Uma das singularidades do Brasil, já em pleno século
21, é continuar deitado eternamente em berço esplêndido,
vivendo sua condição de uma ilha banhada pelo oceano
Atlântico de um lado e a hispanidade do outro. Sob muitos
aspectos, o Tratado de Tordesilhas continua a vigorar na América
do Sul, onde ainda se reproduz em escala e circunstâncias
diversas a secular diferença entre portugueses e espanhóis.
Essa peculiaridade nos tem privado, muitas vezes, de conhecer o
que se passa no dia-a-dia de nossos vizinhos hispânicos, em
vários aspectos mais desenvolvidos política e culturalmente,
verdade essa que não devemos esconder de nós mesmos.
Deveríamos o quanto antes contribuir para romper essa barreira
e esse isolamento e nos aproximarmos cada vez mais da América
espanhola, em particular dos emblemáticos exemplos de cidadania
e de direitos humanos. Como os acontecimentos políticos no
Chile nos finais de 2004 envolvendo o
Informe
Valech (um relatório de mil páginas com uma avaliação
dos estragos causados pela prisão e pela tortura infligida
a milhares de cidadãos chilenos) e o pronunciamento favorável
da Justiça daquele país pelo julgamento do ex-ditador
Augusto Pinochet.
No dizer de Isabel Allende, escritora chilena de prestígio
internacional, para conhecer o Chile com o coração
é necessário ler os versos de Pablo Neruda, “o
poeta que imortalizou as soberbas paisagens do país, os aromas
e os amanheceres, a chuva tenaz e a pobreza digna, o estoicismo
e a hospitalidade”. O Chile tem muitas caras, diz Isabel em
seu livro
Meu País Inventado: “uma delas é
materialista e arrogante, cara de tigre, que vive contando as listras
e penteando o bigode; outra, deprimida, cruzada por brutais cicatrizes
do passado. Uma se apresenta sorridente a turistas e banqueiros;
outra espera resignada pelo próximo cataclismo geológico
ou político”. Pude constatar de perto a observação
de Isabel Allende.
Nessa América Latina sofrida, para aqueles da minha geração
que viveram os anos 60 e 70 do século 20 entre a esperança
e o sonho de uma nova sociedade mais justa e solidária e
a realidade das prisões, das mortes e da tortura que impediram
a realização desse sonho, o recente discurso do presidente
do Chile, Ricardo Lagos, sobre o período da ditadura de Pinochet
revestiu-se de enorme significado político e não só.
Ele, o presidente do Chile, acabava de receber das mãos do
bispo de Santiago o Informe Valech que emocionou não só
a sociedade chilena, mas que levou às lágrimas o próprio
presidente Lagos e acabou por exigir do comandante-chefe do Exército,
num primeiro momento, admitir a participação daquela
arma e dos militares em geral como responsáveis pelas violações
dos direitos humandos no Chile.
Fui visitar o Chile na primeira quinzena de dezembro último.
Queria ver e sentir de perto o que se passava naquele país
que, ao contrário do Brasil, insiste em não apagar
de sua memória histórica a brutal repressão
praticada durante dezessete anos de ditadura civil-militar (1973/1990),
capitaneada por um dos mais polêmicos gorilas do Cone Sul,
o general Augusto Pinochet Ugarte, um dos responsáveis pela
Operação Condor. Encontrei, sob o céu azul
dos Andes e um verão nada tropical, uma sociedade excitada
pelos acontecimentos políticos mais recentes não só
pela divulgação do Informe Valech, mas também
pela perspectiva mais concreta de Pinochet ser levado finalmente
a julgamento pela Justiça do Chile. Aqui do Brasil eu já
havia conseguido contatar Mireya García, a dirigente socialista
chilena da comissão ética contra a tortura e vice-presidente
do Agrupamento de Presos e Desaparecidos Políticos, que nos
recebeu na sede da AFDD (Agrupación de Familiares de Detenidos
Desaparecidos), em Santiago, para falar um pouco desse novo Chile.
Também durante três semanas tentei contato, através
do serviço de relações públicas do Exército
chileno, com o seu comandante-chefe, general Emilio Cheyre, mas
a resposta foi um significativo silêncio, conforme pude constatar
e esclarecer logo que cheguei a Santiago. Jornais diários
e os semanários chamavam a atenção para um
seminário promovido pelo Exército chileno na Escola
Militar em Santiago logo após a divulgação
do Informe Valech. O seminário, intitulado “Exército
e Direitos Humanos: Compromisso para o Século 21”,
foi transmitido direto para todas as unidades do Exército
chileno e contou com a participação de políticos,
juristas, economistas e militares. Tal seminário anulava
em parte os avanços manifestados nos discursos do próprio
general Cheyre logo após a divulgação do Informe.
