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“O cuidado com o meio ambiente é fundamental para a paz do mundo ”

por Renata da Silva Moreira

Por meio de jejum de onze dias entre setembro e outubro de 2005, conseguiu chamar atenção de todo país para uma região pouco lembrada no cotidiano brasileiro. Gerou muitas manifestações nacionais e internacionais, além de correntes de orações. Ganhou apoio de inúmeras organizações e instituições. Obteve um retorno do presidente, com quem conversou sobre o projeto de transposição do rio, chegou a um acordo e ganhou tempo para ampliar as discussões sobre o assunto. Com suas ações, conseguiu conscientizar grande parte da população local a respeito do projeto, até então desconhecido por muitos.

Frei Dom Luiz Flávio Cappio, 59, é paulista, de Guaratinguetá, formado em teologia, filosofia e economia. Em 1997 foi ordenado bispo diocesano de Barra-BA. Entretanto, a luta pela vida do Rio São Francisco e pela melhor condição de vida das pessoas ribeirinhas já dura 32 anos e existe desde de que dom Luiz, como é conhecido pela população local, chegou no semi-árido do Nordeste brasileiro ainda como missionário franciscano. Entre 1992 e 93, fez uma peregrinação no percurso do São Francisco, junto a mais dois companheiros, para chamar a atenção sobre a degradação do rio – o que rendeu o livro Rio São Francisco, Uma Caminhada Entre a Vida e a Morte. A atual batalha é mostrar, para o governo e para o povo, a necessidade de levar a sério o projeto de revitalização do São Francisco.

Diante da vivência de cerca de 32 anos no Médio São Francisco, o queesserio significa para o senhor?
O rio São Francisco deixou de ser um acidente geográfico e passou a ser a condição de vida para todo o povo da região possibilitando a vida para todo o semi-árido nordestino, ou essa região aqui seria um imenso deserto, seja para os humanos, seja para os animais. É a condição de vida e descobrimos isso aos poucos e percebemos que o rio vem passando por uma espécie de morte muito rápida e era necessário que se fizesse alguma coisa a mais para conter esse processo de morte e devolver a vida do rio, assim estaríamos lutando pela vida do povo. A luta pelo pobre hoje aqui no sertão passa pela luta pelo meio ambiente. Se o meio ambiente é preservado, abre-se uma alternativa para o pobre.

Entre 1992 e 1993 o senhor percorreu as regiões ribeirinhas do São Francisco, quais percebeu serem as maiscarentes?
Nós vimos várias regiões muito carentes. A primeira região carente é o norte de Minas. A segunda região carente, por incrível que pareça, ao contrário de toda propaganda oficial, é o bolsão Petrolina e Juazeiro. Enquanto a mídia coloca aquela região como se fosse o céu. Meu Deus, que céu é esse? É a porta do inferno do pobre do ser humano. Depois vem aquela região entre Alagoas e Sergipe que é também um bolsão de miséria.

Porque a região de Petrolina-Juazeiro é tão carente?
Acredito que um ponto é a presença muito forte dos grandes fazendeiros gerando uma dependência muito grande na população. Onde existem as pequenas propriedades, mesmo em condições áridas, o povo vive. Agora , onde impera os grandes latifúndios para a produção de gado ou os grandes projetos de irrigação, é sim onde estão as grandes distâncias sociais.

O senhor vive diante da simplicidade e, muitas vezes, do sofrimento das pessoasque vivem nas regiões mais secas. Viver o contraste entre essa região e a sudeste, de onde é nativo, gera a sensação de impotência?
Por um lado gera sim, mas por outro lado desperta um grande espírito de luta, vontade de fazer alguma coisa. Afinal de contas, o que não se pode é ficar de braços cruzados. É como eu falei para o presidente o meu gesto não foi contra a sua pessoa partidária, o meu gesto foi uma tentativa de, quem sabe através de um grito desesperado, fazer com que o senhor se lembrasse do porquê o senhor foi eleito presidente. O senhor foi eleito presidente para salvar, para ser a redenção desse povo brasileiro. Quando o Brasil votou no senhor, foi na esperança de uma resposta para os grandes males desse país, mas infelizmente o senhor se tornou um refém do capital. Então o meu gesto foi uma tentativa de lhe devolver a premissa vocação política de ser uma peça fundamental e eficiente para o Rio. E esse projeto de transposição usa a água do Rio, mas não é água para os pobres, novamente repete o mesmo modelo de sempre, dando aquilo que em primeiro lugar deveria ser canalizado em benefício dos pequenos, cada vez mais em benefício dos grandes. Por isso, todo o nosso empenho, toda nossa luta é pelo Velho [Chico], e não ficar de braços cruzados.

