Martinelli Jr. – Uma curiosidade minha: como é que funciona essa história de estudantes brasileiros irem estudar em Cuba?
É muito cara a universidade privada no Brasil. Eles têm um número de bolsas pra estudantes de toda a América Latina, são mais de 600 brasileiros que estudam medicina lá. Conversei muitas vezes com esses estudantes. São pessoas do interior de Minas, do Mato Grosso, gente que ingressa na faculdade mas que a família não tem dinheiro para custear os estudos. Eles têm um custo lá, mas é irrisório, acho que são mil dólares por ano, com estadia, alimentação e estudo pago.

Tatiana dos Santos - O Instituto de Artes também dá bolsas?
Na Escola Internacional de Cinema de Santo Antonio Los Banos são 150 vagas pra estrangeiros e 150 pra cubanos. Para estrangeiro é pago, mas menos do que custaria uma boa escola de cinema aqui, no México, na Itália ou nos Estados Unidos. As escolas de arte também têm bolsas para alunos estrangeiros, no mesmo esquema de custo baixo. Outra coisa que ninguém sabe é que os cubanos fizeram campos e colônias de férias para as crianças de Chernobyl. Até hoje ainda tem crianças de Chernobyl que passam três meses por ano nas praias de Havana, pagas pelo governo cubano. Muitos dos tratamentos das pessoas de Chernobyl foram feitos em Havana. Existe o grupo Médicos Sem Fronteiras, criado pelo médico francês Bernard Koucnher, só que o médico da França ou da Itália que ganha muito bem não vai trabalhar na África para ganhar pouco. O médico cubano custa, em média, 500, 600 dólares por mês trabalhando no exterior e 1700 médicos estão espalhados pelo mundo e são pagos pelo governo cubano em cooperação com o governo que os recebe. Numa regiãozinha da República Dominicana, um único médico trabalhando conseguiu diminuir em 60% o índice de mortalidade infantil, ensinando as mulheres a ferver água, sistema de higiene básica. Quando teve caso de dengue no Haiti, o Fidel mandou mais de 600 médicos pra cuidar dos casos e ensinar a prevenção. Por isso os cubanos resistem e o povo apóia essas iniciativas. Tem outro que faça isso? O cubano que sai é voluntário, é o trabalho da vida deles.

Tatiana dos Santos – Hoje você mora em Paris, saiu de Cuba em 2003, você sente saudades de morar lá, você voltaria?
Tive um período de luto. Não queria sair, foi muito triste. No começo, não podia nem pensar em Cuba, ficava mal e chorava muito, pois sei que não existe no mundo um lugar com esse nível de solidariedade. Agora já superei esse luto e vou voltar para fazer uma visita e um documentário sobre a minha experiência de três anos lá. A visão pessoal que tive foi única. Então, propus fazer um documentário e mandei o roteiro para o CNC - Centre National de la Cinématographie, vai ser uma co-produção França, Brasil, Itália e Cuba. Talvez não seja um filme para o grande público, mas acho importante passar o que senti através da visão dos cubanos. O documentário contará com mais de 72 pessoas mostrando o cotidiano, como é que se vive, o que se pensa, as criticas que eles têm. Não sou eu quem vai falar. Sou estrangeira no país deles, quem tem que responder são eles.