Um recuo, como assinalou o articulista Eduardo Contreras em seu
artigo no jornal
El Siglo de 10/12/2004.
Em meio a avanços e recuos na retórica sobre a questão
dos direitos humanos, a verdade é que o Chile, mesmo longe
ainda de um novo cataclismo político, vive dias agitados,
em que o número de defensores do ex-ditador Augusto Pinochet
diminui consideravelmente, na razão inversa daqueles que
condenam a tortura .Impossível ficar indiferente a tais questões
após a leitura do Informe Valech. Um informe que não
poupa nenhum segmento da sociedade chilena pelo silêncio e
pela omissão diante de tanto terror e injustiça. O
trabalho supera, e muito, o nosso “Brasil: Nunca Mais”
(sem qualquer desmerecimento pelo trabalho pioneiro organizado pela
Arquidiocese de São Paulo em 1985 em termos de Cone Sul)
não só pelo número de depoimentos, mas pelo
rigor e pela coragem com que põe o dedo em feridas ainda
não cicatrizadas na sociedade chilena. Cicatrizes que, como
lá e cá, só deixarão de sangrar com
a coragem e a determinação política de enfrentar
a verdade, reparar injustiças e punir os responsáveis
pela dor, humilhação e morte de milhares de cidadãos
sul-americanos.
Quem
é a cidadã Mireya García Ramíres, onde
nasceu, sua infância e escolaridade?
Bem, Mireya García é uma mulher que aos 17
anos de idade vivia na região sul do Chile, na província
de Concepción, estudava no liceu
(colegial), estava
no último ano do liceu, a poucos meses de ingressar na universidade,
quando se dá o golpe militar de 11 de setembro
(1973).
A partir desse momento, sua vida muda totalmente, porque, passados
oito dias do golpe, em 19 de setembro, fui presa e levada a um campo
de concentração. Quase toda a minha família
foi muito afetada pela repressão da ditadura, vários
membros da família foram presos, o que mudou a vida de todos
nós. A integridade da nossa família foi duramente
afetada quando eu e meu pai chegamos a esse campo de concentração,
que ficava numa ilha, a ilha Quiriquina, uma dependência da
base naval de Talcahuano, da Marinha chilena. Nessa altura, meu
irmão menor, apesar de muito novo, teve de fugir de casa
e posteriormente, em 30 de abril de 1977, desaparece em Santiago.
Minha irmã casada, para salvar sua vida, se exila com o marido
e a filha ainda pequena. Tudo isso determina uma grande alteração
na minha vida e de toda a minha família.
Isso pressupõe que parte da família já
tinha uma militância política antes do 11 de setembro?
Éramos, os três irmãos, militantes
da Juventude Socialista, meu pai era socialista, dirigente da Central
Única de Trabalhadores de Concepción. A verdade é
que nascemos, crescemos e nos formamos num lugar, num ambiente em
que sempre se falou de política, onde sempre soubemos o que
era uma militância política. A política não
era estranha para nós e ainda jovens tomamos a decisão
da militância. Também tomamos essa decisão porque
se vivia um período histórico no Chile muito significativo,
como foi o período do governo da Unidade Popular. Apesar
de sermos jovens, nos sentíamos como construtores dessa história,
como parte dela, uma parte pequenina, mas uma parte daquele governo,
e daí à militância havia um passo muito pequeno.
Eram anos de grandes compromissos, grandes utopias. Sentíamos
que éramos capazes de transformar a sociedade em que vivíamos,
uma sociedade completamente distinta daquela em que vivemos hoje,
mas eram sentimentos de comprometimento com uma transformação
que pretendíamos a partir de nós mesmos. Queríamos
ser melhores pessoas para construir uma sociedade melhor, essa era
a nossa grande utopia. Tudo isso se perdeu ou foi abaixo em setembro
de 1973, nossos sonhos, nossa estrutura familiar, nosso governo.
Em que trabalhava o seu pai?
Meu pai, mesmo antes do governo da Unidade Popular, foi
sempre um operário, um trabalhador da indústria siderúrgica.
Durante o governo da UP, além de ser um dos dirigentes da
CUT
(Central Única de Trabalhadores), era representante
do presidente Allende num conselho de trabalhadores ao sul do Chile.
E foi nessa condição que ele foi feito prisioneiro
pela ditadura.
Sua mãe tinha também uma militância
política?
Não. Minha mãe, além de ser uma grande
mãe, foi um grande apoio para os filhos e não só.