As pessoas Ribeirinhas têm consciência da transposição e de comoisso vai influenciar na vida delas?
Agora começam a tomar. Você vê em Cabrobó, naqueles dias em que lá estive. Os grandes de Cabrobó eram contra a minha pessoa, porque achavam que eu tinha diferenças em um projeto de transposição que ia beneficiar a meia dúzia de pessoas. Ao povo não, mas a meia dúzia de pessoas. Depois que a gente passou por lá eles (o povo) começaram a se questionar porque esse bispo esteve aqui? Tem alguma coisa. E foram estudar o projeto. O bom de aparecer é que a verdade chega, e a sensação é que está acontecendo a mesma coisa em todo vale do São Francisco, no Brasil e no mundo. O que o governo está tentando enfiar goela a baixo do povo brasileiro, de repente se tornou transparente. E todo mundo começa a questioná-lo, a estudá-lo, a vê-lo e a perceber que não é bem aquilo que a propaganda oficial diz, que é muito diferente. Uma coisa é aquilo que a propaganda oficial diz: Vamos dar um pouquinho de água para o pobrezinho que está passando sede. Que água para quem está passando sede? [Com a transposição] A água vai para as grandes empresas produtoras de camarão. Nada de água para o pobrezinho que está passando sede, não. E o povo vai continuar passando sede do mesmo jeito. Por isso a nossa luta contra o atual projeto.

E o que o senhor acha da revitalização?
Eles agiram de uma maneira muito inteligente e maliciosa, unindo as duas coisas, porque transposição é uma coisa e revitalização é outra. Vou fazer uma comparação: vamos supor que seu pai e sua mãe estão doentes, então primeiro você vai cuidar deles e só quando eles estiverem bem, você vai planejar uma viagem para eles irem à Europa. Agora, não dá para você emendar as coisas; curar e ao mesmo tempo planejar uma viagem. Primeiro uma coisa e depois outra. Então, vamos primeiro cuidar do Rio São Francisco, dar condições para que ele continue vivo, vamos preencher as lacunas que estão faltando e que estão causando a morte dele, vamos insistir na revitalização. E somente depois, quando o Rio estiver realmente garantido na sua vida e na sua possibilidade de gerar vida, aí vamos ver o que fazer com ele. O atual projeto de revitalização é muito importante, mas precisa de algumas correções, e realmente precisa ser levado a sério e separado do projeto de transposição.

Vocês sugeriram alterações no projeto de transposição ao presidente?
Não. Apresentamos ao presidente três documentos (que estão no site www.umavidapelavida.com.br, na íntegra):
o primeiro documento é o por quê somos contrários ao projeto de Transposição. Então, de antemão, nós nos posicionamos: não vamos discutir o projeto de transposição. Quando lá no encontro Ciro Gomes começou a defender [o projeto], deixamos claro: não queremos perder tempo com isso. Estamos aqui em uma missão muito clara, demonstrar nossa rejeição pelo projeto. Não se discute sobre isso, ele é rejeitado na íntegra. Então o primeiro é o por quê disso, os dez motivos que fazem não aceitar o projeto; o segundo documento é como é que o rio se encontra. Um diagnóstico dele.E a emergência, a urgência de levar à sério a revitalização; e o terceiro documento, [contém] as alternativas que nós temos em mãos. Algo que realmente seja interessante para o semi-árido brasileiro, para todo semi-árido brasileiro, porque um dos grandes defeitos do projeto de transposição é separar o nordeste. Não existem dois nordestes, existe um nordeste somente. E esse outro nordeste foi tão maldosamente criado que criou uma rivalidade entre as pessoas. Agora nós aqui nesse “ Nordeste Meridional” somos chamados de egoístas, porque não queremos dar água para o produtor do “ Nordeste Setentrional”. Ou seja, criou-se uma divisão em algo que nunca existiu. Existe um só nordeste e um problema só também.

Aqui na minha diocese há 500 metros da beira do Rio você vai encontrar gente passando miséria, passando necessidade de água, pois não tem água. As senhoras, as mulheres levando lata d’ água na cabeça. Então é o mesmo nordeste com os mesmos problemas. Se eles realmente estivessem interessados em ajudar os pobres do Rio São Francisco, ajudariam onde ele naturalmente passa. Agora querem levar a água a dois mil quilômetros de distância para ajudar os pobres de lá. Então, primeiro ajude os daqui, resolva os problemas daqui, para depois vermos o que vamos fazer com os de lá. E um dos pontos porque estamos sendo contrários a esse projeto é justamente porque ele divide. Não é um projeto que une o povo, as regiões para satisfazer as necessidades, ele divide tudo.