Antonio Martinelli Jr. - Sua grande aula de política foi no dia-a-dia cubano, mas você falou que quando o Collor ganhou, você ficou chocada. Qual era a sua posição política aqui no Brasil antes, mudou alguma coisa? Você já conhecia o comunismo como você conhece agora, como foi sua formação política?
-
Nasci em uma família bastante privilegiada, meu pai tinha indústria, então desde pequena não entendia por que tinha de ir para a escola de motorista, estudava em uma escola boa e tinha criança na rua pedindo esmola, ninguém me explicava. É uma condição que algumas pessoas passaram, pelos níveis de desigualdade ser tão latentes neste país. Tínhamos uma fábrica enorme com 800 funcionários e no final de semana fazíamos churrascos comunitários e gostava de ficar no meio deles e via que o salário deles no final do mês não dava para comprar o produto que passavam a vida produzindo. É como o cara que opera numa fábrica de automóveis e nunca vai poder comprar um carro. Isso ficava na minha cabeça e os meus pais não explicavam o porquê. Você está numa família capitalista, vai explicar o quê? Nasceu assim, você vai partir para o hinduísmo? “Você teve a sorte de nascer em família rica”. A cada ano na Itália, tinha uma educação diferente, proporcionada pelos meus avós e tios romanos, que me explicavam que a vida no Brasil não era como deveria ser, que para chegar a um sistema social onde não haja miséria e diferenças tão duras é necessário visão política e movimentos sociais. Fui então adolescente buscar explicações sozinha e através de professores. Estudei no Dante Alighieri e no Mackenzie, me interessava muito por sociologia, história e política, lia e pesquisava e via que vivia a realidade de um país extremamente corrupto, entendeu? Estava na nata e via o que acontecia. Por mais que passasse três meses por ano em Roma - e a Itália tem um histórico pesado, não foi um país muito correto, mas depois da década de 80 melhorou muito - via que também não era um exemplo idôneo. Eu voltava pra essa realidade de impunidade do Brasil, como até hoje a gente pode ter um candidato como Paulo Maluf? É absolutamente revoltante. Via que o povo é ignorante, não sabe ler, escrever, não tem memória. Quantos milhões de exemplares de jornal são publicados por semana? Quem lê? São poucos. Você raramente vai ver um brasileiro lendo no ônibus, porque não sabe ler direito, muito menos interpretar a leitura. O Brasil sobrevive graças à ignorância e miséria do povo, e a sorte de ter uma minoria de pessoas capacitadas e que são honestas para levar esse país adiante, porque quando você vota, elege um candidato que vem de uma família extremamente corrupta do fim do mundo que é Alagoas, cidades de estrada de terra, onde ainda tem trabalho escravo e o Brasil elege esse homem para representar o país? Ah, por favor... eu tinha vergonha de dizer que era brasileira e fui morar em Roma e depois em Paris, pois a França é um exemplo de sistema social que funciona. Os europeus não são tolos, então tudo era publicado lá, as chacinas das crianças de rua, a história da Candelária saiu em tudo que é lugar. A chacina aqui dentro do Carandiru, como uma estudante de 21 anos explica isso? Esse país tem histórico de casa grande e senzala e um complexo de vira-lata: tudo que vem de fora é melhor, a gente não tem capacidade e então a gente tem de pegar e copiar? Passei 9 anos fora do Brasil e hoje acho que pode ser um dos melhores países do mundo. Temos o potencial, temos a capacidade, mas tem que começar a regularizar, criar infra-estruturas que respondam às necessidades do povo, educação e saúde são instrumentos fundamentais para o desenvolvimento humano. Fernando Henrique deu uma representação internacional, mas não mostrou a realidade, levou o Brasil para fora porque falava o francês, estudou na Sorbonne, o Brasil teve pouco crescimento no período em que ele foi presidente. As diferenças sociais aumentaram e nunca um presidente falou como fala o Lula do povo brasileiro, ele pode falar porque veio desse mundo.

Antonio Martinelli Jr. – Você bota fé nele?
É difícil liderar um país como esse. Se não tem uma maioria no Congresso, quando mesmo sua equipe de trabalho não está capacitada - não tem de ter curso completo pra ser deputado e vereador?Aqui qualquer um se elege. Tem vereador analfabeto, como é que pode? Você não pode tocar um país assim, precisa ter uma inteligência, precisa ter pessoas formadas. Na França existe a Escola Nacional de Administração, 85% dos líderes políticos, das grande empresas, saem de lá, mas é uma formação dificílima, o mais difícil é sair, já entrar é dificílimo, você só entra depois dos 28 anos, depois de ter duas universidades completas e é dificílimo você sair, formam-se líderes capazes e com consciência de Estado e social. Aqui não, qualquer um é candidato. Talvez o Lula esteja trazendo uma visão social para o país e fico feliz da vida. Eu tinha de votar escondido da minha família no Lula, sempre votei nele. Achei muito engraçado minhas amigas usando estrelinha do PT de ouro. É, uma coisa absurda, na época virou moda ser petista.

Sofia Amaral - Como é a vida noturna em Cuba? Tem umas baladas?
Tem os bares com música cubana, umas três ou quatro discotecas que são bastante turísticas e para os cubanos tem várias. Eles organizam em Havana semanalmente a Discotemba – uma festa que eles faziam aos domingos em alguns bairros –, tipo um revival da década de 70, 80, que não tem turista. É todo o pessoal de 30 a 40 anos que põe rock de 70, 80. No verão tinha umas festas com musica house, técno, eletrônica, sempre em lugares que ficávamos sabendo no ultimo momento e não era cobrada a entrada. Os cubanos se arrumam muito, as meninas de calça, topzinho, colares e com um gosto muito particular, eu chamo de “como Cuba vê os Estados Unidos”. Os meninos com a influência do rapper americano e as meninas, Jenifer Lopez, elas são bonitas.

Sofia Amaral - Mas o pessoal sai para tomar uma cerveja, por exemplo? Tem bar?
Tem, mas a cerveja, nos locais públicos, custa 1 dólar e meio. Não é todo mundo que vai ter 1 dólar e meio pra poder tomar cerveja com os amigos no barzinho.

João Mauro - Não tem cerveja cubana, mais barata?
Tem os bares onde ela é cobrada em pesos cubanos, aí já é mais fácil a juventude poder curtir.

Marília Melhado - O rum é mais barato?