Eu diria que, como ela, muitas mães chilenas que não
foram militantes acabaram se convertendo em militantes anônimas
com a detenção e o desaparecimento de seus maridos
e filhos, e cujo trabalho talvez nunca seja devidamente reconhecido
pela história. Mulheres que foram capazes de se munir de
grande valentia para sair às ruas, para perguntar pelos que
desapareciam, enfrentar os militares, buscar seus entes queridos,
acompanhar, estar com eles. Entendo que foram mulheres que, apesar
de não oficialmente militantes, foram muito mais militantes
na sua vida diária.
Você disse que foi presa com o seu pai. Quando e em
que circunstâncias?
Fomos presos na mesma época, mas não juntos.
Quando eu fui presa, já sabia que o meu pai estava preso,
mas ele não sabia que eu estava sendo presa. Fui detida com
um grupo de jovens e fomos todos levados à base naval de
Talcahuano e ali passamos muitos dias incomunicáveis, sendo
interrogados e torturados, e todas essas coisas terríveis,
sobre as quais não gosto muito de falar. Isso se deu numa
escola de formação de grumetes da Marinha, na ilha
de Quiriquina. Quando cheguei à ilha, encontrei lá
o meu pai. Foi uma situação emocionalmente forte e
terrível... Viverem essa situação pai e filha,
sendo para o meu pai muitíssimo mais difícil.
(emociona-se)
Se não quiser falar disso, não faz mal. você
conheceu algum brasileiro no Chile nessa época?
Conheci brasileiros, prisioneiros como eu, na ilha de Quiriquina.
Lá estiveram brasileiros e brasileiras aprisionados. Gente
sonhadora como nós, que veio ao Chile também em busca
de uma vida melhor e que foi muito maltratada, muito torturada.
Existem casos de brasileiros desaparecidos no Chile?
Há o caso de um padre brasileiro que desapareceu
no Chile.
Somente um caso?
Creio que são dois os brasileiros que aqui desapareceram.
Um se chamava Luís Almeida e o outro já não
me lembro.
Como se comportou a sociedade chilena nesses primeiros tempos
de ditadura militar?
Desde o início houve uma grande divisão na
sociedade chilena: os que apoiavam a ditadura e os que não
a apoiavam. Entre os que se opuseram à ditadura houve também
uma divisão, as famílias que foram diretamente afetadas
e as não diretamente afetadas. Posso afirmar que, entre as
famílias diretamente afetadas pela repressão, metade
de seus membros se ligou a organizações que lutaram
e lutam pela preservação dos direitos humanos no Chile:
de presos políticos, desaparecidos, exilados. Organizações
que se criaram a partir da política repressiva. Foram os
familiares das vítimas daquela política repressiva
que deram os primeiros passos na luta contra a ditadura. Não
foram os partidos políticos, nem as organizações
sindicais, nem qualquer movimento popular, mas os familiares das
vítimas que em primeiro lugar enfrentaram os militares, a
ditadura. Especialmente as mulheres, acima de tudo as mulheres,
talvez por sua condição de criadoras de vida, geradoras
de seres humanos. Essas mulheres foram de uma valentia impressionante,
são as primeiras organizações de uma luta que
saiu para protestar nas ruas, que se organizou, se encadeou. E a
partir de um movimento pelos direitos humanos começa a se
organizar todo um movimento antiditatorial. A outra metade da população,
a que apoiava a ditadura, obviamente vivia o seu mundo cotidiano,
o mundo das empresas, das grandes corporações, o mundo
da área acadêmica. Era um outro mundo, obviamente,
e isso foi criando um mundo, uma sociedade fisicamente dividida,
que chamávamos aqui em Santiago dos que viviam da praça
Itália
(praça no centro da cidade) para lá
e da praça Itália para cá, e isso foi reforçado
durante os anos de governo militar, ou seja, um país muito
dividido do ponto de vista de classes sociais. Já o éramos
antes de 1973, mas isso se tornou mais dramático com os anos
da ditadura de Pinochet. Eu diria que foi nesse período,
dezessete anos de ditadura, que se conquistaram e concentraram as
maiores fortunas do empresariado chileno.
O golpe se deu para isso...
