O pisciano Quincy Jones nasceu em Chicago em 1933, cidade onde viveu até os 10 anos mudando-se com os sete irmãos, o pai e a madrasta para Brementon, nos subúrbios de Seattle. Ali nasceu sua paixão pela música, sendo o trompete seu primeiro instrumento. Ficou amigo de outro músico-cantor-pianista local: Ray Charles, com quem formou uma pequena banda que se apresentava nos bares e clubes da região. Aos 18 anos seu precoce talento fez com que ganhasse uma bolsa de estudos na renomada escola de musica Berklee, em Boston. A vida acadêmica durou poucos anos, ele preferiu abandoná-la e cair na estrada a convite de Lionel Hampton, líder de uma banda que lhe ofereceu a oportunidade de trabalhar como arranjador musical. Estabeleceu-se em Nova York, foi a Paris, onde estudou musica com Nadia Boulanger e Olivier Messiaen, compôs, arranjou e produziu músicas para grandes como Frank Sinatra, Sarah Vaughan, Tommy Dorsey, Count Basie, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e Michael Jackson. Compôs a trilha sonora de mais de 73 filmes, incluindo Kill Bill Vol. 1 e 2, de Quentin Tarantino e A Cor Púrpura, de Steven Spielberg, produziu 31 filmes. Conquistou seu espaço como grande músico compositor, arranjador e chefe de orquestra no cenário internacional, foi indicado para o Grammy 76 vezes, ganhando 26 delas. Sua vida foi transformada em um filme aclamado pela crítica em 1990: Escutem: As vidas de Quincy Jones. Publicou sua autobiografia em 2001, é pai de 7 filhos, a filha mais velha tem 54 anos e a mais nova 13. Tem um coração maior que seu talento. Acaba de voltar de uma viagem por Dubai, Cairo, Ruanda e África do Sul, onde encontrou-se com Mandela para dar prosseguimento a seus trabalhos sociais.
Em março deste ano ele passou 15 dias no Brasil, esteve em São Paulo a convite de Bono Vox, líder do grupo irlandês U2 que fez duas apresentações no estádio do Morumbi, foi a Salvador e ao Rio de Janeiro, onde assistiu aos desfiles das escolas de Samba no domingo no Camarote da Brahma e na segunda no camarote da Nova Schin, ficou tão impressionado com o que viu que planeja fazer um filme usando a tecnologia de grande formato IMAX –redomas onde os filmes são projetados numa tela de 180 graus, pois acredita ser a única maneira de mostrar a grandeza do carnaval carioca ao mundo.
Quincy Jones foi entrevistado em São Paulo por Alessandra Silvestri – Levy em abril último.
O que você acha da música latino-americana, especialmente a cubana e a brasileira?
Eu amo todos os tipos de música, mas essas duas em especial são minhas favoritas, por terem a matriz africana, esses dois países conseguiram desenvolver ritmos excepcionais, amo Jorge Ben, Simone, Djavan, Ivan Lins, Toquinho, Maria Rita, Milton Nascimento, Gilberto Gil, conheci nos anos cinqüenta no Rio de Janeiro Tom Jobim e João Gilberto e lembro que fiquei fascinado com a Bossa Nova, o disco com a participação de Dizzy Gillespie até hoje conheço de cor. Estive em Cuba na época do Batista e venho planejando há muitos anos uma volta que em breve devo fazer a esse país tão rico em musicalidade. Considero as musicas cubana e brasileira universalistas e cheias de alma.
Você viaja pelo mundo há 52 anos, visitando diferentes culturas. Como encara o mundo subdesenvolvido?
Acredito que a única maneira de começar a produzir mudanças é educando cada criança no planeta, porque elas são as vítimas das más administrações. Acabo de voltar de uma viagem pela África e na África do Sul o trabalho feito por Nelson Mandela tem sido exemplar. Unindo forças somos capazes de fazer muitas coisas para melhor a condição de vida de milhões.