Quais as alternativas propostas para o semi-árido?
Para você ter uma idéia, nós temos um exemplo. Quando estava conversando com o presidente, eu disse: “ Presidente o senhor tem 4 bilhões e quinhentos milhões de reais destinados ao projeto de transposição do Rio São Francisco. Eu vou te fazer uma proposta. Dê para mim esse dinheiro que eu resolvo alternativamente o problema do semi-árido brasileiro. Entregue nas minhas mãos, em confiança. E se quiser dê diante de toda mídia para todo mundo saber que eu recebi esse dinheiro para depois poder me cobrar. E eu vou resolver esse problema alternativamente sem precisar transpor a água.”
Com esse dinheiro construiríamos três milhões de cisternas, de vinte mil litros de água cada uma, e se teria armazenado 60 bilhões de litros de água potável em cada estação chuvosa. Haveria duas cisternas para cada família do nordeste inteiro. Uma cisterna para o consumo, água de beber e de fazer comida, e outra cisterna para usar na produção. Isso é apenas um exemplo.
(Para informações mais completas sugere que consulte o site acima)

Porque tanta dedicação à região?
Porque a gente deve dar flores onde foi plantado, você não planta árvore daninha no seu jardim. E quanto mais linda ela for, mais você cultiva aquela plantação no seu jardim. Enfim, gerar vida onde se está. Por que descobri que não há vida do povo sem o rio, as coisas estão interligadas. Não dá para a gente separar, cuidar do povo e não cuidar do Rio, ou cuidar dele sem pensar no povo. Hoje, cada vez mais, se tem consciência que o cuidado com o meio ambiente é fundamental para a paz do mundo. Há duas realidades no mundo que não possibilitam a paz. A primeira é a grande discrepância social. Nunca vai haver a paz no mundo enquanto se estiver uma meia dúzia que não sabe o que fazer com tanto e outros sem ter o que comer . Como já dizia Paulo VI, a paz social depende da justiça social. Outro exemplo é o Tsunami, em 26 de dezembro de 2004, que varreu grande parte da Ásia e milhões de pessoas morreram. Varreu parte do mundo. Tirou a paz de toda uma região. Quantas lágrimas, quanto sofrimento, quanta dor. E quantas famílias, e quantas vidas!
Famílias inteiras foram varridas do mapa. Isso é um atentado à paz do mundo. E o que é isso aí? É a revolta da natureza contra as agressões ao meio ambiente. A natureza não perdoa as agressões. Nos Estados Unidos milhões sofreram com o Katrina. A seca na Amazônia, meu Deus ... as reservas de água do mundo! Então é um atentado à paz do mundo. Hoje em dia somente se pode falar de paz, se levar a sério a questão da justiça social e do meio ambiente.

A decisão de vir para essa região foi sua ou foi uma sugestão da sua congregação?
Foi minha própria vontade, mas também a missão de franciscano, de estar sempre naquelas regiões mais carentes. E eu vi que realmente a minha presença estava sendo útil, e fui ficando.

Fazer greve de fome é um sacrifício pessoal muito grande. Como foram os 11 dias que fez a greve de fome?
É muito difícil. O ano de 2005 foi um ano muito difícil para mim, porque foi viver com a morte sendo vizinha. Estava na eminência de começar as obras e tinha que começar [o jejum]. Depois vieram os escândalos de Brasília e aquilo foi deixado de lado. E [a questão] voltou em setembro e fiquei na expectativa. Hoje a gente olha para trás e vê que tudo estava bem em seu devido lugar. Mas quando a gente comprou a causa, antes deles começarem as obras, o que eu sabia é que eu ia para lá [Cabrobó] e era bem provável que eu não voltaria. E eu estava disposto a dar a minha vida, “uma vida pela vida”. Eu tinha certeza que não ia morrer, porque afinal de contas nós somos um país de pessoas inteligentes, que sabe sentar em uma mesa e conversar. Eu tinha certeza que não ia morrer, mas estava disposto, caso fosse preciso. Tinha certeza que não ia, mas podia.
Quando o Lula disse, acho que ele falou sem pensar: “ Agora vai virar moda”. Essa é a moda que não pega. Por que é muito difícil, se não estiver psicologicamente muito bem preparado para enfrentar, não se faz.

O senhor comentou algo com a sua congregação antes de tomar a decisão? O senhor teve apoio?
Não [sabiam]. Eles ficaram sabendo depois. Contei com o apoio muito grande dos mais próximos, mas ao mesmo tempo um apoio com muito medo, com muito receio, porque todos me amam muito e não queriam me ver morto. Era um apoio porque eu estava tomando essa decisão, mas um apoio do tipo “ eu não quero que isso aconteça”. Todos apoiando doidos para que o quadro regredisse. Todas as congregações deram muito apoio e pediram ao governo que estivesse aberto ao diálogo.