Com certeza, o golpe se deu para a imposição
de um modelo econômico, esse modelo brutal que seguimos adotando
em toda América Latina. Atingimos o auge de um crescimento,
de um movimento econômico que tiveram e têm como beneficiários,
finalmente, um número restrito de pessoas. Foi o momento
em que alguns se fizeram muito ricos à custa de uma concentração
de renda e da conseqüente criação de subempregos,
de empregos miseráveis, em que milhares trabalham de sol
a sol para ganhar um sustento que não lhes dá para
a sobrevivência sequer. A situação de pobreza
e de marginalidade que se passou a viver no Chile foi realmente
brutal. Em nosso país não se deu apenas a repressão
policial, mas também a fome, passou-se muita fome durante
a ditadura. Isso se deu pela imposição do tal modelo
neoliberal, nada de leis trabalhistas, de direitos já adquiridos,
nada de estabilidade no emprego. Vieram as tais leis de mercado,
e o mercado necessita de pobres, de miseráveis para se manter.
A sociedade chilena mudou muito durante a ditadura, nos impuseram
um modo de estar, de enfrentar a realidade, de “fazer”
a realidade, um modo em que não acreditávamos, que
não correspondia ao que éramos como chilenos.
O golpe não foi conseqüência de uma situação,
mas causa e início de um novo modelo que se impõe
ao país?
O Chile foi o país onde se experimentou a imposição
do modelo neoliberal na América do Sul. Aqueles que desenharam
o golpe de Estado e o que viria em seguida encontraram uma conjuntura
muito apropriada, muito
ad hoc para fazê-lo, eliminando
um governo popular e planificando a partir dos Estados Unidos a
desestabilização do governo de Allende, injetando
muito dinheiro em grupos econômicos, nos meios de comunicação
de direita, especialmente no jornal
Mercúrio. O
modelo passa a dominar os meios de comunicação e vai
criando um ambiente propício para essas mudanças,
incluindo aí o uso da violência, o desabastecimento.
E já não havia possibilidade de controlar tudo isso,
o poder político continuava na mão do poder econômico,
dos grandes empresários. Não é por acaso que
o golpe se dá no momento em que se nacionaliza o cobre e
se pensava em nacionalizar os bancos no Chile. Nesse momento, os
Estados Unidos desenham para este país um golpe de Estado
definitivo, mas também se desenha aí uma transformação
radical do país.
Quando se organiza no Chile o agrupamento de presos e desaparecidos
políticos?
Eu diria que praticamente a partir de setembro de 1973,
quando os familiares de presos começam a viver a tragédia
de perceber que muitos deles não voltavam ou não se
sabia para onde tinham ido.
E esses familiares não eram também perseguidos?
Alguns sim, outros não, a situação
variava de caso para caso. As igrejas criaram o Comitê para
a Paz no Chile. Esses familiares, cada um por si, começaram
as buscas, a tentar localizar os seus entes queridos, e isso levou
à organização do Comitê para a Paz. Muitos
foram se conhecendo e criando laços de amizade e solidariedade
entre si, e começaram a perceber que estava se passando algo
terrível, pois não se encontravam muitos dos desaparecidos.
Perceberam também que tinham mais força e era menos
doloroso procurar juntos do que sós. Assim se vai tecendo
a formação dessa organização, mas logo
em seguida a ditadura fecha o Comitê para a Paz. Nessa ocasião
é criada pelo cardeal Raúl Silva Henríquez
o Vicariato da Solidariedade, que, na prática, substitui
a Comissão, aqui mesmo na praça das Armas, em Santiago.
É preciso entender que até a ditadura de Pinochet
não se tinham notícias de desaparecidos políticos
no Chile. Antes disso houve detenções, prisões,
cárceres, repressão, mas desaparecidos políticos
não sabíamos o que era. Custou-nos entender que muitos
familiares não iam regressar mais às suas casas. Quando
se cria o Vicariato da Solidariedade, muitos familiares que foram
se conhecendo lá e organizando as buscas acabam por se transformar
em uma organização, mesmo considerando que, na prática,
as buscas se iniciam já em setembro de 1973, como um drama
comum a muitas famílias chilenas.
Como se conseguiu manter essa organização?
A Igreja cedeu-nos um espaço físico para
trabalharmos, porque criou um departamento social de saúde,
uma equipe para nos ajudar. Naquela altura, somente a Igreja, ou
parte dela pelo menos, podia nos ajudar nesse sentido, pois éramos
uma organização com uma atividade “subversiva”,
antiditatorial. Além disso, a Igreja desenvolvia um trabalho
junto às populações mais pobres em suas zonas
eclesiásticas e que coincidiam com as divisões das
zonas geográficas do próprio país, as zonas
norte, central, sul. Foi possível às famílias
se juntarem nesses primeiros agrupamentos organizados, com vida
própria, com um mínimo de organização
política, social e de saúde.
Essa posição da igreja se dá em outros
países da Amércia do Sul...
Creio que menos na Argentina, onde a Igreja se manteve
calada durante a “guerra suja”, não fez absolutamente
nada, pelo contrário. Mas aqui no Chile também a Igreja
se calou diante da repressão, da tortura. A criação
do Vicariato da Solidariedade não representava uma política
institucional da Igreja.