Você concorda com a afirmação: "Onde existe música não existe guerra?
Totalmente, pois a música é essencial e desfaz o ódio.
Qual foi até hoje sua melhor experiência musical?
Oh, meu Deus! Foram muitas, Frank Sinatra, Ray Charles, Count Basie o qual considero um pai, Ray Charles, Dizzy Gillespie, Michael Jackson, minhas experiências foram muito diferentes, mas fui e sou muito grato, considero ter tido muita sorte em ter trabalhado com vários músicos fenomenais e em vários lugares do mundo nos últimos 52 anos.
Quais são seus próximos projetos?
Estou preparando um espetáculo sobre música para o Cirque du Soleil, o titulo por enquanto é African Blam, uma saga contando a história de todos os ritmos e danças: da gênese do jazz a todo o percurso sonoro até o rap. É o projeto da minha vida, mostrando como a matriz africana deu a base a todos, e um filme sobre o carnaval do Rio de Janeiro, pois nunca vi nada igual. Em 2007 pretendo visitar o Brasil durante o carnaval com toda minha família, meus sete filhos. O filme sobre o carnaval terá parte de sua receita revertida para projetos sociais que estou estudando realizar colaborar no Brasil.
Como você vive sua vida?
Tudo o que faço é baseado na arte da orquestração, e arranjos, até quando cozinho pratico orquestração. Compor, orquestrar e fazer arranjos tem sido minha vida, e procuro fazê-lo baseando-me em amor e compreensão pelos outros e pelo que faço.
Questionário de Proust a Quincy Jones
Qual seu maior medo?
Ficar gordo.
Com qual figura histórica você mais se identifica?
Picasso e Nelson Mandela.
Qual a pessoa viva que você mais admira?
Nelson Mandela
O que mais você detesta nos outros?
Desonestidade e falta de amor, falta de compaixão.
Qual sua maior extravagância?
Comer bolachas cracker com geléia de abricot, creme de amendoim e bananas em pedaços sobre o sorvete de café da Hagen Daz.
Qual a melhor virtude?
Celibato.
Em que ocasião você mente?
Eu não gosto de mentir, mas se eu tiver que fazer será para não machucar alguém.
Qual seu maior arrependimento?
Não gastando mais tempo para aprender a ser um bom pai para meus filhos enquanto era jovem, estou finalmente aprendendo.
O que ou quem é o maior amor de sua vida?
Meus filhos, meus netos, mulheres de verdade e inspiração divina!
Quando e onde você é mais feliz?
Num bom almoço reunido com meus filhos, minha namorada e meus amigos.
Qual talento você gostaria de ter?
Ser um bom pai.
Qual é seu estado de espírito?
Eu me sinto em casa em qualquer lugar do mundo, estou finalmente confortável comigo mesmo, me sinto como um jovem de 17 anos pronto para novas aventuras.
Se você pudesse mudar alguma coisa em sua família o que seria?
Poderter tido minha mãe por perto.
Qual seu bem mais precioso?
Difícil de dizer, fotos da família, presentes de Ray Charles, um trompete que ganhei de Dizzy Gillespie e fitas e cartas de Marlon Brando.
O que você considera como a maior miséria?
Falta de paixão.
Ode você gostaria de viver?
Em minha casa na Califórnia, podendo viajar pelo mundo.
Qual sua ocupação favorita?
Exatamente o que estou fazendo agora.
Quais são suas características mais marcantes?
Viver e amar cada momento da vida, ser real e honesto, ser interessado por todas as coisas.
Qual é seu autor favorito?
Alexander Pushkin.
Qual seu herói favorito na ficção?
Milton, de Paraíso Perdido.
Quais seus heróis favoritos na vida real?
Duke Ellington, Picasso, Stravinsky, Sidney Poitier, Nelson Mandela.
Qual sua frase favorita?
Esvazie a xícara a cada vez e ela sempre voltará duplamente cheia.
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