É, todo mundo bebe rum e cerveja cubana. Não tem essa de vodka, uísque, ninguém bebe e não tem droga. Em três anos lá, nunca vi. A turma mais jovem chama marijuana de Maria, mas nunca fumaram. É muito engraçado, mas não sabem o que é. E não é nem o mito, “ah, queria experimentar”: não tem, não tem.

Cazu – Falando em mito: como é que você vê Cuba sem Fidel?
É a grande questão: todo mundo se pergunta. Acho que eles vão dar continuidade a esse processo histórico revolucionário, que vai levar mais alguns anos pra chegar a uma democracia ou a algum outro tipo de sistema. Cuba tem uma legislação, tem uma constituição que deve ser respeitada. Nasci na ditadura militar e vocês no final dela, quer dizer, a gente levou anos pra chegar a botar um presidente do povo de maneira democrática. Cuba também vai ter o processo deles com Fidel ou não e quando não estiver, vai estar mais presente do que nunca. Porque ele é fenomenal. O discurso dele é impressionante, ele tem o dom da palavra. O povo fica ouvindo um discurso de quatro horas, porque cada vez que ele está fazendo discurso ele está detalhando aquela semana pro povo dele. Nenhum presidente faz isso, nenhum governador, nenhum prefeito fala como é que está a situação. Ele não é o único, porque como tem muito essa coisa do discurso, muitos cubanos falam muito bem, uma cubana de 20 anos que sobe no palanque e vai... É como era a Roma antiga, a Grécia antiga: arte da retórica. Eles aprendem isso desde pequenos. Tem um senhor chamado Eusébio Leal, historiador da cidade de Havana, quando esse homem fala... não conheci o Vinícius de Moraes, mas devia ser como ouvir um poeta como o Vinícius falando. Tem o dom da palavra. Alfredo Guevara tem o dom. Quando tem discurso, pode ser do Fidel ou qualquer outro, todo mundo pára e ouve. E Fidel consegue fazer manifestações populares de 1 milhão e meio de pessoas na rua, que estão lá das seis da manhã às duas da tarde, num puta calor, no sol, ouvindo o Fidel ou o Carlos Laje, falando no palanque, crianças falando. E isso eles não querem perder. Então, o Fidel não estando, vai estar mais presente com as idéias dele, com os discursos que ele já fez, com o que ele desenvolveu, vai ter um representante que vai dar continuidade....

Débora Pivotto – E o irmão dele?
Conheci por acaso, ele não freqüenta a comunidade diplomática. Acho que ele é o ministro das Forças Armadas revolucionárias. Conhecia bem as duas filhas dele, mas, um dia, por acaso, fui acompanhar uma delegação ao aeroporto e na pista esperando o avião decolar éramos três pessoas e comecei a conversar com o senhor ao meu lado, conversamos sobre os vilarejos que existem nas montanhas da Sierra Maestra que ainda não tem acesso à televisão. A preocupação dele era como levar pra essas famílias medicamentos, como resgatá-las em caso de problemas... Era ele em carne e osso, Raul Castro, quer dizer, um homem muito humanista. Se tiver uma liderança dele, acho que vai estar em boas mãos. Acho que o mais importante é essa preocupação com o ser humano, e isso ele tem. Ele não tem, é claro, o carisma do irmão, mas ele está com o Fidel desde 1950 nessa história. Os dois foram presos, exilados, os dois voltaram, os dois ficaram na Sierra Maestra, quer dizer, ele participou do processo revolucionário. Ele também não é jovem e não é que vá ficar 50 anos lá, pode ser que fique num período de transição. Agora, essas lideranças não podem ser perdidas, elas são muito valiosas, pois construíram conceitos novos. Eu ia ficar muito triste se manhã entrasse um governo provisório, como fizeram com o Iraque, um governo transitório dirigido pelos europeus e pelos norte-americanos. Cuba é o respiro para alguma coisa que ainda pode ser boa para toda a América Latina. É um exemplo de que é possível sobreviver sem ter de ser como o vizinho gigante consumidor e de valores meramente materialistas. Uma esperança e eu não queria que essa esperança se perdesse. O Fidel vai ficar pra daqui a mil anos, vai ficar na história como líder humanista. É como ele fala: -“A história me absolverá”. Daqui à 2.000 anos vamos ainda falar dele.

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Quem ganhou:

Marcel Pinheiro de Carvalho Silva, Fortaleza, CE
Quando penso em Cuba, penso em como o charuto pode fazer sucesso em um país de excelentes médicos.

Leia Rodrigues, Chapecó, SC
Quando penso em Cuba, penso em esperança, em exemplo a ser seguido; em um povo que tem muito mais a ensinar do que a aprender.

Patrícia Alves da Cruz, Canoinhas, SC
Quando pendo em Cuba, penso em liberdade, liberdade de expressão, para ser

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