As primeiras eleições livres no Chile ocorrem
em 1990. como se dá essa transição?
Aqui entramos num terreno mais complexo e numa matéria
que tem suscitado distintas interpretações, como é
natural. No Chile se deu o seguinte fenômeno: houve um momento
em que a sociedade chilena se rebelou contra a ditadura, é
o momento das manifestações de protestos mais expressivas,
é o perder do medo, ir para as ruas. Protestávamos
de qualquer maneira, enfrentando o terror policial, a morte, a prisão.
Não era nada fácil ir para as ruas protestar. Esse
movimento autônomo foi ganhando força gradativamente,
foi se intensificando, e não havia partidos políticos
populares, pois eles tinham sido aniquilados.
Mas havia uma organização mínima?
Claro, havia uma organização mínima,
mas o movimento era grande e autenticamente popular. Onde iria parar
esse movimento popular? Em um plebiscito? Supondo-se aí uma
derrota de Pinochet? A mudanças mais radicais do que aquelas
que acabamos por obter? Para isso, seria preciso criar uma nova
constituição e não ficar com a mesma constituição
ditatorial que continuou depois da ditadura, era preciso destituir
Pinochet do comando das Forças Armadas. E aqui acontece uma
interferência que nos impede uma transição mais
radical para a democracia, uma nova mudança: a intervenção
dos partidos políticos oficiais existentes e seus dirigentes
de sempre. Parece-me que os dirigentes políticos chilenos
não se renovam, muitos que apoiaram o golpe de 1973 até
acabaram por intervir nessa nova etapa. Temos então, por
um lado, o movimento popular e. por outro, a intervenção
desses políticos e partidos tradicionais. E é nesse
quadro que se dão os primeiros passos entre a ditadura e
o novo período democrático. É nesse desenho
do quadro político chileno que se pactua para o término
da ditadura e um plebiscito que nos leve a um patamar democrático
e a eleições representativas. E é claro que,
nesse pacto, apesar de forte, o movimento social, autenticamente
popular, fica marginalizado.
De que maneira?
Aqui se produz outro fenômeno muito complexo para
o Chile, ou seja, muitos dirigentes políticos regressam do
exílio e assumem o comando de uma nova etapa de luta, e os
que aqui permaneceram lutando durante dezessete anos contra a ditadura
vão sendo marginalizados. É assim que se faz o novo
pacto político e social e há vários fatores
que explicam por que continuamos a ter a constituição
que temos, com a aceitação de que a nova ordem institucional
deveria seguir tutelada pelo poder militar, a imposição
de um modelo econômico, de uma lei eleitoral discriminatória,
a aceitação do pacto de que Pinochet nunca iria a
julgamento pelos crimes da ditadura, nem ele e nem a sua família,
e quando isso foi ligeiramente confrontado, como em possíveis
casos de corrupção, o Exército chileno ameaçou
se sublevar-se. Bom, o que se pactuou é que obviamente esse
país não deverá fazer mais uma tentativa de
transformação econômico-social que signifique
a possibilidade da esquerda, de que os marxistas, os comunistas
cheguem ao poder e que o novo jogo eleitoral busque o equilíbrio
entre a direita, os militares, e os partidos da Concertação
Social e também a Igreja. Mas nunca se soube muito bem essa
parte da história, concretamente o que o novo pacto estabeleceu
foi a aceitação de um regime democrático, em
que seus dirigentes seriam eleitos por uma votação
popular, não mais que isso. A democracia chilena é
uma democracia adolescente e ainda não chegou à sua
fase adulta. E, como adolescentes, continuamos a nos submeter a
nossos pais...
Como o país adquire a consciência desse pacto adolescente
e começa a exigir novas alterações como as
que se dão no final de 2004?
É um processo lento, paulatino, longo, pois a transição
não se dá em termos de uma derrota absoluta da ditadura,
e sim de um acordo, um modo mais elegante, pois uma vez mais o governo
e a Concertação Social se ocuparam em desativar quase
todas as formas de organização social, em eliminar
os meios de comunicação social alternativos e que
funcionaram ainda durante a ditadura. Foram todos desativados. Por
quê? Porque sem organização social, sem meios
de comunicação alternativos é obviamente mais
fácil manter o modelo, não? É disso que se
trata: manter o modelo neoliberal e mantê-lo sem protestos
populares, sem reações contrárias. Mas, como
tudo na vida, há um limite, e esse limite aparece quando
toda gente se põe a protestar, a se acautelar, quando lutamos
tanto para chegar a uma democracia, ainda que imperfeita, ainda
que não seja um passo qualitativo à frente em relação
aos dezessete anos de ditadura. Mesmo que agora não haja
desaparecimentos, assassinatos e se respeitem mais os direitos humanos
no Chile, ainda que tenhamos a tortura presente entre nós,
e embora não se viva hoje com o medo que vivíamos...