Muitas ONGs e Instituições manifestaram o apoio ao senhor de diversas maneiras. E a população da região, como reagiu?
O povo entendeu. Eles chegavam lá e diziam “ Obrigada”. Os letrados pensam de mais e misturam as coisas. Enquanto que o povo é muito mais coração.

Esses onze dias prejudicaram a suasaúde?
Graças à Deus eu não tive nenhuma seqüela. Naqueles onze dias eu falava, andava, embora muito debilitado. Mas eu fiquei sabendo, depois, que eu tinha dez dias de declínio até eu ter uma parada cardíaca.

O RioSão Francisco e a região nordeste sempre foram carentes e receberam menos atenção das outras regiões do país. Com a polêmica da transposição, que ganhou destaque no governo FHC, os olhares se voltaram para o Nordeste. Considera isso positivo para região ribeirinha?
Muito, por dois motivos. Primeiro porque eles participam dessa discussão e segundo porque eles serão os beneficiados. Está sendo feita uma coisa que os envolvidos não têm a participação nisso. É a mesma coisa que uma construtora ir derrubar sua casa sem perguntar se pode ou não. Tem que se fazer com que a comunidade participe.

O que achou da resposta do governoLula?
A gente não sabe o motivo dessa quietude toda, mas as nossas conversas levaram ao compromisso do presidente de que não há nada a fazer antes que se voltasse a discussão da transposição. Esse foi o grande compromisso. A gente quer acreditar, porque se de antemão eu não acredito em você, não vou sentar para conversar. Agora com político, a gente tem que estar com um olho aberto e com o outro fechado. Não se sabe o que está acontecendo, principalmente com um projeto desses, que envolve tantos interesses, e tem tanta gente interessada... a política empresarial, na própria vida da gente. Eu não ando sozinho, quando vou viajar de carro eu sempre levo alguém comigo.

O senhor falou queem Cabrobó e emJuazeiro tem muitadiferençaentrepobres e ricos, as pessoasmais ricas apresentam algum incômodo com sua presença. Já te ameaçaram?
Sim, demonstraram [ incômodo]. Sempre com muito respeito, nunca ninguém me faltou com respeito, mas demonstraram sim. [ Um exemplo] Acredito que a revitalização deve acabar com o carvoejamento . Semana passada nós tivemos uma ação [da Secretaria do Meio Ambiente] e eu participei. Então, certas coisas fazem com que muitos me adorem e muitos me odeiem.

Caso o governo Lula não cumpra o prometido, há alguma coisa que pretende fazer?
Se acontecer, oportunamente, a gente vai ver se vai fazer e você vai ficar sabendo.

Qual a postura do governo Lula à causa?
Eu vejo ainda muito jogo de cena. Muita fantasia, muita fala de palanque e pouco trabalho concreto realmente feito. Eu acho que agora a gente tem que partir para os trabalhos. Por exemplo, a questão da revitalização exige muitos recursos, principalmente de saneamento básico. Saneamento básico são investimentos que o prefeito não gosta de fazer. Fazer esgoto, fazer lagoas de contenção, não deixar os esgotos ir direto para o rio. São projetos caros e pouco visíveis, que não agradam os políticos, principalmente os carreiristas. Mas precisa fazer, sem isso aí não vai acontecer a revitalização. A mesma coisa o carvão. A lei ambiental da Barra, por exemplo, proíbe a atividade do carvão. Mas, como se trata de grandes interesses, grandes grupos empresariais, a gente percebe que as forças estão tomadas. Então, estou vendo muita fala e pouca coisa feita. Ainda vejo muito panfletismo e pouca obra.

O que o senhor espera do governo atual para o semi-árido?
O que eu espero do presidente Lula é que ele seja fiel aos motivos pelos quais ele foi eleito. E se ele for re-eleito, que realmente compreenda que a grande missão dele, com os pobres nordestinos, é devolver a dignidade aos pobres.

E da população brasileira tão misturada, complexa, com uma imensa diferença social?
Que a gente crie um Brasil brasileiro, que as questões do nordeste sejam também as questões do povo do sul, que o povo de São Paulo se preocupe com a seca da Amazônia, que as cheias do centro-sul, que arrasam São Paulo, Rio de Janeiro, sejam preocupação para o povo do centro-oeste. Que a gente construa um Brasil brasileiro, um só povo, uma só nação, uma só gente, que seja solidário. Que realmente um se importe com os problemas dos outros.

Renata da Silva Moreira é jornalista

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