Mas vale a pena lembrar que existem outras formas de repressão,
como, por exemplo, a repressão econômica que é
brutal, que segue brutal com sua grande concentração
de riqueza para poucos e a distribuição da miséria
para muitos: 80 por cento da riqueza chilena está nas mãos
de 20 por cento da população.
A justiça continua sendo uma justiça de classe?
O Chile continua sendo um país extremamente polarizado
em termos de luta de classes. É um país política
e culturalmente polarizado, e isso tem a ver com toda a história
do Chile, não é algo que surgiu agora, não
é coisa recente. Essa polarização tem a ver
com a nossa formação, com a maneira como fomos criados
como povo. Isso tem a ver com a conquista espanhola, nos tornamos
um país racista, racista inclusive com os próprios
chilenos, com nossos ancestrais de etnia indígena, característica
que não se coaduna com uma sociedade democrática,
pluralista. Curiosamente, durante algum tempo, já nos anos
90, não se mudou nada neste país, ninguém exigiu
nada, não se protestou contra nada, a não ser nós
pelos direitos humanos Os direitos humanos foram o grande motor
de uma ação, de um movimento de consciência
política e social. De repente, os estudantes começaram
a sair às ruas, a se mobilizar, e depois os trabalhadores,
os sindicatos. Todavia, não há nestes últimos
anos um movimento político realmente significativo, que apresente
uma alternativa de governabilidade distinta. Porque não se
trata de protestar por protestar, mas é preciso saber o que
proponho quando protesto, se a minha proposta tem ou não
tem alguma viabilidade de se tornar uma alternativa a esse modelo
que aí está, para essa sociedade tão assentada
no neoliberalismo, com tudo o que isso pode significar, pois é
difícil enfrentar o modelo. Tudo que nasce como alternativa
ao modelo neoliberal rapidamente se desvanece, morre, se entorpece,
pois não há um processo crescente de organização
popular. Mas existem também alguns fatos que mostram que
nem tudo está morto, mas sim paralisado. É preciso
novo impulso para que voltem a se mover algumas peças e destravar
essa paralisação.
Qual a importância para o Chile da atitude que o juiz
espanhol Baltazar Garzón tomou em relação ao
general Pinochet?
A detenção de Pinochet teve, como sempre,
duas leituras neste país. Aliás, tudo o que se passa
aqui tem sempre duas leituras. Para muitos de nós, causou
uma grande excitação a prisão de Pinochet.
Para muitos, não importava que essa detenção
fosse feita fora das fronteiras do Chile, mas que a Justiça
pudesse operar onde fosse mais justa, fosse ela feita em qualquer
lugar. Para o governo, foi um grande problema, teve de intervir
e, se não o fizesse, talvez Pinochet estivesse sendo julgado
na Espanha, o que seria uma situação problemática,
delicada. Para a direita chilena, foi um acontecimento altamente
nocivo, agressivo, de intervenção, em que não
se respeitaram a soberania do Chile, o princípio de territorialidade,
o princípio jurisdicional, uma quantidade de coisas que disseram
nestes últimos anos. Entre a detenção de Pinochet
em 1998 e 2000, quando ele regressou ao Chile, foi tanto o que se
disse e se escreveu sobre esse tema, tantas as divergências
e as convergências sobre o assunto, que isso, no meu entender,
fez o país voltar à realidade. Até esse momento
parecia tudo tranqüilo, com divergências pontuais aqui
e ali, os prós e os contras a Pinochet, mas foi a partir
da detenção de Pinochet que o país acordou
de fato. Tudo tem o seu preço, é claro, mas eu diria
que o grande mérito na detenção de Pinochet
foi o fato de que nos redescobrimos como país, e terminar
com essa farsa de que “todos somos irmãos”. Enquanto
existirem os defensores da ditadura e os críticos da ditadura
não vamos construir nunca um país de irmãos.
Foi bom o que aconteceu com Pinochet, pois íamos construindo
uma imagem de nós mesmos que não correspondia à
realidade. A detenção de Pinochet mostrou que estamos
bastante divididos e que não é possível uma
reconciliação. Haverá sempre os que irão
querer punir Pinochet e os que irão defendê-lo. De
uma maneira mais subjetiva, posso dizer que deixamos de conviver
com a figura do medo, com a figura do terror, da imobilidade. Somos
um país dividido e a partir daí nos colocamos reflexões,
passamos a nos olhar por dentro, e para muitos a grande reflexão
sobre direitos humanos de hoje começou nesse momento, quando
outro país, a Espanha, confrontou o ditador e possibilitou
a todos nós discutir o tema dos direitos humanos.
Abriram-se portas...
Sim, documentários na televisão, artigos
nos jornais, a discussão da nossa própria história
com mais pormenores, o conhecimento de nomes de políticos
que foram também parte da ditadura... O país começou
a mudar e a se mostrar como realmente é.
Há um primeiro relatório...
O Relatório da Comissão Nacional de Verdade
e Reconciliação, o Relatório Retting, que é
de 1991, um relatório que se fez para investigar os crimes
da ditadura, um relatório sobre direitos humanos que implicassem
morte, um informe que teve a sua importância histórica.
Foi a primeira relação oficial de violação
mais grave dos direitos humanos no país, e agora surge o
Informe Valech.
Por que aparece agora o Informe Valech?
Porque quando a Comissão, o Relatório Retting,
deixa de fora aqueles que foram vítimas de prisão
e de torturas, mas que sobreviveram, nesse exato momento se começou
a organizar distintos grupos de ex-presos políticos. Eu mesma
fiz parte de uma dessas organizações, a Comissão
de Ética contra a Tortura. Tivemos muitas conversas com o
presidente da República, Ricardo Lagos, com os ministros,
e conseguimos que fosse criada uma nova comissão, essa que
se denomina Comissão Valech, criada em 2003. Foi um trabalho
extenso, árduo, com uma grande equipe de trabalho. Muita
gente trabalhou nessa comissão, pelo menos umas quarenta
pessoas, além do conselho que decidia as suas atribuições.
E o Informe Valech acaba por ter um enorme impacto sobre a sociedade
chilena, bem maior do que o provocado pelo Relatório Retting
em 1991.
Por que o Relatório Retting, que falava de desaparecidos
e assassinados, não teve a mesma repercussão treze
anos atrás?
Por uma razão muito simples: os mortos e desaparecidos não
falam, não têm rostos. Ao contrário, nós,
os torturados, temos nomes, rostos, endereços. É uma
questão bem distinta, a comoção provocada pelo
Informe Valech foi inesperada, hoje se fala sobre tortura em qualquer
lugar do país. Um primeiro ponto de comoção
geral no país foi o fato de o Informe trazer o depoimento
de 35.000 chilenos sobreviventes das torturas que procuravam a Comissão
para relatar o que sofreram. O segundo ponto de comoção
do informe é a divulgação de todos os centros
de detenção e tortura em todo o Chile durante a ditadura.
São aproximadamente 1.200 ou mais, o que é uma barbaridade,
uma loucura, num país com as nossas dimensões, e com
provas, tudo comprovado, pois a comissão fez um trabalho
muito cuidadoso. Comprovaram isso com os próprios militares,
comprovaram tudo o que ali vai escrito. E, por último, o
relato das torturas que se praticaram, com pormenores e o nome dos
torturados.
E o nome dos torturadores?
Esses ainda não foram publicados, como também
não o foram quando do Relatório Retting. O jornal
El Siglo, do Partido Comunista, publicou o nome de dezenas
de torturadores, com suas fotos, mas os dois informes não.
Isso ainda significa ou demonstra, apesar de todo o avanço
nessa questão, o grau de temor em apontar quem são
os violadores dos direitos humanos.
Há interesse em punir essa gente ou é apenas
um jogo de cena?
Veja, existem duas situações. Penso que no
caso dos familiares dos desaparecidos políticos tem havido
mais consciência de que é preciso fazer justiça,
ou que pelo menos se fale a verdade. Porque, cultural e socialmente,
é uma infâmia que não tenhamos encontrado os
restos de nossos desaparecidos, que não possamos dar-lhes
uma sepultura digna. Porém, no caso dos torturados, dos que
sobreviveram, qual foi a aposta do governo? Foi levantar um véu,
baixar a pressão e propor uma reparação aos
sobreviventes, através de uma lei enviada rapidamente ao
Congresso, baseada em testemunhos, sem mostrar a cara da intervenção
policial, e tudo feito rapidamente para que se encerre o assunto.
Mas está ocorrendo o contrário, porque os cidadãos
torturados estão apresentando suas queixas aos tribunais,
e a Corte Suprema já indicou um de seus ministros para receber
essas queixas. Isso tem de ser uma grande lição para
o governo, pois não basta querer ou fazer um desenho de como
vão resultar as coisas. O governo ainda pensa que pode manejar
todos nós, conduzir-nos pelo caminho de seus interesses políticos,
isso é uma coisa. A outra é que tudo poderá
ocorrer de maneira diferente, estamos apresentando nossas queixas
e a Justiça terá de dar uma resposta a isso. A justiça
terá de dizer se está em condições de
julgar o que se passou com cada um de nós e quem foram os
nossos torturadores. Penso que o governo tinha a intenção
de resolver isso apenas com as reparações financeiras,
ainda por cima uma reparação financeira vergonhosa.
Mas essa é uma discussão interessante e que será
travada pela sociedade, envolvendo o governo e várias entidades
civis. Tudo isso é sempre muito interessante, pois está
havendo uma avaliação importante de toda a questão.
Para nós, não chilenos, sobra a impressão
de que o Chile, oficialmente o governo chileno, através de
suas instituições, como as próprias forças
armadas, dá um passo pioneiro na reparação
das injustiças cometidas contra milhares de cidadãos
do cone sul, em particular os desaparecidos. vocês têm
consciência disso?
Absoluta. Qual é a nossa avaliação?.
O Informe Valech em si mesmo constitui um ato de reparação,
a prova efetiva do momento em que o Estado reconhece que neste país
houve, pelo menos, 35.000 pessoas torturadas e que os responsáveis
pelas torturas são as instituições armadas.
É um reconhecimento que tem um valor enorme e, embora esteja
na Internet, ainda temos a esperança de que o Informe seja
impresso e editado e colocado à disposição
de escolas públicas, universidades, bibliotecas. Por outro
lado, esperamos, com toda a discussão provocada pelo Informe,
que o Chile finalmente ratifique os tratados internacionais que
assinou em relação à tortura e aos direitos
humanos, e que também se construa um memorial para que não
se apague o que aqui ocorreu.
O que pensa do momento atual na América Latina?
É um momento especial e promissor. Assim como tivemos
nas décadas de 60 e 70 a proliferação de governos
ditatoriais na América Latina, creio que temos agora, no
início de um novo século, alguns governos que nos
trazem alguma esperança, eleitos democraticamente e que já
são, alguns deles, capazes de afrontar o Fundo Monetário
Internacional ao reconhecerem que não há dinheiro
para o pagamento de suas dívidas externas, pois antes é
preciso alimentar as suas populações. Apesar de tudo,
existe alguma esperança.
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O
INFORME VALECH
“Para nunca mais se viver, para nunca mais se negar.”
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O Informe da Comissão sobre Prisão Política
e Tortura é o resultado do trabalho efetuado por uma comissão
especialmente designada para esse fim pelo atual presidente do Chile,
Ricardo Lagos, e que foi encabeçada pelo bispo de Santiago,
monsenhor Sergio Valech. Trata-se de um documento oficial com mais
de mil páginas, no qual, entre considerações
sobre o período de violência vivido pelo país
andino durante a ditadura de Augusto Pinochet, há o doloroso
relato e testemunho de 35.868 cidadãos torturados entre os
anos de 1973 e 1990. Desse total, 1.080 eram menores de idade e
3.399 mulheres que disseram ter sido objeto de violência sexual
(229 foram presas grávidas). Oficialmente, o Informe aponta
1.132 locais onde se torturavam cidadãos chilenos naqueles
anos.
A Comissão foi estabelecida por Lagos em 12 de agosto de
2003 e, em encontro solene quase um ano depois, pelas mãos
do bispo Valech, entregou o resultado de seus trabalhos no domingo,
28 de novembro de 2004. Logo após receber o informe, o presidente
Lagos declarou: “Como explicar tanto horror?” Para em
seguida acrescentar “que ali se começava a desvendar
o véu da tortura, da humilhação, da violentação
física e psicológica daquilo que preferimos esconder,
ocultar, arrancar dos arquivos da nossa história”.
Entre as formas de tortura que o Informe identificou se descrevem
o choque elétrico, os golpes com cacetetes, afogamentos,
lesões corporais deliberadas, roleta-russa, asfixia, simulação
de fuzilamento, exposição a temperaturas extremas,
privação e interrupção do sono, desnudamentos,
presenciar torturas e fuzilamentos de outros presos e violência
sexual contra mulheres e homens, muitos deles menores de idade.
Sobre isso declarou o presidente da República: “A prisão
política e as torturas constituíram uma prática
institucional de Estado que é absolutamente inaceitável
e alheia à tradição histórica do Chile”.
A leitura completa do Informe Valech poderá ser feita no
site do governo chileno:
www.servicios.gov.cl/comision/
(IA)
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